regresso à bibliografia

 Manuel Abranches de Soveral

 

 

 

Ensaio sobre a origem dos Correa, senhores de Fralães

Séculos XIV e XV

Escudo de armas dos Correa (infografia de Manuel Abranches de Soveral)

Escudo de armas dos Correa (infografia do autor)

Os Correa [1] dos séculos XIV e XV, a começar nos de Fralães, estão nos nobiliários tardios de tal forma desfasados da realidade que se documenta e respectiva cronologia, que estas fontes secundárias de pouco ou nada servem para a reconstituição da sua Genealogia. O que parece ter sido feito pelas genealogias tardias foi o entroncamento aleatório no conde D. Pedro, não só de forma infundamentada mas até à revelia da documentação conhecida.

Em contrapartida, temos a Genealogia dos Correa relativamente bens reconstituída das origens até ao séc. XIV. Ao inestimável contributo do conde D. Pedro juntou-se agora a obra de José Augusto de Sotto Mayor Pizarro [2], que nos dá, com a segurança possível, o desenvolvimento da família desde D. Paio Ramires até meados do séc. XIV.

Sobre a origem de D. Paio Ramires não se sabe nada de seguro, nem mesmo se já teve a honra de Matriz sigilar em bronze de Vasco (Gomes) CorreaFralães. Esta honra, contudo, parece ser muito antiga. Como já o conde D. Pedro refere, existia nos seus paços uma pedra onde diz que se podia ler "Elio Saia era 1004". [6] Mas o certo é que Pizarro não faz qualquer referência a Fralães, referindo apenas que vários dos Correa tinham bens no julgado de Faria, assim como nos julgados Vermoim, Panóias e Aguiar de Pena. Esta última implantação transmontana, como Pizarro salienta, deve-se à dupla ligação dos Correa aos Guedão/Aguiar, ligação tão importante que, duas gerações depois da última motiva ainda que Vasco Gomes Correa use as suas armas rodeadas pelas águias dos Guedão/Aguiar [3], conforme a imagem junto (matriz sigilar em bronze de Vasco (Gomes) Correa) .

Mas não há dúvida de que os Correa possuíam desde os seus primórdios a honra de Fralães, no julgado de Faria, pois nas inquirições de D. Afonso III documenta-se que D. Paio Soares Correa tinha de seus antepassados a dita honra e o padroado das igrejas de S. Pedro do Monte [4] e S. Maria de Viatodos [5], e que nestas freguesias (então do julgado de Faria, hoje do concelho de Barcelos) o rei só tinha parte do reguengo do Monte de Saia e o reguengo na veiga do Olho Marinho. Nas inquirições de D. Dinis (1288-91) já aparece a freguesia de Stª Maria de "Farlães", no julgado de Faria, dizendo-se que "o paaço que foy de dom Paay Correa o Velho he provoado que o virom honrrado des que se acordam as testemunhas e d'ouvida de longo tenpo". Sobre a freguesia de Viatodos ("Sancta Maria de Veatodos") dizem essas inquirições que "a vila d'Ulvar he provado que he toda honrra e d'ouvida que foy de do Meem Correa e ora de seu linhajem". Nas inquirições de D. Dinis são ainda referidas, junto a Fralães e Viatodos, a honra que Paio Correa tinha na freguesia de "Sam Fiiz de Gondoffelo" (S. Félix de Gondifelos), a quintã da Pousada, honra antiga, que Gonçalo Correa tinha na freguesia da Carreira, a casa de Lousadela, na freguesia de Balazar, que foi de Soeiro Correa (depois Lousadelo, o lugar de Balasar que deu o primitivo nome à freguesia: Stª Eulália de Lousadelo), e o lugar de Vicente, na freguesia de Stª Marinha de Vicente, que era honra velha dos "Correiãos", bem assim como "Sam Salvador de Grissoffy" (S. Salvador de Gresufes, mais tarde anexada a Stª Eulália de Balasar), "que os Correiãos trajem toda a freeguisia por honrra des que se acordam as testemunhas".

Mas se com D. Afonso III só se fala na freguesia de S. Pedro do Monte e com D. Dinis já se fala também na freguesia de Stª Mª de Fralães, em meados do século XIV volta a referir-se apenas a freguesia de S. Pedro do Monte, quando estes Correa juntaram à posse dessas honras o senhorio de juro e herdade das freguesias de Viatodos (Beatodos) e de S. Pedro do Monte, bem como os casais de Vila Meã, com suas jurisdições. A honra de Fralães, claramente o núcleo fundiário original da família e o mais simbólico, ficava então na freguesia de S. Pedro do Monte, que a breve trecho se passa a chamar S. Pedro do Monte de Fralães e hoje apenas Monte de Fralães. E o nome de Fralães acabou por se estender a todo aquele senhorio, vindo mais tarde a ser criado o concelho de Fralães, extinto em 1836, que justamente incluía as freguesias de S. Pedro do Monte, Viatodos e parte da antiga freguesia de S. Salvador de Silveiros.

As genealogias posteriores, como já referimos, tentaram entroncar os Correa do século XIV no ponto em que o conde D. Pedro os deixara, mas fizeram-no da forma mais desastrosa. Assim, Alão (e com ele Gaio) confunde Afonso Vasques Correa com Afonso Pais Correa, fazendo este último pai de Fernando Afonso Correa. Ora, com refere o conde D. Pedro, Afonso Paes Correa morreu na lide de Fornos de Algodres. Este Afonso Paes, já cavaleiro em 1287, diz Pizarro que não deve ter tido descendência, tendo em conta que não são referidos filhos dele nem quando Margarida Pires Ribeiro deixa por sua alma um cálice de prata a S. Silvestre da Silva, no seu testamento de Fevereiro de 1317, nem quando Martim Pires de Alvim, marido daquela Margarida e testamenteiro de Afonso Correa, no seu testamento de 1327 deixa legados pios por alma deste Afonso. Mais significativo, ainda, é que João Pires de Alvim, filho daqueles Martim e Margarida, em 1355 manda vender os bens que Afonso Paes Correa tinha na Covilhã, como ele mandara no seu testamento e ainda não tinha sido feito. Nada disto, com efeito, se coaduna minimamente com a ideia de que este Afonso Paes tivesse tido filhos, ou pelo menos filhos que lhe sobreviveram e/ou deixaram descendência. Por outro lado, o Fernando Afonso Correa documentado em Grijó (1365), com sua mulher e uma filha, não pode ser o homónimo que em 1385 sucedeu nos senhorios a seu pai Afonso Correa. Alão não só confunde estes dois Fernandos, como anacronicamente dá este último como filho de Afonso Paes Correa.

Na verdade, existiram na passagem do séc. XIII para o XIV pelo menos dois Afonsos Correa: o referido Afonso Paes Correa, morto na lide de Fornos de Algodres, e seu primo, de uma geração abaixo, Afonso Vasques Correa, filho do já referido Vasco Gomes Correa, o da matriz sigilar. Pizarro dá a este último, Afonso Vasques Correa, vários filhos. Mas há um grande desfasamento cronológico em relação a pelo menos um deles. Com efeito, Frei Pedro Afonso Correa, que já era comendador de Alvalade na Ordem de Santiago em 1319, devia ser de facto filho de Afonso Paes Correa e não de Afonso Vasques Correa, e ter falecido pelo menos antes de 1355, de qualquer forma sem geração. Portanto, Afonso Vasques Correa, vassalo do rei em 1328 e meirinho-mor de Além-Douro em 1331, não terá nascido antes de 1280, sendo portanto bem mais novo do que Afonso Paes Correa, se bem que seu contemporâneo, como aliás resulta do facto de este ser neto de Pedro Paes Correa, e aquele ser seu bisneto.

Acresce que entre os filhos de Vasco Afonso Correa apenas dois se contam como naturais de Mancelos, em 1339, ao contrário dos outros filhos. Este facto só se pode explicar se Afonso Vasques Correa tivesse casado duas vezes, vindo aos filhos o direito ao padroado de Mancelos pela mãe. Ora, sabemos que Afonso Vasques Correa casou com Tereza Martins, da linhagem dos Portocarreiro, justamente padroeiros de Mancelos. Pelo que esta seria a mãe dos dois filhos que se documentam na lista de Mancelos, enquanto os outros filhos de Afonso Vasques Correa seriam de uma mulher anterior, cujo nome se desconhece.

Assim, ou porque se extinguiu, como parece, a descendência varonil dos irmãos João Pires, Martim Pires e Paio Pires Correa [7], ou por qualquer outra razão, o bem mais emblemático da família, ou seja, a honra de Fralães (S. Pedro do Monte e Viatodos), acabou na posse de Afonso Vasques Correa, o neto sucessor de Gomes Pires Correa, irmão daqueles. E deste Afonso Vasques Correa foi filho sucessor o Vasco (Afonso) Correa que Fernão Lopes diz pai de outro Afonso Vasques Correa, sendo este, falecido em 1385, o mais antigo senhor de juro e herdade das freguesias de Viatodos e S. Pedro do Monte que se documenta e o tronco dos senhores de Fralães do séc. XV.

Finalmente, umas palavras sobre as suas armas, um escudo de ouro, fretado de vermelho, de oito peças, conforme a infografia que publico. Esta é a verdadeira heráldica dos Correa, como se vê nomeadamente na referida matriz sigilar. Fretado é um termo heráldico que significa a disposição de coticas entrelaçadas em diagonal, em banda e contrabanda, em número igual para cada lado. O fretado pode ter quatro, seis ou oito coticas. Se forem dez ou mais, diz-se já gradeado e não fretado. O Livro da Nobreza e Perfeição das Armas atribui-lhes 12 peças, o que significa que já não era um fretado mas sim um gradeado. O Livro do Armeiro Mor atribui-lhes 13 peças, o que é um flagrante erro heráldico, pois quer no fretado quer no gradeado as coticas têm de ser em número par, uma vez que são sempre metade em banda e a outra metade em contrabanda. O que constitui mais um exemplo da deplorável reforma manuelina da Heráldica portuguesa. E a confusão continua com os não menos ignorantes reis de armas portugueses, que foram passando cartas de armas de Correa onde em geral não especificavam o número de coticas do fretado. E, quando o faziam, diziam-no de seis peças (e até sete!), especificando que eram três em banda e três em contrabanda, como se pudesse ser de outra forma... Na verdade, como vimos, o fretado dos Correa era de oito peças. Mas, em dada altura (século XVI ou depois), os senhores de Fralães adoptaram definitivamente a águia estendida dos Aguiar, que já está em redor do seu escudo na referida matriz sigilar, colocando as armas dos Correa carregadas no peito da águia. E deve ter sido nesta nova disposição que, devido ao tamanho reduzido do escudo (algumas cartas de armas dizem "um escudinho"...), por razões práticas o fretado passou de oito para seis peças. Mas, a aceitar esta alteração, ela não tem obviamente efeitos retroactivos e só se pode usar nestas armas alteradas.

 

 Esquema genealógico

1.           Afonso Vasques Correa [8] , cavaleiro quando em 1318 foi testamenteiro de seu primo Gonçalo Anes Correa (legitimado a 5.3.1298, filho de Gonçalo Anes Correa e neto de João Pires Correa). Vassalo do rei em 1328, quando foi um dos fidalgos fiadores do acordo com D. Alfonso XI. Era meirinho-mor de Além Douro em 1331. Nasceu cerca de 1280 e faleceu depois de 1332. Seria o principal herdeiro das honras de Fralães e Viatodos,  sendo filho de Vasco Gomes Correa, o da matriz sigilar, como ficou dito na introdução. Como igualmente ficou dito, necessariamente Afonso Vasques casou a 1ª vez com mulher (a) que se desconhece. E casou 2ª vez com Tereza Martins Raimundinho” (b), neta paterna de João Raimundes de Portocarreiro, alcaide-mor de Lisboa em 1278.

1.1.   (a) Gonçalo Afonso Correa, sem geração.

1.2.   (a) Filha, casada com Martim Feriz.

1.3.   (a) Filha, casada com Pedro Afonso, sobrinho do bispo de Coimbra D. Raymond, francês.

1.4.   (a) Vasco (Afonso) Correa, que segue no nº 2.

1.5.   (a) Fernando Afonso Correa, que vem referido como infanção na lista de Grijó (1365), com sua mulher Leonor Anes da Cunha, de quem vinha o padroado, com uma filha, não nomeada, pelo que provavelmente era criança pequena. Leonor Anes documenta-se aí como filha de João da Cunha, então já falecido.

1.5.1.   Violante da Cunha, nascida cerca de 1364, que casou cerca de 1388 com Martim Ferreira, morgado do Casal de Cavaleiros, de Cête e de Fajozes, e senhor de juro e herdade de Parada (20.8.1384). Com geração.

1.6.   (a) Diogo Afonso Correa, que proponho como filho do 1º casamento de Afonso Vasques Correa. Era escudeiro quando na mesma data (20.3.1384) da mercê de Afonso Vasques Correa, seu proposto sobrinho, teve do mestre de Avis os direitos reais de Monforte, de juro e herdade, e os bens móveis e de raiz que em Monforte tinham Martim e Álvaro Lourenço, que andavam "em deserujco". A 5.5.1384 o mestre de Avis doou a Diogo Afonso Correa, seu vassalo, todos os bens móveis e de raiz que em Santarém tinha Francisco Anes, que andava "em deserujco". Era comendador na Beira em 1389.

1.7.   (a) D. Afonso Correa, possível filho de Afonso Vasques Correa. Morreu bispo de Segóvia a 15.5.1397. Nasceu cerca de 1318, doutorou-se em Cânones pela Universidade de Paris, foi cónego de Sé de Lisboa e chanceler da infanta D. Beatriz. Passou depois a Roma, onde Urbano V o nomeou auditor da Rota e Câmara Apostólica e depois bispo da Guarda, onde já estava a 24.2.1368. Foi também embaixador de D. Fernando a Castela. Em 1384 opôs-se ao mestre de Avis e depois de Aljubarrota foi para Castela, onde morreu bispo de Segóvia.

1.8.   (a) João Correa, como propõe Pizarro, que foi corregedor de Entre-Tejo-e-Guadiana no reinado de D. Pedro I e terá n. cerca de 1319. Julgo que este é o João Correa que casou com Maria Vasques e que depois de viúvo, já no fim da vida, foi frade de S. Domingos de Lisboa, tendo deixado ao mosteiro de Odivelas a sua quinta da Barrosa, a par do Lumiar. Com efeito, a 7.11.1435 D. Duarte julgou um pleito entre Henrique de Góis e o mosteiro de Odivelas, entregando a ele a dita quinta da Barrosa, que D. João I doara a seu pai, João Anes de Góis, pois o dito mosteiro não vendera a quinta que lhe fora deixada por João Correa no prazo de um ano, como estava obrigado, “e porque outrossy alguus parentes do dicto Joham correa que diziam que ella tijnha, dímjtírom e leixarom todoo seu djreito” ao dito rei D. João I (CDI, 1, 205v e 206).

1.9.   (b) Martim Afonso Correa, nascido cerca de 1321, infanção natural de Mancelos em 1339. Certamente o Martim Correa que em 1383 era alcaide-mor do castelo da Feira, dando voz por D. Beatriz. E o Martim Correa cujas terras que "auja e tijnha del rrey dom Fernando" o mestre de Avis doou a 13.2.1385 a Mem Rodrigues de Vasconcellos. Foi portanto para Castela.

1.10. (b) Aires Afonso Correa, referido com seu irmão na lista de Mancelos, nascido cerca de 1322. Foi alcaide-mor de Monforte (23.6.1357) e provável herdeiro de seu meio-irmão Diogo Afonso. Teve a herdade do Azinhal, nos termos de Elvas e Monforte, que lhe foi coutada por D. Pedro I, como se diz na confirmação deste couto a seu filho Gomes Correa, a 7.3.1433, por D. João I. Deste Gomes foi filho sucessor outro Aires Afonso Correia, que casou com Maria Ribeiro, sendo pais de João de Freitas Correa, morador em Monforte, casado com Inez Rodrigues, quando a 6.2.1444 D. Afonso V lhe confirmou o dito couto, em que sucedeu por morte destes seus pais.   

2.           Vasco (Afonso) Correa, referido por Fernão Lopes como pai de Afonso Vasques Correa e fidalgo de D. Afonso IV e D. Pedro I, pelo que terá nascido cerca de 1307. Pela cronologia e onomástica, sua e de seu filho, parece filho de Afonso Vasques Correa e até o seu filho sucessor, na medida em que é na sua descendência que segue a honra de Fralães. Alão diz que casou com Leonor Mendes de Oliveira, filha de Mem Pires de Oliveira. O Livro de Linhagens do Séc. XVI diz que este Mem Pires não teve filhos do seu casamento mas deixou filhos bastardos, entre eles justamente uma Leonor Mendes, mas que diz ter casado com Pedro Martins Rogueis, pelo que fica a dúvida. Embora esta Leonor pudesse ter casado duas vezes.

2.1.    Afonso Vasques Correa, que segue no nº 3.

3.           Afonso Vasques Correa, que vem referido como escudeiro quando a 20.3.1384, pelos serviços que fez e os que "entendemos de receber", teve do mestre de Avis os direitos reais de Abrantes, de juro e herdade. A 9.10.1380 tinha recebido de D. Fernando, em préstimo, a terra de Gondomar, no almoxarifado do Porto, com todas as suas rendas e direitos. Foi ainda senhor de juro e herdade das freguesias de Viatodos (Beatodos) e de S. Pedro do Monte e os casais de Vila Meã, com suas jurisdições, como se documenta na confirmação a seu filho, em 1385, e de seu neto, em 1433, vindo aí referido apenas como Afonso Correa. Como se diz na confirmação a seu neto em 1433, repetindo a do filho, nas ditas freguesias de S. Pedro do Monte e Viatodos, bem como nos casais de Vila Meã, "quando se auiam de poer Jujzes no dicto logo que os punha sempre o dicto seu padre em cada huu anno E que as apellaçoões hiam dos dictos lugares pêra o dicto seu padre E do dicto seu padre hiam as apellaçoões pêra a corte dos Reis que entom eram E que os moradores das dictas terras nom pagauam em fintas nem em talhas com nemhuu concelho". Afonso Vasques nasceu cerca de 1329 e faleceu antes de 7.10.1385, pois nesta data lhe sucedeu o filho, tendo sido muito provavelmente morto na batalha de Aljubarrota (14.8.1385). Alão confunde este Afonso Vasques Correa com Afonso Paes Correa, o que é um anacronismo, se bem que depois fale deste Afonso Vasques Correa como pai (natural) de Martim Correa. O Afonso Correa que dá como pai de Fernando Afonso Correa diz que casou com Beatriz Martins da Cunha (a) [9] , que neste caso teria nascido cerca de 1340/5, pelo que não podia ser filha de Martim Vasques da Cunha, senhor de Tábua, como diz JT [10], não só porque este nasceu cerca 1300 e faleceu pouco antes de 1334, mas também porque seu filho Vasco e suas duas filhas, Inez e Leonor, se documentam no respectivo inventário de menores. Mas ao Afonso Vasques Correa que teve Martim Correa como filho natural dá Alão duas mulheres, ambas sem geração, a primeira das quais foi Beringela Pereira (b), filha de Rui Pereira, senhor da Terra de Stª Maria, e de sua mulher Violante Lopes de Albergaria, e a 2ª foi Violante Vasques de Souza (c), filha de Vasco Martins de Souza. A existência desta Violante é duvidosa, pois não aparece na lista de Grijó (1365) com seu alegado pai e irmãos. Se bem que pudesse ser uma filha do 2º casamento de Vasco Martins de Souza com D. Estevaínha Garcia, tendo neste caso nascido depois de 1365 e, portanto, casado pouco antes de seu alegado marido morrer. A 1ª mulher diz Alão que a casou D. João I, a contragosto dela. Mas Rui Pereira e Violante Lopes de Albergaria casaram em 1373, pelo que essa Beringela Pereira, se podia ter casado com Afonso Vasques Correa, não podia ter sido mãe do herdeiro Fernando Afonso Correa nem de Afonso Vasques. Assim, a mãe destes ou foi a referida Beatriz Martins da Cunha ou outra que se desconhece e o possível casamento com Beringela Pereia não deve ter deixado frutos. Afonso de Torres diz apenas que Afonso (Vasques) Correa casou com Beatriz Martins, sem a filiar.  

3.1.   (a) Fernando Afonso Correa, que segue no nº 4.

3.2.   (a) Afonso Vasques Correa, que sucedeu ao pai no préstimo da terra de Gondomar, que a 7.12.1388 D. João I lhe passou a senhorio de juro e herdade, mero e misto império, com todas as rendas, direitos e pertenças. Diz a doação que "querendo lhe fazer graça rreceber querendo lho nos galardoar com mercees como cada huu senhor he theudo de fazer aaquelles q o bem auem de nossa liure vontade certa scientia poder absoluto lhe damos de Jur d erdade mero misto Jnperio senhorio a dcta terra do gundumar com todallas rendas djrtos pteenças que a dcta terra rende per qualquer gisa diçam que seia". Deve ter sido senhor da Camusca, pois a 22.4.1386 o mesmo rei faz "graça e mercee a afomso uaasquez correa nosso uasallo por mujto serujço que delle recebemos e entendemos de receber" de privilegiar todos os moradores do lugar da Chamusca, escudando-os de servir ao concelho de Santarém ou a outros. E a 27.6.1386 doa-lhe os bens móveis e de raiz que foram de Samuel Toledano, judeu, bem como "hua quintaa que chamam dulme". A 18.1.1391 o seu escudeiro João Afonso teve mercê dos direitos reais de Ponte de Sor. Talvez seja pai do Vasco Correa que nasceu em 1374 em Ponte de Lima, pois a 12.10.1444 D. Afonso V privilegiou Vasco Correa, natural de Ponte de Lima, mudando-lhe o degredo de dois anos na cidade de Ceuta por três em Marvão, devido à sua idade de 70 anos.

3.3.   (N) Martim Correa, segundo Alão, que o diz bastardo, tendo ficado órfão ainda menino e ter sido criado com o infante D. Pedro, de cuja casa viria a ser cavaleiro. O infante D. Pedro nasceu em 1392 e este Martim Correa teria de ter nascido antes de 1385, ano da morte de seu alegado pai. Diz ainda Alão que esteve com o infante em Alfarrobeira e depois fugiu para Castela, donde voltou, sendo perdoado por D. Afonso V, que então lhe deu o prazo da Torre da Murta e o casou com Leonor da Silva, o que é um evidente anacronismo. Com efeito, o Martim Correa em epígrafe deve ser o homónimo, cavaleiro do infante D. Pedro, que tinha a comenda de Aljustrel, a qual por sua morte ficou vaga, tendo-a D. Afonso V passado a 31.1.1444 a Martim Vasques Mascarenhas, com consentimento de D. Fernão Martins Mascarenhas, comendador-mor da Ordem de Santiago. Morreu portanto antes de Alfarrobeira. E deve também ser este o Martim Correa que deixou viúva Inez Dias, a quem D. Afonso V doou a 17.10.1453 a renda dos moinhos situados no termo de Penela, na Ribeira de Cabra, e que ainda vivia a 15.7.1463, quando o mesmo rei concedeu carta de privilégio a Inez Dias, mulher viúva de Martim Correa, para todos os seus caseiros, mordomos, apaniguados e lavradores da comarca e correição da Estremadura, isentando-os do direito de pousada. Este Martim Correa deve ainda ser o que pediu e obteve para seu primo (certamente pelo lado da mãe) Diogo Álvares, escudeiro, morador na vila de Aljustrel, o cargo de coudel da dita vila e seu termo, para que foi nomeado a 16.2.1439.

3.3.1.   Martim Correa, nascido cerca de 1400, claramente distinto e posterior ao que leva por pai. Alão deve ter confundido os dois num só, pelo que algumas coisas que diz do pai poderão aplicar-se a este. É o Martim Correa, cavaleiro do infante D. Henrique, que a 20.5.1452 teve do rei uma tença anual de 8.000 reais de prata, a juntar à tença de 4.000 reais que já usufruía. E foi alcaide-mor de Silves, como veremos adiante. Este Martim é que teve a Torre da Murta (25.3.1461) e casou com Leonor da Silva, natural da Madeira, donzela da rainha e filha de um Fernão Martins do Carvalhal, segundo o LLXI e Damião de Góis. Segundo Alão, o rei deu-lhe em casamento Leonor da Silva, que então estava enamorada de Nuno Furtado de Mendonça, o qual avisou Martim Correa que se aceitasse esse casamento "lhe havia de por os cornos". Acrescenta aquele autor que Martim Correa aceitou o casamento por causa da ameaça e levou a mulher para a Torre da Murta, onde a acoitou, avisou da ameaça do namorado e viveram "com grandes desgostos", vindo Martim Correa a morrer no escalamento de Tânger, após o que Leonor da Silva casou com o dito Nuno Furtado de Mendonça. E isto é certo, pois a 18.7.1476 D. Afonso V doou a Leonor da Silva, viúva de Nuno Furtado, que fora aposentador-mor, as tenças anuais que estão assentes no almoxarifado de Santarém [11]. E a 21.3.1513 Leonor da Silva, mãe de Henrique Correa, fidalgo da Casa Real, fez procuração a Diogo Afonso, seu escudeiro, para poder arrecadar do almoxarife de Aveiro 14.933 reais que tem por desembargo. Pela cronologia envolvente, Leonor da Silva, que nasceu cerca de 1430 e, como vimos, ainda vivia em 1513, casou com Nuno Furtado cerca de 1462, e seguramente antes de 1464, pelo que Martim Correa terá morrido em meados ou finais de 1461. Também não existe carta de perdão pela sua alegada participação em Alfarrobeira. Pelo contrário, terá recebido bens de partidários de D. Pedro que estiveram nesta batalha, segundo a Monumenta Henricina. Alão só lhe nomeia um filho, o antedito Henrique Correa da Silva, que terá nascido cerca de 1445 e foi do Conselho de D. Manuel I, com geração nos Correa da Silva, alcaides-mores de Tavira. A 29.8.1464 Henrique Correa, cavaleiro do infante D. Henrique e fidalgo da Casa Real, teve o castelo e direitos de Silves, bem como as rendas da mouraria, com os 2.000 reais que pagam os mouros da cidade, e ainda as rendas do mordomado e do relego, tudo como tinha seu pai, como se diz numa carta de confirmação de 5.3.1486. É ainda o Henrique Correa, fidalgo da Casa Real, que a 10.10.1496 teve uma tença de 30.000 reais de D. Manuel I, e dois meses depois 300.000 reais em satisfação das rendas da mouraria de Silves, e ainda várias outras mercês.

4.           Fernando Afonso Correa, do Conselho de D. João I, senhor de juro e herdade as freguesias de Viatodos e de S. Pedro do Monte e os casais de Vila Meã, com suas jurisdições, em sucessão a seu pai Afonso Correa (7.10.1385), isto é, como vimos, senhor de Fralães. Foi ainda senhor de juro e herdade de Valadares e de Riba de Mouro (21.8.1387) e a 23.1.1387 teve a doação da honra de Lanhas, que era de Diogo Afonso, que andava em deserviço, o qual a herdara de sua tia Leonor Afonso, aia que foi do infante D. Dinis. Diz o rei na carta de doação de Valadades: "Dom Joham etc A quantos esta carta virem fazemos saber que nos veendo e considerando os mujtos serujços que nos e estes regnos recebemos e entendemos receber ao diante de fernand afomso correa nosso uasallo portador desta carta E querendo lho nos galardoar com mercees o que boom rey e senhor eue fazer a boom serujdor damos lhe de Jur d erdade deste dia pera todo sempre toda a terra de ualadares e de Riba de mouro per a guisa que a tragia steu eannes marinho d el rrey dom fernando nosso Irmaão que deus perdoe com todollos djreitos fructos novos e foros que o dicto rey e os que ante elle foram aujam e nos de djreito deuemos d'auer das dictas terras com suas Jurdiçoões Reseruando pera nos as apellaçoões e agravos E que o nosso Corregedor ou corregedores possam fazer correiçam". Fernando Afonso nasceu cerca de 1351 e fez testamento [12] a 9.5.1405, onde instituiu a capela de S. Francisco de Guimarães, para a qual foi depois trasladado. Segundo Afonso de Torres, casou com Joana Anes, filha de João da Cunha. Segundo Alão, casou com Leonor Rodrigues, que a CP [13] diz ter sido filha de Nuno da Cunha, o que além do mais é um anacronismo. Como direi adiante, o filho sucessor Gonçalo Correa trocou com o rei Valadades por Cunha-a-Velha. A honra de Cunha-a-Velha foi perdida para a coroa por Martim Vasques da Cunha quando foi para Castela. Mas era o original solar da linhagem dos Cunha, com todo o seu valor simbólico. Não é portanto de estranhar que Gonçalo Correa, sendo filho de uma Cunha, tenha feito esta troca, sendo porventura mais estranho que seu filho homónimo a tenha vendido. Tendo em conta a cronologia (Leonor Rodrigues terá nascido entre 1360 e 1367) e o patronímico, julgo que Leonor Rodrigues seria sobrinha ou sobrinha-neta da Leonor Anes da Cunha (filha de João Rodrigues da Cunha) que casou com Fernando Afonso Correa, tio-avô homónimo do Fernando Afonso Correa em epígrafe.

4.1.    Paio Correa, referido na confirmação de 1433 a seu irmão Gonçalo Correa, onde se diz que este houvera a dita terra "depois da morte do dicto seu padre e payo correa seu Jrmaão". Faleceu portanto em 1433, sem geração, ao que se conclui.

4.2.    Gonçalo Correa, que segue no nº 5.

4.3.   Frei João Correa, nascido cerca de 1382, que é geralmente confundido com seu sobrinho homónimo, referido adiante. Foi comendador de S. Miguel de Poiares, com suas anexas de Freixiel e Abreiro, de Stª Mª de Vera Cruz de Marmelar, com sua anexa de Aboim, de Belver e possivelmente ainda de Algoso, em que terá sucedido ao irmão Aires. Este é o João Correa, cavaleiro, comendador de Poiares e Santa Maria, como em 1423 é referido na legitimação do filho Gomes. E o João Correa, comendador de Belver, cujo criado, Vasco Dias, foi nomeado a 16.10.1446 para o cargo de tabelião do cível e crime de Cortiçada Belver, [Enendos], Carvoveiro e de Bicheira. Além do filho legitimado (o único que não foi freire), foram certamente seus filhos:

4.3.1.  (N) Frei Paio Correa, comendador de S. Miguel de Poiares, com suas anexas de Freixiel e Abreiro. A 14.1.1462 D. Afonso V doou a Frei Paio Correa, comendador de Poiares, os bens móveis e de raiz que pertenciam a Afonso Vasques [Moszito], morador no Crato, que os perdera por ter feito contrabando de carneiros e gados para Castela.

4.3.2.  (N) Frei Gonçalo Correa, comendador de Algoso, em que sucedeu ao pai ou ao tio Aires Correa, e de Aboim A 27.4.1469 D. Afonso V privilegiou Frei Gonçalo Correa, comendador de Algoso e Aboim, coutando-lhe as perdizes e lebres a meia légua em redor do castelo da sua comenda, bem como o pescado a meia légua da ribeira, pagando os prevaricadores 200 reais para as obras do castelo e perdendo tudo o que caçaram e pescaram. A 15.3.1471 o mesmo rei concedeu carta de privilégio a Frei Gonçalo Correa, comendador de Algoso, para todos os seus mordomos, caseiros, apaniguado, lavradores e criados da comarca e correição de Trás-os-Montes.

4.3.3.  (N) Frei Fernão Correa, cavaleiro da Ordem de S. João, comendador de Algoso, de Stª Mª de Vera Cruz de Marmelar, com sua enexa de Aboim, e de S. Miguel de Poiares, com suas anexas de Freixiel e Abreiro. Foi ainda comendador de Torres Vedras e Landal. A 9.9.1469 D. Afonso V nomeou por três anos Vasco Fernandes, escudeiro de Frei Fernando Correa, comendador de Freixiel, Poiares, Abreiro e Landal e para o cargo de coudel destes lugares e seus termos, que se encontrava vago. A 4.1.1473 o mesmo rei concedeu carta de privilégio de fidalgo a Frei Fernando Correia, comendador de Algoso, com cláusula de aposentadoria, para todos os seus criados, mordomos e apaniguados para a comarca de Trás-os-Montes. A 8.2.1471 privilegiou Frei Fernão Correia, comendador de Stª Vera Cruz, concedendo-lhe licença para poder dar em sesmaria as terras, herdades, pardieiros, vinhas e casas suas e da Ordem, que não se encontravam aproveitadas, contanto que mande apregoar pelos concelhos e praças da comarca para que sejam aproveitadas. E a 12.2.1471 privilegiou Fernão Correia, cavaleiro da Ordem de S. João e comendador da Igreja de S. João da vila de Torres Vedras, proibindo que qualquer pessoa de qualquer estado e condição pousasse nas casas da referida ordem e comenda, sob pena de pagarem 1.000 reais para os cativos.  

4.3.4.   (N) Frei Pedro Correa, nascido cerca de 1410, que era comendador de Óbidos e Alenquer quando a 3.10.1461 D. Afonso V lhe aforou uma herdade de pão na vila de Alenquer, pelo foro anual de 25 alqueires.  

4.3.5.   (N) Isabel Correa, nascida cerca de 1412, que a 13.5.1442 se documenta como mulher de Fernão Rodrigues (Barba), alcaide de Leiria e Óbidos, vassalo de D. Afonso V e escudeiro do infante D. Pedro. C.g.

4.3.6.   (L) Gomes Correa, legitimado por carta real de 5.1.1424, onde vem referido como criado do conde D. Afonso, filho d'el rei, portanto o futuro duque de Bragança, sendo filho de João Correa, cavaleiro, comendador de Poiares e Stª Maria, e de Senhorinha Martins, mulher solteira. Gomes Correa foi comendador de Poiares, Aboim e Algoso. A 2.8.1441 D. Afonso V nomeou por 5 anos Gomes Correa para o cargo de coudel em Poiares, Aboim, Algoso e outros lugares das suas comendas. É provavelmente o Gomes Correa casado com Leonor Rodrigues, com os seguintes filhos nascidos em S. Miguel de Poiares:

4.3.6.1.     Paio Correa, n. cerca de 1446, que tirou ordens menores a 21.9.1454 em Braga. [36] É certamente o Frei Paio Correa que em 1462 era comendador de Amieira e que foi também comendador de Poiares, Freixiel e Landal. A 18.6.1502 foi legitimada por carta real Guiomar, filha Frei Paio Correa, já finado, e de Branca Dias, viúva (não diz de quem) moradora na vila de Amieira. Trata-se certamente deste Frei Paio Correa, comendador de Amieira. E a filha é certamente a Guiomar Correa que casou com Nuno Cardoso, morgado da Taipa (Lamego), que as genealogias tardias confundem com a D. Guiomar Correa, filha de Frei Paio Correa, bailio de Leça, referida adiante, que era anterior e casou com D. Sancho de Noronha. Com efeito, aquela Guiomar Correa vivia viúva em 1552 na quinta da Taipa, como se documenta, pelo que não pode ser a homónima que casou cerca de 1490 com D. Sancho de Noronha.

4.3.6.2.     Martim Correa, que tirou ordens menores em Braga [35] a 21.9.1454.

4.4.    Beatriz Correa, nascida cerca de 1383, que casou cerca de 1397 com Gonçalo Fernandes Barbosa, senhor do paço e honra de Aborim, em Quintiães (Barcelos), e do couto de Brandara, em Ponte de Lima (na imagem: escudo de armas dos Barbosa - infografia do autor). Na instituição do morgadio de Aborim, seu neto Álvaro Barbosa diz Armas dos Barbosa (infografia de Manuel Abranches de Soveral)que Gonçalo Fernandes Barbosa era "homem honrado tam possante que tinha desouto a vinte de cavallo e com tanto serviu continuadamente elRei Don Joam na Batalha Real e outros lugares de cavalaria", e que dele ficaram cinco filhos e três bastardos, sendo seu filho primogénito Fernão Gonçalves Barbosa, de quem era filho maior o instituidor. Alão diz que em poder do Doutor Francisco Montarroio estava uma provisão de 1438 onde se documentava que Fernão Gonçalves Barbosa era filho de Gonçalo Fernandes Barbosa, senhor do couto de Brandara, neto de Chamoa Martins e bisneto de Alda Esteves, senhoras do dito couro e sua jurisdição. Trata-se portanto do mesmo documento a que se refere Gaio, dizendo que foi feito a 14.2.1438 na vila de Ponte do Lima, sendo juiz Aires de Magalhães e escrivão Fernão Lourenço, onde se apresentava uma carta de D. Duarte com selo redondo, assinada por Afonso Giraldes e Luiz Martins, ouvidores de do rei, onde constava que Fernão Gonçalves Barbosa era sobrinho de João da Mota e Álvaro da Mota, criados do rei D. Duarte, filhos Pedro Fernandes de Barbosa e sua mulher D. Chamoa Martins de Aborim, irmã de D. Alda Martins, chamadas as ricas-donas de Aborim. Daqui se concluem várias coisas, desde logo que Gonçalo Fernandes Barbosa já tinha falecido em 1438 e que pelo menos a honra de Aborim e o couto de lhe vinha por sua mãe, Chamoa Martins, que Gaio diz filha Rui Lourenço de Aborim, senhor da dita honra, e sua mulher Alda Martins, senhora do couto de Brandara, que já fora de seu avô Rui Fernandes da Mota. Aquele João da Mota, irmão de Gonçalo Fernandes Barbosa, deve ser o João da Mota que perdeu os seus bens por não ter apoiado o mestre de Avis, que a 26.6.1384 deu a Vasco Martins, seu escudeiro, todos os bens móveis e de raiz que João da Mota havia em Óbidos e seu termo e em qualquer outra parte destes reinos. Seu irmão Afonso da Mota, que poderia ter nascido cerca de 1390, talvez ainda possa ser o Frei Afonso da Mota, mestre de Teologia, que a 30.9.1450 foi reitor "do estudo na cidade de Coimbra". Aquele Rui Lourenço de Aborim diz Gaio que foi filho de Lourenço Fernandes de Aboim e neto do Fernão Silvestre de que fala o conde D. Pedro. A filiação daquele Pedro Fernandes de Barbosa, casado com D. Chamoa Martins de Aborim, não se sabe, sendo contudo de suspeitar que fosse filho do Fernão Martins de Barbosa que Alão dá por pai de Gonçalo Fernandes Barbosa. Alão, seguindo o conde D. Pedro, engana-se e dá este Fernão Martins como filho de Martim Barbosa, o Moço, quando de facto era seu irmão, ambos filhos de outro Martim Barbosa, o Velho. Fernão Martins de Barbosa, como se pode ver em Pizarro (LM), em 1311 testemunha uma outorga dada por seus pais a uma doação feita por seu avô materno e já se documenta casado com Mor Aires de Toroselho em 1324, mas casou antes, e em 1355 teve sentença para pagar 350 libras ao mosteiro de Arouca pelo escambo da quintã de Canelas. Na lista de Vilar de Porcos (1329) seu pai aparece referido com seus filhos Fernão, Sancho, Nuno, Martim e Sancha, sendo Fernão referido como tendo três filhos, não nomeados. Destes seus três filhos, Pizarro identifica dois: Alda Fernandes de Barbosa, que em 1331 era freira em Stª Clara de Coimbra, e Senhorinha Fernandes de Barbosa (já casada em 1348 com um Martim Esteves). O terceiro filho poderia ter-se chamado justamente Pedro Fernandes de Barbosa, nascido entre 1320 e 1330, sendo o pai de Gonçalo Fernandes Barbosa, nascido entre 1360 e 1370.

4.4.1.   Fernão Gonçalves Barbosa, nascido cerca de 1398 e falecido cerca de 1478, senhor do paço e honra de Aborim, em Quintiães (Barcelos), e do couto de Brandara, em Ponte de Lima. Gaio diz que esteve em Alfarrobeira pelo infante D. Pedro, mas não há notícia disso, salvo se é o Fernão Gonçalves, escudeiro, criado do infante D. Pedro, a quem D. Afonso V perdoou a 2.5.1455 o ter estado na batalha de Alfarrobeira ao lado do dito infante. Na instituição do morgadio de Aborim, seu filho Álvaro Barbosa diz que seu pai, Fernão Gonçalves Barbosa, "ficou mais delgado de fazenda que não serviu salvo com sinco ou seis, e por seeu falecimento elle Alvaro Barbosa que era seu filho maior partiu com sinco outros irmãos que lhe não ficou por onde podesse servir com dous". Casou cerca de 1441 com Leonor Vaz Malheiro, n. cerca de 1428, filha de Vasco Afonso Malheiro, escudeiro da Casa do infante D. Pedro e senhor da torre de Refoios (do Lima), e de sua mulher Beatriz Anes (ver o meu estudo "Reflexões sobre a origem dos Rocha, dos Aguiã, dos Calheiros e dos Jácome"). Documenta-se que Fernão Gonçalves Barbosa teve seis filhos, mas só consegui encontrar seguros cinco.

4.4.1.1.     Álvaro Barbosa, nascido cerca de 1442 e fal. depois de 1500, 1º morgado de Aborim (25.8.1478). Como Álvaro Fernandes, filho de Fernão Gonçalves Barbosa e sue mulher Leonor Vasques, da freguesia de Stª Mª de Quintiães, tirou ordens menores em Braga a 19.3.1451. Deve ser o Álvaro Barbosa, escudeiro de D. Álvaro, a quem D. Afonso V doou em Zamora, a 25.10.1475, o serviço novo e velho dos judeus de Ponte de Lima e Barcelos. Casou com Maria Gonçalves Maciel, com geração nesta Casa. O morgadio de Aborim foi instituído por Álvaro Barbosa e sua mulher D. Maria Gonçalves em Ponte de Lima, ainda não tinham filhos, ao que tudo indica logo após a morte do pai dele. Álvaro Barbosa é aí referido como escudeiro fidalgo e morador no julgado de Aguiar de Neiva, termo de Barcelos. O morgadio tinha cabeça na sua quintã de Aborim, na freguesia de Quintiães, termo de Barcelos, que ele tinha de sua avoenga. Refere a instituição que Álvaro Barbosa era neto de Gonçalo Fernandes Barbosa, "homem honrado tam possante que tinha desouto a vinte de cavallo e com tanto serviu continuadamente elRei Don Joam na Batalha Real e outros lugares de cavalaria", e que dele ficaram cinco filhos e três bastardos, sendo seu filho primogénito Fernão Gonçalves Barbosa, de quem era filho maior o instituidor. Acrescenta que seu pai, o dito Fernão Gonçalves Barbosa, "ficou mais delgado de fazenda que não serviu salvo com sinco ou seis, e por seeu falecimento elle Alvaro Barbosa que era seu filho maior partiu com sinco outros irmãos que lhe não ficou por onde podesse servir com dous". E por isso instituía o morgadio, "hora que a Deus aprouve de lhe dar alguma fazenda e disposição para a ter e haver por conservar sua possante linhagem e Fidalguia e ficar e andar unida para milhor poder servir a Coroa Real".

4.4.1.3.     Gonçalo Fernandes Barbosa, falecido solteiro sem geração.

4.4.1.2.     Pedro Barbosa, nascido cerca de 1452, que tirou ordens menores em Chaves a 29.6.1461, onde vem como filho de Fernão Gonçalves Barbosa e sua mulher Leonor Vaz, moradores em Quintiães (Paço de Aborim). Era portanto filho legítimo e não bastardo, como vagamente supõe Gaio e algumas genealogias modernas continuam a copiar, sem investigar. Alão não o refere. Casou com Leonor Lobo, dama da duquesa de Bragança, irmã de Fernão Lobo, escudeiro conde de Vila Real, que foi coudel de Vila Real a 6.7.1473 (teria 18 anos) em substituição Lopo Martins da Mesquita, que morrera, por apresentação do conde de Vila Real. Como refiro no meu Ensaio sobre a origem dos Mesquita, este Fernão Lobo casou com Maria Lourenço, já viúva de Luiz Martins da Mesquita (ou Luiz Pimentel). Este Fernão e sua irmã Leonor Lobo eram filhos de Fernão Lopes da Nóbrega, cavaleiro da Casa de D. Afonso V, que viveu em Guimarães e a quem este rei a 8.4.1475 doou uma tença anual de 6.000 reais de prata, e de sua mulher Maria Lobo, n. cerca de 1439 em Montemor-o-Novo, ama da futura duquesa de Bragança D. Isabel (n. em 1459, irmã de D. Manuel I), sendo esta filha de Gomes Martins Lobo, n. cerca de 1410 e fal. velho pouco antes de 1490, escudeiro da Casa de D. Afonso V (antes de 1442), morador em Montemor-o-Novo, onde foi juiz (1460) e procurador de Montemor-o-Novo às Cortes de Lisboa de 1459, sendo "pessoa poderosa". Sucedeu nas herdades de seu avô materno, pois a 31.3.1450 D. Afonso V confirmou o privilégio a Gomes Martins Lobo, morador em Montemor-o-Novo, coutando-lhe aí as herdades de Nuno Fernandes de Moraes, cavaleiro, seu avô. A 23.3.1462 o mesmo rei perdoou três meses de degredo a Gomes Martins Lobo, dos seis a que fora condenado para fora da vila de Montemor-o-Novo e seu termo. Documenta-se que teve vários outros bens em Montemor-o-Velho e seu termo. Gaio diz que jazia na matriz Montemor-o-Novo com o seguinte letreiro: "Aqui jaz Gomes Martins Lobo Fidalgo do Duque de Bragança". Gomes Martins Lobo casou cerca de 1438 com Mécia Pereira, n. cerca de 1422, segundo as genealogias filha de Nuno Fernandes de Açar, alcaide-mor de Montemor-o-Novo, e de sua mulher Susana Lourenço. Pedro Barbosa e sua mulher Leonor Lobo deixaram geração conhecida, nomeadamente nos Lobo Barbosa, morgados de Vilarinho de S. Romão, e nos Azevedo Coutinho, morgados de Besteiros (Viseu).

4.4.1.4.     Jorge Barbosa, nascido cerca de 1457, que viveu em Penafiel, nas suas casas do Adro da Igreja. Casou com Catarina de Souza, sendo pais de Gaspar Barbosa, notário apostóloco, que casou com Beatriz de Leão, senhora da quinta da Lagea, em Parada de Todeia, como digo no meu estudo Meirelles Barreto de Moraes, das Casas do Pinheiro de Cête, Sermanha de Sedielos e Outeiro de Mouriz, e de outros, como refiro na ascendência de António Augusto Teixeira de Vasconcellos.

4.4.1.5.     Beatriz Barbosa, nascida cerca de 1460, que foi senhora da quinta de Gilhafonces (Valdevez) e casou com Rui Dias (de Aguiã), escudeiro de Leonel de Lima, senhor dos prazos do Remudo do Outeiro (S. João de Parada), do casal de Parada (S. Miguel de Fontoura), da devesa de Seixas (Caminha) e do casal de Baltar, (Stª Eulália de Gundar), como trato no meu estudo "Reflexões sobre a origem dos Rocha, dos Aguiã, dos Calheiros e dos Jácome".

4.4.2.   João Afonso Barbosa, o Barbosinho, nascido cerca de 1399 e falecido em 1445, que foi tabelião do julgado de Aguiar de Sousa (hoje Paredes). A 27.2.1445 D. Afonso V nomeou Gonçalo Anes, escudeiro do infante D. Fernando, para o cargo de tabelião do julgado de Aguiar de Sousa, em substituição de seu pai João Afonso Barbosinho, que morrera (CAV, 25, 69). Alão diz que Frei Fernando do Espírito Santo, a propósito das pessoas que no Porto ficaram isentas, por serem nobres, da finta e subsídio que se concedeu nas Cortes de Torres Vedras, de 150 cruzados para o dote da infanta D. Isabel para o seu casamento (em 1527) com o imperador Carlos V, citando o livro da Câmara do Porto, a fls. 710 (Gaia diz fls 110), diz que um deles foi Gregório Barbosa, filho de Gonçalo Anes Barbosa, neto João Afonso Barbosa e bisneto de Gonçalo Fernandes Barbosa. Gregório Barbosa ainda vivia em 1527, pelo que se aceita esta informação. E é também possível que João Afonso Barbosa, o Barbosinho, fosse filho de Gonçalo Fernandes Barbosa, tendo usado o patronímico do avô materno, Fernando Afonso Correa. Não se sabe com quem casou, mas teve:

4.4.2.1.     Gonçalo Anes Barbosinho, nascido cerca de 1420 e falecido cerca de 1476, escudeiro do infante D. Fernando, tabelião geral do Porto e tabelião de Aguiar de Sousa (27.2.1445) e de Penafiel. A 26.2.1445 D. Afonso V nomeou João Afonso Barbosinho, o Moço, para o cargo de tabelião de Penafiel, em substituição de Gonçalo Anes, que renunciara (CAV, 25, 69). A 27.2.1445 o mesmo rei nomeou Gonçalo Anes, escudeiro de D. Fernando, para o cargo de tabelião de Aguiar de Sousa, em substituição de seu pai João Afonso Barbosinho, que morrera (CAV, 25, 69). A 15.4.1456 perdoou o degredo a Gonçalo Anes Barbosinho, tabelião do julgado de Aguiar de Sousa, degredado por um ano na comarca de Entre Douro-e-Minho, tendo pago 500 reais de prata (CAV, 13, 161). A 20.3.1459 perdoou a justiça régia a João Gonçalves Coelho, homem de pé de Luiz Álvares de Souza, morador em Arrifana de Sousa, acusado de tentar matar João Martins, meirinho, aí morador, agredir Afonso Lopes, criado de Gonçalo Anes Barbosinho, tabelião na dita vila, entre outros crimes, na sequência do perdão geral outorgado aos homiziados que serviram na conquista de Alcácer (CAV, 36, 88v). A 21.7.1462 nomeou Luiz Lourenço, morador na cidade do Porto, para o cargo de tabelião geral e especial nessa cidade e seu termo, em substituição de Gonçalo Anes Barbosinho, que fora destituído do cargo por ter cometido erros e falsidades no ofício (CAV, 1, 49). Finalmente, a 5.9.1479 nomeou João André, criado de Pedro de Alcáçova, escrivão da fazenda régia, para o cargo de tabelião judicial da cidade do Porto, e geral do bispado da dita cidade, em substituição de Gonçalo Anes Barbosinho, que fora destítuido do cargo por praticar falsidades (CAV, 29, 145v). As genealogias dão o Gonçalo Anes Barbosa pai de Gregório Barbosa (e de Marcos Barbosa) casado com Leonor ou Maria Gonçalves. E documenta-se que Gonçalo Anes casou com Catarina Dias, mãe de João Barbosa. Mas este João Barbosa é cerca de 18/20 anos mais velho do que Marcos e Gregório Barbosa, pelo que o mais provável é que Gonçalo Anes Barbosa tenha de facto casado duas vezes, a 1ª com Catarina Dias (a) e a 2ª com Leonor Gonçalves (b).

4.4.2.1.1.    (a) João Barbosa, nascida cerca de 1450, escudeiro de D. Pedro de Menezes, foi tabelião geral do Porto (8.3.1476). Tirou ordens menores em Braga a 22.12.1464, como João Barbosinho, natural do Porto (Sé), com licença de seu prelado, mas sem ser referido como frei, pelo que era apenas noviço, vida que depois abandonou. A 8.3.1476 D. Afonso V nomeou João Barbosa, escudeiro de D. Pedro de Menezes, para o cargo de tabelião geral do Porto, em substituição de seu pai, Gonçalo Anes Barbosinho. A 19.5.1496 João Barbosa, vassalo do rei, escudeiro do conde D. Pedro de Menezes, morador na cidade do Porto, teve confirmação da nomeação de tabelião do cível e crime em especial e geral na dita cidade, em seus termos e em todo o bispado dela, gozando das rendas e direitos inerentes a esse ofício (CMI, 34, 10v). A 10.5.1497 João Barbosa, tabelião, morador no Porto, viu confirmada autorização para ter um escrivão ao seu serviço, sendo ele obrigado a assinar tudo o que o dito escrivão fizer. Inserida carta de D. Afonso V de 5.6.1479 (CMI, 30, 59). A 6.10.1500 o mosteiro de Arouca renovou a João Barbosa e sua mulher Catarina Afonso um prazo em Arrifana de Sousa que tiveram seus pais Gonçalo Anes Barbosa e sua mulher Catarina Dias.

4.4.2.1.2.    (b) Marcos Barbosa, nascida cerca de 1468, escudeiro da Casa de D. João II (1491), tabelião de Penafiel (antes de 1505), escrivão das sisas e dos órfãos de Aguiar de Sousa (1496), etc. A 16.4.1496 Marcos Barbosa, escudeiro do falecido conde de Olivença, teve confirmação de tabelião do cível e crime no julgado da Lousada (CMI, 43, 19v). A 16.4.1496 Marcos Barbosa, escudeiro do conde de Olivença, teve confirmação do ofício de escrivão dos órfãos, tal como o tinha Pedro Anes, que o renunciou para a coroa. Inserido o diploma confirmado, de 23.10.1489 (CMI, 34, 11v). A 16.4.1496 Marcos Barbosa, escudeiro do conde de Olivença, foi nomeado escrivão dos feitos das sisas, tal como ele até aqui foi por carta de D. João II, carta esta não inserida e que não consta na respectiva chancelaria (CMI, 34, 11v). A 18.4.1496 Marcos Barbosa, escudeiro, criado do conde de Olivença, foi nomeado tabelião no julgado de Aguiar (CMI, 34, 11 e 11v). A 7.2.1500 Fernão Soares, escudeiro de Diogo Brandão, fidalgo da Casa d'el rei, foi nomeado tabelião do julgado de Penafiel do Sousa. Outorga devida a informação recebida de no julgado haver dois tabeliães contrariando as ordenações por serem parentes: Gregório Barbosa e Marcos Barbosa. Como o primeiro não vendeu o ofício, segundo as instruções do desembargador, o licenciado Pedro de Gouveia que ao andar pela comarca se apercebeu da irregularidade, perdeu-o e em seu lugar foi nomeado o beneficiário deste diploma (CMI, 12, 4 e 4v). A 29.9.1501 Luiz Gonçalves Maracote, bacharel em Leis e corregedor na comarca de Entre Douro e Minho, teve missiva notificando-o da mercê, por "se assim é", feita a Jorge Anes, escudeiro morador na cidade do Porto, do ofício de escrivão dos órfãos de Sousa, concelho de Penafiel, termo da dita cidade. Depois da morte de Pero Anes de Husso, último detentor do ofício. D. João II, por sua carta, fizera mercê do mesmo a Afonso de Leão, filho de Pedro Anes, o qual o não quisera servir. Então, João de Beça, tabelião no julgado de Aguiar, citara a cidade do Porto por se empossar do lugar. A qual citação fora presente a ele, corregedor, que a remetera à corte, ao juiz dos feitos. E como o lugar, passado mais de um ano, estava vago, e se assim era que a dada do ofício lhe pertencia, como aos reis passados, e não era de eleição da câmara, e João de Beça não queria seguir seu direito, nem o podia servir por ser cunhado de Marcos Barbosa, tabelião nesse julgado, o que era contrário ao regimento que proibia servissem dois irmãos ou cunhados de tabeliães ou escrivães no mesmo julgado, mandava que, sendo ele, corregedor, requerido de Jorge Anes, suplicante, fizesse citar os oficiais e procurador da cidade e partes, e procedesse no feito (CMI, 1, 45v). Mas a 23.2.1502 João de Beça, morador em Penafiel, foi nomeado escrivão dos órfãos do julgado de Aguiar de Sousa. Substituiu no cargo Marcos Barbosa, destituído por erros cometidos e neste diploma declarados (CMI, 2, 11). A 23.1.1505 Gil Rabelo teve mercê por se assim é do ofício de tabelião de Arrifana de Sousa. O corregedor de Entre Douro e Minho, Dr. Álvaro Fernandes, dera 2 meses de prazo a Gregório Barbosa, tabelião, para vender o ofício - pelo não perder, segundo capítulo de Cortes - por ser seu sobrinho outro tabelião no mesmo lugar. E por já terem passados 2 anos sobre o termo do prazo, ficara o ofício vago (CMI, 23, 51v). A 23.10.1517 André Pires, morador no concelho de Arrifana de Sousa, termo da cidade do Porto, teve mercê do ofício de recebedor das sisas, assim como fora Pero Afonso que renunciara em mãos d'el rei, segundo um instrumento que parecia ser feito e assinado por Marcos Barbosa, tabelião em Arrifana de Sousa, a 25.9.1517 (CMI, 38, 107v). No reinado de D. João III Marcos Barbosa foi confirmado como tabelião de Penafiel de Sousa (CJIII, 1, 133v), escrivão dos órfãos de Aguiar de Sousa (CJIII, 1, 133; e 49, 124v), escrivão das sisas de Aguiar de Sousa (CJIII, 47, 83v) e teve carta para ter ajudante em seu ofício (CJIII, 42, 64v). Casou com Inez de Leão, senhora da quinta do Beco, em S. Miguel de Rans (Penafiel), filha de Pedro de Leão, juiz das sisas de Aguiar de Sousa (1504) e senhor da dita quinta do Beco, e de sua mulher Beatriz da Fonseca, senhora do prazo da Lagea, em Parada de Todeia, foreiro a Paço de Sousa. De Marcos Barbosa e sua mulher Inez de Leão foi filho sucessor Miguel de Leão Barbosa, que vendeu a sua quinta do Beco, em S. Miguel de Rans (Penafiel), também dita erradamente quinta ou honra de Barbosa, ao bispo do Porto D. João de Azevedo. Depois de viúvo, sem geração, de D. Catarina de Souza, filha dos senhores da Vila Caís, foi arcediago de Vermoim na Sé de Braga. Instituiu a capela de Nossa Senhora do Monte na freguesia de Guilhufe, com suas armas e letreiro que diz: Esta capela mandou fazer Miguel de Leão Barbosa Fidalgo de El Rei.

4.4.2.1.3.    (b) Gregório Barbosa, nascido cerca de 1470 e falecido depois de 1530, escudeiro fidalgo da Casa Real e cavaleiro da Ordem de Cristo, esteve no cerco de Azamor (1513) e foi tabelião de Penafiel. Vem como escudeiro fidalgo e morador em Arrifana de Sousa (hoje Penafiel) na carta de armas do neto. Alão diz que foi cavaleiro da Ordem de Cristo e esteve em Azamor, onde foi armado cavaleiro pelo duque D. Jaime. Gaio acrescenta que esteve no cerco de Azamor. Alão diz que Frei Fernando do Espírito Santo, a propósito das pessoas que no Porto ficaram isentas, por serem nobres, da finta e subsídio que se concedeu nas Cortes de Torres Vedras, de 150 cruzados para o dote da infanta D. Isabel para o seu casamento (em 1527) com o imperador Carlos V, citando o livro da Câmara do Porto, a fls. 710 (Gaio diz fls 110), diz que um deles foi Gregório Barbosa, como já ficou referido. É certamente o Gregório Barbosa que foi escrivão das sisas de Penafiel (CJIII, 38, 178v), tabelião de Penafiel de Sousa (CJIII, 46, 122) e escrivão dos contos de Lisboa (CJIII, 55, 222). Segundo Alão, casou a 1ª vez, sem geração, com Isabel de Ilharco Sottomayor. E a 2ª vez, cerca de 1500, com Catarina Dias Cabral, nascida cerca de 1479, que Alão diz filha de Jorge Dias Cabral, arcediago de Campelo (Baião), e de Maria de Macedo. Mas Alão confunde este Jorge Dias Cabral com outro homónimo, muito posterior, filho de Diogo Fernandes Cabral, deão da Capela Real, deão da Sé da Guarda e administrador do bispado e prior de Povos. Este Diogo Fernandes Cabral, deão da capela do príncipe, a 2.1.1511 teve mercê de 300.000 reais pelo rendimento das terras de Diogo Lopes de Azevedo. E a 4.10.1516 Diogo Fernandes Cabral, capelão do rei e prior de Stª Mª de Povos, foi feito deão da Capela Real. A 9.11.1516, referido como deão da Sé da Guarda, teve a administração interina deste bispado, tendo falecido entre 16.5.1520 e 14.8.1521, como se documenta. Mas o Jorge Dias Cabral, arcediago de Campelo, nascido cerca de 1445, devia também ser filho de um Diogo Fernandes, o que poderá ter justificado a confusão. Com efeito, a 6.6.1480 D. Afonso V nomeou Lopo Cabral, moço da câmara da sua Casa, para o cargo de escrivão da fazenda régia e dos coutos na cidade do Porto, em substituição de Diogo Fernandes, seu pai, e de Antão Dias e João Pinto, seus irmãos, que morreram. Jorge Dias Cabral, arcediago de Campelo, devia ser irmão (mais velho) daqueles Lopo Cabral, Antão Dias e João Pinto. O pai, Diogo Fernandes, já tinha falecido em 1476 quando D. Afonso V doou vitaliciamente a Isabel Pinto, viúva de Diogo Fernandes, escrivão da fazenda régia na cidade do Porto, que morrera ao serviço do rei na batalha de Castro, enquanto sua mercê for, uma tença anual de 6.000 reais, a partir de 1476. Mas ainda vivia a 1.9.1475 quando o mesmo rei privilegiou Diogo Fernandes, escudeiro da sua Casa, escrivão da fazenda régia e dos contos na cidade do Porto, mandando que por sua morte ou impedimento, os seus ofícios fiquem a ser exercidos por Antão Dias, seu filho. Diogo Fernandes, então referido como escudeiro de João de Albuquerque, do Conselho, foi nomeado a 1.11.1451 para o cargo de escrivão dos contos régios na cidade do Porto, em substituição de Pedro Afonso, seu pai, que renunciara a favor de seu filho. E foi confirmado no cargo a 19.7.1456. Diogo Fernandes era portanto filho de um Pedro Afonso, apesar do desacerto patronímico. O nome Pinto usado por um dos filhos vem da mulher, Isabel Pinto. Resta saber se o nome Cabral também não vem por ela. Neste caso, Isabel Pinto não podia deixar de ser dos morgados da Casa Nova de S. Paio de Favões. Mais concretamente, filha de Álvaro Geraldes Pinto e neta de Júlio Geraldes (Cabral), corregedor de Entre-Douro-e-Tejo (era-o em 3.11.1365), que instituiu naquele seu filho o morgadio da Casa Nova de S. Paio de Favões, faleceu a 30.1.1381 e jaz sepultado no mosteiro de Vila Boa do Bispo. Voltando a Gregório Barbosa e sua 2ª mulher Catarina Dias Cabral, deles foi filho, entre outros, Jorge Barbosa (a quem as genealogias chamam Jorge Barbosa Cabral), nascido cerca de 1507 e falecido octogenário cerca de 1590, cavaleiro fidalgo da Casa Real, tabelião de Penafiel, onde viveu, bem assim como na quinta da Varziela, em Stº Estevão de Vilela. Vem com cavaleiro fidalgo da Casa d'el rei, natural e morador em Arrifana de Sousa (hoje Penafiel), freguesia do mosteiro de Vilela, na carta de armas do filho. Gaio diz que foi fidalgo da Casa Real e teve por sua mulher a quinta da Vraziela, em Stº Estevão de Vilela. Documenta-se como tabelião de Arrifana de Sousa (Penafiel). No casamento das filhas, em Stº Estevão de Vilela, diz-se que é morador com sua mulher Madalena Rangel no seu casal de Varziela, aparecendo como vivo a 10.9.1589 e já falecido a 28.1.1591. Mas o seu óbito não aparece em Stº Estevão de Vilela, pelo que terá falecido noutro sítio, possivelmente em Penafiel ou no Porto. É possível que seja o Jorge Barbosa, cavaleiro, de Arrifama de Sousa, que testemunhou um prazo do mosteiro de Arouca feito a Maria Barbosa, viúva de Rui de Couros, em 1533. Neste caso terá nascido cerca de 1507, falecendo velho com cerca de 83/85 anos. Casou com Madalena Rangel, senhora da dita quinta, que tudo indica que seja filha de D. Diogo Dias Rangel (de Macedo), comendatário do mosteiro de cónegos crúzios de Stº Estêvão de Vilela. Deste casamento nasceu cerca de 1557 Baltazar Barbosa Rangel, que a 12.3.1625 teve carta de armas para Barbosa, em pleno, sem diferença, onde consta como cavaleiro fidalgo da Casa Real, morador na sua quinta junto ao mosteiro de Chelas, natural de Arrifana de Sousa, filho legítimo de Jorge Barbosa, cavaleiro fidalgo da Casa d'el rei, e de sua mulher Madalena Rangel, naturais e moradores na dita vila, freguesia do mosteiro de Vilela, e neto de Gregório Barbosa, escudeiro fidalgo, já defuntos e moradores em Arrifana de Sousa (falta na carta a referência à mulher de Gregório, implícita no texto), os quais pais e avós são nobres e de grandes Casas e se trataram como fidalgos com criados e cavalos e armas para o serviço de Sua Majestade. Acrescenta que ele, Baltazar Barbosa Rangel, cavaleiro fidalgo, serviu nas partes de África muitos anos. Deste Baltazar foi irmão mais velho Gaspar Barbosa, sucessor na dita quinta da Varziela, onde faleceu a 25.5.1610, e que foi casar cerca 1578 a S. Cosme de Besteiros (Paredes), com Isabel de Couros, falecida a 4.8.1650 em Vilela, filha de Simão de Couros, escudeiro fidalgo e capitão do julgado de Aguiar de Sousa, senhor da quinta do Paço da Torre, em S. Cosme de Besteiros, onde faleceu com cerca de 92 anos a 13.3.1632, e de sua mulher Maria Carneiro, falecida a 2.7.1628, ib. Apesar de casado com uma Carneiro, provavelmente sua parente, este Simão de Couros era certamente dos Couros Carneiro do Porto, pois teve uma filha bastarda chamada Maria Carneiro, como se documenta nos paroquiais. Gaio diz que aquele Gaspar Barbosa teve a quinta do Paço da Torre, em Besteiros, do sogro Simão de Couros. De facto, Simão de Couros teve esta quinta do Paço, como se documenta. Mas Gaspar Barbosa não aparece nos paroquiais de S. Cosme de Besteiros, onde casou cerca de 1578 (os paroquiais começam em 1587), pois viveu em Vilela, onde faleceu, como ficou dito. E quem certamente herdou a quinta do Paço da Torre foi seu filho Estêvão Barbosa Carneiro, não directamente de Simão de Couros mas já de seu filho João Carneiro, que aí morreu sem geração a 1.5.1652, tendo-lhe este seu sobrinho Estêvão feito os bens de alma. Gaspar Barbosa deve ter sido dotado, no seu casamento com Isabel de Couros, com terras em S. Cosme de Besteiros, as quais por sua morte passaram a seu filho segundo Tomé Barbosa, que aí se documenta morador na quinta da Vidigueira, onde faleceu relativamente novo a 28.1.1630, portanto 2 anos antes do avô materno Simão de Couros, bem como sua mulher Victória Francisca da Franca, aí falecida pouco depois, a 30.3.1630. A quinta da Vidigueira tem capela particular, da invocação de Nª Sª do Rosário, instituída na 1ª metade do séc. XVIII por António Martins de Sampayo, tendo sido este Tomé Barbosa e sua mulher certamente os 1ºs senhores da quinta. Nas "Memórias Paroquiais" (1758) diz-se que a capela de Nª Sª do Rosário da quinta da Vidigueira era a única capela particular da freguesia. Diz o abade de Besteiros neste inquérito: "tem hua Capella da Quinta da Vidigueira sob invocação de Nª Srª do Rosário, nos limites da freguezia, que parte do Nascente, em a qual há obrigação de satisfação de legado de missa quotidiana de esmola de cem reis seguro na Casa da Misericórdia da Villa de Arrifana de Sousa pela tença e intenção dos instituidores donos da dª Quinta e liberdade de nomearem capelão e seus herdeiros, e na sua falta o Parº desta Igreja e a dª Misericórdia". De Tomé Barbosa e sua mulher foi filho sucessor Manuel Barbosa (1604-1668), e deste foi 6º neto e sucessor na quinta da Vidigueira o escritor António Augusto Teixeira de Vasconcellos (1816-1878). Vide também o meu estudo "Reflexões sobre a origem dos Rocha, dos Aguiã, dos Calheiros e dos Jácome".

4.4.2.1.4.    (b) Miguel Barbosa, que casou com Grácia da Rocha, segundo Gaio. É duvidoso e Alão não o refere.

4.4.2.2.     João Afonso Barbosinho, o Moço, tabelião de Penafiel (26.2.1445). A 26.2.1445 D. Afonso V nomeou João Afonso Barbosinho, o Moço, para o cargo de tabelião de Penafiel, em substituição de Gonçalo Anes, que renunciara (CAV, 25, 69). A 17.9.1484 D. João II confirmou João Afonso Barbosinho como tabelião de Penafiel (CJII, 22, 97).

4.4.2.3.     Gregório Barbosa, que era tabelião de Penafiel em 1500 e 1505, quando se documenta como tio de Marcos Barbosa. Conforme já ficou dito atrás, a 7.2.1500 Fernão Soares, escudeiro de Diogo Brandão, fidalgo da Casa d'el rei, foi nomeado tabelião do julgado de Penafiel do Sousa. Outorga devida a informação recebida de no julgado haver dois tabeliães contrariando as ordenações por serem parentes: Gregório Barbosa e Marcos Barbosa. Como o primeiro não vendeu o ofício, segundo as instruções do desembargador, o licenciado Pedro de Gouveia que ao andar pela comarca se apercebeu da irregularidade, perdeu-o e em seu lugar foi nomeado o beneficiário deste diploma. El-rei o mandou pelo doutor Rui Boto, do seu Conselho e chanceler-mor em seus reinos e senhorios (CMI, 12, 4 e 4v). E a 23.1.1505 Gil Rabelo teve mercê por se assim é do ofício de tabelião de Arrifana de Sousa. O Corregedor de Entre Douro e Minho, Dr. Álvaro Fernandes, dera 2 meses de prazo a Gregório Barbosa, tabelião, para vender o ofício - pelo não perder, segundo capítulo de Cortes - por ser seu sobrinho outro tabelião no mesmo lugar. E por já terem passados 2 anos sobre o termo do prazo, ficara o ofício vago (CMI, 23, 51v).

4.4.2.3.1.   Gregório Barbosa, que Gaio diz que foi pai de Pantaleão Barbosa, que vivia em Bemviver na sua quinta do Barreiro quando em 1586 testemunhou na justificação de nobreza de António Cerqueira, sendo referido como fidalgo da Casa Real e tendo 90 anos idade. Isto quer dizer que este Pantaleão nasceu em 1496, pelo que seu pai Gregório não terá nascido depois de 1470. Portanto, este Gregório não podia ser filho do Gregório Barbosa que lhe dá Gaio (o referido acima, irmão de Marcos), pois este nasceu justamente cerca de 1470. Assim, deve ser filho do Gregório Barbosa que leva por pai, tio do outro, que Gaio desconhecia e por isso confundiu com o sobrinho. E este Gregório Barbosa é que deve ter sido o que foi juiz dos órfãos de Bemviver (CJIII, 30, 33v; e 42, 14v) e procurador do número de Bemviver (CJIII, 53, 237v), e ainda o que foi tabelião de Sanfins (CJIII, 36, 139).

4.4.3.   Isabel Barbosa, nascida cerca de 1400, que levou em dote a quintã de Marrancos, no lugar do Paço, concelho de Penela. Casou cerca de 1420 com Rui Vasques Aranha, vassalo de D. João I, que o legitimou por carta real de 30.9.1389, onde consta como Rui Vasques Aranha, seu vassalo, filho "de huu clerigo d ordees sacras e de hua molher solteira", não identificados. Como explico no meu estudo “Uma linha Azevedo em Viseu”, Rui Vasques Aranha, nascido cerca de 1380, só podia ser filho de Vasco Gonçalves Aranha, portanto clérigo antes de 1380, e neto de Gonçalo Aranha e sua mulher Aldonça Anes Alvello. Este Gonçalo Aranha, cavaleiro, vassalo de D. João I, foi senhor do couto de Serzedelo (Lanhoso), por sua mulher, e teve a quintã de Vila Nova de Foz Côa e a terra de Parada (Prado). Com efeito, a 11.9.1384 o mestre de Avis doou a "gonçallo aRanha scudeiro" o foro de uma quintã que ele tinha em Vila Nova de Foz Côa, que era de 20 libras e quatro soldos, bem como de todos os foros que o rei tinha em Vila Nova de Foz Côa, e ainda a terra de Parada, no julgado do Prado, que ele trazia arrendada por 13 maravedis velhos. A 23.6.1386, o mesmo rei confirmou a "gonçallo aranha caualleyo nosso uasallo", que "soe casado com aldonça ans sua molher neta de gil mjz aluello", a quintã, couto "com honra no logo", senhorio e jurisdição de Serzedelo, no julgado de Lanhoso, que era herança dela e que Fernão Gomes da Silva, que tinha o castelo de Lanhoso e estava em deserviço, havia usurpado. Esta Aldonça Anes Alvello era a herdeira e chefe desta linhagem que usou um nome derivado de alcunha, família completamente distinta dos "de Alvellos", com que vulgarmente é confundida, e que são descendentes de D. Monio Ozores de Cabreira, igualmente tronco dos Vasconcellos. Gonçalo Aranha, nascido cerca de 1335, que não podia ser sobrinho mas sim tio do bispo do Porto D. João Afonso Aranha, o qual em 1389 ainda nem sequer é referido como clérigo, apenas morador no Porto, e só em 1392 é pela 1ª vez referido como cónego da Sé do Porto. Gonçalo Aranha seria assim irmão de um indocumentado Afonso Aranha (pai do bispo, sendo que este se documenta filho de Joana Domingues), de Gil Aranha, vassalo de D. João I, que a 22.9.1384 lhe fez doação do foro de todas as herdades que ele tinha em Castro Daire, no valor de 20 libras, e de João Fernandes Aranha, que a 28.8.1385 teve em préstamo as terras de Roças e Vila Boa, que a 25.6.1392 passaram a Nuno Viegas do Rego. As genealogias não concordam nem na ascendência nem na descendência de Rui Vasques Aranha e Isabel Barbosa, sendo que o que dizem não é sustentável, desde logo pela cronologia. Alão dá cinco filhos ao casal, a saber: outro Rui Vasques Aranha casado com Grácia da Rocha; Lopo Correa e Fernão Barbosa, ambos escudeiros do infante D. Henrique; Inez Barbosa casada com Pedro do Rego, c.g.; e Maria Barbosa casada com João do Rego, c.g. Sendo certo que os filhos de Rui Vasques Aranha e Isabel Barbosa teriam de ter nascido entre 1420 e 1440, destes só Lopo Correa e Fernão Barbosa são cronologicamente possíveis. Rui Vasques Aranha casado com Grácia da Rocha, que na verdade se documenta Isabel da Rocha, foram de facto pais, como diz Alão, do Doutor Pedro Barbosa, lente da Universidade de Coimbra, que nasceu em Viana em 1530, o que inviabiliza a filiação do pai. João do Rego, escudeiro do duque de Bragança, a 6.12.1501 teve mercê do ofício de escrivão da alfândega de Viana de Lima, porquanto Duarte Álvares, que o servia, fizera tais erros e cousas no ofício que o perdia para el rei, que o podia dar a quem sua mercê fosse. E o irmão Pedro do Rego, escudeiro, morador na vila de Viana, a 2 de Abril do mesmo ano teve mercê do ofício de juiz da alfândega e escrivão das sisas de Viana de Lima, por ser o mesmo ofício perdido por Pedro Gomes, que abusava da sua autoridade, nomeadamente por levar muito nas peitas aos moradores estrangeiros e também por mandar servir por si os ditos ofícios sem para isso ter licença. Mas Fernão Barbosa (nome do tio materno) e Lopo Correa (apelido da avó materna) são certamente filho de Rui Vasques Aranha e Isabel Barbosa, pois são o Fernão Barbosa e o Lopo Correa que a 21.2.1450 tiveram confirmação real do couto, honra e jurisdição da quintã de Serzedelo, no julgado de Lanhoso, bem como carta de privilégio para os seus lavradores, moradores e caseiros, sob pena do pagamento de 6.000 soldos para quem não cumprir com o determinado, referindo-se à antedita carta de D. João I de 23.6.1386. E certamente o Fernão Barbosa, fidalgo da Casa Real, que a 13.4.1475 teve mercê real para arrendar as suas rendas, segundo a Ordenação. E certamente o Lopo Correa, escudeiro de Fernão Soares de Albergaria, que foi coudel (19.1.1440) e juiz dos órfãos (22.4.1441 e 5.11.1555) do Prado e tabelião do cível do Prado, Vila Chã e Larim (20.4.1453). O que significa, também, que estão certos os genealogistas, como Belchior de Azevedo, que informam a existência de três homónimos Rui Vasques Aranha, um casado com Isabel Barbosa, outro casado com Maria Fernandes e outro casado com Isabel da Rocha. A sucessão de Fernão Barbosa e Lopo Correa em Serzedelo dá indicação de que Rui Vasques Aranha e Isabel Barbosa não tiveram outros filhos homens, pelo que o 2º Rui Vasques Aranha casado com Maria Fernandes deve ser filho deste Fernão Barbosa, o que viria solucionar o problema cronológico. Com efeito, não é crível que o avô paterno do antedito Doutor Pedro Barbosa, nascido em 1530, pudesse ter nascido cerca de 1425, mais de 100 anos antes. Assim, o 2º Rui Vasques Aranha, se foi filho de Fernão Barbosa, pode ter nascido cerca de 1450. Trata-se, portanto, do Rui Vasques Aranha, cavaleiro, criado do duque de Bragança e morador em Ponte de Lima, que a 21.10.1476 teve de D. Afonso V carta de privilégio de fidalgo para a comarca e correição de Entre-Douro-e-Minho. E quem era a sua alegada mulher Maria Fernandes, a quem Gaio, seguindo Belchior de Azevedo, chama Maria Fernandes Botelho, sem a entroncar nesta linhagem? Alão, que como vimos também faz grossa confusão quando trata o início desta gente, diz que o Rui Vasques Aranha casado com Isabel Barbosa era filho de um (…) Aranha, que “viveu em Entre Douro e Minho” e de sua mulher Maria Fernandes, filha de Afonso Rodrigues e sua mulher Leonor Dias, de Viana. Na verdade, como vimos, esse inicial Rui Vasques Aranha era filho de um clero, como se documenta na legitimação. E, como trato no meu “Ensaio sobre a origem medieval dos Boto”, aquela Leonor Dias Boto nasceu pouco antes de 1470 e faleceu em 1538 em Viana, tendo casado a 1ª vez com Fernão (não Afonso) Rodrigues do Cais e a 2ª vez com o célebre navegador João Álvares Fagundes. Se Maria Fernandes foi filha dela e de Fernão Rodrigues, não terá nascido muito antes de 1484. Podendo bem ter casado com o 2º Rui Vasques Aranha, nascido cerca de 1450, que em 1476 vivia em Ponte de Lima, e sobretudo ser mãe do 3º Rui Vasques Aranha, assim nascido cerca 1500, o que já concorda com o facto de este 3º Rui Vasques ter um filho nascido em 1530. Resta dizer que Gaio dá ao casal Rui Vasques Aranha e Isabel Barbosa vários outros filhos não referidos por Alão, mas todos inviáveis. Contudo, há um que convém aqui tratar: Álvaro Barbosa Aranha. Segundo Gaio, este Álvaro foi senhor da quintã de Marrancos, a que portanto sucedeu a sua mãe, e casou com Genebra ou Guiomar Pereira do Lago, filha de Pedro Comes Pereira do Lago e sua mulher Catarina Álvares Fagundes. Alão também dá Álvaro Barbosa Aranha como senhor da quintã de Marrancos e casado com Genebra Pereira, filha de Pedro Gomes Pereira, “um homem honrado, que veio das partes de Monção para Viana; e presume-se que era dos Pereiras do Lago”, e de sua mulher Catarina Álvares Fagundes. Sendo que aquela Genebra Pereira era irmã de Ana Pereira casada com António Fernandes do Cais, irmão da antedita Maria Fernandes, erradamente dada como mãe do inicial Rui Vasques Aranha e que aqui dou como mulher do 2º Rui Vasques Aranha. Quer isto dizer que Álvaro Barbosa Aranha casou com uma concunhada de Rui Vasques Aranha II, o que indicia que este Rui Vasques e Álvaro Barbosa Aranha eram não só da mesma geração mas certamente irmãos, portanto ambos filhos de Fernão Barbosa e netos de Rui Vasques Aranha I e Isabel Barbosa. Alão, que não sabia da existência de Fernão Barbosa como filho sucessor de Rui Vasques Aranha I, dá Álvaro Barbosa Aranha como filho de um inexistente Rodrigo Barbosa Aranha, que não entronca e a quem não indica mulher. É contudo duvidoso que Álvaro Barbosa Aranha tenha sucedido na quintã de Marrancos, pois Gaio diz que esta quintã foi julgada a 1.4.1637 a um bisneto deste Álvaro. De Álvaro Barbosa Aranha e de Rui Vasques Aranha II devem ainda ser irmãs as mulheres de João do Rego e Pedro do Rego que ficaram referidos atrás.

4.4.4.   Beatriz Barbosa, segundo as genealogias, que teria casado com Estevão Gonçalves (de Novais ou Varela), o Justeiro, sobre quem Gaio diz o seguinte: "diz o Reitor de Morufe, que não casara mas que tivera de Estevão Gonçalves Capelão que foi da Casa de seu pai, com a qual fugira para Coura e moraram no lugar de Lapela, ou Capela com tanto recato que nunca seu pai o soube, nem o pode descobrir, e julgando que nas suas vizinhanças não podia haver quem tivesse o atrevimento de lhe roubar sua filha mais o Comendatário do Carvoeiro, estando firme neste conceito de que ele tinha roubado quando o mesmo Comendatário passava para Braga lhe saiu ao caminho com Criados com lanças, e Adargas, e o matou as lançadas sobre umas lages que muitos anos concervaram o sangue daquele inocente, na frase dos Lavradores, e trazendo o dito Comendador um rico colar de ouro ao pescoço um criado do dito Gonçalo Fernandes Barboza lho tirara por cujo facto ficara seu amo culpado por ladrão, e salteador, e matador, e por isto lhe tiraram todas as merces e privilégios, e regalias da casa, e foi o princípio da ruína da casa: o Ab.e de Esmeriz no ttº de Barbozas diz que esta Brites Barboza fora casada com Estevão Gonçalves Justeiro, a que outros chamam Gesteiro, e diz mais que indo depois da morte de Gonçalo Fernandes Barbosa seu filho para aquelas partes, e anoitecendo lhe no lugar da Lapela onde morava o dito Estevão Gonçalves Justeiro lembrando-se dele que tinha sido criado da sua casa se foi a ela recolher, ignorando que ele lhe tinha furtado a irmã Brites Barbosa, e entrando pela porta dentro conhecendo a irmã esta, e Estevão Gonçalves se lhe lançaram aos pés a pedir-lhe perdão, e igualmente os filhos, e que ele enternecido das lágrimas lhe perdoara, e os trouxera consigo para Aborim, e apresentara no dito Estevão Gonçalves Justeiro já viúvo a Igreja de S. Miguel de Fontoura, e S. Julião da Silva: era o dito Estevão Gonçalves Justeiro dizem uns da família dos Novaes, e outros dizem ser da família dos Varelas de Salamanca, outros dizem que ele tomara o apelido de Justeiro (dizem se chamava Justeiro por ser grande Justador) por ser natural do lugar da Gesteira em Coura, e que era pessoa Principal, e Padroeiro da Igreja de S. Maria de Linhares, e de Ferreira no concelho de Coura, e que não fora criado de Gonçalo Fernandes Barbosa, mas muito seu privado, por cuja amizade lhe furtara a filha".

4.4.5.   Pedro Barbosa, escudeiro, nascido cerca de 1404. A 13.5.1444 D. Afonso V perdoou a justiça régia e concedeu carta de segurança a Gil Gonçalves, criado de Pedro Barbosa, pela fuga da prisão, contanto que se livre de direito do que era acusado. Casou com Senhorinha Anes Vieira, filha de João Gonçalves Vieira, criado de D. João I, procurador do número e contador de Guimarães. A 1.3.1435 D. Duarte confirmou João Gonçalves Vieira, criado de D. João I, como procurador do número e contador de Guimarães, e a 5.8.1439 D. Afonso V reconfirmou-o no cargo.

4.4.5.1.     João Barbosa, nascido cerca de 1432, escudeiro da Casa de Bragança, morador em Ponte de Lima e senhor da quinta de Penteeiros, no termo de Ponte de Lima, entre S. Pedro de Arcos e Estorãos. A 9.11.1458 D. Afonso V confirmou a João Barbosa, escudeiro da Casa do duque de Bragança, todos os privilégios, honras, tomadias e liberdades que tem numa quinta no termo de Ponte de Lima, entre S. Pedro de Arcos e Estorãos. Casou com Violante de Magalhães, da quinta de Mato Bom, na freguesia de Estorãos, referida no meu Ensaio sobre a origem dos Magalhães, irmã de Leonor de Magalhães, que sucedeu nesta quinta, ambas filhas de Paio Rodrigues de Magalhães.

4.4.5.1.1.    Isabel Barbosa, nascida cerca de 1462, que levou em dote a quinta de Penteeiros e foi a 1ª mulher (casados cerca de 1480) de seu parente Fernão de Souza de Magalhães, fidalgo da Casa Real, alcaide-mor de Ervededo (12.13.1477), capitão e fronteiro de Salvaterra do Minho (21.12.1483), que a 30.6.1486 teve carta de privilégio de fidalgo, etc., filho segundo dos 1ºs senhores de Ponte da Barca. Terá sido este Fernão de Souza, como em geral aparece documentado, que mandou fazer a actual casa da quinta de Penteeiros, claramente quatrocentista, onde colocou uma pedra com as suas armas (Souza, ditos de Arronches, em pleno). Com geração conhecida.

4.5.    Isabel da Cunha (ou Correa), que casou com Rui Vasques, senhor da quintã do Crasto e da torre de Penaboa, em S. Martinho de Cavalões (Vermoim), como refere a Corografia Portuguesa, c.g.

4.6.    Aires Correa, n. cerca de 1388, cavaleiro da Ordem de S. João (Rodes) e comendador e alcaide-mor de Algoso nesta ordem e parece que também comendador de Távora na Ordem de Cristo. A 5.3.1442 D. Afonso V, na sequência do preito e menagem que lhe foi feito por Aires Correa, comendador de Algoso, por seu procurador João Correa (seu irmão), recebeu-o por alcaide do castelo. Teve uma filha natural, que foi dotada por João Correa, comendador de Poiares, irmão deste Aires, referido acima.

4.6.1.   Tereza Correa, nascida cerca de 1424, que em 1441 foi dotada em Guimarães por seu tio João Correa, comendador de Poiares, com os prazos de Escariz e Paredes, para casar com Afonso Botelho. (Na imagem: escudo de armas dos Botelho - infografia do autor) Alão não entronca este Afonso Botelho e Gaio dá-o anacronicamente como filho de Afonso Armas dos Botelho (infografia de Manuel Abranches de Soveral)(Martins) Botelho e sua mulher Mécia Vasques de Azevedo. Como já referi nas "Ascendências Visienses" [15],  este Afonso Botelho é seguramente o que a 12.6.1445 é referido como escudeiro e criado do conde de Vila Real quando obteve carta de perdão real da acusação de ter morto um Fernão Gonçalves. A 25.11.1446, sendo dito morador em Vila Real, teve carta de privilégio de fidalgo. A 11.11.1451 D. Afonso V privilegiou Afonso Botelho, colaço da condessa de Vila Real, e a pedido dela, concedendo-lhe licença para andar de besta muar de sela e freio por todo o reino e senhorio. E a 14.2.1475 ainda é referido como escudeiro do conde de Vila Real, e filho de Afonso Botelho, cavaleiro da Casa do dito conde, quando teve do rei uma tença de 4.000 reais de prata pelos serviços prestados na conquista de Arzila. Nascido cerca de 1416, Afonso Botelho teria 80 anos em 1496, pelo que dificilmente é o Afonso Botelho, escudeiro, morador em Vila Real, que a 7 de Abril desse ano foi confirmado por D. Manuel I como juiz das sisas nessa vila, assim e pela maneira como já era por carta de D. João II (em cuja chancelaria, contudo, não consta a nomeação). Mas a alternativa, que seria tratar-se do seu neto homónimo sucessor, também não é viável, pois este nasceu cerca de 1471/2, sendo portanto demasiado novo para ser juiz das sisas no reinado de D. João II, além de que foi nomeado para este cargo no reinado de D. João III. Quanto à ascendência de Afonso Botelho, temos, portanto, que foi filho de outro Afonso Botelho, referido em 1475 como cavaleiro da Casa do conde de Vila Real, ano em que ainda poderia estar vivo, mas muito velho, e de sua desconhecida mulher, que foi ama-de-leite da condessa de Vila Real D. Beatriz de Menezes, uma vez que o filho Afonso Botelho era seu colaço. Quanto a Afonso Botelho, o pai, nascido cerca de 1385, era filho mais novo de Diogo Afonso Botelho e sua 2ª mulher Maria Fernandes Carvalho. Diogo Afonso Botelho, nascido cerca de 1323 e falecido depois de 1385, em 1339 aparece como infançãona lista dos padroeiros de Mancelos, com seu irmão e sua mãe, e em 1344 documenta-se como escudeiro e vassalo do rei. Em 1365 não aparece na lista de Grijó, ao contrário do que acontece com seu irmão, mas não teria já falecido, como suspeita Pizarro, pois casou 2ª vez cerca de 1375. O mais provável é que estivesse fugido em Castela, por desentendimentos com D. Pedro, tendo regressado depois de 1367 com o reinado de D. Fernando. Casou a 1ª vez cerca de 1344 com Inez Martins, senhora da quinta do Varatojo, c.g. Em 1344 Mestre Pedro, cirurgião, e sua mulher Maria Gonçalves, compraram uma quinta em Varatojo, no termo de Lisboa, a Diogo Afonso Botelho, escudeiro, vassalo del-rei, e a sua mulher Inez Martins, moradores em Paços, termo de Vila Real. em Paços, termo de Vila Real, onde vivia em 1344, é certamente a quintã do Paço ou de Paços, em Borbela, termo de Vila Real, também chamada Paços de Borbela, quinta que estava na posse da sua descendência. Diogo Afonso Botelho e seu irmão Martim Afonso Botelho eram filhos de Afonso Martins Botelho, nascido cerca de 1300 e já falecido em 1339, e de sua mulher Mécia Vasques de Azevedo, que já é referida com seus irmãos em 1329 na lista dos naturais de Vilar de Porcos, e que casou entretanto, pois na lista dos naturais de Mancelos de 1339 já aparece viúva, entre os infanções, com os ditos seus filhos Diogo Afonso e Martim Afonso Botelho, que teriam então entre 7 e 9 anos de idade. Portanto, o Afonso Botelho em epígrafe não era filho de Mécia Vasques de Azevedo, como diz Gaio, mas sim seu bisneto! Aquele Afonso Martins Botelho, já falecido em 1339, deixando filhos menores, que terá nascido cerca de 1300 e diz o LL "que matarom em Aguiar de Campos", era irmão do Martim Martins “Barva” que casou com Inez Vasques de Rezende [16], ambos filhos de Martim (Peres) Botelho [17], e de sua mulher Joana Martins de Parada, e netos paternos de Pedro (Martins) Botelho [18], alcaide-mor de Sortelha, e de sua mulher Dórdia Martins de Bulhão, ou de Lisboa, que depois casou com João Raimundes de Portocarreiro, que era alcaide-mor de Lisboa em 1278. 

4.6.1.1.     Pedro Botelho, nascido cerca de 1443 em Vila Real, (S. Dinis), que tirou ordens menores em Braga [29] a 5.4.1455. Foi alcaide-mor de Vila Real e sucessor nos prazos de Escariz e Paredes. Casou com Catarina Álvares Taveira.

4.6.1.1.1.    Afonso Botelho, que tirou ordens menores em Braga [30] a 7.7.1478 como Afonso Pires Botelho, foi alcaide-mor e juiz das sisas de Vila Real e sucessor nos prazos de Escariz e Paredes, tendo tirado carta de armas para Botelho a 25.10.1531 (CJIII, 73, 8). Casou com Genebra Pereira de Sampayo, com geração.

4.6.1.2.     Isabel Botelho Correa [20], nascida em 1447 em Vila Real e fal. cerca de 1490. Casou a 1ª vez cerca de 1461 com João Afonso de Proença [19], escudeiro, coudel de Tarouca, Mondim da Beira e Valdigem, senhor dos dízimos e padroado da igreja de Mondim da Beira (Tarouca), etc., c.g. que trato no meu Ensaio sobre a origem dos Proença. Casou a 2ª vez cerca de 1480 com Diogo da Mesquita, pajem do marquês de Vila Real, c. g. que trato no meu meu Ensaio sobre a origem dos Mesquita.

4.6.1.3.     Aires Botelho, nascido em Vila Real (S. Dinis) cerca de 1449, tirou ordens menores em Braga [31] a 11.6.1457. 

4.6.1.4.     Diogo Afonso Botelho, nascido em Vila Real (S. Dinis) cerca de 1453, tirou ordens menores em Braga [32] a 4.10.1461.

4.6.1.5.     Mécia Correa Botelho, filha tardia, nascida em Vila Real (S. Dinis) cerca de 1462 e fal. cerca de 1530, ib. Casou com o Doutor Pedro Ribeiro, secretário do arcebispo de Braga D. Diogo de Souza, etc., senhor da quinta do Paço, em Borbela, termo de Vila Real, padroeiro dos mosteiros de Borbela e Lama (Braga), etc.

4.6.1.5.1.    Isabel Ribeiro Botelho, nascida cerca de 1487 em Vila Real e falecida cerca de 1566, ib. Casou cerca de 1505, ib,com Diogo Rodrigues de Barros, alcaide-mor e das sacas de Vimioso, que tirou ordens menores em Braga [33] a 12.3.1502, filho de Gonçalo Vaz do Rego, alcaide-mor e das sacas de Vimioso (28.6.1496) [34] , e de sua mulher Isabel de Barros. Com geração nos Botelho Machado, de Viseu, numa linha Correa Botelho, de Vila Real, e nos Correa Botelho Pacheco Pereira, do Porto.

4.7.    Maria Correa, nascida cerca de 1390 e falecida antes de 1450, que foi a 1ª mulher de Francisco Anes de Torres, com quem casou cerca de 1408. Francisco Anes de Torres foi cavaleiro fidalgo da Casa Real e morgado de Ponte da Ceira, em Coimbra (1.2.1450), tendo casado 2ª vez com Violante Álvares de Sequeira, ama da rainha D. Isabel. A 1.2.1450 D. Afonso V doa perpetuamente a Francisco Anes de Torres, cavaleiro da Casa da rainha D. Isabel, a pedido da mesma, o morgado da Ceira, situado no termo da cidade de Coimbra, com todas suas entradas, saídas e pertenças, rendas e direitos, que pertencia a Diogo Gonçalves de Travaços. A 21.3.1452 o mesmo rei doa a Francisco Anes de Torres e a sua mulher Violante Álvares uma tença anual de 12.000 reais de prata. E a 29.3.1454 doa a Francisco Anes de Torres, cavaleiro da sua Casa, para sempre, a quinta de S. Pedro Fins, no termo de Montemor-o-Velho, do almoxarifado de Coimbra, com todas as suas rendas e direitos entradas, saídas, foros, pertenças e couto. Finalmente, a 1.9.1462 Dom Afonso V autoriza a igreja de S. Tiago de Coimbra a receber os bens de raiz que lhe deixara em testamento Violante Álvares de Sequeira, moradora em Coimbra, ama da rainha D. Isabel.

4.7.1.   Beatriz Correa, que casou cerca de 1425 com Gonçalo Teixeira, cavaleiro fidalgo da Casa Real, monteiro da Casa Real (antes de 1446), almoxarife da portagem da cidade de Lisboa e coudel da vila de Alenquer. A 18.7.1446 D. Afonso V nomeia Gonçalo Teixeira, escudeiro da sua Casa, que fora monteiro régio, para o cargo de almoxarife da portagem régia da cidade de Lisboa, em substituição de Garcia Afonso, que morrera. A 26.8.1451 o mesmo rei nomeia novamente Álvaro Pires, morador em Lisboa, escudeiro de Gonçalo Teixeira, cavaleiro, almoxarife da portagem da dita cidade e a seu pedido, para o cargo de requeredor da portagem nessa cidade. E a 16.6.1455 nomeia por 5 anos Gonçalo Teixeira, almoxarife da portagem de Lisboa, para o cargo de coudel da vila de Alenquer e seu termo, em substituição de João de Avelar, que acabou o tempo de exercício do cargo. Era filho de Vasco Gonçalves Teixeira e sua mulher Catarina Anes de Berredo.

4.7.1.1.     Martim Gonçalves Teixeira

4.7.1.2.     João Teixeira, almoxarife da portagem de Lisboa antes de 4.5.1481, como se diz adiante

4.7.1.3.     Aires Correa, fidalgo da Casa Real e almoxarife da portagem de Lisboa. A 4.5.1481 D. Afonso V nomeou Aires Correa, fidalgo da sua Casa, para o cargo de almoxarife da portagem da cidade de Lisboa, em substituição do seu irmão João Teixeira, a quem o rei retirou o cargo. Com geração nos Correa Baharem. Deste Aires diz Gaio que foi filho mais velho Frei Vasco Correa, provincial da Ordem de S. Francisco. Deve ser o Vasco Correa, moço fidalgo da Casa Real, que a 8.7.1501 teve com sua mãe mercê de ofício de 20.000 reais de prata anuais, para ajuda da criação dele e dos irmãos, sendo filho de Aires Correa, fidalgo da Casa Real, que tinha falecido na Índia, onde o rei o mandara como seu feitor. A 25.4.1504 a mulher de Aires Correa teve mercê real de umas terras nas lezírias de Vila Franca de Xira, como trazia seu falecido marido e pelo foro que ele pagava. O filho sucessor foi António Correa, referido como moço fidalgo e filho de Aires Correa quando a 12.3.1518 vendeu a Jorge de Albuquerque a dita tença de 20.000 reais, que tinha tido a 11.8.1505, certamente por seu irmão mais velho ter professado.

4.7.2.   D. Maria Correa, que julgo filha de Maria Correa. Foi abadessa do mosteiro de Stª Clara de Lisboa e ainda vivia a 18.5.1451, quando D. Afonso V privilegia D. Mécia Telles, abadessa do mosteiro de Stª Clara da cidade de Lisboa, autorizando que à morte de D. Maria Correa, que fora abadessa nesse mosteiro, possa usufruir da sua marinha em Alcácer.         

5.           Gonçalo Correa, senhor de juro e herdade das freguesias de Viatodos e de S. Pedro do Monte e dos casais de Vila Meã, com suas jurisdições (ou seja, senhor de Fralães), por morte de seu pai Fernando Afonso Correa, com cartas de confirmação de 4.12.1433 e de 20.7.1449. Sucedeu ainda como senhor de juro e herdade de Riba de Mouro e de Valadares, tendo trocado esta última por Cunha-a-Velha e seus casais a 22.12.1411 (CJI, 3, 131v). A 9.12.1449, sendo referido como Gonçalo Correa, criado de D. João I, teve confirmação do escambo que fizera com este rei (G.XII,7,4) das terras de Cunha-a-Velha e seus casais, no almoxarifado de Guimarães, pela terra de Valadares, no almoxarifado de Ponte de Lima, o que já lhe fora confirmado por D. Duarte a 21.11.1433. Não sucedeu no préstimo de Gondomar, que talvez também tenha trocado, pois a 2.12.1433 D. Duarte doa-a a seu camareiro-mor Fernão de Sá. Gonçalo Correa nasceu cerca de 1380 e casou cerca de 1419 com Branca Rodrigues Botelho, segundo Afonso de Torres, Alão e a CP, que a não filiam. Mas é certamente a Branca Rodrigues que,  com seus irmãos Álvaro Botelho, Aires Botelho e Pedro Botelho, foi legitimada por carta real de 3.1.1398, todos como filhos de Pedro Botelho, craveiro da Ordem de Cristo, e de Joana Rodrigues, mulher solteira. Um dia antes da referida legitimação, D. João I doou a Pedro Botelho, seu criado, "por muitos serujços que recebemos daquelles donde el descende e del", umas casas em Coimbra, na Almedina, "acima de sam bras", bem como as casas da Falcoaria, na Almedina, em que morava João Anes Gago, determinando que por sua morte possam ficar a seu irmão Álvaro e por morte deste a seu irmão Aires, e depois passem para "o primeiro filho ou neto de cada huu dos dictos jrmaãos sempre o mayor", se os tiverem. Dá assim ideia que estava fora de causa que Pedro Botelho pudesse ter filhos, talvez por ser clérigo. De um dos irmãos, Álvaro ou Aires, é certamente filho o Pedro Botelho, cavaleiro fidalgo da Casa Real, vedor da Fazenda (até 8.5.1475, dada em que foi substituído no cargo por seu cunhado o 2º conde de Abrantes), que parece foi alcaide-mor de Pombal (cargo em que se documenta o filho) e vem referido como cavaleiro, regedor e ouvidor da Casa do Cível, quando a 23.8.1476 teve mercê real de uma tença anual de 20.000 reais de prata, e como comendador da Ordem de Cristo quando a 4.3.1475 D. Afonso V lhe dá licença para arrendar por três anos as suas comendas. Este Pedro Botelho casou com Briolanja de Almeida, filha bastarda do 1º conde de Abrantes, com geração nos senhores do paço da Torre de Figueiredo das Donas. E irmão deste Pedro Botelho é certamente o  Lopo Botelho que com sua mulher Leonor Gil vivia em Santa Maria de Pombal, do bispado de Coimbra, quando o filho de ambos, Lopo Lopes, tirou em Braga a 24.4.1451 ordens menores, com licença de seu maior (pelo que era professo ou noviço).

5.1.    Gonçalo Correa, sucessor como senhor de juro e herdade das freguesias de Viatodos e de S. Pedro do Monte e dos casais de Vila Meã, com suas jurisdições (ou seja, senhor de Fralães), bem assim como senhor de juro e herdade de Riba de Mouro e Cunha-a-Velha e seus casais. Foi também meirinho-mor da comarca de Entre-Douro-e-Minho. A 21.10.1475 D. Afonso V nomeou vitaliciamente Gonçalo Correa, fidalgo da Casa do duque de Bragança, para o cargo de meirinho-mor da comarca de Entre-Douro-e-Minho. E a 28.3.1480 nomeou Diogo de Vera, escudeiro da sua Casa, para o cargo de meirinho na comarca e correição de Entre-Douro-e-Minho, com o mantimento ordenado, em substituição de Gonçalo Correa, que morrera. Gonçalo Correa nasceu assim cerca de 1420 e faleceu em 1480, com cerca de 60 anos de idade. A 18.8.1473 teve autorização do rei para vender ou escambar a terra de Cunha-a-Velha e seus casais, e de facto vendeu-a, com autorização de seu filho Paio Correa, a Fernando Anes das Póvoas, mercador do Porto, com seus casais, terras, rendas, foros, direitos e pensões por 100.000 reais de seis ceitis cada um, tendo recebido 250 cruzados de ouro. A escritura foi feita a 12.8.1473 em Lisboa, nas casas de João Correa, cavaleiro, vereador da cidade, e Isabel Dias de Castello-Branco, sua mulher, e confirmada pelo rei a 12.9.1473, como tudo se vê na documentação junta à carta real de 3.5.1500 que confirma a Rui Mendes, cavaleiro da Casa Real, o senhorio de Cunha-a-Velha, por compra ao dito Fernando Anes das Póvoas. Gonçalo Correa  casou, segundo Afonso de Torres e  Alão, com Margarida do Prado, filha de Bartolomeu Afonso do Prado e sua mulher Maria Esteves, moradores no Porto, como diz Alão, ou de João Afonso do Prado e sua mulher Beatriz Pimenta, como também diz a CP.

5.1.1.   Paio Correa, que nasceu cerca de 1455 e foi o filho mais velho, pois dele o pai precisou de autorização para vender em 1473 o senhorio de Cunha-a-Velha. Mas terá fal. solt. ou, pelo menos, sem geração, pois sucedeu o irmão.

5.1.2.   Maria da Cunha, que casou com Febus Moniz, que a 21.5.1482 teve mercê de 10.000 reais de tença, a 4.12.1482 mercê de bens em Viana (de Caminha), e era vereador do Senado da Câmara de Lisboa quando a 15.8.1502, juntamente com Lopo Soares e D. Pedro de Castelo Branco, foi procurador desta cidade às cortes que juraram o príncipe D. João como herdeiro do trono. C.g.

5.1.3.   Leonor Correa, que casou com Martim de Távora, mestre-sala da rainha D. Isabel, s.g.

5.1.4.   Isabel da Cunha, que casou com Álvaro Telles Barreto, capitão de Chaul que serviu em Arzila em 1503, talvez o Álvaro Telles que a 15.6.1513 teve provisão de D. Manuel I para o receber em Lisboa  20.000 reais que se lhe devia de pimenta, e o Álvaro Telles, fidalgo da sua casa, a quem a 10.7.1514 D. Manuel I manda o recebedor do seu tesouro dar 25.000 reais que eram devidos da compra da sua pimenta.

5.1.5.   Diogo Correa, sucessor, fidalgo da Casa do duque de Bragança, que foi ainda alcaide-mor de Porto de Mós pelo dito duque (depois de 1516) e nasceu cerca de 1465. A 30.12.1516, no tabelião do público e judicial de Barcelos (pelo duque de Bragança) Álvaro Nunes, Diogo Correa e Francisco da Cunha, alcaide-mor em Porto de Mós, ambos fidalgos da Casa do duque de Bragança, fizeram um contrato de solene estipulação nos seguintes termos: Francisco da Cunha consentia e comprometia-se a aceitar que Diogo Correa ficasse senhor dos bens de raiz que ele Francisco da Cunha herdará por morte de sua mãe Margarida de Prado, tendo recebido em troca 40.000 reais de Diogo Correa. Talvez seja o Diogo Correa que entre 1510 e 1521 foi capitão de Cananor, se bem que é de 2.12.1513 uma carta de Afonso de Albuquerque dando parte ao rei que nomeou Diogo Correia como capitão de Cananor, enquanto o rei não nomeava outro. Podendo ainda ser o Diogo Correa que era anadel-mor dos espingardeiros quando a 28.4.1527 passou recibo em que diz ter recebido do feitor um cruzado, e o que a 11.8.1527 teve provisão do governador Lopo Vaz de Sampaio para receber 100 pardaos em tangas. E ainda o Diogo Correia que a 24.3.1508 teve alvará para receber 1.000 cruzados de ouro. E ainda o Diogo Correa, escudeiro da Casa Real, que a 11.1.1496 foi nomeado coudel de Tomar. Casou em 1509 com Isabel Pinheiro (ou Pereira), nascida cerca de 1594, filha de Álvaro Pinheiro (Lobo), o Velho, alcaide-mor de Barcelos pelo duque de Bragança, que a 5.8.1484 teve de D. João II uma tença de 15.000 reais, e de sua mulher D. Joana (Pereira ou de Lacerda), com geração nos Correa Pereira de Lacerda, senhores de Fralães. Com efeito, a 10.5.1509 fizeram-se partilhas dos bens de Nuno Pereira e ao acto compareceu o neto Henrique Pinheiro, pois sua mãe D. Joana já tinha falecido, com procurações de suas irmãs D. Filipa Pereira, D. Isabel Pereira, D. Maria Pereira, "dona" de Santos, e D. Helena, menores que estavam sob o poder de seu pai Álvaro Pinheiro, conforme refiro em Reflexões sobre a origem dos Pinheiro, de Barcelos. E a 13.11.1509 o rei fez mercê a Nicolau Fernandes, escudeiro, morador em Tavira, de um aforamento que João Lopes da Costa, cavaleiro, e sua cunhada Isabel Pinheiro, e o marido desta, Diogo Correa, perderam por fazerem a compra sem autorização. De Diogo Correa e sua mulher Isabel Pinheiro (como aqui se documenta), foi filho sucessor Belchior Correa, que faleceu sem geração, sucedendo-lhe seu irmão António Pereira Correa. A 5.9.1569, no tabelião de Barcelos Francisco de Mariz, fez-se o auto pelo qual António Pereira Correa tomou da honra e casais da quintã de Fralães, por morte de seu irmão Belchior Correa.

 

 

 

A mítica origem dos Lacerda portugueses

Os netos de Diogo Correa e D. Isabel Pereira começam a usar o nome composto Correa de Lacerda, que se manteve por muitas gerações, se bem que existam outras origens para a mesma conjugação de nomes, como por exemplos a dos descendentes de Fernão Correa e sua mulher D. Isabel Cardoso (filha de Nuno Cardoso e sua mulher D. Guiomar Pereira ou de Lacerda), que também a usaram.
Este nome Lacerda surge inopinadamente em Portugal nos finais do séc. XV no seio de uma família cujos ascendentes não só não o usam como ostentam apelidos diferentes. E aparece a primeira vez em dois primos contemporâneos, ambos filhos segundos, numa família Serpa que já então não usava o nome da sua linhagem, preterido pelo nome Pereira, mais ilustre, que lhe vinha por via feminina.
O Livro de Linhagens do Século XVI, cioso do conceito de linhagem e, portanto, das varonias, não trata estes Pereira por fêmea, radicados no Alentejo, sobretudo na Serpa original.
Os referidos dois primos foram Manuel de Lacerda e Esplandião de Lacerda. O primeiro já era fidalgo da Casa Real quando a 22.2.1517 foi servir na Índa, com autorização real para levar vinte quintais de marfim e seis de coral (RCI, MI, I, 174). A
17.5.1523 teve mercê da capitania de Goa (ib, II, 219), cargo que ocupava a 1.5.1527. O segundo, Esplandião ou Esplendião (Esplendiam), teve de D. João III cinco moios de trigo de tença (CIII, 67, 85). Eram filhos, respectivamente, de Reimão Pereira e Diogo Nunes Pereira e netos de Rui Dias de Serpa e de seu irmão Nuno Pereira, sendo estes filhos de Diogo Nunes de Serpa e sua mulher Beatriz (Gonçalves) de Abreu. É portanto a este Diogo Nunes de Serpa que os bisnetos foram necessariamente buscar a origem comum do nome Lacerda, raciocínio que terá levado os genealogistas posteriores a atribuir a este Diogo uma fantasiosa filiação num não menos fantasioso Martim Gonçalves de Lacerda, que teria casado com D. Violante Pereira, filha natural do prior do Crato D. Álvaro Gonçalves Pereira.
Logo pela onomástica se vê que estes pais não podiam nunca ter um filho chamado Diogo Nunes. De resto nem a cronologia o permite.
A 15.5.1393 D. João I doou a Diogo Nunes de Serpa, cavaleiro seu vassalo, para si e seus sucessores, todos os bens móveis e de raiz que tinha Vasco Rodrigues, que foi almoxarife em Beja e andava em deserviço. Este Diogo Nunes de Serpa foi ainda senhor da quintã da Torre Velha, em Serpa.
De Diogo Nunes de Serpa foi filho Álvaro Gonçalves de Serpa, escudeiro de D. João I e senhor da dita quintã da Torre Velha, em Serpa. A 13.7.1395 D. João I doou a Álvaro Gonçalves de Serpa, seu escudeiro, para si e seus descendentes, umas casas na vila de Serpa, depois de a 20.4.1384 lhe ter dado em préstamo essas ou outras casas em Serpa a Álvaro Gonçalves de Serpa, criado d'el rei D. Fernando, "assy como as trazia seu padre em prestemo do dcto rey dom fernado".
De Álvaro Gonçalves de Serpa foi filho outro Diogo Nunes de Serpa, cavaleiro da Casa do infante D. Fernando, que sucedeu na quintã da Torre Velha, em Serpa. A 15.9.1454 D. Afonso V doou novamente a Diogo Nunes, cavaleiro do infante D. Fernando, os bens que haviam sido dados a Rui Dias, compensando este com o serviço novo dos judeus de Estremoz. Este Diogo Nunes de Serpa casou em 1417 com Beatriz (Gonçalves) de Abreu, filha de Gonçalo Anes de Abreu, senhor de Castelo de Vide, Monforte, etc. A 20.5.1417 D. João I confirmou a Diogo Nunes de Serpa a quinta de Armenta, junto a Sacavém, que seu sogro Gonçalo Anes de Abreu, seu vassalo, lhe deu em dote de casamento, quinta que fora de Lopo Fernandes Pacheco e este perdera, tendo-a o dito rei doado de juro e herdade ao dito Gonçalo Anes de Abreu (CJI, 3, 102v). Estes foram pais de Rui Dias de Serpa e de Nuno Pereira. A 28.8.1455 D. Afonso V privilegiou Rui Dias de Serpa, fidalgo da sua Casa, coutando-lhe a seu pedido uma quintã no termo da vila de Serpa a que chamam Torre Velha, tal como a tiveram seu avô e pai. A 22.12.1455 o mesmo rei perdoou a Rui Dias de Serpa, Nuno Pereira, seu irmão, João da Fonseca, Rui Pais, Álvaro Vasques e a João Martins, todos moradores na vila de Serpa, o tempo que lhes falta cumprir de um ano de degredo a que tinham sido condenados por umas mortes que tinham feito em Serpa, numa contenda com João de Mello.
Rui Dias de Serpa e os seus (entre eles seu irmão mais novo Nuno Pereira) tiveram um grave conflito em Serpa com João de Mello e os seus, de que resultaram várias mortes e mais de uma vintena de cartas de perdão de 1452 para escudeiros, criados e apaniguados seus e desse seu irmão, igualmente morador em Serpa, sendo nessas cartas Rui Dias de Serpa referido como fidalgo da Casa Real, mas seu irmão não.
Estaria ainda degredado quando a 6.3.1453 o rei privilegiou Rui Dias de Serpa, fidalgo da sua Casa, isentando todos os seus homens de servir na guerra, em serviço régio ou de outrem, salvo com ele próprio. Pouco depois, a 23.5.1453, o rei concedeu carta de privilégio a Rui Dias de Serpa, cavaleiro da sua Casa, para todos os seus caseiros, mordomos, apaniguados e lavradores da comarca e correição de Entre-Tejo-e-Odiana.
Rui Dias de Serpa casou a 1ª vez com D. Margarida de Ataíde, de quem teve Diogo Nunes Pereira e certamente a D. Branca de Ataíde a quem em 1530 D. João III deu carta de coutada para a quinta da Torre Velha, em Serpa. Casou Rui Dias de Serpa a 2ª vez com D. Maria de Mello, de quem teve João Rodrigues Pereira, que tirou ordens menores a 8.9.1480 na Vidigueira ("Johannem Roderici Pereyra legitimum filium quondam Roderici Didaci de Serpa et donne Marie de Meello habitancium in Serpa de legitimo matrimonio procreatum"), e D. Inez de Mello, casada com João Rodrigues da Câmara, 4º capitão donatário da ilha de S. Miguel. Muito provavelmente Rui Dias de Serpa foi ainda pai, talvez natural, do Rui Pereira que foi fidalgo da Casa do infante D. Fernando, coudel de Serpa, etc., e do Rui Dias, escudeiro, morador na vila de Serpa, que a 7.10.1475 foi nomeado vitaliciamente juiz perante os mouros e judeus da dita vila e a 22 seguinte e 3 de Novembro recebedor das sisas, com 2.000 reais de mantimento, e juiz das sisas da mesma vila.
O Nuno Pereira que ficou acima (irmão mais novo de Rui Dias de Serpa) foi fidalgo da Casa do duque de Bragança (1464) e alcaide-mor e senhor dos direitos reais da Vidigueira e Vila Nova de Frades (1483), tendo falecido antes de 10.5.1509, data em que os herdeiros fizeram partilha dos seus bens, escritura onde se documenta a primeira vez seu neto, o referido Manuel de Lacerda. D. João II doou a 16.9.1483 a Nuno Pereira, fidalgo da sua Casa, os direitos reais da Vidigueira e Vila Nova de Frades e a 30.9.1483 as respectivas alcaidarias-mores. A 25.2.1505 João de Faria, fidalgo da Casa d'el rei e alcaide-mor da vila de Portel, teve confirmação de D. Manuel I do privilégio pelo qual lhe foi coutada uma herdade que se chamava das Valadas, no termo da vila de Serpa, com as confrontações declaradas, que lhe fora dada em casamento pelo sogro, Nuno Pereira, fidalgo da Casa d'el rei e morador nesta vila, a quem fora concedido esse privilégio para uma terra e assentamento de herdades, que chamam da Figueira, de que faz parte a herdade citada. Parece que Nuno Pereira foi também alcaide-mor de Portel, vila onde vivia em 1480 com sua mulher D. Guiomar, quando tiraram ordens menores em Évora os filhos de ambos Álvaro Pereira, Rui Dias, Garcia Pereira, Henrique Pereira, Duarte Pereira, Henrique Pereira e João. Sua mulher D. Guiomar morreu antes de 19.6.1485, data da escritura lavrada em Serpa pela qual os seus bens foram partilhados pelo viúvo e os treze filhos de ambos, cinco já casados e os restantes menores, como refiro nas minhas Reflexões sobre a origem dos Pinheiro, de Barcelos.

Alão começa esta família num Martim Gonçalves de Lacerda casado com D. Violante Pereira, seguindo assim a informação de Afonso de Torres, segundo o qual Afonso Lopes de Haro passou a 27.9.1617 uma certidão a Nuno Álvares Pereira segunda a qual os Pereira de Lacerda portugueses descendiam de um Martim Gonçalves de Lacerda, fidalgo castelhano da Casa dos duques de Medina Celi, que passou a Portugal no reinado de D. Fernando, a quem este rei doou os lugares de Punhete, Sardoal, Galegã, Borralha, Amêdoa e Sovereira Formosa, e aqui casou com D. Violante Pereira, filha do prior do Crato. Mas, talvez apercebendo-se do erro, logo Alão acrescenta que outros dizem que foi Afonso Fernandes de Lacerda o castelhano que passou a Portugal no reinado de D. Fernando, a quem este rei doou as vilas de Sardoal, Golegã, Borralha, etc., e que casou com a dita com D. Violante Pereira.
Na verdade, foi a Afonso Fernandes de Lacerda que D. Fernando doou em 1369 as vilas de Sardoal, Golegã, Borralha e Punhete. E a 3.5.1372 doou-lhe todas as jurisdições de metade de Amêndoa (freguesia do concelho de Mação, distrito de Santarém). A certidão seiscentista de Afonso Lopes de Haro inventou um Martim Gonçalves de Lacerda, que desde então infestou a genealogia portuguesa (porque quando aparece em D. António de Lima Pereira é já certamente acrescento de um dos seus continuadores, nomeadamente D. Jerónimo de Ataíde). E, como veremos, inventou também o seu casamento com a filha do prior do Crato.

Mas a dita certidão não diz como se estabelecia a ligação entre esse mítico Martim Gonçalves de Lacerda e os mais antigos ascendentes conhecidos dos Pereira de Lacerda, pelo que ficou à imaginação dos nossos genealógicos estabelecer esse entroncamento, o que afoitamente fizeram sem qualquer respeito pela cronologia, onomástica e estatuto das pessoas envolvidas.  

Quer pelo patronímico quer mesmo pela não sucessão nestes senhorios, para já não falar no nome de família e estatuto, é evidente Diogo Nunes de Serpa não era nem podia ser neto paterno daquele Afonso Fernandes de Lacerda. Mas podia ter casado com uma sua neta materna, limitando-se as genealogias tardias a transformar o sogro em pai, mesmo trocando-lhe o nome?
Já Luiz de Mello Vaz de São-Payo propõe que este Diogo Nunes de Serpa tenha casado com uma Lacerda, que diz possível filha de um Martim Gonçalves e de uma filha natural de D. Juan de la Cerda e de sua amante judia Sol Martinez, numa solução engenhosa mas na verdade impossível.
Aquele Afonso Fernandes de Lacerda é, na verdade, D. Alfonso Fernández de la Cerda, filho do infante D. Juan Alfonso de la Cerda, senhor de Gibraleón, Real de Manzanares, Huelva y Deza, e de Maria de Luna. Partidário de Pedro I o Cruel na guerra contra D. Enrique de Trastamara, em 1369, com a morte de Pedro I, apoiou as pretensões de D. Fernando I ao trono castelhano e veio para Portugal, onde casou com D. Leonor de Menezes, de quem teve um único filho conhecido, D. Juan Alfonso de la Cerda, senhor de Villoria, falecido em 1393, casado com D.Maria Alvarez de Albornoz, com geração. D. Alfonso Fernández de la Cerda casou 2ª vez com Mor Martins, senhora de La Vega de Armijo, de quem teve D. Leonor de la Cerda, senhora de La Vega de Armijo, que casou com Luiz Messía.
É assim aceitável que os Lacerda que vão mais tarde aparecer em Portugal, descendentes de Diogo Nunes de Serpa, de alguma forma descendam deste D. Alfonso Fernández de la Cerda, o único desta família que esteve em Portugal nesta cronologia. Mas como?
A verdade é que Diogo Nunes de Serpa se documenta como cavaleiro de D. João I em 1393 e seu filho Álvaro Gonçalves de Serpa como escudeiro do mesmo rei em 1395. O neto, também Diogo Nunes de Serpa, casou em 1417, documenta-se como cavaleiro em 1454, e os bisnetos, Rui Dias de Serpa e Nuno Pereira, documentam-se desde 1453. Deste conjunto cronológico podemos concluir que Álvaro Gonçalves de Serpa não nasceu depois de 1375 e provavelmente nasceu antes, cerca de 1368. Assim, não podia ser neto (materno) de D. Alfonso Fernández de la Cerda, que só em 1368 veio para Portugal. Logo, se esta ligação existiu, Álvaro Gonçalves de Serpa tinha de ser genro deste D. Alfonso Fernández de la Cerda.  
Quer isto dizer que foi seu pai Diogo Nunes de Serpa que casou com D. Violante Pereira, o que é cronologicamente mais aceitável. De resto, este casamento de Diogo Nunes de Serpa com uma filha de D. Frei Álvaro Gonçalves Pereira, além de acertar na cronologia, vem explicar devidamente porque razão o filho se chamou Álvaro Gonçalves de Serpa, ou seja: usou o prenome e patronímico do avô materno, o incontornável prior do Crato D. Frei Álvaro Gonçalves. 
Portanto, se houve alguma ligação com os la Cerda, como o uso deste nome pela descendência, umas gerações mais tarde, parece indicar, esse casamento ter-se-á realizado justamente com Álvaro Gonçalves de Serpa, que de facto pode ter casado (antes de 1396) com uma filha, legítima ou bastarda, de D. Alfonso Fernández de la Cerda. Se de facto era neto materno de D. Frei Álvaro Gonçalves Pereira, portanto sobrinho do condestável D. Nuno Álvares Pereira, Álvaro Gonçalves de Serpa teria já o estatuto mínimo para que se aceite um casamento com uma filha de D. Alfonso Fernández de la Cerda, se bem que a falta quer de notícia genealógica concreta quer de rasto documental possa colocar em causa esta hipótese, sobretudo se a filha for legítima. Afinal, tratava-se de uma 4ª neta na varonia de D. Afonso X, o Sábio.   
O apetecido nome Lacerda ficou assim em letargia durante várias gerações, para reaparecer inopinadamente nos finais do século XV? Pode ser, se bem que também pode ter acontecido que tenha sido usado ao longo do séc. XV por algumas senhoras da família, que não tiveram geração e das quais não ficou registo, o que teria ajudado a manter a sua memória familiar. Como quer que seja, esta hipótese tem, pelo menos, consistência cronológica e onomástica, não é contrariada pela documentação conhecida, tem viabilidade histórico-sociológica e dá resposta aos indícios de ligação familiar aos Lacerda que se verificam no século seguinte.

De salientar, a propósito, que D. Manuel I mandou a 15.4.1508 passar carta de armas da "Casa e linhagem dos de Lacerda" a Manuel de Góis de Lacerda, documento que infelizmente não revela a sua ascendência. As genealogias também não o referem, embora dêem conta de dois casamentos entre estes Serpa/Pereira/Lacerda e Góis, um deles entre Nuno Álvares Pereira e Beatriz de Góis, filha de Luiz de Góis, tesoureiro de D. Manuel I, e outro entre Heitor Pereira e D. Leonor de Góis, talvez irmã deste tesoureiro.
O primeiro caso está cronologicamente fora de causa, uma vez que Nuno Álvares Pereira era filho do Rui Dias Pereira que tirou ordens menores em Portel em 1480 e, como vimos, ainda era menor de idade em 1485, pelo que não podia ter um neto armigerado em 1508. No segundo caso, aquele Heitor Pereira é referido por Afonso de Torres, que o diz solteiro, sem geração, e irmão do já referido Espandião de Lacerda. Mas depois acrescenta que José de Quevedo diz que o dito Heitor Pereira viveu casado em Serpa com D. Leonor de Góis, com geração. Ora, a 18.3.1487 D. João II deu carta de privilégio de fidalgo a um Heitor Pereira que bem parece ser este, embora a cronologia não permita que fosse irmão mas sim tio de Espandião, portanto filho de uma das duas mulheres de Rui Dias Pereira ou até seu filho natural. Ou seja, teriam razão Afonso de Torres (o Heitor irmão de Espandião não teve geração) e José de Quevedo (um Heitor Pereira casou em Serpa com D. Leonor de Góis). Assim sendo, aquele Manuel de Góis de Lacerda pode ter nascido cerca de 1480 ou mesmo antes.

Resta acrescentar que Alão dá ao mítico Martim Gonçalves de Lacerda (aqui identificado como sendo possivelmente Diogo Nunes de Serpa) e sua alegada mulher D. Violante Pereira dois filhos: Diogo Nunes Pereira, que viveu em Serpa, e uma filha, que não nomeia, casada com Garcia Afonso do Casal "que jaz mirrado em Santarém". Mas depois, em Ferreiras, diz que Gomes Ferreira, irmão mais velho de Aires Ferreira, casou com Isabel Pereira, filha de Martim Gonçalves de Lacerda, senhor do Sardoal, e de sua mulher Violante Álvares Pereira, irmã do condestável, a qual Isabel Pereira casou 2ª vez com Gonçalo Correa, senhor de Fralães, "ainda que em seu titº não se ache". Gaio já burila mais esta informação, dizendo que Gomes Ferreira casou com D. Isabel Pereira de Lacerda, segundo uns filha de Martim Fernandes de Lacerda (sic) e segundo outros de Afonso Fernandes de Lacerda, sendo a mãe sempre Violante Álvares Pereira, mas acrescenta que Oliveira diz que Gomes Ferreira casou com D. Catarina de Meira. Diz também, sobre Gonçalo Correa, que "dizem" que casara 2ª vez com Isabel Álvares Pereira, viúva de Gomes Pereira, "o q so vimos em uma memoria, o q não seguimos". Como se pode ver no meu Ensaio sobre a origem dos Ferreira, Gomes Ferreira de facto casou com D. Catarina de Meira, documentando-se também que não deixou geração. E Gonçalo Correa, como ficou dito acima e o próprio Alão diz no seu título, não casou com nenhuma Isabel Pereira.

 

 

5.1.6.   Francisco da Cunha, que 1516 se documenta irmão de Gonçalo Correa, alcaide-mor de Porto de Mós e fidalgo da Casa do duque de Bragança, como ficou dito. Alão diz ter servido na Índia com Tristão da Cunha e que, voltando, casou em Elvas com D. Beatriz da Silva, filha do alcaide-mor Rui de Abreu. S.g. Talvez seja o Francisco da Cunha, capitão da caravela de Estêvão Franco, que a 20.7.1513 teve provisão para receber 9 arrobas e 24 arráteis de carne para mantimento de doze homens que leva nesta armada, por tempo de um mês. Podendo ainda ser o Francisco Correa cuja mulher e herdeiros tiveram a 6.5.1520 provisão para receber 44.000 reais do último terço de seu casamento. E o Francisco da Cunha, fidalgo da Casa Real, que a 24.1.1533 teve mercê da capitania de Chaul.

5.1.6.   Garcia da Cunha, que consta como escudeiro fidalgo da Casa de D. João III, com 1.500 reais de moradia, na lista de ACS (Provas), sendo aí identificado como "cunhado de Febus Moniz", o que revela que era certamente o mais novo dos filhos de Gonçalo Correa. Terá nascido pouco antes de 1480, ano da morte do pai, e faleceu depois de Janeiro de 1565, portanto com mais de 85 anos de idade. Alão diz que serviu com seu irmão Francisco na Índia e deixou uma filha natural, para quem instituiu o vínculo de Vila Meã, em propriedades que pertenciam ao senhorio de Fralães. Segundo a informação de Gaio, que deve ser credível, este vínculo foi instituído por testamento feito em Barcelos a 14.1.1565 no notário P. Serrão, e lançado no tabelião de Penela por Lourenço Fernandes Mahia, a 15.3.1647, a requerimento de Giraldo Martins da Fonseca.

5.2.    João Correa, que em 1474 vivia em Lisboa, sendo cavaleiro fidalgo da Casa Real e vereador do Senado da Câmara desta cidade. Foi nas suas casas de Lisboa, com sua mulher Isabel Dias de Castello-Branco, que seu irmão Gonçalo vendeu o senhorio de Cunha-a-Velha. A 26.2.1456 D. Afonso V quita a João Correa tudo o que ficou em dívida quando exerceu o cargo de tesoureiro da moeda da cidade de Lisboa seu sogro Diogo Gonçalves de Castello-Branco, cavaleiro da Casa do infante D. Henrique, a seu pedido e como seu herdeiro. Deve ainda ser o João Correia, cavaleiro da Casa Real, que a 22.12.1472 teve do rei uma tença anual de 12.000 reais brancos. Casou portanto com Isabel Dias de Castello-Branco, que ainda vivia com seu marido em Lisboa em 1474, filha Diogo Gonçalves de Castello-Branco, cavaleiro da Casa do infante D. Henrique, que foi tesoureiro da moeda da cidade de Lisboa. Este Diogo Gonçalves de Castello-Branco [14] deve ser o homónimo, escudeiro e criado d’el rei, que a 20.4.1452 teve mercê real de uma tença anual de 7.000 reais de prata. Esteve na tomada de Ceuta e viveu em Leiria, onde casou com Catarina da Fonseca, certamente a mãe daquela Isabel. Diogo Gonçalves de Castello-Branco teve ainda uma filha bastarda, Leonor, legitimada por carta real. Era filho de Gonçalo Vaz de Castello-Branco, senhor da honra de Sobrado e dos direitos reais de Paiva (15.4.1386), em que terá sucedido a seu irmão. D. António de Lima diz que foi alcaide-mor de Castelo Branco e camareiro-mor. Deve ter sucedido também nos restantes bens de seu pai, nomeadamente no morgadio de Castelo Branco instituído por Martim Esteves. Ou este ou um seu homónimo teve mercê de D. João I dos direitos reais da judiaria de Coimbra. Este João Correa, que as genealogias confundem com deu tio homónimo e a quem dão os filhos que ele teve, não deve ter tido geração. Mas pode ter sido pai do seguinte homónimo:

5.2.1.  João Correa, possível filho de João Correa. Era comendador de Aljezur da Ordem de Santiago quando a 26.4.1475 teve licença real para arrendar esta sua comenda por três anos. E já tinha falecido a 25.1.1497 quando sua viúva, Isabel de Souza, para a criação de seus filhos (portanto tinha filhos menores), teve confirmação da tença de 15.000 reais que seu marido tinha tido confirmada por D. Manuel I a 1.1.1485. Entre estes filhos parece estar Jorge Correa, fidalgo da Casa Real, a quem D. João II doou a 8.4.1497 a capitania da ilha de Santiago (Cabo Verde), por ter casado com D. Branca de Aguiar, filha de Micer António de Noli, que descobriu a ilha em 1460, e que após a sua morte tivera a mercê da dita capitania para quem com ela casasse.

5.3.    Branca Correa, freira em Arouca, segundo Alão.

5.4.    Isabel da Cunha.

5.5.    Frei Paio Correa, nascido cerca de 1425, cavaleiro da Ordem de S. João do Conselho de D. Afonso V, foi bailio e comendador de Leça (desde 1454), tendo participado no Capitulo provincial em 1477 na Sertã (1472).A 11.5.1472 este rei deu Frei Paio Correa, do seu Conselho, uma tença anual de 12.000 reais de prata. A 6.3.1475 o mesmo rei privilegiou Frei Paio Correa, bailio de Leça, concedendo-lhe licença para arrendar por um ano as suas comendas. A 24.8.1481 D. Afonso V nomeou Pedro de Basto, escudeiro e criado de Frei Paio Correa, para o cargo de tabelião do cível e crime nos julgados da Maia e Azurara, termo da cidade do Porto, em substituição de Brás Martins, o Moço, que morrera..

5.5.1.   (N) D. Guiomar Correa, n. cerca de 1472. Casou cerca de 1490 com D. Sancho de Noronha, c.g. As genealogias tardias dizem que esta Guiomar Correa era já viúva de Nuno Cardoso, morgado da Taipa (Lamego), o que é erro. A Guiomar Correa mulher de Nuno Cardoso foi legitimada por carta real de 18.6.1502 e era filha Frei Paio Correa, comendador de Amieira, como já ficou dito.

5.5.1.   (N) Paio Correa, segundo algumas genealogias, que o dizem casado em Vila Real com Filipa de Barros, c.g. Mais provavelmente é Frei Paio Correa que exerceu funções de lugar-tenente do prior do Crato, qualidade em que presidiu a vários Capítulos provinciais, nomeadamente em Leça (1520) e Lamego (1522), podendo ter tido filhos de Filipa de Barros.

5.5.2.   (N) Maria Correa, n. cerca de 1475, que foi a 2ª mulher de Gonçalo Pereira [37] , n. cerca de 1456, filho de Vasco Pereira, senhor de Cabeçais e Fermedo, e de sua mulher Isabel Pereira, que com seu marido teve mercê do senhorio de Fermedo que tinha sido de seu avô Aires Gonçalves de Figueiredo. Vasco Pereira e seu irmão Fernão Pereira (pai do 1º conde da Feira) têm a 17.1.1466 autorização real para que possam usufruir dos bens que pertenceram a seus pais, João Álvares Pereira, 2º senhor da Feira, e Leonor Gomes de Mello. A 2.5.1442 D. Afonso V doou a Vasco Pereira, fidalgo da sua Casa, e a Isabel Pereira, fidalga da Casa do infante D. Pedro, pelo seu casamento, uma tença anual de 15.000 reais, até prefazer a quantia de 1.500 coroas de ouro do cunho do rei de França, a ser paga pelo almoxarifado do Porto. Com geração.

5.6.    Pedro Correa, cavaleiro da Casa Real e criado do infante D. Henrique, capitão donatário da Ilha Graciosa (em 1485, mas para onde foi em 1450), que cerca de 1458 comprou por 300.000 reais, a 30.000 reais anuais de juro, à viúva de seu futuro sogro, o senhorio da ilha de Porto Santo, que depois perdeu por demanda de seu cunhado Bartolomeu Perestrello. Com efeito, a 15.3.1473 D. Afonso V confirma doação, para sempre, a Bartolomeu Perestrello, criado do infante D. Fernando, filho de Bartolomeu Perestrello o Velho, da ilha de Porto Santo, toda a jurisdição cível e crime, excepto pena de morte e mutilação, entre outros privilégios, na sequência de uma acção com Pedro Correa, cavaleiro da Casa Real e criado do Infante D. Henrique, que a dita ilha tinha e possuía (inserta a carta de doação do infante D. Henrique de 1.11.1446). Pedro Correa  nasceu cerca de 1426 e faleceu em 1499 em Charneca, termo de Lisboa, e jaz na capela de S. João do convento do Carmo. Casou cerca de 1465 com Iseu Perestrello, filha de Bartolomeu Perestrello, o Velho, e de sua terceira mulher Catarina de Mendonça [39] . Este Bartolomeu Perestrello, o Velho, nasceu em 1396 em Lisboa e faleceu cerca de 1457 na vila da Baleira, em Porto Santo, sendo sepultado, ao que parece na matriz de Nossa Senhora da Piedade. Em 1438 era, com seu irmão Richarte, vereador do Senado da Câmara de Lisboa. Em 1442 era procurador de Bragança. Julga-se que já esteve na conquista de Ceuta (1415). Mas parece que não participou na “descoberta” da Madeira nem mesmo de Porto Santo. Era fidalgo da Casa do infante D. João quando em 1426 o infante D. Henrique o fez capitão da ilha de Porto Santo e encarregou do povoamento e colonização desta ilha. Não terá ido para lá imediatamente, ou então voltou, pois em 1437 era vereador do Senado da Câmara de Lisboa. Só a 1.9.1449, já referido como fidalgo da Casa do infante D. Henrique, teve deste o senhorio da dita ilha de Porto Santo: "Eu dou carreguo a Bertholomeu perestrello, fidalgo de minha casa da minha ylha de porto santo para que elle dito Bertholomeu perestrello ha mantenha por mim em Justiça & direyto & morrendo elle a mim praz que seu filho primeyro ou algum se tal for tenha este carreguo pela guisa suso dita y asy de decemdente em decemdente por linha dereyta (...) tenha (...) jurisdiçom (...) do ciuell & crime resalbando morte ou talhamento de membro (…)". Com geração.

 


2005


[1] Nesta época é assim que o nome vem sempre escrito. No século XIII aparece Corrigia, Corregi, Corregia e Corae.

[2] "Linhagens Medievais Portuguesas. Genealogias e Estratégias (1279-1325)", Porto 1999.

[3] "Três matrizes sigilares medievais", por D. Luiz Gonzaga de Lancastre e Távora, marquês de Abrantes e de Fontes, in Miscelânia Histórica de Portugal, IV, 1984. O autor identifica o Vasco Correa da matriz com Vasco Gomes Correa, sobrinho do mestre D. Paio Pires. Trata-se de uma matriz sigilar em bronze, com as suas armas (Correa), rodeadas por águias estendidas e as letras VASCO CORAE (…).

[4] Nesta freguesia declaram as testemunhas: "quo nulus forus faciunt, nec fecerunt Dns. Regi, quia est honor Dom Palagii Corrigia".

[5] Nesta freguesia declaram as testemunhas: "quod est parochia ista aut est cautus ipsius Ecclrsie aut est Honor de Farlaens, aut Honor vetus de Ulvar".

[6] Esta inscrição, que se guarda no Museu de Martins Sarmento, em Guimarães, deveria dizer originalmente: “(Aur)elio Patricii f(ilius) m(iles) leg(ionis)…”

[7] Foram dois os irmãos deste nome. O mais novo teve a alcunha de "o Alvarazento". O mais velho foi o famoso mestre da Ordem de Santiago (1242-76). Deste D. Frei Paio Pires Correa ficou um selo com um escudo contendo um fretado e um chefe carregado de cruzetas. Vide "O Estudo da Sigilografia Medieval Portuguesa", por D. Luiz Gonzaga de Lancastre e Távora, marquês de Abrantes.

[8] "Linhagens Medievais Portuguesas. Genealogias e Estratégias (1279-1325)", Porto 1999, por José Augusto de Sotto Mayor Pizarro.

[9] A "Corografia Portuguesa" diz apenas Beatriz Martins, sem a filiar.

[10] "Fidalgos e Morgados de Vila Real e seu termo", por Júlio A. Teixeira.

[11] "Os Furtado de Mendonça portugueses. Ensaio sobre a sua verdadeira origem", Porto 2004, por Manuel Abranches de Soveral e Manuel Lamas de Mendonça.

[12] "História Seráfica", T1, L1, p. 149 a 170.

[13] "Corografia Portuguesa", T.1, pag. 335.

[14] "Ascendências Visienses. Ensaio sobre a nobreza de Viseu. Séculos XIV a XVIII", Porto 2004, por Manuel Abranches de Soveral.

[15] "Ascendências Visienses. Ensaio sobre a nobreza de Viseu. Séculos XIV a XVIII", Porto 2004, por Manuel Abranches de Soveral.

[16] Filha de Vasco Martins de Rezende, senhor do couto de Rezende, senhor de juro e herdade de Sá (1343), do Conselho de D. Afonso IV, uns dos reféns no tratado de 1328 e falecido antes de 1357, de sua 1ª mulher Tereza Rodrigues Ribeiro.

[17] Nas Inquirições de 1288, no julgado de Montelongo, diz-se: "Freguesia de Sam Martinho d'Armir ha y hûua quimtaa que fez Pero Botelho em huum seu casaal que chamam Casaal de Padres hu nunca ouvera casa de morada e trouxe-a por honrra com sete casaaes que el hy avia com seus irmãaos e des que morreo el honrou Joham Botelho per razom da honrra desta quimtaa des a carreira a suso que chamam d'Aperom que he herdamento d'Asperom e d'Asperom he provado que dam a al REy a fossadeira e a espadoa e o bragal e fez onrra de doze fogos que hy a de que he provado que soyam peitar a el Rey vooz e cooyma e dar luytosa e entrava hy o mordomo e filhavam hy o conduyto e dizem as testemunhas que deu este Joham Botelho hûa saia a huum mordomo que se sofresse d'entrar hy e Martim Botelho e os Peixotos tragem todo per honrra e dizem as testemunhas ca per razom desta honrra fazem pardos nas herdades dos lavradores foreiros del Rei e se hy entra gaado de aquelle cuja he a herdade levam dele senhos soldos de cada cabeça". Diz a sentença que "A casa de suso dita com sas herdades sejam honradas porque som de filhos d'algo (...)". Este Martim Botelho, cuja irmã D. Elvira Peres Botelho casou com Gomes Gonçalves Peixoto, nasceu cerca de 1265 e foi alcaide-mor de Castelo de Vide. Um Estêvão Peres Botelho que a 25.7.1328 testemunhou uma compra de D. Afonso IV em Frielas, onde este rei tinha o seu paço, é provavelmente seu irmão mais novo. A mulher deste Martim Botelho, Joana Martins de Parada, era filha ou irmã de Durão Martins de Parada, que foi vice-mordomo-mor de D. Dinis.

[18] Este Pedro Botelho, que fez a honra referida na nota anterior, era filho de de Martim Botelho, o 1º deste nome, e de sua mulher Maria Rodrigues de Ferreira; e neto paterno de Vasco Martins Magudo e sua 1ª mulher D. Elvira Vasques de Soverosa. Nas inquirições de D. Dinis, na freguesia de Santa Maria de Paços, termo de Vila Real, diz-se: "Item freguesia de santa maria de paaços aldea que chamam a poboaçam hua qujntaa que foe de dona elujra uaasquez que ora he de martim botelho e de seu linhagem que he prouado que a virom honrrada desd que se acordam as testemunhas e d ouujda de longe e toda essa aldea dizem as testimunhas que he dos filhos d algo e nom leixam hi entrar porteiro nem moordomo e trazem hi chegador ste com sta". Vasco Martins Magudo era irmão de Pedro Martins Ervilhão. Nas Inquirições de 1288, no julgado de Montelongo, diz-se: "Freguesia de Santa Maria d'Antimi há hy huum couto desta igreja per divisões e per marcos e dizem as testemunhas que em esse couto gaanhou dom Pedro Martinz Ervilhom huum casaal de Estevam Paay escudeiro e pousava em ell e depois ficou esse casaal a Paay Rodriguez de Basto e fez hy casa e searas e trage-o por honra (...)". Eram ambos filhos de Martim Mendes Magudo e netos de Mem Paes Magudo. Este Mem Paes era irmão de João Paes, abade de Pombeiro, e de Vasco Paes. Nas Inquirições de 1288, no julgado de Montelongo, diz-se: "Freguesia de Sam Martinho de Quimchãaes a quintaa que foy de Vasco Paaez cavaleiro e de Joham Paaez seu irmão e a quimtaa da Torre que foy dos Magudos he provado que as virom honradas des que se acordam as testemunhas e d'ouvida de longe e per razom da honrra destas quimtãs honrram çinquo casaaes que hy a de igrejas e huum de herdadores e dizem as testemunhas que per razom dos cavaleiros se afastou ende o mordomo que nom entra hy mais nom dizem des que tenpo e pero desta honrra do logar que chamam Lavandeira dam a el Rey oyto varas de bragaal de fossadeira e dizem que entra hy o porteiro a medo".

[19] "Ascendências Visienses. Ensaio sobre a nobreza de Viseu. Séculos XIV a XVIII", Porto 2004, por Manuel Abranches de Soveral.

[20] Alão chama-a Maria Botelho e distingue a mulher de João Afonso de Proença (que não nomeia) da mulher de Diogo da Mesquita. Mas a mulher João Afonso de Proença documenta-se como Isabel Botelho Correa e Diogo da Mesquita não pode ter nascido antes de 1455, pelo que era cerca de 8 anos mais novo do que a mulher, o que se aceita melhor num 2º casamento dela, cerca de 1480, teria ele 25 anos e ela já 33 anos. Gaio, que segue Alão, depois (§17) diz que João Afonso de Proença casou com Isabel Botelho, que não filia, dizendo que lhe chamaram a Mosca Varegeira por ter tido muitos filhos. Ora, João Afonso de Proença e Isabel Botelho só tiveram 4 filhos: Leonor Botelho, Pedro Botelho, Afonso Botelho e Aires Botelho. Teve é depois de Diogo da Mesquita pelo menos mais 8 filhos, tendo provavelmente falecido do parto do último, em 1490, teria 42 ou 43 anos.

[28] "Ascendências Visienses. Ensaio sobre a nobreza de Viseu. Séculos XIV a XVIII", Porto 2004, por Manuel Abranches de Soveral.

[29] "Matriculas dos ordinandos da Mitra de Braga (1430-1588)", Ponte de Lima 2002. 

[30] "O descobridor do Congo e o apelido Cão", por Luiz de Mello Vaz de São Payo, in Raízes & Memórias, nº 10.

[31] "Matriculas dos ordinandos da Mitra de Braga (1430-1588)", Ponte de Lima 2002. 

[32] "Matriculas dos ordinandos da Mitra de Braga (1430-1588)", Ponte de Lima 2002. 

[33] "O descobridor do Congo e o apelido Cão", por Luiz de Mello Vaz de São Payo, in Raízes & Memórias, nº 10.

[34] CMI, 26, 120v e 32, 141v, e CJIII, 3, 129v

[35] "Matriculas dos ordinandos da Mitra de Braga (1430-1588)", Ponte de Lima 2002. 

[36] "Matriculas dos ordinandos da Mitra de Braga (1430-1588)", Ponte de Lima 2002. 

[37] "Ascendências Visienses. Ensaio sobre a nobreza de Viseu. Séculos XIV a XVIII", Porto 2004, por Manuel Abranches de Soveral.

[38] "Ensaio sobre a origem dos Ferreira" (http://www.soveral.info/mas/Ferreira.htm), por Manuel Abranches de Soveral.

[39] "Os Furtado de Mendonça portugueses. Ensaio sobre a sua verdadeira origem", Porto 2004, por Manuel Abranches de Soveral e Manuel Lamas de Mendonça.

 
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