regresso à bibliografia

 Manuel Abranches de Soveral

 

 

 

Ensaio sobre a origem medieval dos Boto

Texto de Manuel Abranches de Soveral publicado como introdução no livro

"Donas-Boto de S. João da Pesqueira. Origens e novos ramos", 2005, de Albano Chaves

Corrigido e aditado

o

A origem medieval dos Boto está verdadeiramente por investigar. Mas os elementos que pude recolher em fontes primárias, conjugados com as informações bibliográficas mais credíveis, levam-me a crer que se trata de uma família nobilitada no século XV, muito embora se encontrem indivíduos deste nome pelo menos desde meados do séc. XIII, nomeadamente um Martim Peres Boto, que em 1256 vivia em Sernancelhe, e um João Anes Boto, vizinho de Sintra, que a 6.2.1323 teve, com sua mulher Margarida Domingues, o prazo de um pomar em Colares.

Informa Alão de Moraes [1] que "dizem" que a família nobilitada começa em Estêvão Anes Boto, natural de Évora, e sua mulher Maria Anes, "que jazem na capela do Espírito Santo de S. Domingos de Évora, que fez Gonçalo Lobo, seu descendente". Esta informação parece estar correcta, pois pude documentar [2] em Évora um Estêvão Anes Boto, já falecido a 22.12.1435, quando sua mulher, não nomeada, já viúva ("molher que foy"), aparece com casas nesta cidade contíguas a um chão na "alcorcova velha", junto à rua dos Mercadores, aforado pelo rei a Gomes Fartos, morador na dita cidade. Documenta-se [3] também que este Estêvão Anes Boto exerceu o ofício de tosador (tosquiador), sendo portanto da plebe, porventura enriquecida.
Alão faz filho deste casal o Martins Esteves Boto, "que viveu no tempo de el-Rei D. Afonso 5º, que lhe deu armas". E, com efeito, D. Afonso V deu a 1.4.1462 armas novas a Martim (Martinho) Esteves Boto, cavaleiro, em paga dos seus serviços, desde o reinado de D. João I. Refere o documento que Martim Esteves Boto esteve na tomada de Ceuta, no cerco de Tânger e finalmente em Alcácer, "com armas, cavalos e homens, com grande despesa sua".

De Martim Esteves Boto recolhi toda a documentação existente nas chancelarias de D. Duarte e D.Afonso V, a saber:

  • 1435.4.22, Évora - Carta de privilégio de D. Duarte, "querendo fazer graça e merçee" a Martim Estevez Boto, morador na cidade, "porquanto he nosso vassallo e esta prestes pêra nos servir com suas bestas e armas", em "forma de preuilegio de paniguados per que ajam os dictos seus caseiros e mordomos e paniguados e lavradores os previlegios e liberdades delles".

  • 1436.1.18, Estremoz - Martim Stevez Boto, mercador, morador na cidade de Évora, teve carta de D. Duarte de confirmação do emprazamento "pera todo sempre" de umas casas que "teem arcos" na rua dos Mercadores, na dita cidade, de "dez couodos de longo e sete d ancho", de que paga de foro anual 13 soldos e cinco dinheiros, e de outras "detras na alcaruoua", que "fez na sacada que tomou d onze couodos de longo e vj d ancho", que paga foro anual de cinco soldos. O foro total era de 18 soldos e cinco dinheiros da moeda antiga, o qual "partem com vasco rodriguez genrro do boto e com lianor gomez".

  • 1436.3.24, Évora - Carta de foro dada por D. Duarte "pera sempre" a Leonor Gomes de umas casas na cidade que partem com casas de Martim Boto e com casas de Lourenço Rodrigues, alfaiate.

  • 1443.1.27, Évora - D. Afonso V privilegia Martinho Esteves Boto, seu vassalo, morador na cidade de Évora, a seu pedido, coutando-lhe a terra de Souses, termo da cidade de Évora, pelos serviços prestados na cidade de Tânger.

  • 1450.2.27, Évora - D. Afonso V privilegia Martim Esteves Boto, seu vassalo, morador em Évora, coutando-lhe a seu pedido uma herdade em Sousel.

  • 1450.3.28, Évora - D. Afonso V quita a Martinho Esteves Boto, morador na cidade de Évora, umas casas na dita cidade, que eram de João Pereira, desembargador.

  • 1459.2.20, Évora - D. Afonso V privilegia Martim Esteves Boto, cavaleiro, morador em Évora, recebendo-o por vassalo.

  • 1462.4.1, Santarém - Carta de armas novas.

  • 1475.4.4, Évora - D. Afonso V privilegia vitaliciamente Martinho Esteves Boto, cavaleiro, morador na cidade de Évora, concedendo-lhe autorização para andar de besta muar.

  • 1478.11.5, Évora - D. Afonso V privilegia vitaliciamente Inez Anes, viúva de Martinho Esteves Boto, morador na cidade de Évora, isentando-a do pagamento de qualquer foro de umas casas que tem na alcarcova do muro velho, junto da porta nova da dita cidade.

Parece evidente que estes documentos se referem ao mesmo Martim Esteves Boto. E que este Martim Esteves é diverso do Martim Boto, tabelião, morador na vila de Nisa, a quem, em 1439, D.Afonso V nomeou para o cargo de escrivão da coudelaria dessa vila, tal como o era em vida de D. Duarte. Sendo provável que este Martim Boto seja o que em 1436 tinha casas junto ao prazo feito a Leonor Gomes, que julgo sua irmã e ambos filhos de Martim Esteves.
Tendo em conta apenas estes dados, é possível desde logo estabelecer uma relação fundiária entre Estêvão Anes Boto e Martim Esteves Boto, uma vez que ambos possuíam casas na alcorcova do muro velho, junto da porta na cidade de Évora. Se a isto associarmos a onomástica, inclusive patronímica, a cronologia e a informação genealógica de Alão, podemos concluir com relativa segurança que se trata efectivamente de pai e filho.

Verificamos, também, que já o pai usava o nome Boto, pelo que não podemos aceitar a ideia corrente de que o nome resultou de alcunha ganha em Ceuta por Martim Esteves. Aliás, tendo em conta os vários indivíduos com nome Boto que nessa época se documentam, curiosamente apenas no Alentejo, é certo que o nome já existia, sendo ou não esses indivíduos todos da mesma família.

Para balizar cronologicamente Martim Esteves Boto, temos as informações documentais extremas: esteve na tomada de Ceuta (1415), ainda vivia em 1475 e já tinha morrido em 1478. Verificamos também que em Abril de 1435, sendo vassalo (não-nobre) do rei está prestes a partir para a guerra, mas que em Janeiro do ano seguinte ainda estava em Évora, sendo referido como mercador. E só em 1459, já cavaleiro, é recebido como vassalo nobre.

Quer isto dizer que Martim Esteves deve ter nascido cerca de 1395 e teria aproximadamente 20 anos quando participou na tomada de Ceuta, cerca de 63 quando esteve na conquista de Alcácer-Seguer, e 67 anos quando teve carta de armas, vindo a falecer depois de 1475 e antes de 1478, com mais de 80 anos. Tendo em conta que não é posteriormente referido como escudeiro, está afastada a hipótese de ter ido a Ceuta como escudeiro de qualquer fidalgo. Provavelmente acompanhou seu pai Estêvão Anes Boto nessa expedição, tendo em conta que outros autores [4] dão início à genealogia dos Boto justamente em Estêvão Anes Boto, "que foi na armada que o rei D.João I mandou a Africa para a conquista da cidade de Ceuta, em cuja expugnação se mostrou valoroso soldado". Não dizem essas genealogias é que ele foi tosador…

Martim Esteves, então com cerca de 20 anos de idade, terá assim ido a Ceuta na companhia de seu pai, ambos como soldados ou homens de armas de algum fidalgo de Évora ou mais provavelmente do próprio rei, pois é referido em 1435 como seu vassalo. Aparentemente ainda não tinha partido no início do ano seguinte, quando se documenta em Évora e é referido como mercador. Só portanto terá ido de novo a África na malograda expedição a Tânger em 1437. Voltou depois a Évora, onde se documenta em 1443 e 1450. E regressou mais uma vez a África com D. Afonso V na conquista de Alcácer Seguer em Outubro de 1458, onde terá sido feito cavaleiro, pois no início de 1459 já aparece como cavaleiro quando em Évora é recebido como vassalo do rei. Finalmente, em 1462 obtém armas novas.

Martim Esteves terá casado cedo a 1ª vez, certamente antes da partida para Ceuta, uma vez que tinha uma filha casada em 1436. Pelo que é provável que também fosse pai do referido Martim Boto, tabelião de Niza, que já era escrivão da coudelaria dessa vila no reinado de D.Duarte e tinha casas em Évora em 1436, teria então cerca de 21 anos de idade. Deste Martim Boto parece mais irmão do que filho um Gonçalo Boto, escudeiro, morador em Nisa, a quem D. Afonso V confirmou a 2.5.1475 o seu testamento e o de sua mulher. Este Gonçalo seria assim, nesta hipótese, também filho de Martim Esteves, de quem julgo são ainda filhos não só o célebre doutor Rui Boto, que foi chanceler-mor do reino e que aliás é o único filho que Alão lhe dá, mas também o Pedro Boto, pajem de Fernão Telles, que esteve na batalha de Alfarrobeira e por tal teve carta de perdão de D. Afonso V a 9.4.1451. Este Pedro Boto, morador em Évora, onde se documenta [5] vereador, é ainda referido numa carta de perdão de D. Afonso V de 17.3.1473 a Jossepe Abracar, mercador, morador na dita cidade, por querela que dele deu o dito Pedro Boto.

Este Pedro Boto parece ser o que Gaio diz que foi comendador de Alcains e pai de Isabel Pereira Boto, casada com Lopo Dias de Brito. Destes, para além dos filhos que as genealogias lhe dão, julgo que são filhos também Garcia Dias Boto, vereador do Senado da Câmara de Viana do Castelo em 1526, e Leonor Dias Boto, falecida a 24.8.1538 em Viana, que casou com Fernão do Cais e depois com o célebre João Álvares Fagundes, descobridor da Terra Nova.

De Pedro Boto julgo que foi filho ainda o Gonçalo Esteves Boto referido por Gaio, que o diz natural de Évora e comendador de Carreço, e que lhe dá como filhas Violante Nunes Boto, casada a 1ª vez com João Velho Barreto e a 2ª com Jorge Barbosa de Sousa, e Grácia Nunes Boto, que casou com Valentim da Rocha e foram fundadores da capela de S. Bartolomeu, na matriz de Viana, e do morgadio de Vila de Punhe.

Documento ainda um outro Gonçalo Esteves Boto, anterior, que certamente é irmão de Martim Esteves, portanto filho de Estêvão Anes, o tosador que foi soldado a Ceuta. Este Gonçalo Esteves Boto, morador em Setúbal, aparece como pai de um Mem Gonçalves que teve carta de perdão real a 10.2.1464 por estar acusado da morte de um criado de Lopo Fernandes Andorinho, cavaleiro da Casa do infante D. Fernando. Diz-se nesta carta que o perdão, obtido mediante instrumento público de perdão feito a seu favor, pelos familiares da vítima, a 5.9.1463, é dado na sequência do perdão geral outorgado aos homiziados que serviram na armada real em Ceuta, o que certamente se refere a Gonçalo Esteves, que assim teria, como o irmão Martim, acompanhado o pai a Ceuta. Deste Gonçalo Esteves Boto documenta-se também filho um Luiz Gonçalves, morador em Setúbal, que a 17.8.1456 teve carta de perdão real, vindo acusado de vários malefícios, na sequência do perdão geral outorgado pela ida contra o Turco, contanto que vá estar um ano na cidade de Ceuta, e um Gomes Gonçalves Boto, morador em Setúbal, a quem D. Afonso V perdoou o resto do tempo de degredo do ano a que fora condenado para a cidade de Ceuta, acusado de ter ferido várias pessoas, na sequência do perdão geral outorgado aos homiziados que serviram na armada e tomada da vila de Alcácer. É o Gomes Gonçalves Boto, morador em Setúbal, que a 8.6.1464 foi nomeado escrivão da dízima e sisa do pescado da dita vila, em substituição de Pedro Afonso, que renunciara. A 28.6.1481 renunciou ao cargo de escrivão das ementas da ribeira de Setúbal. A 10.9.1481 o príncipe D. João perdoou a justiça régia pela fuga da prisão do concelho de Setúbal e deu carta de segurança a Gomes Gonçalves Boto, morador nesta vila, pela fuga de um preso, tendo pago 500 reais para a Piedade. Sendo que deste Gonçalo Esteves Boto deve ser filho (ou sobrinho) o Gonçalo Boto referido numa carta de 4.2.1516 do juiz e vereadores de Setúbal para o rei, a propósito de uma carta que o dito Gonçalo Boto lhe escrevera referente à dízima da sardinha de fumo de Setúbal.  

De Gonçalo Esteves e Martim Esteves parece ainda irmão um João Boto, documentado [6] em Évora como criado do rei, que por sua vez parece pai de um Afonso Anes Boto, tabelião da vila de Setúbal, que a 2.7.1456 teve carta de perdão real, acusado de ter feito uma quitação falsa contra Pedro Manhos, tendo pago 3.000 reais brancos para as obras da Relação régia, ficando proibido de exercer o ofício de tabelião. Que é certamente o Afonso Anes Boto, morador no Bombarral, monteiro e guardador das matas de Moreira, que por sua morte foi substituído no cargo em 1472.

Se bem que esta identificação de Gonçalo Esteves como irmão de Martim Esteves pareça muito provável, convém no entanto dizer que já em 1425 aparece em Setúbal um Rodrigo Afonso Boto, que aí é mordomo da igreja de Santa Maria da Anunciada. Este Rodrigo Afonso Boto já tinha falecido a 18.1.1440 quando o rei privilegiou Constança Lourenço, moradora em Setúbal, sua viúva, a pedido de Frei Mendo de Vasconcellos, freire da Ordem de São Francisco, isentando-a do direito de pousada, bem como a seus filhos. Acresce que a 17.2.1451 D. Afonso V privilegiou Lourenço Álvares Boto, morador em Castelo de Vide, a pedido do seu escrivão da puridade Nuno Martins da Silveira, isentando-o do pagamento de diversos impostos ao concelho, de ser posto por besteiro do conto, de ir com presos e dinheiros, de ser tutor e curador, bem como de quaisquer ofícios, encargos e serviços concelhios.

Aqueles Rodrigo Afonso Boto e Lourenço Álvares Boto, ambos claramente plebeus, parecem da geração de Estêvão Anes Boto, o primeiro filho de um Afonso e o segundo filho de um Álvaro, talvez irmãos, bem assim como irmãos do João, virtual pai de Estêvão Anes. É assim possível que estes Boto sejam originários de Setúbal, onde provavelmente nasceu o pai (João) de Estêvão Anes Boto, que terá ido casar a Évora cerca de 1370.

Temos, finalmente, o Rui Martins Boto que dá origem aos Boto que este livro [7] desenvolve e que Gaio diz que "foi viver para a Pesqueira com a mercê dos Ofícios de Juiz dos Orfans e Escrivão da Câmara dados por serviços em África teve tença que lhe deu o Rei D. Afonso V como diz Pedro de Mariz em seus Diálogos, e casou com Felipa de Souza Guerra, Prima carnal de Baltazar ou Gaspar de Souza Padroeiro de S. João da Pesqueira". Gaio diz que este Rui Martins era filho de Estêvão Boto, da serra de Estrela, a quem D.Afonso V deu armas em 1462. E, na verdade, documenta-se um Rui Martins Boto que em 1514 foi feito tabelião de S. João da Pesqueira, mas demasiado tardio para ser filho de Martim Esteves Boto, que foi quem, na verdade, teve carta de armas em 1462.

Aquele Estêvão Boto podia ser confusão com Martim Esteves Boto, não fosse a cronologia. Genealogias familiares dizem que um filho homónimo de Rui Martins teve carta de armas em 1573, documento que não se encontra, onde os avós paternos viriam referidos como Estêvão Boto, da serra da Estrela, e sua mulher Maria de Souza, natural de Folgosinho (Seia), dizendo-se que o armoriado era descendente de Martim Esteves Boto. A dar crédito à existência desta carta de armas, parece evidente que o Rui Martins Boto que foi para S. João da Pesqueira era então filho de um Estêvão (Martins) Boto, de Évora, que foi casar a Folgosinho, na serra da Estrela, com Maria de Souza, onde passou a viver. E que este Estêvão Boto era filho de Martim Esteves Boto.

Acontece, porém, que o Dr. Paulo de Távora Boto, bisneto deste Rui Martins, diz que ele era filho de um estranho Heitor Barran de Olivete [8] , "de geração muito nobre dos Boto e Donas, de Beja". Que os Boto, recém-nobilitados, não eram "muito nobres" nem de Beja, já sabemos. É verdade que o descendente teria obrigação de conhecer o nome do bisavô, tanto mais que tratou a genealogia da família. Mas na mesma linha de ideias também devia saber que descendiam de um tosador de Évora… Assim, se este Heitor de facto existiu e não é uma conveniente fantasia como o nome faz sugerir, podia ter casado com uma virtual filha do dito Estêvão Boto, tendo a alegada carta de armas saltado uma geração, como acontece por vezes para "compor" uma varonia.

Que lição podemos tirar da cronologia? Já vimos que Martim Esteves Boto terá casado novo, a 1ª vez, cerca de 1415. Seu alegado filho Estêvão seria o mais novo, porventura do 2º casamento, pelo que pode ter nascido cerca de 1436 e casado cerca de 1469. O que apontaria o nascimento de seu alegado filho Rui Martins Boto lá para 1470, tendo portanto cerca de 44 anos quando foi feito tabelião da Pesqueira. Tudo aceitável, se bem que seja uma cronologia suficientemente dilatada para permitir a outra hipótese, ou seja, de Rui Martins ser neto (materno) e não filho de Estêvão Boto, principalmente se Estêvão Boto nasceu mais cedo.

De referir, contudo, que embora um descendente de Rui Martins Boto tenha casado com sua prima Catarina Donas, dando origem aos Donas-Boto, parece que já na ascendência de Rui Martins havia o nome Donas. A origem destes Donas é desconhecida, mas documentei na Chancelaria de D.Afonso V o chamadouro Donas usado por três indivíduos do século XV, todos do Alentejo, a saber: Diogo Lourenço das Donas, morador em Torrão, João Afonso das Donas, tabelião do cível e crime de Salvaterra de Magos em 1445, e João Gonçalves das Donas, fiador das rendas das sisas do pão, pescados, azeite e panos de linho de Évora, cargo que perdeu em 1452. Este último poderia ter sido o pai de Inez Anes, a 2ª mulher de Martim Esteves Boto e mãe de Estêvão Boto, sendo este, portanto, filho do 2º casamento e nascido lá para 1436, o que aponta para que Rui Martins Boto seja filho e não neto deste Estêvão.

Pela cronologia, também o famoso doutor Rui Boto devia ser filho do 2º e não do 1º casamento de Martim Esteves Boto.

 

Esquema genealógico

Em conclusão, apresento seguidamente um esquema genealógico do que poderia ser a descendência próxima de Estêvão Anes Boto. Sendo que a única aparentemente nobilitada é a que descende de Martim Esteves Boto, muito embora não seja de estranhar que no século XVI e posteriores se possam ter passado cartas de armas indiscriminadamente a todos quantos usassem o nome Boto. De resto, é na própria descendência de Martim Esteves Boto que se deve encontrar aquele Boto que antes de 1502 tinha uma adega ("adega que foy do Boto") justamente na rua dos Mercadores, junto à "alcarcova", em Évora. [9] E deste pode ter sido escrava Francisca Boto, escrava mulata que a Inquisição de Évora prendou a 30.1.1552, acusada de feitiçaria e "pacto com o diabo".

1.         Estêvão Anes Boto, n. em Évora cerca de 1370, tosador, já fal. em 1435. Terá estado como soldado na tomada de Ceuta. C. cerca de 1415 c. Maria Anes, que ainda viva em Évora em 1435.

1.1.   Martim Esteves Boto, n. em Évora cerca de 1395 e fal. depois de 1475. Esteve em Ceuta com seu pai. No início de 1436 era mercador em Évora, partindo em 1437 como vassalo do rei para a expedição de Tânger. Esteve com D. Afonso V na conquista de Alcácer-Seguer, onde terá sido feito cavaleiro. Em 1459, já cavaleiro, foi tomado como vassalo nobre do rei e em 1462 teve carta de armas novas. Segundo D. Flamínio de Sousa, foi juiz em Évora em 1466, vereador em 1473 e teve uma herdade coutada em 1443. Deve ter casado a 1ª vez, cerca de 1414, com uma Leonor Gomes (a). Casou 2ª vez, cerca de 1435, com Inez Anes (b), que a 5.11.1478, já viúva, teve privilégio vitalício de isenção do pagamento de qualquer foro de umas casas que tem na alcarcova do muro velho, junto da porta nova da dita cidade. Como ficou dito, esta Inez Anes podia ser filha do João Gonçalves das Donas que era fiador das rendas das sisas do pão, pescados, azeite e panos de linho de Évora e que perdeu seus bens nesta cidade (por ter estado em Alfarrobeira?), bens esses que D. Afonso V doou a 10.10.1452 a Aires Gonçalves.

1.1.1. ?(a) Martim Boto, n. cerca de 1415, tabelião de Nisa e escrivão da coudelaria desta vila em Setembro de 1438. Em 1439 D. Afonso V nomeou  Martim Boto, tabelião, morador  na vila de Nisa, para o cargo de escrivão da coudelaria dessa vila, tal como o era em vida de D. Duarte, em cuja chancelaria não consta a nomeação, pelo que deve ter acontecido pouco antes da morte deste rei. Teria assim sido nomeado escrivão da coudelaria em Setembro de 1438, com 18 anos de idade. Deve ser o Martim Boto que tinha casas em Évora em 1436, embora então fosse menor, provavelmente herdadas de sua mãe, então já falecida. 

1.1.2.  (a) (...) Boto, n. cerca de 1416 e casada antes de 1436 com Vasco Rodrigues, morador em Évora.

1.1.2.1.  ?Catarina Boto, que era casada com Nuno Fernandes Godinho, escudeiro do príncipe, quando em 1463 tiveram um prazo junto ao Hospital de Évora.

1.1.2.2.    ?Beatriz Boto, que casou com Diogo de Pina e eram moradores em Évora quando em 1480 seus filhos Manuel e João aí tiraram ordens menores.

1.1.2.3.    ?Leonor Boto, que casou com Pedro de Carvalhais e eram moradores em Évora quando em 1480 seus filhos Afonso e Fernando aí tiraram ordens menores.

1.1.3.  ?(a) Gonçalo Boto, n. cerca de 1418, escudeiro, morador casado em Nisa, que teve confirmação real do seu testamento e de sua mulher em 1475. Talvez o Gonçalo Boto que em 1464 é referido com tendo casa em Lisboa, junto da "cerca velha".

1.1.3.1.   Gonçalo Martins Boto, n. cerca de 1455, morador na vila de Nisa, onde fez testamento a 31.6.1533 e instituiu uma capela na igreja de S. Sebastião. Neste testamento refere seu filho Fernão (Gonçalves Boto) e seus sobrinhos (por afinidade?) Simão Vaz e Pedro Fernandes, e mandou rezar missas por alma de seu tio Martim Boto. É portanto o Gonçalo Boto, escudeiro e tabelião do duque de Viseu, que instituiu em Nisa com sua mulher Constança Vaz uma capela em 1484, conforme refere a Memória Histórica de Nisa (1855), de Mota e Moura, invocando o desaparecido Tombo das Capelas da matriz da vila de Nisa. Seu filho Fernão Gonçalves Boto, que então não tinha ainda 15 anos, era para ter sido capelão da referida capela, o que não aconteceu, tendo casado com Catarina de Sampaio, da dita vila, dando origem aos Boto de Sampaio daí. Este Gonçalo Martins Boto deve ser o Gonçalo Boto que a 20.2.1482 foi escrivão do serviço novo dos judeus de Niza. E o Gonçalo Boto, escudeiro, que a 9.3.1503 foi nomeado tabelião de Viana do Alentejo. E ainda o Gonçalo Boto que se documenta juiz ordinário da vila de Nisa entre 1518 e 1521. Este Gonçalo (Martins) Boto pode ainda ser pai do Rui Martins Boto que a 6.12.1501 foi tabelião na vila de Alpalhão (concelho de Nisa).

1.1.3.2.    ?Rui Gonçalves Boto, que teve carta de perdão a 20.4.1484, e que talvez fosse pai dos Estêvão Rodrigues Boto e Gonçalo Rodrigues Boto que tiveram cartas de perdão a 17.3.1491 e 29.11.1491.

1.1.4.  ?(a) Pedro Boto, n. cerca de 1421, que esteve na batalha de Alfarrobeira como pajem de Fernão Telles. Foi vereador do Senado da câmara de Évora. Deve ser o comendador de Alcains de que fala Gaio, que o diz pai de Isabel Pereira, abaixo.

1.1.4.1.    Isabel Pereira Boto, n. cerca de 1450, que c.c. Lopo Dias de Brito, n. cerca de 1430 e legitimado[10] por carta real de 7.8.1437, filho de outro Lopo Dias de Brito, claveiro [11] da Ordem de Avis, e de Tereza Anes, solteira.

1.1.4.1.1.   ?Leonor Dias Boto, que n. antes de 1470 e foi sepultada a 24.8.1538 na Santa Casa da Misericórdia de Viana. Em 1535, para não pagar um novo tributo concelhio, fez prova de nobreza, mostrando que seu marido era cavaleiro e que era de sua casa a capitania de todas as ilhas que se descobrissem na Terra Nova. Em 1527 deu à Misericórdia 100 reais pelo enterramento de uma sua escrava, e em 1531 deu trigo no valor de 1.080 reais à dita Misericórdia. C. a 1ª vez c. Fernão Rodrigues "do Cais" (a), de Viana, c.g., C. a 2ª vez, antes de 1504, com o célebre João Álvares Fagundes (b), n. cerca de 1460 e fal. em Dezembro de 1522, que descobriu a Terra Nova (Canadá) antes de 1499. Era cavaleiro da Casa de D. Manuel I quando este, a 22.5.1521, lhe fez mercê da capitania das ilhas e terras que já descobriu ou viesse a descobrir, além das terras que os Corte Reais descobriram, mais a norte (Gronelândia). Foi cevadeiro e escrivão da sisa da alfândega de Viana (4.3.1502). Era juiz ordinário e vereador da Câmara de Viana em 1512, de novo a 11.4.1515, e de novo vereador quando em Dezembro de 1522 foi substituído por sua morte.

1.1.4.1.1.1.  (a) Diogo Fernandes "Belinho", já maior de idade em 1504, que c.c. Maria Barbosa. Concorreram para a fundação do convento de S. Bento de Viana.

1.1.4.1.1.2.  (a) António Fernandes "do Cais", n. cerca de 1485, documentado como escudeiro fidalgo numa escritura de venda de 1551, fez justificação de nobreza em 1535 e testamento em 1566. C.c. Ana Pereira do Lago, c.g.

1.1.4.1.1.3.  (a) Martim Fernandes "Castelo", almoxarife em Viana, que c.c. Leonor Pinto, c.g. na casa de Bertiandos.

1.1.4.1.1.4.   (a) João Fernandes

1.1.4.1.1.5.   (b) D. Violante, n. entre 1495 e 1505, que c. cerca de 1510/20 c. João de Souza de Magalhães, fidalgo, senhor de Penteeiros ePormenores da pedra de armas e estátua jacente de João de Souza de Magalhães na matriz de Viana Francemil, etc., c.g. nos senhores da Trofa e casa de Bertiandos. Para ter filhos maiores de idade em 1504, Leonor Dias Boto não pode ter nascido depois de 1470. Por outro lado, em 1521 teria mais de 50 anos de idade, pois a mercê de D. Manuel deste ano não prevê sequer a hipótese de que possa vir a ter mais filhos. D. Violante, mulher de João de Souza de Magalhães, era a única filha do 2º casamento de Leonor Dias, como se documenta. Pela cronologia de seus filhos e netos, João de Souza de Menezes casou entre 1510 e 1520, tendo nascido cerca de 1480. Seu filho Damião de Souza ainda vivia a 2.10.1597, na sua quinta de Penteeiros, quando lhe escreveu o arcebispo de Braga sobre o seu padroado de Estorãos. Seu pai, Fernão de Souza (vide Ensaio sobre a origem dos Magalhães), seria ainda solteiro quando a 12.3.1477, sendo referido como fidalgo, fez juramento e homenagem ao arcebispo de Braga como alcaide-mor do castelo de Ervededo. D. Violante terá assim nascido entre 1495 e 1505. Pedro Magalhães Abreu Coutinho, na sua obra póstuma "Fagundes e a descoberta do Canadá", Ponte de Lima, 2000, não aceita que D. Violante seja a filha de João Álvares Fagundes e considera falsa a manda testamental que o documenta, com argumentos que, no entanto, podem perfeitamente ser explicados ou por má leitura, erro de cópia ou deficiente exegese, e sem outra razão documental salvo uma justificação de 1604, tardia e porventura interessada numa maior aproximação ao fidalgo João de Souza de Magalhães. Propondo, em alternativa, mas sem qualquer prova, que a filha de João Álvares Fagundes seja uma Catarina Fagundes casada com Gonçalo Afonso Cerqueira, pais de uma Margarida Fagundes casada com Pedro Rodrigues de Araújo. Sendo este o "Pedro Roiz genro da Fagundes" cuja filha se sepultou na Misericórdia de Viana em 1546, e sendo aquele Gonçalo Afonso o que se documenta como "Gonçalo Afonso da Fagunda", expressão tão popular que dificilmente se aceita que fosse genro de João Álvares Fagundes. Sendo certo que em Viana viviam então muitos indivíduos plebeus de apelido (patronímico) Fagundes. A dita justificação, que a 2.7.1604 fizeram Gonçalo Pereira do Lago e Filipe Pereira do Lago, diz que a mulher de João de Souza de Magalhães, "fidalgo nos livros de El-Rei", era filha de Fernão Rodrigues e sua mulher Leonor Dias Boto. Mas, por tardio e eventualmente interessado, este é testemunho que só por si não faz prova e que, como veremos, se engana ou mente. O documento determinante, contudo, é a manda testamental que João de Souza e sua mulher D. Violante fizeram a 16.4.1548, onde se diz que ela era filha de João Álvares Fagundes. De resto, D. Violante herdou a capela por ele instituída, sendo João Álvares Fagundes o único familiar do casal por quem são deixados bens de alma. Aliás, documenta-se autonomamente que João Álvares Fagundes a 24.5.1516 tinha uma propriedade em Valverde. E documenta-se, também autonomamente, que João de Souza tinha a 22.12.1526 uma propriedade em Valverde, certamente a mesma, e a que refere na sua manda. E esta é prova relevante. De resto, mais depressa se entende o casamento de João de Souza de Magalhães, o único fidalgo no meio disto tudo, com a filha herdeira de João Álvares Fagundes do que com uma sua enteada pobre. Para todos os efeitos, não me parece haver razões para duvidar da autenticidade da manda de João de Souza e sua mulher D. Violante, que, embora se diga também testamento, trata-se na verdade de uma manda, ou seja, das disposições de votos pios, enterramento e doações, respeitantes à terça disponível. Por essa razão não fala dos filhos todos, cada um herdeiro da sua legítima. É o seguinte o texto da manda de João de Souza e sua mulher, conforme vêm publicado no "Tratado das Ilhas Novas", de Francisco de Sousa (edição Arquivo dos Açores, 1884, pag. 32): "Em nome de Deus, Amem. Saibam quantos esta manda e testamento virem como nós João e Souza e D. Violante, moradores em esta Vila de Viana, estando em todo o nosso siso e entendimento cumprindo assim como Nosso Senhor Jesus Cristo nos deu, dissemos que por descarga de nossas consciências fazemos nossa manda e testamento pela maneira seguinte: Primeiramente encomendamos nossas almas a Jesus Cristo Senhor que as criou e remiu por sua Santa Morte e Paixão que haja misericórdia de nos perdoar nossos pecados que contra ele temos cometidos; e assim pedimos a sua Madre Santa Maria e a toda a corte dos Céus que tenham por bem de lhe rogar que de nossas almas se queira amerecer, amen. Mandamos que quando Nosso Senhor se aprouver de levar nossas almas, que nossos corpos sejam enterrados na Igreja desta Vila, na Capela do Crucifixo; Eu João de Souza no moimento, no arco que parte com a Capela-mor onde está a campa de meu sogro e eu D. Violante, no outro moimento que está contra a sacristia de Jesus, mandamos que nos enterrem com o hábito de S. Francisco e darão esmola a cada um dos mosteiros (...) cruzados. Mandamos que no dia de nossos falecimentos, a cada um de nós, nos digam cem missas com todo o ofício de mortorio e nove lições e ladainha (...) ao dito dia lhe darão por cada um de nós, de olvadação, doze alqueires de trigo e doze cantaros de vinho e seis dúzias de pescadas, repartidas pele maneira seguinte. A Igreja da Vila quatro alqueires de trigo e quatro cantaras de vinho e duas dúzias de pescadas. À misericórdia três alqueires de trigo e três cantaros de vinho e uma dúzia de pescadas e às freiras de S. Bento dous alqueires de trigo e uma duzia de pescadas e dous cantaros de vinho. Mandamos que ao ano somente do nosso falecimento nos digam e façam a cada um de nós como ao presente e repartido da mesma maneira; e mandamos que a cada um de nós nos digam um sabadal, uma missa cada sábado, com sua oferta de pão, de peixe e vinho como é de costume em um ano. Mandamos que nos digam a cada um de nós mil réis; à confraria do Espírito Santo, quinhentos réis por cada um de nós; mandamos por cada um de nós que nos vistam cinco pobres de olanda, se forem homens lhe darão pelotes e se forem mulheres saias e sainhos, mais dizemos que nosso Pae João Alv.es Fagundes, que Santa Glória haja, fez sua manda muito tempo antes do seu falecimento, em o qual manda tomava para si todo o Val-Verde (hoje uma quinta no lugar da Arquinha, próximo de Viana) e outros prazos, e que deixou isto à Capela do Crucifixo que está nesta Igreja, com certas obrigações de missas e outras cousas, segundo se contém no testamento do dito João Alv.es; e depois de estar o dito testamento feito foi descobrir a Terra Nova, em que fez muita despesa e tomou dinheiro emprestado, do que ficaram muitas dívidas, e mais o nosso casamento assim, que quando veio, por sua morte, além do nosso casamento e dos dinheiros que se pagaram, cousa nenhuma por onde se pudessem fazer nenhum cumprimento que ele mandava e deixava que lhe fizessem na dita capela, nem manda, nesta parte, não houve efeito, por não haver ali por onde se fizesse; porem nos dizemos que nós outros tomamos o dito Val-Verde, assim como está cercado com sua horta e casa em nossos terços, o qual tomamos para sempre em quanto o mundo durar, que nunca se possa vender nem alheiar nem descambar e só nossos herdeiros e sucessores (…) herdar se não da maneira seguinte: Que nos a deixamos a nossos filhos Cosme e Damião de Souza ambos, estes o hajam em suas vidas, e por suas mortes o hajam seus filhos deles, os mais velhos de cada um deles sempre até o fim do mundo fique sempre aos filhos mais velhos de toda a nossa geração de um e outro, os dois filhos daqueles que os tiveram e que sendo caso que alguns destes herdeiros que assim o houverem faleça sem ter filho herdeiro e legítimo que herde a parte dele que tinha o pai, em tal caso ficará todo ao vivo for; e o deixamos assim como nosso a filhos como aos que dele sucederem, com esta condição e obrigação, que eles cada semana mandarão rezar três missas na Capela do Crucifixo; uma pela alma do dito João Alv.es e duas pelas nossas almas, por cada um de nós sua missa, e mais alumiarão o lume da alampada de azeite à dita Capela, sempre, todos os dias, enquanto se disserem as missas na Igreja. E se algum sucessor do dito Val-Verde vender e alheiar, descambar a sua parte, mandamos que a peca e a haja o outro que nela tiver a dita parte; e cumprirá por nossos terços e deixamos por cumpridor de tudo isto um ao outro, o que de nós vivo ficar, e mais nossos filhos Cosme de Souza e Damião de Souza. Mandamos que tudo o mais que remanescer do nosso terço de ambos que, além do que aqui mandamos fazer o haja nosso filha D. Francisca que está em casa do Senhor Duque de Aveiro, a qual deixamos para seu casamento, que o herde com sua legítima e com as nossas bençãos. Mais dizemos que nós por esta descarga de nossas consciências mandamos que do monte mor de nossa fazenda antes de ser partilha feita se tomarão o campo do Vaxo das poças e ponturas, com horta, cerrado e o dêem ao mosteiro de S. Bento do Porto de S. Bento das Freiras e se ajunte ao prazo que tem nosso filho Cosme de Souza com as mais herdades do dito mosteiro e assim se tomará uma leira de vinha que comprei a António de Souza que jaz com vinha do prazo e se ajuntará a ele isto tudo deixamos e assim que ficam da partilha; e mandamos ao dito Cosme de Souza que faça apegar a atombar ao dito prazo o dito campo e vinha para que se pague mais ao dito mosteiro; e o dito campo e vinha (…) e for avaliado. Mandamos que do todo do monte mor dêem a Branca, que foi nossa ama, quatro mil reis, e se pague aos herdeiros de Diogo Rodrigues; mais tive um criado que se chamava João Gaspar de Braga, ao qual tomamos encargo de quinhentos réis; mandamos que se saiba se tem o dinheiro e se não o tiver, lhe paguem os ditos quinhentos reis, e não os tendo que os diga de missas por sua alma. Mais mandamos que dêem a Catarina Pires, ama, mil (deve ser 40) réis, para uma fraldilha, e isto por serviço que nos fez, mais mandamos que de todo o Montemor se diga pela alma de nosso Pae João Alv.es Fagundes dous trintearios de finados. E por aqui dizemos que nós havemos nossa manda a testamento por acabada. E mandamos que todas as outras mandas e testamentos que atrás forem que nos fizemos ou cada um de nos outros, desse que não valham em Juízo e fora dele, por quanto todos os havemos por reogados somente este que mandamos que valha, por esta ser nossa derradeira vontade; e por assim ser nossa última vontade rogamos a Afonso Alv.es Abade de Parada que esta nos fizesse a qual eu João de Souza assinei. Afonso Al.ves a rogo da dita D. Violante, assinou ao pé comigo. E eu dito Afonso Alv.es que a rogo do dito João de Souza e de D. Violante, esta manda lhe fiz, e aqui ao pé dela assinei, por ela não saber assinar, aos 16 de Abril de 1548". João de Souza, sendo referido como fidalgo da Casa d'el Rei, em 1531, para ficar isento de um novo tributo da Câmara de Viana, provou a sua nobreza, dizendo que era filho de Fernão de Souza, fidalgo, e neto de João de Magalhães, o Velho, senhor da Nóbrega, Souto e Ponte da Barca. Está sepultado com as suas armas (Souza, dito de Arronches) e estátua jacente no seu túmulo na igreja matriz de Viana do Castelo. Tem o túmulo a seguinte inscrição: "Aqui jaz Joham de Souza de Magalhais e seu filho Cosme de Souza". No pilar exterior da capela, da banda do evangelho, diz: "Tem obrigação esta Capela de três missas cada semana e (...) cada mês; pela alma de Joham de Souza Magalhães e sua mulher Violante e seu filho Cosme de Souza. Em Perpetuo". Finalmente, como prova final e definitiva de que D. Violante era a filha única e herdeira de João Álvares Fagundes, temos a carta de D. Filipe I de 2.6.1589 para Damião de Souza, fidalgo da sua Casa, que lhe manda pagar a avultada soma de 2.000 cruzados pelos direitos do descobrimento da Terra Nova. Ou seja, os direitos do descobrimento da Terra Nova estavam então na posse de Damião de Souza, neto (materno) herdeiro de João Álvares Fagundes.

1.1.4.1.2.   Lopo Dias de Brito, que c.c. Isabel Ribeiro, c.g.

1.1.4.1.3.   ?Garcia Dias Boto, vereador do Senado da Câmara de Viana do Castelo em 1526.

1.1.4.2.    ?Beatriz Boto, que viveu em Évora c.c. Francisco de Resende, "criado" do bispo de Évora D. Garcia de Menezes, a quem D. João II doou a 28.6.1484 uma herdade no termo de Évora.

1.1.4.2.1.   Garcia de Resende, o célebre cronista, que n. em Évora cerca de 1470 e fal. a 3.2.1536, sendo sepultado em campa armoriada (Resende) em capela que instituiu em 1520 na cerca do convento do Espinheiro (Évora).

1.1.4.3.   ?António Boto, que a 6.9.1517 teve provisão do governador de Goa para receber 10 pardaus de seu soldo e moradia. Já tinha fal. a 25.12.1525, quando Garcia de Resende, seu proposto sobrinho, recebeu o prazo de um moinho que fora seu.

1.1.4.4.   ?Martim Boto, morador em Arzila a 27.3.1526 quando D. João III lhe deu provisão de 3.000 réis de que lhe fazia mercê para o caminho. A 13.12.1530 o feitor de Goa passou recibo dos 402 pardaus de ouro de empréstimo para o rei que recebeu de Martim Boto. Talvez o Martim Boto que era escudeiro do chanceler-mor doutor Rui Boto quando em 1498 foi nomeado tabelião de Olivença, cargo a que já tinha renunciado a 16.4.1499, quando nele foi nomeado Luiz de Aguiar, escudeiro de D. Beatriz da Silva.

1.1.4.5.   ?Gonçalo Esteves Boto, referido por Gaio, que o diz natural de Évora e comendador de Carreço. Terá casado com uma (..) Nunes, a avaliar pela onomástica das filhas que Gaio lhe dá.

1.1.4.5.1.   ?Catarina Boto, "de que vem a Casa de Borba" (Gaio).

1.1.4.5.2.   ?Maria Nunes Boto

1.1.4.5.3.   ?Grácia Nunes Boto, que c.c. Valentim da Rocha, que Gaio diz fundadores da capela de S. Bartolomeu na matriz de Viana, e do morgadio de Vila de Punhe.

1.1.4.5.4.   ?Violante Nunes Boto, c.c. João Velho Barreto (a) e c. Jorge Barbosa de Sousa (b).

1.1.4.5.4.1.   (a) Pedro Velho Barreto, cavaleiro fidalgo da Casa Real (25.8.1588), c.c. Isabel Barbosa.

1.1.5.   (b) Doutor Rui Boto, n. cerca de 1435 e fal. depois de 6.1.1515, data em que ainda se documenta como chanceler-mor do reino. A 28.5.1465, sendo escudeiro da Casa Régia, teve do rei uma tença anual de 4.000 reais de prata para os seus estudos. Doutorou-se em Direito Civil e a 6.4.1473 D. Afonso V confirmou a nomeação de Rui Boto, feita a 1.3.1473 pelos reitores, lentes, conselheiros e escolares da Universidade de Lisboa, para o cargo de reitor do estudo da hora de Tertia na Universidade de Lisboa, em substituição de João Fernandes, bacharel, desembargador, que renunciara. A 17 de Julho do mesmo ano o rei confirmou a nomeação por eleição de Rui Boto para lente da cadeira de Leis da Universidade de Lisboa, em substituição do bacharel Fernão de Figueiredo, último regente da dita cadeira, que o monarca nomeara para o ofício do doutor Gonçalo Garcia. A 13 de Agosto seguinte o rei confirmou a eleição de Maracote, escolar em leis, feita pelos reitores, lentes e conselheiros da Universidade de Lisboa, para o cargo de lente de Leis da hora da Véspera da dita universidade, por renúncia do titular, o reitor Rui Boto. Abandonou depois a Universidade e a 15.11.1476 D. Afonso V privilegiou o doutor Rui Boto, letrado em Direito, recebendo-o novamente por desembargador na Casa da Suplicação e Relação, com todo o mantimento, honras, liberdades, privilégios e franquezas, como têm os outros desembargadores da dita Casa. A 26.6.1480 o rei nomeou o doutor Rui Boto, desembargador na Casa da Suplicação, para o cargo de ouvidor régio na dita Casa, em substituição de Pedro Machado, seu sogro, que o monarca nomeou para desembargador. A 6.7.1480 foi nomeado por D. João II desembargador do Paço e chanceler-mor do reino, cargo que continuou a exercer com D. Manuel I, que o fez membro do seu Conselho, tendo redigido o 1º e o 2º livros das Ordenações Manuelinas, impressos em finais de 1514. No final da vida fez-se clérigo e em 1498 era clérigo conjurado da diocese de Évora, sendo-lhe a 11 de Julho desse ano concedido indulto de altar portátil. Fica assim bem estabelecido que Rui Boto casou com uma filha de Pedro Machado (casado com Branca Coelho), que parece se chamou Mécia de Andrade. Este Pedro Machado [12] não devia ser muito mais velho do que o genro, tendo nascido cerca de 1415. Sendo certo que a 22.12.1472 ainda não tinha 70 anos, como expressamente se diz no privilégio de D. Afonso V a Pedro Machado, ouvidor da Casa da Suplicação, recebendo-o por vassalo régio e concedendo-lhe aposentação sem ter atingido a idade de 70 anos. Pedro Machado documenta-se também bacharel em Leis e ouvidor e corregedor de Entre-Tejo-e-Guadiana em 1462, 3, 4, 9 e 71, e com bens na Estremadura. A 8.5.1469 D. Afonso V nomeou Pedro Machado, bacharel em Leis, para o cargo de ouvidor da casa da Suplicação, em substituição de Pedro Miguéis, que morrera, com todo o mantimento, honras e liberdades dos seus antecessores. Como ficou dito, Pedro Machado foi feito desembargador em 1480, sendo certamente o homónimo que D.João II confirmou a 22.8.1482 como desembargador da Casa do Cível. C.g. nos Boto Machado.

1.1.6.   ?(b) Estêvão Boto, n. cerca de 1436, que foi casar à serra da Estrela (Folgosinho) com Maria de Souza, e foram pais (ou avós) de Rui Martins Boto, tabelião de S. João da Pesqueira em 1514, tronco dos Donas-Boto.

1.2.  ?João Boto, morador em Évora, criado do rei.

1.2.1.  ?Afonso Anes Boto, tabelião da vila de Setúbal\, que a 2.7.1456 teve carta de perdão real, acusado de ter feito uma quitação falsa contra Pero Manhos, tendo pago 3.000 reais brancos para as obras da Relação régia, ficando proibido de exercer o ofício de tabelião. É certamente o Afonso Anes Boto, morador no Bombarral, monteiro e guardador das matas reais da Albergaria, que por sua morte foi substituído no cargo em 1472. E certamente pai do Afonso Anes Boto, também morador no Bombarral, que a 20.4.1512 teve mercê para se aposentar deste cargo, tendo na mesma dada mercê para lhe suceder um Braz Boto, certamente seu filho. 

1.3.   ?Gonçalo Esteves Boto, morador em Setúbal.

1.3.1. Luiz Gonçalves, morador em Setúbal, que a 17.8.1456 teve carta de perdão real, vindo acusado de vários malefícios, na sequência do perdão geral outorgado pela ida contra o Turco, contanto que vá estar um ano na cidade de Ceuta.

1.3.2.   Mem Gonçalves, morador em Setúbal, que teve carta de perdão em 1463.

1.3.3.   Gomes Gonçalves Boto, morador em Setúbal, a quem D. Afonso V perdoa o resto do tempo de degredo do ano a que fora condenado para a cidade de Ceuta, acusado de ter ferido várias pessoas, na sequência do perdão geral outorgado aos homiziados que serviram na armada e tomada da vila de Alcácer. É o Gomes Gonçalves Boto, morador em Setúbal, que a 8.6.1464 foi nomeado escrivão da dízima e sisa do pescado da dita vila, em substituição de Pedro Afonso, que renunciara. A 28.6.1481 renunciou ao cargo de escrivão das ementas da ribeira de Setúbal. A 10.9.1481 o príncipe D. João perdoou a justiça régia pela fuga da prisão do concelho de Setúbal e dá carta de segurança a Gomes Gonçalves Boto, morador nesta vila, pela fuga de um preso, tendo pago 500 reais para a Piedade. Talvez pai do Gonçalo Boto referido numa carta de 4.2.1516 do juiz e vereadores de Setúbal para o rei, a propósito de uma carta que o dito Gonçalo Boto lhe escrevera referente à dízima da sardinha de fumo de Setúbal. 


Notas

1] "Pedatura Lusitana", Botos (bis).

2] Chancelaria de D. Duarte.

3] Gabriel Pereira, "Documentos Históricos da Cidade de Évora", Lisboa, 1998

4] GEPB, Boto.

5] Gabriel Pereira, "Documentos Históricos da Cidade de Évora", Lisboa, 1998.

6] Vide nota anterior.

7] "Donas-Boto de S. João da Pesqueira. Origens e novos ramos", 2005, de Albano Chaves.

8] Barran é um nome próprio irlandês, nome de um clã escocês, nome de uma vila francesa e outra galega, etc. Olivete (Oliveira, Olival, em italiano) parece relacionado com o famoso Monte Olivete (Israel), que é também nome de uma rua/lugar em Lisboa. Monte Olivete é ainda o nome de uma quinta em Almada, que pertencia ao rei D. Duarte, onde a 31.3.1439 nasceu sua filha a infanta Dona Joana, a Beltraneja.

9] Vide "Tombos da Ordem de Cristo. Comendas a Sul do Tejo (1505-1509)", Lisboa 2002, pag. 155, do Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa.

10] Devia então ser criança. Na mesma carta foram com ele legitimadas suas irmãs Filipa, Inez e Briolanja Dias de Brito.

11] Cargo de mordomo, tesoureiro, chaveiro, despenseiro e porteiro-mor das ordens militares. Era normalmente a quarta mais importante dignidade das ordens.

12] Sabe-se também que Pedro Machado era cunhado de um Afonso Vasques, pois a 13.5.1469 D. Afonso V privilegia por dois anos Afonso Vasques, cunhado de Pedro Machado, ouvidor régio na Casa da Suplicação, concedendo-lhe licença para andar em besta muar de sela e freio por todo o reino e senhorio. As genealogias dizem que este Pedro Machado era filho de João Esteves Carregueiro e sua mulher Leonor Alvares Machado, e pai do João Machado que a 2.11.1513 teve carta de armas para Carregueiro, Machado, Esteves e Coelho.

 
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