regresso à bibliografia

 Manuel Abranches de Soveral

 

 

 

«Quinta do Maravedi.  Subsídios para a sua História»

Gaia 1994     DL nº 81191/94        Texto integral, revisto e aditado

História recente                 

Pormenor da escadaria da casa da quinta de Maravedi, já em adiantado estado de abandono e ruína, antes das obras de restauro e recuperação que a transformaram no Conservatório de Gaia que hoje é.No coração de Vila Nova de Gaia, meio caminho entre as Devesas e o largo Soares dos Reis, conseguiu resistir ao camartelo uma casa quinhentista que deverá ser hoje a mais antiga ainda existente naquela parte central da cidade, que grosso modo corresponde à confluência das freguesias de Stª Marinha e Mafamude, entre as quais aliás a respectiva quinta se divide. Há vários séculos na posse da mesma família, a quinta do Maravedi ia levar o caminho habitual das propriedades agrícolas encravadas nos centros urbanos, ou seja a construção de propriedade horizontal, quando a Câmara Municipal, alertada para o efeito por um artigo que então publiquei na revista «O Tripeiro»(1), em boa hora decidiu evitar a demolição iminente da casa, classificando-a (20.6.1983) como imóvel de interesse concelhio, após a intervenção decisiva de Miguel Nunes da Ponte, arquitecto responsável pelo Gabinete de Planeamento Urbanístico do município.

Infelizmente, a área de protecção à casa, então aprovada pela Câmara, não está a ser minimamente cumprida pela própria autarquia, que autorizou a construção, paredes meias, de um prédio de 27 andares!...

A classificação do imóvel levou a que o município escolhesse a área (6.500 m2) onde a casa está implantada como parte do terreno cedido pelo proprietário, José Correa Pacheco, para domínio público no processo de loteamento da quinta do Maravedi.

A casa do Maravedi estava então, após mais de um século de abandono por parte dos seus proprietários, em adiantado estado de ruína. O restauro que se impunha foi então integrado no projecto do Gabinete de História e Arqueologia de adaptar a casa a sede da Fundação Conservatório Regional de Gaia, aprovado pelo município a 27.10.1986 e finalmente consagrado num protocolo de 15.9.1991, assinado entre a Câmara Municipal de Gaia e o director da referida fundação, Mário Mateus.

Antiguidade e limites

Embora já Dom Afonso IV tenha aforado a 24.4.1336 «certas teygas, foros, dereytos e dereyturas» do seu «reguengo que chamam da Fonte do Maravedi, no julgado de Gaia», conforme adiante se detalhará, a mais antiga notícia que consegui descortinar sobre a quinta do Maravedi remonta a 1577, ano em que, a 20 de Junho, foi emprazada por três vidas a Isabel de Magalhães. Como, infelizmente, estão perdidos os livros de Notas de Gaia anteriores a 1600, a informação(2) é-nos apenas facultada pela renovação do emprazamento, por mais três vidas, a Jerónimo Ferreira da Maia, descendente daquela Isabel de Magalhães, feito a 29.4.1691 e confirmado a 28.10.1704.

O emprazador desta renovação era o donatário de Gaia-a-Pequena Álvaro Leite Pereira, fidalgo da casa Real, cavaleiro da Ordem de Cristo, morgado de Quebrantões e senhor do paço e quinta de Campo Belo, onde vivia. Donde facilmente se pode concluir que a quinta do Maravedi terá sido emprazada em 1577 por um seu antepassado. Qual?

O emprazador de 1704, que se assina Álvaro Leite Pereira e invoca os títulos acima referidos, tinha nascido em 1646 e era filho de Diogo Leite Pereira e de sua mulher D. Helena de Távora e Noronha, filha de Martim de Távora e Noronha, senhor da quinta de Campo Belo e descendente e representante de Álvaro Anes de Cernache, a quem Dom Duarte doou a 19.11.1433 o senhorio de Gaia-a-Maior. Diogo Leite Pereira, por seu lado, era trineto daquele Diogo Leite a quem Dom João II doou em 1491 o senhorio de Gaia-a-Pequena e que foi vereador do Senado da Câmara do Porto (1523), Procurador às Cortes (1535) e morgado de Quebrantões(3), onde vivia.

E aqui convém, antes do mais, esclarecer que Gaia-a-Maior (ou Gaia-a-Grande ou Gaia-a-Velha) correspondia ao velho burgo acastelado, enquanto Gaia-a-Pequena correspondia à vila (quinta) onde Dom Afonso III fundou uma póvoa (povoação) para poder partilhar o rio e seus proveitos com os Bispos do Porto.

Sendo o emprazador de 1704, Álvaro Leite Pereira, descendente e herdeiro quer dos senhores de Gaia-a-Maior quer dos de Gaia-a-Pequena, poderia pôr-se a questão de saber de qual dos lados lhe vinha o senhorio da quinta do Maravedi. Esta dúvida, contudo, é ultrapassado não só pelo facto de a quinta do Maravedi ficar bem no coração no território de Gaia-a-Pequena, próximo do morgadio de Quebrantões, mas também porque o próprio emprazador declara no referido documento de 1704 que a dita quinta do Maravedi pertencia ao «seu reguengo», ou seja, à sua donataria, expressamente referida como sendo a de Gaia-a-Pequena.

Donde se pode perfeitamente concluir que o emprazador da quinta do Maravedi em 1577 foi Álvaro Leite, filho sucessor daquele Diogo Leite a quem Dom João II doou em 1491 o senhorio de Gaia-a-Pequena e trisavô do Álvaro Leite Pereira que renovou o prazo em 1704. E, apurado que a quinta do Maravedi fazia parte da donataria de Gaia-a-Pequena, fica apenas por saber se a casa já existia anteriormente ao primeiro emprazamento de 1577 ou, o que é mais provável, se foi construída por aquela Isabel de Magalhães após obter o senhorio útil da propriedade.

O que não obsta que a casa tenha sido então erguida sobre ou a par de outras construções anteriores. O citado aforamento(4) de Dom Afonso IV, que não refere a existência de nenhuma habitação, foi feito por três vidas a Martinho Anes Alho, mercador do Porto, e a sua mulher Maria Anes, com a renda de três libras anuais. E aí se definem os limites do reguengo: «parte com o lugar de Martim Estevens o que faz as naos e como parte com o lugar de Mestre Estevam e des i como vay ao caminho defeso e do outro lado Andre Giraldiz assi como esta todo çarrado sobre si».

Mas aquele casal comprara pouco antes (4.3.1332) a Domingos Ferreira e sua mulher Margarida Mateus, moradores no Porto, «por trezentas libras de portugueses e hum meyo marquo de prata por renova», «com todas sas entradas e com todos seus dereytos e pertenças de monte em fonte», «o logar que jaz abayxo da Fonte do Maravedi, termo de Villa Nova dá par de Gaya, o qual lugar parte com Andre Giraldiz e da outra parte com mestre Estevam e da outra parte com o caminho defeso e como vay firir aos matos reguengos».

O que desde logo nos permite retirar por conclusão que aquele Martim Alho, como também é chamado, aparentemente escondeu, no aforamento, o facto de possuir terras que limitavam com o reguengo. E que actual casa da quinta do Maravedi deve ter sido erguida neste local comprado a Domingos de Ferreira, pois se situa justamente abaixo do grande tanque alimentado por uma boa fonte, pertencentes à propriedade, a qual certamente corresponde à Fonte do Maravedi do século XIV e deu nome à quinta. Por qualquer razão, todas estas terras voltaram à posse do rei e integraram a donataria de Gaia-a-Pequena, a que pertencia a quinta do Maravedi aforada em 1577, cujos limites nos finais do século XVII eram os seguintes:

1. Morada de casas de sobrado e térreas, que têm do norte a sul pela parte do nascente 52 varas, e pela parte do poente 52 varas, e de través pela parte da cabeça do sul 13 varas, e de través pela parte do norte sete varas;

2. seis casas térreas, com cerca de 50 por 40 varas, que servem de gado e palheiros para a parte do nascente, que parte a nascente com a estrada de Lisboa, a sul com Manuel dos Reis, a norte com o Doutor Amaro Alvares Paraíso e a poente com terras da quinta;

3. um pátio entre as casas que tem de comprido do norte ao sul 50 varas, e pela parte do nascente e do sul ao norte pela parte do poente 50 varas, e de través pela parte do norte 17 varas e meia, e de través pela parte do sul 21 varas

4. uma eira pegada às casas e um campo junto que levará de semeadura 5 quartas de centeio com suas árvores de oliveira;

5. três casas de sobrado e duas térreas e um cozinha e quintal à cabeça do campo chamado Cardozo, que estão emprazadas a Crisóstomo da Costa, com cerca de 74 por 35 varas, que levará de semeadura 1 alqueire e meio, com suas árvores de espinho e suas ramadas, que confinam a nascente com a estrada de Lisboa e nas restantes partes com a quinta;

6. um campo chamado o Cardozo, com cerca de 40 por 30 varas, que levará de semeadura 1 alqueire de centeio, mais duas moradas de casas térreas, com 28 por 7 varas, que confinam a nascente com a estrada que vai para Lisboa e das mais partes com terras da quinta, mais umas casas junto, com 25 por 12 varas;

7. uma casa térrea sita no monte do negro, com cerca de 32 por 5 varas, que parte a nascente com a estrada, a norte com as casas de António dos Reis a sul com a terra do Doutor Amaro Alvares Paraíso e a poente com a quinta;

8. um campo chamado da Porta, com certa de 70 por 80 varas, que levará de semeadura 4 alqueires de centeio;

9. a Deveza da Porta, que confina a sul com a estrada velha que vai das Freiras para a Bandeira, com cerca de 100 por 60 varas, que levará de semeadura 7 alqueires de centeio;

10. o monte pegado à Barrosa chamado do Pinheiro, com cerca de 180 por 60 varas, que confina a nascente, norte e sul com terras da quinta e a poente com a estrada velha e montados da Barrosa, que levará de semeadura 6 alqueires;

11. o campo do Pinheiro, com cerca de 100 por 50 varas, que levará de semeadura 5 alqueires;

12. o montado da Devesa do Carvalhal, que confina a sul com terras da quinta e a poente com a estrada velha que vai das Freiras para a Bandeira, com cerca de 150 por 30 varas, que levará de semeadura 9 alqueires de centeio e que tem dentro de si uma devesa de carvalhos e castanheiros;

13. um monte com suas árvores de pinheiros e carvalhos, com cerca de 50 por 20 varas, que levará de semeadura um alqueire de centeio, que parte a norte com Nicolau Pereira e nas restantes partes com a quinta;

14. o campo chamado das Cortinhas, com cerca de 80 por 50 varas, que levará de semeadura 2 alqueires e parte a norte com Nicolau Pereira e nas restantes partes com a quinta;

15. uma ribeira chamada do Eyxo, com cerca de 220 por 40 varas, que parte da banda do poente com Dona Dionísia Chamorro, mãe de Nicolau Pereira, a norte com a estrada velha do rio do Eyxo e das restantes partes com a quinta;

16. o vale da quinta, com cerca de 150 por 90 varas, que parte de todos os lados com terras da quinta, que levará de semeadura 7 alqueires de centeio, com sua deveza de castanheiros, olival, pomar de limoeiros e campo de milho;

17. um montado ao pé da Bandeira, com cerca de 160 por 60 varas, que parte a nascente com a estrada de Lisboa, a norte com terras do emprazador e nas demais com terras da quinta, que levará de semeadura 20 alqueires de centeio, com os seus pinheiros, carvalhos e sobreiros;

18. um campo que confina a nascente com a estrada de Coimbrões e nas restantes partes com a quinta, que tem pela parte do norte, do poente ao nascente, 150 varas, e pela parte do nascente morre em ponta aguda e pela parte do sul, do nascente ao poente, 250 varas, e pela parte do poente, do sul ao norte, 69 varas, que levará de semeadura 5 alqueires e no qual está um pomar de vários frutos, um olival e a Capela de S. João;

9. um quintal para o poente da banda das costas das casas, com cerca de 30 por 20 varas, que confina a sul com a estrada de Coimbrões e parte da Bandeira, a nascente com as casas da quinta e nas restantes partes com terras da quinta, que levará de semeadura um alqueire de centeio e tem árvores de fruto. Nas costas deste quintal está uma ramada e uma casa térrea que serve de despejo da cozinha.

Podemos assim constatar que a quinta do Maravedi tinha dimensões consideráveis, principalmente atendendo ao local onde se situava, e que estas propriedades eram certamente as originais do «prazo velho» de 1577. Situada no Alto da Bandeira, os seus limites seriam a nascente a estrada que ia do Porto para Lisboa, a sul a estrada que ia para Coimbrões e a estrada velha que ia do convento das Donas de Corpus Cristi para a Bandeira, a poente a estrada velha da Barrosa e a norte alguns vizinhos e a estrada velha do rio do Eyxo.

Limites que mantinha ainda nos finais do século passado, pois Pinho Leal, no seu «Portugal Antigo e Moderno», quando fala de Quebrantões diz que a quinta do Maravedi «fica entre as ruas da Bandeira e o logar da Barrosa, na freguezia de Gaia; mas uma boa parte d'ella é na freguesia de Mafamude». E acrescenta que «a rua da Bandeira é foreira a esta quinta», o que era um facto, documentável nos muitos caseiros(5) a quem António Craesbeck de Mello e seu sobrinho e herdeiro tinham sub-emprazada boa parte da quinta.

O nome e a Capela    

Em torno do exacto nome da quinta do Maravedi tem girado muita confusão. Já Pinho Leal, no seu citado dicionário geográfico, espelha esta situação ao referir-se «à quinta do Maravidi ou do Marevidi», o que testemunha que no final do século passado se tratava de uma dúvida corrente, mesmo na família, que era das relações daquele historiador.

Pinho Leal, perante a dúvida, defende uma terceira grafia: Marevide. E explica que, vindo o nome do latim mare vidi (vêde o mar), aquela seria a forma correcta de o escrever em português. E esta relação do nome da quinta com a inesperada possibilidade de se ver dali o mar é expressivamente sublinhada pelo facto de ser também chamada de quinta do Mar-vide, como se vê num documento de 1802, onde se pode ler: «Prazo que faz o Ilustríssimo João Corrêa Pacheco Pereira, Sargento-Mór de Infantaria, Governador da Fortaleza de Nª Sª das Neves de Leça de Matozinhos e da Governança da cidade do Porto, morador na sua quinta do Marevide, digo, quinta do Mar-vide».

Não obstante, também aparece Maravidi, por exemplo no registo de casamento de João Correa Pacheco Pereira (1748), Maravid, na renovação do prazo em 1732, e até Meravedi, na renovação de 1704 e Marevedi na de 1691. A «Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira», num artigo sobre Vila Nova de Gaia, ao enumerar cinco casas nobres do concelho, chama-lhe até quinta do Maravedil, forma popular de maravedi, nome que provavelmente foi colhido no «Dicionário Geográfico» (1758) que resultou do inquérito que o Marquês de Pombal mandou fazer às paróquias, onde já se faz referência à «Capela de S. João da quinta do Maravedil». Já os «Palácios e Solares Portugueses», da Lello & Irmãos, lhe chama «casa e quinta do Maravidi».

O nome correcto, contudo, parece ser Maravedi, moeda de ouro de origem árabe muito usada em Portugal na primeira dinastia e cujo prestígio se manteve na memória das pessoas. Com efeito, é justamente Maravedi o nome que aparece nos documentos da primeira metade do século XIV a que já nos referimos. E é também por este nome que a quinta é designada na doação para a construção da capela da casa (1620), embora neste documento aparece num sítio Maravedi e noutro Maravidi. E, finalmente, é por Maravedi que a quinta é hoje geralmente chamada.

Como quer que seja, uma coisa é certa: apesar de se situar bem longe da costa, a apenas algumas centenas de metros da actual avenida principal de Vila Nova de Gaia, inesperadamente, devido a uma caprichosa disposição do terreno, a quinta desfruta de uma vista privilegiada, hoje muito prejudicada pela urbanização envolvente, mas que no passado realmente se estendia até ao mar, como testemunha Pinho Leal.

Situação e vista que dão ao local, de resto, um grande valor estratégico, como se viu na importância que assumiu nas operações militares do Cerco do Porto. Com efeito, o exército realista acampou ali próximo e colocou junto à quinta as baterias de Dona Leonor e da Barrosa, donde bombardeou o Palácio das Carrancas, hoje Museu Nacional Soares dos Reis e então residência militar de Dom Pedro IV. E mais tarde foi dali, do Alto da Bandeira, que o futuro Marquês de Sá da Bandeira comandou o ataque à serra do Pilar e onde perdeu o braço. E ali, também, foi ferido mortalmente, na batalha de 14 de Outubro, o brigadeiro realista Francisco Peixoto, que seria sepultado justamente na Capela de S. João Baptista da quinta do Maravedi.

Esta capela foi mandada erguer nos princípios do século XVII, nos terrenos da quinta, perto da casa, sob a invocação de S. João Baptista. O seu instituidor foi o padre Francisco Pinto da Veiga, Abade de S. João Baptista de Canelas (Gaia), 2º senhor do prazo da quinta de Maravedi, onde viveu, que a 20.10.1620 faz uma «doação para a fabrica da Capela de S. João Baptista do Maravedi»(6).

É nesta capela de S. João Baptista que a maioria dos membros da família proprietária foram baptizados, casados e muitos sepultados. Viria a seria demolida já neste século, estando hoje a sua cantaria guardada pela autarquia na Casa-Museu dos Condes de Rezende, em Canelas. A sua azulejaria e recheio seriam levados pelos proprietários para a casa do Barreiro, na Madalena (Paredes), quando para lá foram viver, cerca de 1850. 

Quanto ao mais da história da quinta de Marevide, com mais de 400 anos na posse de uma mesma família, ainda que em 1732 se tenha assistido a uma passagem de propriedade por parentesco de afinidade, nada melhor do que percorrer com alguma minúcia a vida daqueles que a possuíram e nela viveram, o que é especialmente possível ao longo dos últimos 300 anos, dada a proeminência da maioria das pessoas em causa.

António Craesbeck de Mello

A 1ª senhora do prazo da quinta do Maravedi, Isabel de Magalhães (porventura parente da D. Antónia de Magalhães casada com o donatário de Gaia-a-Pequena Diogo Leite Pereira, já referido como provável emprazador de 1577) devia ser viúva à data do emprazamento, já que o marido não é referido, sucedendo-lhe como 2º senhor do prazo o também já referido padre Francisco Pinto da Veiga, certamente seu filho, que em 1593 era abade de S. João Baptista de Canelas (Gaia), embora morasse «no seu casal do Maravedi e seus montados», onde faleceu velho a 15.2.1638, sendo sepultado na capela da quinta e deixando herdeira sua neta Misericórdia Pinto da Veiga, então já casada.

Em 1691, ano do primeiro documento da citada renovação do prazo, habitavam «as casa de morada» da quinta do Maravedi os já referidos Jerónimo Ferreira da Maia e sua mulher Inácia dos Reis da Costa, 4ºs senhores do prazo, sendo ela filha de Manuel Álvares Pinto (da Veiga) e neta paterna daquela Misericórdia Pinto da Veiga, de quem foi herdeira. Esta Inácia faleceu viúva a 24.6.1710 na quinta do Maravedi, sendo sepultada na sua capela de S. João Baptista. O prazo, como também já referimos, tinha sido renovado em 1704 no dito Jerónimo Ferreira da Maia, a 1ª das três vidas então emprazadas, o qual deixou sucessora da quinta, em 2ª vida, sua filha D. Mariana Bernarda Angélica Ferreira da Maia.

Esta senhora casou a 8.4.1709, na sua capela de S. João Baptista, com António Craesbeck de Mello(7), com quem viveu na quinta do Maravedi e de quem teve um filho único, de nome Diogo, que por morte da mãe sucedeu no prazo em 3ª vida. Este Diogo, contudo, faleceria ainda rapaz de menor idade, antes de 1732.

Esgotadas assim as três vidas emprazadas, António Craesbeck de Mello, como herdeiro do filho, obteve a 23.2.1732 a renovação do senhorio útil da quinta do Maravedi por mais três vidas, conforme por direito lhe pertencia, «pagando o foro do prazo velho». Foram então emprazadores Francisco Diogo Leite Pereira, senhor donatário de Gaia-a-Pequena, fidalgo da Casa Real, cavaleiro da Ordem de Cristo, etc. (filho e sucessor do emprazador de 1704), e sua mulher D. Ana Casimira de Lima e Mello, moradores na sua quinta de Campo Belo.

António Craesbeck de Mello viveu na quinta do Maravedi desde 1709, obteve em 1732 a renovação do respectivo prazo, como seu 7º senhor, e aí faleceu a 11.6.1753, sendo sepultado na sua capela de S. João Baptista(8). Tinha nascido na cidade do Porto cerca de 1675 e sucedeu a seu pai como escrivão proprietário da Provedoria da cidade e comarca do Porto, cidade onde foi ainda senhor da grande quinta da Tapada do Bom Jardim.

Pertencia, de facto, a uma família proeminente no seu tempo, pois era sobrinho paterno do famoso livreiro-mor e impressor da casa Real do mesmo nome, e neto paterno do não menos famoso Paulo Craesbeck, fidalgo da casa Real (20.3.1670), livreiro-mor do reino e da Ordem de Cristo, impressor da casa Real, morgado da Patameira, em Lisboa, etc., que por sua vez era filho de Pedro Craesbeck(9), fidalgo nascido em 1552 em Lovaina (Bélgica) que em Portugal fundou em 1590 a mais famosa casa editora do seu tempo e a quem o rei deu foro de fidalgo da sua casa (25.10.1617) e nomeou impressor da Casa Real (28.5.1620), livreiro-mor do reino e da Ordem de Cristo (12.10.1628) e depois também das restantes ordens militares (27.10.1642).

Irmão de D. Diogo de S. Caetano, cónego no mosteiro mosteiro de Vale de Piedade, onde faleceu a 26.11.1752, e do padre Paulo Craesbeck de Mello, que em 1728 emprazou várias propriedades que tinha também no Alto da Bandeira(10), António Craesbeck de Mello era filho de Diogo Soares Craesbeck(11), nascido na cidade de Lisboa e falecido a 11.2.1705 na sua casa da rua de Penaventosa, no Porto, cidade onde foi procurador da Câmara (12.5.1663) e escrivão proprietário da Provedoria da comarca, pelo menos desde 1660. Tinha casado a 8.6.1673, na Sé do Porto, com D. Tereza de Souza Ferreira, irmã e herdeira do provincial da Ordem dos Carmelitas Frei Dom Luiz de Santa Tereza.

Este D. Tereza de Souza Ferreira, mãe de António Craesbeck de Mello, a 13.5.1717 teve provisão real para poder nomear serventuário no ofício de meirinho do concelho de Lafões enquanto for menor o seu neto Manuel Correa de Abreu, e faleceu a 7.12.1730 no Porto (Sé). Era filha do Capitão Manuel de Souza Ferreira, também chamado Souza Banhos, familiar do Stº Ofício (16.1.1668), escrivão do Juízo Eclesiástico do bispado do Porto e tio paterno(12) do célebre genealogista Dom António Caetano de Souza, autor da «História Genealógica da casa Real».

O referido Diogo Soares Craesbeck, que também era tio (materno) de Dom António Caetano de Souza, era filho do já citado Paulo Craesbeck e de sua 2ª mulher D. Cecília Soares de Mello, nascida a 15.8.1614 em Lisboa (S. Julião), que era filha de Pedro Ferreira de Mello e de sua mulher D. Cecília Soares, irmã do lente da Universidade de Coimbra e bispo de Angra D. António Soares, falecido nos Açores a 7.4.1637.

Depois de viúvo da herdeira da quinta do Maravedi, António Craesbeck de Mello casou em segundas núpcias, antes de 1732, com D. Isabel Maria Maurícia da Silva, que viveu com seu marido na quinta do Maravedi e aí faleceu a 5.12.1750, sendo sepultada na capela de S. João Baptista. Era filha do Dr. Domingos Dias da Silva, nascido em 1659 no Couto de Vila Nova de Monsarros(13), bacharel formado em Cânones pela Universidade de Coimbra e habilitado ao Serviço de Sua Majestade (23.5.1689), juiz de fora e dos órfãos de Monção (1691) e do Porto (1702), ouvidor dos Coutos de Alcobaça, familiar do Stº Ofº (29.11.1707), etc., e de sua 1ª mulher D. Ana Maria de Noronha, nascida em Lisboa (Stª Engrácia), filha de Manuel Gonçalves Branco, patrão-mor do porto de Lisboa e mestre de navios da Junta do Comércio Geral (1686), e de sua mulher Polónia Gonçalves Delgado.

Aquela D. Isabel Maria Maurícia da Silva, 2ª mulher de António Craesbeck de Mello, de quem não teve filhos, herdou de seu pai a quinta da Levada, em Penajoia (Lamego), que a 24.2.1732 vendeu, com seu marido, a Pedro Monteiro Coutinho por «quatro mil cruzados em bom dinheiro contado de moedas de ouro correntes»(14).

 João Correa Pacheco Pereira

António Craesbeck de Mello não deixou nenhum descendente quando, em 1753, faleceu na sua quinta do Maravedi, com cerca de 63 anos de idade, já viúvo da sua 2ª mulher D. Isabel Maria Maurícia da Silva. Mas cinco anos antes, a 27.6.1748, tinham ambos feito escritura de dote a seus sobrinhos e afilhados João Correa (Botelho) Pacheco Pereira, sobrinho materno dele, e D. Clara Josefa Margarida da Silva de Noronha, sobrinha paterna dela, para que casassem um com o outro.

Nesta escritura(15) nomeavam-nos seus herdeiros, nomeadamente sucessores no prazo da quinta do Maravedi, «com todas as suas pertenças e benfeitorias, que é de natureza de prazo de vidas», e no prazo da quinta da Tapada do Bom Jardim e seus foros, grande propriedade na cidade do Porto que lhes tinha emprazado o Padre Francisco Pereira Chaves e que estava sub-emprazada a vários caseiros.

E João Correa Pacheco Pereira efectivamente casou a 7.7.1748, na capela de S. João Baptista da quinta do Maravedi, tinham ambos 18 anos de idade, com D. Clara Josefa Margarida da Silva de Noronha, nascida a 12.8.1730 em Vila do Conde e falecida a 1.3.1800 na quinta do Valinho, em Beire, irmã de Bento José Dias da Silva, nascido em Vila do Conde e morador em Vilar do Paraíso (Gaia) quando a 13.8.1762 foi familiar do Santo Ofício.

A noiva era filha do único irmão daquela D. Isabel Maria Maurícia da Silva, o Major Manuel Alberto da Silva, também uma figura proeminente do Porto, e de sua mulher (casados a 14.1.1726 em Vila do Conde) e prima-direita D. Tereza Maria Botelho da Silva, filha do Dr. João Botelho(16), nascido em S. Vicente da Vacariça (Mealhada), médico licenciado pela Universidade de Coimbra com partido em Vila do Conde, onde viveu na sua casa do Submosteiro, familiar do Stº Ofício (9.2.1705), etc., e de sua mulher D. Esperança da Silva, irmã do Dr. Domingos Dias da Silva, juiz de fora e dos órfãos do Porto, já referido acima, que era pai daquela D. Isabel Maria e de seu irmão Manuel Alberto da Silva.

Este Major Manuel Alberto da Silva, nascido em Monção, que em 1748 vivia com seu cunhado na quinta do Maravedi, foi cavaleiro da Ordem de Cristo (27.3.1721), sargento-mor da Ordenança de Vila do Conde, guarda-mor da Saúde do Porto, vereador do Senado da Câmara desta cidade, etc., tendo recebido do rei uma tença de 20 mil réis pelos serviços prestados ao país por seu pai e avô (16.5.1720).

O noivo, João Correa Botelho Pacheco Pereira(17), sucedeu como 8º senhor da quinta do Maravedi, onde viveu e faleceu a 6.8.1806, com 76 anos de idade, de «moléstia de convulsão», indo a sepultar na capela de sua família no mosteiro de Vale da Piedade, em Gaia. Pessoa proeminente no Porto do seu tempo, foi tenente-coronel de Infantaria, governador militar de Matosinhos e do Castelo de Leça, cavaleiro da Ordem de Avis e várias vezes vereador do Senado da Câmara do Porto. Assentou praça no 2º Regimento do Porto a 15.1.1756 e reformou-se tenente-coronel a 13.5.1806, três meses antes de morrer.

Pertencendo a um ramo da ilustre e poderosa família dos Pacheco Pereira do Porto, era irmão de: 1) José Correa Pacheco Pereira, que ficou conhecido por Frei José de Gaia e foi procurador-geral da província franciscana, com casa capitular no mosteiro de Vale da Piedade, de que foi prior; 2) António Correa Pacheco Pereira, capitão do Regimento de Granadeiros da Guarnição do Porto, que pelo que fez nas campanhas de 1792 teve do rei uma tença de 60 mil réis (20.2.1792); 3) padre Diogo José Correa Pacheco Pereira, que a 18.6.1766, foi prior de Beire (Paredes).

Este Diogo José Correa Pacheco Pereira, que era o primogénito dos varões (nasceu em Junho 1726) e sucessor na quinta do Valinho, foi capitão do Regimento de Cavalaria do Porto. Depois de viúvo, sem geração, de D. Ana Joaquina Pereira Forjaz de Mello, nascida na quinta de Farpe, em S. Félix da Marinha, Diogo José Correa Pacheco Pereira ordenou-se sacerdote, sucedendo a seu tio homónimo como prior de Beire, onde faleceu a 25.7.1797.

O Ten-Coronel João Correa Botelho Pacheco Pereira, para além das quintas do Maravedi e da Tapada do Bom Jardim, que herdou de seu tio, foi também herdeiro de seus irmãos, tendo nomeadamente sucedido nas quintas do Cais e do Ay-do-Monte, ambas em Gaia, na quinta do Valinho, em Beire (Paredes), na quinta do Paço, em Borbela (Vila Real) e nas casas «ao pé da Sé do Porto». De sua prima D. Ana de Magalhães Pereira e Vasconcellos (testamento(18) aberto a 19.7.1807), herdou ainda as quintas da Linheira (Bitarães), do Ribeiro (Cête), do Pinheiro (Cristêlo), da Carneira e vários prazos em Beire, nomeadamente o do Pereiro, tudo no concelho de Paredes.

Nascido a 13.7.1730 na quinta do Cais de Gaia(19), o Ten-Coronel João Correa Pacheco Pereira era irmão de Jerónimo Correa Pacheco Pereira, capitão de Cavalaria do Regimento do Porto, que faleceu solteiro sem geração, e do Padre Diogo Correa Pacheco Pereira, que foi ordenado presbítero da Ordem de S. Pedro e disse a sua primeira missa a 15.10.1743. Antes, a 16.8.1738, tinha sido preso, acusado de «freirático». Em 1748 vivia na quinta de Campo Belo, onde talvez fosse capelão. Eram todos filhos de João Correa Pacheco Pereira(20), senhor das ditas casas e quintas, e de sua mulher D. Rosa Francisca Craesbeck de Mello, nascida nas suas casas da rua de Penaventosa, no Porto, e educada no convento das Donas de Corpus Cristi, em Gaia, donde saiu para casar a 27.11.1715, em casa de seu irmão António Craesbeck de Mello, ou seja, na capela de S. João Baptista da quinta do Maravedi.

Este João Correa Pacheco Pereira, que nasceu a 30.5.1679 no Porto (Sé) e faleceu a 31.5.1746 na sua casa do Cais de Gaia, indo a sepultar à sua capela no Mosteiro de Vale da Piedade e deixando testamenteiro seu cunhado António Craesbeck de Mello, foi uma proeminente figura da sociedade portuense do seu tempo. Capitão e armador de navios e sócio em várias empresas de navegação para a Europa e para o Brasil, sector então praticamente dominado pela poderosa família dos Pacheco Pereira do Porto, a que pertencia, foi ainda nesta cidade guarda-mor da Saúde, procurador da Câmara (1711), vereador do Senado (1724), juiz almotaçé de Gaia, deputado do Subsídio Militar, familiar do Stº Ofício (10.8.1710), etc.

Conhecido popularmente pelo «Manco de Gaia», porque coxeava muito de uma perna partida numa queda de cavalo que dera em rapaz, pelo que andava sempre e por toda a parte montado a cavalo, este João Correa Pacheco Pereira, segundo o testemunho de Pinho Leal, «exerceu todos os cargos com o maior desinteresse e rectidão, sendo até severo em demasia para os trangressores das leis ou dos acórdãos de Câmara, pelo que o seu nome se tornou proverbial e ainda hoje se diz no Porto e Vila Nova de Gaia: - A justiça do Manco de Gaia te caia em casa!»

Era filho sucessor de José Correa Botelho Pacheco Pereira e de sua mulher e prima D. Maria da Conceição Pacheco Pereira(21), senhora da quinta do Valinho, em Beire, que era sobrinha-neta de Sebastião Pacheco, fidalgo da Casa Real, com carta de armas de 20.6.1647 para Pacheco (22), familiar do Stº. Ofício (20.12.1618), armador de navios e rico mercador com agentes em vários países da Europa, especialmente em Roma, e no Brasil, onde tinha vários engenhos de açúcar.

Este José Correa Botelho Pacheco Pereira, que também foi capitão e armador de navios e sócio em empresas de navegação, principalmente para o Brasil, onde faleceu novo ainda em vida de seu pai, era filho de João Correa Botelho, dos de Vila Real(23), e aí senhor da quinta do Paço, em Borbela, onde nasceu, também capitão e armador de navios e sócio em várias empresas de navegação para o Brasil, que viveu na sua quinta do Cais de Gaia, que teve por sua mulher Ana Pacheco, neta e herdeira de Pantalião Álvares Vieira, familiar do Stº Ofício (1600), cidadão do Porto, onde também foi capitão e armador de navios e grande mercador com o Brasil e vários países europeus, e de sua mulher Ângela Pacheco (24), senhora da dita quinta do Cais de Gaia, irmã de Gaspar Pacheco, fidalgo da Casa Real (3.4.1645), FCA, com carta de armas (5.4.1647) para Pacheco, 1º morgado das Angústias, etc., e ambos sobrinhos do Sebastião Pacheco referido acima.

 Manuel Correa Pacheco Pereira

O Ten-Coronel João Correa Pacheco Pereira e sua mulher D. Clara Josefa Margarida da Silva de Noronha tiveram vários filhos, todos nascidos na casa de Maravedi e baptizados na sua capela de S. João Baptista.

Dentre este filhos destacamos alguns que especialmente se notabilizaram na sociedade do seu tempo, como é o caso do Doutor Frei José de Gaia Correa, nascido a 1.8.1752 e falecido a 19.7.1822, famoso franciscano que foi presidente do Capítulo da Real Província de S. Francisco de Portugal (1802) e que a 15.2.1799 tomou posse do bispado do Porto, como procurador do novo bispo Dom António. Pregador emérito e mestre opositor nas cadeiras de Arte, Teologia, Dogmática e Moral. Frei José de Gaia foi ainda prior do convento de Stº António de Penafiel e procurador geral (1792), ministro provincial (1799) e visitador apostólico (1802) da Ordem de S. Francisco.

Na Igreja igualmente se notabilizou seu irmão Frei Luiz de Gaia, também franciscano e notável pregador e missionário em África, nomeadamente em Cabo Verde, onde faleceu. E na Igreja serviu ainda o outro irmão, o sucessor, António Correa Pacheco Pereira, que foi abade de S. Miguel de Beire e Honra de Louredo, nascido a 3.6.1657 e falecido a 26.3.1832, com testamento(24a) de 20.6.1825, em que deixa herdeiros seus sobrinhos.

Laico ficou o irmão mais novo, Manuel Correa Pacheco Pereira, nome com que normalmente aparece, mas que também se assina Manuel Correa Pacheco Pereira de Noronha e Silva, nascido a 25.7.1762, que sucedeu como 9º senhor da quinta do Maravedi e nos muitos outros bens da família, por doação testamentária(25) de seu pai, de 4.8.1806, excluindo certas reservas para sua irmã e a quinta da Tapada do Bom Jardim para seu irmão António, dos quais aliás viria depois a ser herdeiro.

Manuel Correa Pacheco Pereira estava destinado a seguir os passos de seu pai na carreira militar, que o alistou a 16.6.1792, tinha já 30 anos de idade, como cadete de Artilharia no Castelo de Leça, de que era governador. Mas o filho não devia ter inclinações castrenses, pois não tardou a passar à reserva, em Agosto de 1806, logo após a morte do seu progenitor.

Ainda segundo o testemunho de Pinho Leal, que o conheceu pessoalmente, Manuel Correa Pacheco Pereira «foi um dos mais perfeitos cavalheiros do seu tempo; austero no cumprimento dos seus deveres de cidadão e de pae de família, antepunha a tudo as leis da honra e da probidade. Catholico puro, foi sempre um legitimista de antes quebrar que torcer, e honrando-se de o ser, tanto em particular como em público; era inimigo declarado de todos os ímpios, mações e demagógicos, com os quais por nenhum respeito transigia; mas sendo ao mesmo tempo tolerante para com os inimigos do seu partido se eram homens honrados e catholicos. Deu a todos os seus filhos uma educação esmerada, incutindo-lhes nos corações os puros sentimentos que nele tanto resplandeciam, não só com a palavra mas, e ainda mais, com o exemplo».

Tendo vivido nesse tempo agitado das invasões francesas, da revolução liberal e da guerra civil, Manuel Correa Pacheco Pereira não exerceu, que se saiba, nenhum cargo público, certamente devido às suas convicções miguelistas «de antes quebrar que torcer». Herdeiro da grande casa de seu pai, viveu na sua quinta do Maravedi até 8.7.1832, oito dias antes do desembarque do exército de D. Pedro IV no Mindelo, data em que se refugiou, já com 60 anos de idade, na relativa segurança da sua quinta do Valinho, em Beire (Paredes), onde viveria desde então e faleceria 15 anos depois, a 18.3.1847, sendo sepultado na capela-mor da igreja de Beire.

Tinha casado a 8.5.1810 em Pedraça (Cabeceiras de Basto), tinha ele já 48 anos e ela apenas 20 anos de idade, com D. Maria Benedita de Moura Teixeira de Magalhães e Andrade, referida em Moura Coutinho, nascida a 28.3.1790 na casa de Fundevila de Vides, em Pedraça, e falecida viúva a 21.12.1871, na quinta do Valinho, com 81 anos de idade, sendo sepultada com seu marido.

Referida por Pinho Leal como «um modelo de todas as virtudes religiosas e domésticas, o que muito contribuiu para que seus filhos e filhas sejam respeitados e admirados como dignos descendentes de tão virtuosos progenitores», esta D. Maria Benedita era prima-direita e cunhada do último capitão-mor de Basto, Bernardo Teixeira da Cunha Falcão e Andrade, e sobrinha do capitão-mor de Basto Leão Teixeira Falcão e de seu irmão Frei Doutor D. Paulo Teixeira da Cunha, último Dom abade de Alcobaça e esmoler-mor do reino. Era filha de Baltazar Luiz de Moura e Magalhães, senhor das casas de Fundevila de Vides e de Odela, e de sua mulher D. Tereza Angélica Teixeira Falcão e Andrade, ambos descendentes da mais proeminente nobreza da Terra de Basto(26).

Manuel Correa Pacheco Pereira e sua mulher D. Maria Benedita de Moura Teixeira de Magalhães e Andrade tiveram dois filhos e nove filhas, todos nascidos na quinta do Maravedi e baptizados na sua Capela de S. João Baptista. Dos filhos, para além do primogénito, de quem trataremos adiante, o outro chamou-se José Correa Pacheco Pereira, nascido a 5.3.1822 e falecido em Coimbra quando cursava o 5º ano de Direito. Das filhas, a maioria faleceu solteira, tendo casado apenas três: 1) D.Maria Francisca, nascida a 23.1.1815 e casada com seu primo-direito o Dr. Bernardo Teixeira da Cunha de Moura Coutinho, Advogado no Porto, fidalgo da Casa Real, comendador da Ordem de Nª Sª da Conceição de Vila Viçosa e sucessor nas casas de Fundevila, Portela, Telhado, Odela, Abelheiro, etc., todas em Basto; 2) D. Maria Ermelinda, nascida a 17.4.1818 e casada com o Dr. Adriano de Magalhães Barbosa de Pinho, advogado em Penafiel; 3) D. Maria Efigénia, nascida a 16.9.1819 e casada com Bento José de Castro, senhor da quinta da Afreita, em Nevogilde (Lousada).

 João Correa Pacheco Pereira de Magalhães 

Dr. João Corrêa Pacheco Pereira de MagalhãesA Manuel Correa Pacheco Pereira sucedeu como 10º senhor da quinta do Maravedi seu filho primogénito o Dr. João Correa Pacheco Pereira de Magalhães, fidalgo da Casa Real (22.10.1875) e comendador da Ordem de Nª Sª da Conceição de Vila Viçosa (29.7.1875), aí nascido a 27.9.1811 e baptizado na sua capela de S. João Baptista. Foi o último a viver nesta casa, que abandonou em 1845, quando foi nomeado juiz de Paredes, vindo depois a morar na casa do Barreiro, neste concelho, que teve por sua mulher e onde faleceu a 25.12.1888, com 77 anos de idade. Sucedeu ainda, quer a seus pais quer a seus tios e irmãos, nas quintas e casas de Gaia (Ay-do-Monte, Bomba, Telheiro e Rossir), do Porto (Tapada do Bom Jardim e Boavista), de Beire (Valinho, Quebrada, Pereiro, Testamenteiro e Bringél) e Bitarães (Ribeiro e Linheira), e ainda nas quintas de Lagoas, Mirandela, Fontinha, Froufe (Gondalães), Rans, Pinheiro (Cristêlo) e da Carneira.

Seguindo as pisadas de seu pai na causa miguelista, aderiu com 21 anos de idade ao exército legitimista, sendo então nomeado capitão da 3ª Companhia do Regimento de Milícias da Feira. Pouco depois, em Abril de 1834, foi nomeado comandante da 1ª Companhia de Granadeiros do Regimento nº 11 de Infantaria, posto no qual combateu valorosamente na batalha da Asseiceira, travada a 16 de Maio daquele ano, e se manteve até ao fim das hostilidades, sendo um dos convencionados de Évora Monte.

Regressou depois a Coimbra, onde interrompera o seu curso de Direito, vindo a licenciar-se a 8.7.1840. De regresso à quinta do Maravedi, exerceu aí advocacia até 1845, data em que foi nomeado juiz ordinário do julgado de Paredes. Depois de ter desempenhado este cargo durante cinco anos, foi nomeado a 28.7.1851 administrador do concelho de Paredes, importante lugar que ocupou durante 12 anos, até 1.9.1863, data em que foi exonerado a seu pedido, por «não querer ser juiz com taes mordomos».

Pinho Leal, seu amigo pessoal, salientando que o Dr. João Correa Pacheco Pereira de Magalhães «foi sempre um magistrado exemplar e imparcialíssimo, administrando justiça recta, tanto a gregos como a troyanos», conta que este, quando foi nomeado Administrador, disse ao liberal Dr. Pedro da Costa Macedo, então Governador Civil do Porto: «É preciso que V. Exª saiba quem sou e donde venho, para se não enganar comigo: eu sou um oficial do exército legitimista, convencionado de Évora Monte, e por nenhum motivo deixarei as convicções que mamei com o leite materno!» Ao que o Governador lhe terá respondido: «Agrada-me a sua declaração, que é testemunho de lealdade e cavalheirismo; meu pae também foi realista e convencionado de Évora Monte, e eu nem por isso deixo de cumprir rigorosamente os meus deveres como magistrado superior do distrito».

Diz ainda o autor do «Portugal Antigo e Moderno» que o Dr. João Correa Pacheco Pereira de Magalhães, apesar da sua atitude imparcial durante os seus cerca de 17 anos de magistratura em Paredes, «sofreu alguns desgostos durante o tempo da sua administração, por ser trahido por alguns liberais furibundos; porém os liberais honrados e imparciais fizeram-lhe sempre, e ainda fazem, a devida justiça». Abandonada a administração de Paredes regressou à advocacia, onde, ainda segundo Pinho Leal, «sempre o seu escriptorio tem sido um dos mais concorridos de consultantes».

O Dr. João Correa Pacheco Pereira de Magalhães, já administrador de Paredes, casou na Igreja de Santa Maria Madalena a 21.5.1854, contava 43 anos de idade e a noiva apenas 16 anos, com D. Maria Adelaide da Cunha Teixeira de Vasconcellos de Portocarrero, nascida a 12.6.1838 na casa de Coura, em Bitarães (Paredes) e falecida a 22.7.1908 na sua casa do Barreiro, com 70 anos de idade, que era filha única e herdeira do celebrado escritor e jornalista Dr. António Augusto Teixeira de Vasconcellos e de sua mulher D. Antónia Adelaide Vasques da Cunha e Alarcão de Portocarrero(27), 10ª senhora da quinta do Paço, em Valpedre (Penafiel), que era sobrinha do célebre «Fidalgo da Bandeirinha» o Ten-Cor. João Bento da Cunha de Brito de Araújo e Castro de Portocarrero, senhor do palácio da Bandeirinha, no Porto, 15º senhor da torre de Portocarreiro, etc., que foi acusado de jacobino e assassinado pela fúria popular na Revolta do Porto de 1809.

É curioso verificar que o casamento tardio dos homens com jovens de menor idade se tinha tornado um hábito nos senhores da quinta do Maravedi. A diferença de idades entre o Dr. João Correa Pacheco Pereira de Magalhães e sua mulher era de 26 anos, o que, não sendo inusitado na época, é ainda exemplo de um caso extremo, principalmente se considerarmos que o casal teve nada mais nada menos do que 12 filhos(28). A situação é ainda curiosa pelo facto de o Dr. João Correa ser cinco anos mais velho do que o seu sogro. Com feito, o Dr. António Augusto Teixeira de Vasconcellos nasceu a 1.11.1816, combateu com o genro por Dom Miguel e com ele se formou em Direito.

Sobre António Augusto Teixeira de Vasconcellos(29) já muito se tem escrito, pelo que aqui me limitarei a recordar que este escritor e pioneiro do moderno Jornalismo português foi, como dele disse Camilo Castello Branco, «o mais rijo pulso de atleta que teve a arena dos gladiadores políticos em Portugal».

José Correa Pacheco de Portocarrero

Dos doze filhos do Dr. João Correa Pacheco Pereira de Magalhães e sua mulher D. Maria Adelaide da Cunha Teixeira de Vasconcellos de Portocarrero, todos nascidos já na casa do Barreiro, importa aqui sobretudo salientar o herdeiro da quinta do Maravedi, o Dr. José Correa Pacheco de Portocarrero, celebrado autor da «Monografia de Paredes», que assinou com o pseudónimo de José do Barreiro.

Mas antes disso valerá a pena dar uma vista de olhos sobre alguns de seus irmãos, principalmente os que mais se evidenciaram na região e no país. Coisa que o irmão primogénito, Manuel Correa Teixeira de Vasconcellos de Portocarrero, não teve oportunidade de fazer, pois faleceu jovem, vítima de febre tifóide, quando cursava Engenharia na Escola Politécnica de Lisboa.

Melhor sorte teve o seu irmão que frequentava a mesma Escola, onde se licenciou em Matemáticas, ingressando depois na carreira militar: o Cor. António Augusto Correa de Portocarrero Teixeira de Vasconcellos, nascido a 20.11.1858, coronel de Artilharia e director da Escola Militar de Artilharia, chefe de Gabinete do Ministério da Guerra, comandante da 3ª Divisão do Exército, comandante do Regimento da Serra do Pilar, deputado da Nação, comendador das Ordens de Cristo e de Avis e muito condecorado em Portugal e no estrangeiro, nomeadamente com a Cruz de 1ª Classe da Ordem de Mérito Militar de Espanha.

Figura proeminente, também, foi o irmão e quase homónimo Dr. António Correa Teixeira de Vasconcellos de Portocarrero, advogado, professor, conservador do Registo Civil de Paredes, delegado do Procurador Régio, prestigioso chefe político e autor de várias obras da especialidade forense. Ou um outro seu irmão, o Padre Francisco Correa Teixeira de Vasconcellos de Portocarrero, grande latinista e autor de vasta bibliografia. Ou, ainda, o Dr. Diogo Correa Teixeira de Vasconcellos de Portocarrero(30), advogado e também grande latinista, que durante muitos anos foi professor de Latim do Liceu Alexandre Herculano, no Porto.

Mas voltando ao sucessor na quinta do Maravedi: o Dr. José Correa Pacheco de Portocarrero nasceu a 12.5.1857 na casa do Barreiro, em que também sucedeu e onde viveu, vindo a falecer no Porto a 15.6.1933. Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra (1881), foi administrador do Concelho de Paredes (como seu pai), procurador da Junta Geral do Distrito do Porto, vereador da Câmara do Porto, provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto, etc. Exerceu também a advocacia em Paredes e foi autor de várias obras de investigação histórica, entre as quais se salienta a «Monografia de Paredes», obra capital sobre a História do concelho, até hoje insuperada.

Casou a 22.2.1892 no Porto (Paranhos) com D. Amélia da Costa Torres Guimarães e teve um único filho, o Eng. José Torres Correa Pacheco, licenciado em Engenharia Electrotécnica e em Engenharia Mecânica pela Universidade do Porto, que sucedeu na quinta do Maravedi e na casa do Barreiro, tendo casado a 2.9.1931 em Matosinhos com D. Elvira Enes Granhão, pais de José Enes Granhão Correa Pacheco, 13º e último senhor da quinta do Maravedi, como já ficou dito no início.

Notas

1. Vide Série Nova, nº 4, Vol. II, de Maio de 1983, pag.102, e nº 5, Vol. II, Junho de 1983, pag.159.

2. ADP - P05, 1ª série, 119, 163v.

3. O morgadio de Quebrantões incluía o monte do mesmo nome que mais tarde se chamou Serra do Pilar.

4. ANTT., Além Douro, L.2,f.181. Estes documentos do séc. XIV foram-me gentilmente cedidos pelo Prof. Dr. José Marques, que então me disse que os ia publicar numa obra intitulada «Cartório régio de Gaia e Vila Nova (1346)».

5. Entre 1742 e 1748 António Craesbeck de Mello sub-empraza propriedades e casas dos seus prazos de Maravedi e da Tapada do Bom Jardim (Porto) a 24 indivíduos, a saber: João Tavares, Manuel de Freitas, Manuel dos Santos, Manuel José Monteiro, António Dias, Custódio Dias, Manuel Rodrigues Bandeira, Manuel da Costa, Francisco José de Oliveira, António Fernandes, outro António Fernandes, Manuel Ribeiro, Manuel Ferreira, António Alvares, Manuel de Sequeira, António José Maria, André da Costa, Francisca Ferreira, Maria Ribeiro, Manuel Martins de Freitas, José Moreira da Silva, José Fernandes Ferreira, Maria Marques e Inácio Rodrigues. Seu sobrinho e sucessor João Correa Botelho Pacheco Pereira também sub-empraza, nos mesmos prazos, entre 1765 e 1802, propriedades a 21 indivíduos, a saber: António José, outro António José, Clara Margarida, Manuel Mendes, Custódio José Dias, Manuel Fernandes, António José da Cunha, José de Souza Coelho, Manuel José de Araújo, António dos Santos Mendes, José Francisco de Azevedo, Caetano Maria, Manuel José Romão, Joaquim Pinto, Francisco José da Silva, António Francisco dos Santos, Manuel António da Silva, Marcelino Alves de Oliveira, Manuel António, Marcelino Alves e Gregório Ferreira. Vide ADP - PO5, 1ª série, livros 183, 186, 188, 189, 190, 191, 193, 197, 204, 214, 219, 253, 257, 263 e 358.

6. Bastantes livros do escrivão da Provedoria do Porto que registam a instituição de capelas estão em muito mau estado e o burocratizado e pouco eficiente Arquivo Distrital do Porto não permite a sua consulta em tempo útil. É aqui curioso notar que este notariado era propriedade de Diogo Soares Craesbeck e depois de seu filho António Craesbeck de Mello, que escrevem e assinam muitos dos seus registos.

7. Também aparece como António Soares Craesbeck de Mello. E a grafia do nome Craesbeck também aparece como Craesbeque.

8. Declara-se no registo do seu óbito que deixou testamenteiros seu primo o Padre Doutor José de Souza de Carvalho, seu irmão o Padre Paulo Craesbeck de Mello, seu cunhado Francisco de Almeida Felgueiras e seu sobrinho e herdeiro João Correa Botelho Pacheco Pereira. Deixou ainda a sua vontade de ser «amortalhado no hábito de seu padre S. Francisco, de quem era irmão, e que seu corpo fosse sepultado na Capela de S. João Baptista da sua quinta de Marevidi, pagando todos os direitos paroquiais». Deixava ainda legados para que lhe fossem rezadas «missas gerais», de esmola de 120 mil réis cada uma, nos conventos do Carmo, S. João Novo, S. Domingos, S. Francisco, «nas duas ordens terceiras», em Stº António de Vale da Piedade e na sua paróquia de Stª Marinha. Mandava ainda que se rezasse uma missa anual e três pelo Natal, «até ao fim do mundo», na sua Capela de S. João Baptista, deixando para tanto os seguintes legados: «60 alqueires de pão de segunda e 5 mil e tanto que lhe pagava Manuel Marques Carneiro pelo prazo perpétuo que lhe tinha feito» e «a pensão de 1.500 réis em pinheiro e duas galinhas que lhe pagava José da Costa Ferreira e sua mulher como constava do prazo». Deixava ainda para mais missas a rezar nos referidos conventos «a dívida que ficou de Gualter Vaz da Silveira, que lhe devia 4 mil e tantos cruzados já, por sentença do Stº Ofício que lhe vendeu», depois de nela descontadas e pagas «as dívidas que devia à Santa Casa desta cidade e de Vila do Conde». De tudo isto nomeava administrador seu sobrinho, a quem dava ainda indicação para vender as suas roupas e outros bens moveis e com o dinheiro mandar rezar ainda mais missas.

9. Pedro (van) Craesbeck era filho do nobre flamengo Guilherme van Craesbeck, senhor de Craesbeck, na região de Lovaina, que foi fidalgo do imperador Carlos V, que a 4.4.1545, após a batalha de Pavia, lhe deu carta de armas, e de sua mulher Hyvindingis de Voos, herdeira do antigo morgadio de Voos, instituído em 1223. Falecido em Lisboa a 1.4.1632, sendo sepultado na capela de Stº André dos Flamengos, Pedro van Craesbeck, ou apenas Pedro Craesbeck, casou em 1602 com Susana Domingas de Beja, bisneta de João Rodrigues de Beja, fidalgo da Casa Real e vedor do Infante Dom Luiz.

10. ADP - PO5, livros 153 (das pag. 29v a 31v) e 161. O facto deste Padre Paulo Craesbeck de Melo, dito natural e morador na cidade do Porto, ter o senhorio directo de várias propriedades no Alto da Bandeira deve-se certamente a compra que fez por indicação de seu irmão, pois não há notícia de que os Craesbeck tivessem, anteriormente a esta geração, qualquer relação com Gaia. Nesta geração, contudo, as relações dos irmãos de António Craesbeck de Mello com Gaia são múltiplas: 1) O cónego Dom Diogo de S. Caetano faleceu em Gaia a 26.11.1752 e foi sepultado no Mosteiro de Vale da Piedade; 2) O Padre Paulo Craesbeck de Mello é senhor de várias propriedades no Alto da Bandeira; 3) D. Rosa Francisca Craesbeck de Mello foi educada no convento das Donas de Corpus Cristi, em Gaia, casou com o célebre «Manco de Gaia» e viveu num palacete que este mandou erguer na sua quinta do Cais de Gaia, como se diz adiante; 4) D. Maria Clara Craesbeck de Mello casou com Francisco de Almeida Filgueiras, familiar do Stº Ofício e senhor da quinta de Felgueiraz (com a sua capela de Stº António), em Stª Marinha, onde viveram. Só uma outra filha parece não ter tido nada a ver com Gaia: D. Joana Maria Craesbeck de Mello casada com o capitão-mor de S. Pedro do Sul e meirinho de Lafões Luiz Correa de Abreu, aí senhor do morgadio de Anciães, onde viveram.

11. Irmão inteiro do livreiro-mor e impressor da Casa Real António Craesbeck de Mello e meio-irmão de Pedro Craesbeck, F.C.R., capitão de Mar e Guerra, fal. na Baía em 1665, que era avô do celebrado genealogista Dr. Francisco Xavier da Serra Craesbeck, F.C.A., C.O.C., etc.

12. Também era tio paterno de Manuel de Souza Soares, fidalgo de Cota de Armas (3.12.1704), familiar do Stº Ofício (27.4.1686), senhor da quinta da Ramada, em Frielas (Loures), etc., que era irmão mais velho de D. António Caetano de Souza, sendo ambos filhos de Miguel de Souza Ferreira, 1º senhor da dita quinta da Ramada (que era irmão mais novo deste Cap. Manuel de Souza), e de sua mulher Maria Craesbeck, irmã do citado Diogo Soares Craesbeck de Mello.

13. O Dr. Domingos Dias de Silva (que casou 2ª vez com D. Páscoa da Rocha e Silva, viúva do capitão-mor do Porto André da Silva Machado, FSO), era filho de Bernardo Francisco (da Silva), nascido e morador no Couto de  Vila Nova de Monsarros, onde era «dos principais lavradores honrados da terra e da Governança dela», e de sua mulher Isabel Dias, que era neta e herdeira de Cosme Dias, que em 1607 instituiu o morgadio e capela de Nª Srª das Neves de Vila Nova de Monsarros. O Dr. Domingos Dias da Silva era irmão do Capitão Cosme Dias de Campos, que casou com Mariana de Andrade e foram pais do Padre Bernardo Pessoa de Andrade, familiar do Stº Ofº (23.10.1722). Aquele Bernardo Francisco era filho de António Rodrigues, morador no Couto de  Vila Nova de Monsarros, onde era «dos principais lavradores honrados da terra e da Governança dela», e de sua mulher Ana Francisca (da Silva de Campos). Segundo uma genealogia manuscrita do séc. XIX, esta Ana Francisca era filha de Leonardo da Silva de Campos, capitão de Milícias nas guerras da Restauração, e de sua mulher Maria Paes Botelho, irmã de Pedro Paes Botelho de Mendonça. E, de facto, este Pedro Paes vivia em Vila Nova de Monsarros quando em 1627 foi familiar do Stº Ofº. Acrescenta a dita genealogia que aquele Leonardo era irmão do doutor João Fajardo, lente da Universidade de Coimbra, e ambos filhos de Francisco da Silva de Campos, capitão-mor do Couto de Vila Nova de Monsarros. E há, de facto, um doutor João Fajardo que a 17.4.1549 escreveu ao rei para lhe pedir o pagamento do tempo que o servia na Universidade de Coimbra. Tem ainda um Manuel de Campos da Silva que a 29.5.1675 foi nomeado escrivão das sisas da vila de Tentúgal.

14. ADP - P05, 162, 57v.

15. ADP - PO5, 1ª série, L.191, pag.133. Foram testemunhas o Major Manuel Alberto da Silva e sua mulher, pais da noiva, o Padre Diogo José Correa Pacheco Pereira, irmão primogénito do noivo (que já era órfão), e Francisco de Almeida Felgueiras, tio materno do noivo. Este documento tem a particularidade interessante de juntar as assinaturas de várias das pessoas referidas neste estudo, a saber: 1) as testemunhas já referidas; 2) os dotadores António Craesbeck de Mello e sua 2ª mulher; 3) os noivos dotados. Como em todos os documentos que lhes dizem respeito, as três senhoras em causa (noiva, tia e avó) são tratadas por Donas e assinam com este título, em boa letra, o que demonstra que eram letradas, coisa pouco vulgar nas mulheres portuguesas dessa época.

16. Filho de António Botelho, abade de Vila Nova de Monsarros e senhor da quinta de Lograsol, em S. Vicente da Vacariça, e de Tereza de Bastos, moça solteira daí natural.

17. Também aparece como João Correa Botelho Pacheco Pereira ou João Correa Pacheco Botelho Pereira, nome que usou em mais novo e com o qual aparece no registo do seu casamento e assina no contrato de dote. Só mais tarde passa a assinar apenas João Correa Pacheco Pereira.

18. ADP - P08, 412, 18v.

19. Vivia num palacete que mandou construir na sua quinta do Cais de Gaia. O palacete ardeu em 1818 e foi depois vendido pela família ao exportador de vinho do Porto António Ferreira Menéres, que fez dele armazém de vinhos. Esta quinta do Cais de Gaia vinha-lhe de sua 4ª avó D. Ângela Pacheco Pereira, que aí faleceu, já de idade avançada, a 20.12.1656.

20. Tal como seu filho, também aparece apenas como João Correa Pacheco Pereira.

21. Vide «Pachecos. Subsídios para a sua Genealogia», Lisboa 1985, de Abílio Pacheco de Carvalho, Pag. 290.

22. Os Pacheco do Porto usaram armas de Pacheco, como se vê nas várias cartas de armas dadas a membros da família, e, embora descendessem dos Pacheco Pereira de Stº Estêvão de Barrosas, usaram só o nome Pacheco. Apenas dois ramos começam no séc. XVII a usar o nome Pacheco Pereira, por serem descendentes de Maria Pacheco e seu marido Gaspar Pereira, dos quais foi filha Isabel Pacheco Pereira casada com seu primo Gonçalo Pacheco, progenitores dos Pacheco Pereira da casa da rua de Belmonte, e Francisca Pacheco Pereira casada com António Dias de Santiago, 1º senhor da quinta do Valinho de Beire, com geração nesta casa, que também usou Pacheco Pereira. Mas continuaram a usar apenas armas de Pacheco, e só no séc. XVIII os Pacheco Pereira da casa da rua de Belmonte passaram a usar também armas de Pereira. O mesmo acontecendo então na quinta do Valinho, certamente por imitação, onde existe um sinete justamente partido de Pacheco e Pereira que pertenceu a Diogo José Correa Pacheco Pereira, que foi senhor desta quinta e abade de Beire (18.6.1766), onde faleceu a 25.7.1797, e que terá sido o 1º nesta linha a usar este escudo partido, que estava pintado no tecto da sala de entrada e na pedra de armas do portão (depois substituida por Pacheco e Portocarrero).

23. Filho de Paulo Correa Botelho e de Ana da Fonseca, neto paterno de Luiz Vaz Cão e de Inez Correa Botelho e bisneto paterno de Gonçalo Vaz Pinto e Isabel Pires Cão. Aquela Inez Correa Botelho, por sua vez, era 3ª neta de Afonso Botelho, 1º alcaide-mor de Vila Real, e de sua mulher Teresa Correa, da casa de Farelães. Vide «Fidalgos e Morgados de Vila Real e seu Termo», de Júlio A. Teixeira = «Corrêas Pachecos de Portocarrero», Vol. 3º, pag. 286, e «Cãos», Vol. 2º, Pag.229.

24. Vide «Pachecos. Subsídios para a sua Genealogia», Lisboa 1985, de Abílio Pacheco de Carvalho, Pag.334.

24a. Testamento de 17.6.1825: «Ave Maria cheia de Graça. Digo eu Antonio Correa Pacheco Pereira, Abbade da Parrochial Igreja de São Miguel de Beire e Honra de Louredo, Bispado do Porto, que estando em minha perfeita saúde, e Juízo, e não sabendo o dia nem hora em que Deos Nosso Senhor me chamará à sua Divina Prezença, determino fazer este meu Testamento na forma seguinte = Primeiramente declaro que creio na fé Cahtolica e em todos os Mistérios da Santíssima Trindade, e nesta fé protesto viver e morrer. Declaro que não tenho Erdeiros ascendentes nem descendntes e por isso instituo por meus universais Erdeiros a meus Sobrinhos João Correa e Jozé Correa e as minhas Sobrinhas Donna Francisca, Donna Ermelinda, Dona Emília e Donna Maria, todos de Matrimónio, existentes à faitura deste, tanto da Quinta de Lagoas e suas pertenças, Mirandella e Cobrada do Valinho, assim como as minhas casas de Gaia com seus Armazéns, o Armazém do Telheiro, e o de Rossir, pondo o produto de todos estes bens em Depozito para ajuda do dotte dos ditos meus sobrinhos e sobrinhas, e nomeio os Prazos da Fontinha e os Prazos do Bom Jardim em meu Sobrinho e Afilhado João Correa. Nomeio mais o Prazo do Pereiro com todas as suas pertenças em Ana Maria e Martha, assim como o Prazo do Ribeiro, em Bitarains, e o Prazo de Froufe, em Gondalains, e o do Testamenteiro em Beire, assim como o Prazo das Cazas do Bom Jardim com todas as suas pertenças, e todos estes Prazos momeados ficarão na vida de huma da outra. Ficarão meus sobrinhos, e sobrinhas, com a obrigação de darem vinte mil reis a cada criado e criada que estiver comigo no meu falecimento, e darão mais a cada pobre da minha freguesia cem reis. Mais darão a Francisco da Carvalhosa, freguesia de Beire, vinte mil reis, e a Manoel e Joaquim outro tanto por uma vez somente, e ao meu caseiro António de Souza de Rans oito moedas de ouro. Deixo mais a Anna Maria e Martha as cazas da Boavista com sua horta e todas as suas pertenças, assim como todos os bens moveis que se acharem na minha Rezidencia, Bringél e Quinta do Pereiro, assim como o Relógio da salla das vezitas, e o relógio de vidros para a algibeira com suas cadeias; mais lhe deixo doze moedas para rimirem as suas vexaçoens procedidas do alluguer dos Armazéns das cazas de Gaia, e em quanto vivas forem. Deixo mais às mesmas Anna Maria e Martha três vazilhas para invazilharem o seu vinho, e aonde ellas quiserem escolher, com a obrigação de terem comsigo a João Caetano e a Maria do Carmo, irmaons da dita Anna Maria, fazendo-lhe elles irmãos a vontade. Todos estes bens nomeados nas pessoas supra Anna Maria e Martha he pello obsequio e caridade com que tratarão a minha Thia Donna Bernarda e a minha Manna Donna Anna, deixando-lhe esta às ditas Anna Maria e Martha hun carro de pam, seis alqueires de centeio, dous alqueires de feijão, seis almudes de vinho, e dous carros de lenha anualmente e emquanto vivas forem, e por morte d huma ficará a ultima com a dita reserva a qual eu ponho nos bens de Lagoas. Deixo mais a meus Sobrinhos José e João o Relógio que está na Livraria e o Relógio que está no meu quarto, e a Livraria a meu sobrinho João, excepto os livros que pertencem à minha Igreja, e a meu Irmão Manuel cem mil reis dos Armazéns do Telheiro e do Rossir, e isto só emquanto o dito meu Irmão vivo for. Declaro que quando se falta nos Armazéns do Telheiro e no de Rossir, tenho duas partes no rendimento que elles derem e destas duas partes he que meu Irmão hade receber os cem mil reis. Declaro mais que os vinte mil reis que deixo aos criados e criadas são fora as suas soldadas, cuja será paga por inteiro athe o dia do meu falecimento, e os cem reis aos pobres he só a hum morador de cada casa e sendo pobres. Os meus Sobrinhos e Erdeiros, seu Pay e Mai ou parentes em tempo algum intenderão com as ditas Anna Maria e Martha, e se intenderem com ellas ficarão privados da Erança e he minha vontade que afligindo-as com demandas, ou outras inquetações, se vendão todos os meus bens e as dotem com três mil cruzados a cada huma e ficarão os ditos meus herdeiros sem cousa alguma, e o resto dos meus bens será repartido pellos pobres da minha freguesia. Declaro que od ditos meus Sobrinhos serão senhores da Caza da Bomba e os foros que se pagam à dita casa, tudo isto sito no Lugar de Gaia, freguesia de Santa Marinha de Villa Nova, com seu quintal pertencente à caza, assim tudo como tenho eu próprio, o hei por nomeado nos ditos meus Sobrinhos e Sobrinhas e lhes deixo mais e nomeio a Tença de meu Thio Antonio Correa e o soldo que ficou de meu Pay à Thia Donna Anna, assim como todos os mais bens que me hajam de pertencer. Declaro que o dinheiro dos allugueres dos maus Armazéns que se achar pelo meu falecimento, este será para cumprir todos os meus Legados, que vem a ser = Deixo e declaro me mandem dizer pela minha Alma mil Missas de cento e vinte reis cada huma e na véspera e dia do corpo presente todas as missas que se poderem dizer, não só na minha Igreja mas também nas circunvezinhas e no convento de Santo António da Cidade de Penafiel cada huma de duzentos e quarenta reis. Deixo mais que os meus Sobrinhos e Sobrinhas me satisfação estas Missas, assim como mandem dizer cem missas cada huma de esmolla de cento e vinte reis pela Alma da Thia Donna Anna, com obrigação mais de me satisfazerem todos os meus bens d’Almma e Legados e Pensões acima neste meu testamento declarados, e isto dentro de hum anno. O meu Funeral será feito ao arbítrio e vontade de meus testamenteiros, aos quais pesso pello Amor de Deos que acceitem este meu testamento e lhe deêm cumprimento, cujos nomeio em primeiro lugar meu Coadjutor o Reverendo Francisco José Ribeiro de Souza, em segundo lugar o Reverendo Manoel Pereira da Lavandeira, freguesia de Nevogilde, e em terceiro lugar ao Reverendo José Moreira da Cobrada, freguesia de Beire, ao qual testamenteiro que aceitar lhe darão meus Sobrinhos e Sobrinhas trinta mil reis pelo seu trabalho. Declaro mais que todos os bens moveis que se acharem nas cazas da Boavista serão para Anna Maria e Martha excepto, depois de fazerem a escolha das três vazilhas que lhes deixo, as mais que ficarem serão de meus Sobrinhos e Sobrinhas, deixando vazilhas sufficientes para o Parocho que vier para receber a Dizimaria. Declaro que sou Irmão das Almas da minha freguesia, a qual Irmandade me acompanhará athe à sepultura, e que sou Pay Geral da Província da Solledade, a quem rogo logo depois do meu falecimento darão parte para me satisfazerem os sofragios do costume. Caso s meus Erdeiros ponhão Letigio a Anna Maria e Martha, ellas sempre ficarão senhoras dos Prazos que lhe nomeio, e de tudo o mais que lhe deixo e me reporto ao que já disse e declarei caso as inquietem; e nesta forma hei por findo e acabado este meu Testamento por estar conforme a minha altima e derradeira vontade, e pesso às Justiças de Sua Magestade e de hum e outro foro, o fação dar à sua devida execução. E por me tremer muito a mão e não poder escrever. Pedi ao Reverendo Frei José do Porto Victoria, assistente no Convento de Santo António de Valle de Piedade da cidade do Porto este mru testamento e o escreveu e eu assignei = Eu sobredito Frei José do Porto Victoria o escrevi e li e elle testador me disse que estava conforme me tinha notado que esta era a sua última e derradeira vontade, o qual assignou e disse que não valeria outro qualquer testamento ou codecillo que não tivesse no principio = Ave Maria cheia de Graça = Gaia dezesete de Junho de mil oito centos e vinte e sinco; este que eu fiz na presença do Testador = Frei José do Porto Victoria = António Correa Pacheco Pereira.» Este testamento foi aprovado e registado três dias depois no tabelião do Porto José Joaquim de Oliveira, sendo testemunhas Manuel Pinto Ferreira, João Barbosa Leão, Manuel António de Araújo Guimarães, Alexandre José de Oliveira e João Monteiro da Fonseca. A 13.6.1831 o Reverendo Abade António Correa Pacheco Pereira acrescentou-lhe o seguinte codicilo: «Codecillo. Jezus Maria Jozé. Em nome da Santíssima Trindade Padre Filho e Espírito Santo, três Pessoas destinctas e hum só Deos Verdadeiro em cuja fé protestto de viver e morrer. Eu António Correa Pacheco, Abbade de São Miguel de Beire, Comarca de Penafiel, Bispado do Porto, estando em meu perfeito juízo e entendimento determino fazer este meu Codecillo, na forma seguinte: Determino por este meu Codecillo que se cumpra o meu Testamento que eu tenho feito e está aprovado pello Tabellião Jozé Joaquim d’Oliveira da Cidade do Porto em vinte de Junho de mil oitocentos e vinte e cinco, à excepção do que neste meu Codecillo determino e deixo que todos os bens de raiz que eu deixava no meu Testamento à minha criada Ana Maria e seu irmão João, e Martha Bernardina, ficarão para a dita minha criada Anna Maria e seu irmão João e fica excluída delles a dita Martha Bernardina por ter já falecido, e só serão senhores do uzofruto em quanto vivos, e por morte do último da dita minha criada Anna Maria e seu irmão João passarão para meus Erdeiros e esta Rezerva que lhes deixo do dito uzofruto he em razão do muito bem que me têm tratado e zelado a minha Caza. Deixo duzentas Missas de esmola de cento e vinte reis cada huma, que se dirão corforme a minha tenção, além das que estão no meu testamento. Deixo mais a todos os meus criados e criadas que se acharem na minha Caza da Rezidêwncia e na minha Caza do Pereiro, duas moedas de metal a cada hum, e por huma só vez, o que lhes deixo por esmola, além das suas soldadas. Declaro que a dita minha criada Anna Maria será obrigada a dar aos pobres desta freguezia mais nececitados vinte mantas e nunca meus Erdeiros constrangerão os ditos meus criados. Declaro que as ditas duzentas missas supra serão ditas por huma só vez e nomeio para Testamenteiros do meu Testamento a meu Irmão Manoel Correa Pacheco Pereira em primeiro lugar e na falta deste seu filho e meu Sobrinho João Correa Pacheco Pereira e aquelle que aceitar ser meu Testamenteiro, sendo o meu Irmão Manoel Correa Pacheco Pereira, se lhe dará dous mil cruzados em metal por huma vez somente; e dixo à minha criada Maria do Carmo cem mil reis em metal e por huma vez somente, e depois de satisfeitos todos os meus Legados todo o dinheiro que se achar a dita minha criada Anna Maria será senhora delle, e todos os meus legados Legados serão satisfeitos dentro de hum anno depois do meu falecimento. Nesta forma hei por findo e acabado este meu Codecillo, por ser também da minha ultima e derradeira vontade, e fará o mesmo corpo com o meu testamento; e quero que tudo se cumpra exactamente como nelle e no meu Testamento deixo determinado; e por não poder bem escrever em razão das minhas moléstias, pedi ao Padre Jozé de Souza Pacheco da freguezia de Bitaraens que este meu Codecillo escrevesse e commigo assignasse e eu sobre dicto Padre Jozé de Souza Pacheco o escrevi e elle Reverendo António Correa Pacheco Abbade desta freguezia de Beire me disse que estava como mo tinha notado e com elle assignei por assim mo rogar e pedir. Rezidencia de Beire, treze de Julho de mil oito centos e trinta e hum = O Padre Jozé de Souza Pacheco = António Correa Pacheco.» Este codicilo foi aprovado e registado a 2.8.1831 no tabelião do concelho de Aguiar de Souza Jerónimo de Lemos Coelho Ferraz, sendo testemunhas Manuel de Souza, António Pinheiro, António da Silva, António de Souza e João Caetano.

25. ADP - P08, 412, 21v.

26. Vide «Carvalhos de Basto», Volume VI, de Eugénio de Andrea da Cunha e Freitas e outros, e Pinto, Moura Coutinho e Carvalho.

27. Vide «Portocarreros do Palácio da Bandeirinha», Porto 1997, obra do autor, e muita outra bibliografia sobre esta família, nomeadamente as «Famílias Titulares e Grandes de Portugal», de Sanches de Baena; o «Livro de Oiro da Nobreza», de Araújo Afonso, e o «Anuário da Nobreza de Portugal», III, Tomo II = CORRÊA PACHECO DE PORTOCARRERO, etc.

28. Para a descendência do Dr. João Correa Pacheco Pereira de Magalhães, ver o esquema feito para seu sogro António Augusto Teixeira de Vasconcellos.

29. Vide ensaio bio-biblográfico do autor sobre Teixeira de Vasconcellos.

30. Nomeado professor efectivo do 1º Grupo do Liceu Alexandre Herculano a 21.11.1914, o Dr. Diogo Correa Teixeira de Vasconcellos de Portocarrero, que sucedeu na quinta do Valinho e casou com a filha herdeira dos viscondes de Paredes, é avô paterno da mulher do autor.

 
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