regresso à bibliografia

 Manuel Abranches de Soveral

 

 

 

Ensaio sobre a origem dos Ferreira

Os Ferreira de Aguiar de Sousa e sua descendência até ao século XV,

incluindo a origem dos Faria

Escudo de armas dos Ferreira, de Aguiar de Sousa. (Infografia de Manuel Abranches de Soveral)

Escudo de armas dos Ferreira (infografia do autor)

O nome Ferreira é um daqueles apelidos portugueses que, para além das razões habituais de disseminação extra-familiar, não conta seguramente com uma única origem comum.

Há, desde logo, uma série de indivíduos que, pelo menos desde o século XIV e sobretudo no XV, se documentam como pertencendo claramente ao conto plebeu, e outros que, não sendo possível documentá-los como tal, o deviam ser pelo estatuto aparente. Entre estes Ferreira populares do século XV aparece mesmo um alfaiate judeu e um mercador genovês (Ferrera na origem, suponho).

Eis alguns dos exemplos mais significativos:

·  Um Lopo Gonçalves de Ferreira, almocreve, documenta-se com casas na Guarda na delimitação de um prazo feito por D. Duarte de 21.10.1435.

·  A 7.5.1445 D. Afonso V perdoa a justiça régia e concede carta de segurança a Margarida Afonso Ferreira, moradora na Bouça, couto do mosteiro do Pombeiro, acusada de pôr em perigo vários casamentos pela prática de adultério, de furtos e agressões, e que fugira da prisão, tendo pago 100 reais brancos para a Chancelaria régia, contanto que se livre de direito do que fora acusada e presa.

·  A 1.4.1450 D. Afonso V perdoa a justiça régia a Gonçalo Anes, morador em Assumar, por ter participado na batalha de Alfarrobeira contra o infante D. Pedro, da acusação de ter ferido Inez Ferreira, mulher de João Afonso, grumete.

·   A 12.7.1451 D. Afonso V privilegia João Ferreira, genovês, mercador, morador na cidade de Lisboa, a pedido de Marco Lomilim, genovês, servidor régio, mercador, morador nessa cidade, isentando-o do pagamento de diversos impostos, pedidos, empréstimos, serviços, cargos, ofícios régios e concelhios, de ter cavalo, armas e bestas, bem como do direito de pousada, concedendo-lhe licença para trazer armas de noite e de dia.

·   A 12.10.1451 D. Afonso V privilegia João Anes de Ferreira, sapateiro, morador na cidade de Lisboa, a pedido de Leonor Gonçalves, ama do rei, isentando-o do pagamento de encargos e servidões concelhias, de ser tutor e curador, de servir por mar e terra, salvo com o monarca.

·  A 26.8.1467 D. Afonso V privilegia Isaque Ferreira, alfaiate, morador em Lisboa, concedendo-lhe carta de contrato. 

·   A 31.3.1469 D. Afonso V perdoa a justiça régia e concede carta de segurança a João Rodrigues, morador na vila de Torres Vedras, pela fuga da prisão, preso por um arroído que tivera com o sobrinho de João Ferreira, alcaide pequeno nesta vila, contanto que se livre de direito do que fora preso. 

Na verdade, há em Portugal muitos lugares com o nome Ferreira, que poderiam ser a origem diversa de muitos destes locativos. Por outro lado, a profissão de ferreiro poderia dar origem a uma alcunha, passando depois ao nome familiar Ferreira, obedecendo a uma regra na onomástica portuguesa segundo a qual os nomes pouco usuais tendem a passar para o nome usual mais próximo. Deve ser este o caso, por exemplo, de Solimão Ferreira/o e Gonçalo Ferreira/o, documentados respectivamente em 1106 e 1110 ("Documentos Medievais Portugueses - Documentos Particulares", vol. III), o que atira para o século XI o uso em Portugal do nome Ferreira com origem na profissão.

De resto, as duas linhagens nobres que usaram o nome Ferreira surgem justamente de duas terras distintas com o mesmo nome: Ferreira de Aves, na Beira Alta, e Ferreira, hoje no concelho de Paços de Ferreira, distrito do Porto.

A primeira, que já tratei brevemente no meu trabalho "Ribadouro e Pacheco (séc. X a XIII)", é a varonia dos Pacheco, o nome que obtiveram por via feminina mas o que perdurou, se bem que algumas linhas de nobres com o nome Ferreira que se documentam no séc. XV possam aí entroncar. Estes Ferreira, senhores de Ferreira de Aves, tinham por armas aquelas que depois foram atribuídas ao Pacheco, como explico no referido trabalho.

Os Ferreira que são objecto do presente ensaio são os outros, os de Aguiar de Sousa, julgado que deu depois os concelhos de Paredes, Paços de Ferreira e Paço de Sousa, no termo do Porto, e que trazem por armas um escudo de vermelho com quatro faixas de ouro, heráldica que, a partir da reforma manuelina, passou a ser atribuída, sem qualquer critério genealógico, a todos os indivíduos de nome Ferreira que obtiveram carta de armas, quer entroncassem ou não nos de Aguiar de Sousa. Mesmo até quando o próprio armoriado diz que os seus Ferreira descendem dos senhores de Ferreira de Aves…

É ainda interessante verificar que os Ferreira não nobres que se documentam nos séculos XIV e XV aparecem indiferentemente só como "Ferreira" ou como "de Ferreira". Por outro lado, os senhores de Ferreira de Aves, antes de adoptarem o nome Pacheco, usaram sempre "de Ferreira". Enquanto a linhagem dos Ferreira de Aguiar de Sousa usaram quase sempre o nome sem a partícula.

Genealogias tardias entroncam a linhagem dos Ferreira de Aguiar de Sousa nos Ferrera/Herrera castelhanos, o que não tem o mínimo fundamento, como veremos. Mas estes Ferrera/Herrera podem, no entanto, estar na origem de alguns outros Ferreira portugueses, através de indivíduos daquela família que tenham vindo para Portugal.

A tardia ligação que fizeram dos Ferreira de Aguiar de Sousa aos Ferrera/Herrera castelhanos é pura fantasia, não só porque as armas de ambas as linhagens são totalmente diferentes, mas também porque (Paços de) Ferreira, donde a família portuguesa tirou o nome, já existia pelo menos desde os princípios do séc. XII e neste século nasceu o primeiro Ferreira desta linhagem que se documenta.

Aliás, já se documenta em 1059, no "Livro de Mumadona", a vila de Paços, com a sua igreja de Stª Eulália (ainda hoje o orago de Paços de Ferreira), o que condiz com as Inquirições de D. Dinis (1308), que se referem à freguesia de Stª Eulália de Paços no julgado de Aguiar de Souza, muito embora estas mesmas inquirições digam que aí não havia honra.

A Terra de Ferreira foi uma das circunscrições administrativas medievais. Ainda existia em 1220, mas em 1258 já estava integrada na Terra de Aguiar de Sousa. A Terra de Ferreira localizava-se na bacia superior do rio Sousa e incluía a maior parte do actual concelho de Paços de Ferreira (com excepção das freguesias de Frazão, Penamaior e Seroa, que pertenciam à Terra de Refojos de Riba de Ave) e grande parte do actual concelho de Lousada, concretamente as freguesias de Casais, Castrelos, Covas, Freamunde, Lustosa, Moreira, Ordem e Sousela. Mas em 1258 já se distinguiam três Ferreiras contíguas, hoje todas incluídas no concelho de Paços de Ferreira:

·  o couto e mosteiro de S. Pedro de Ferreira, hoje Ferreira, que teve foral novo manuelino a 15.9.1514

·  Stª Eulália de Paços

·  a "quintã velha de Ferreira", em S. João de Eiriz, hoje uma freguesia de Paços de Ferreira, honra que já era velha em meados do séc. XIII

Com efeito, nas Inquirições de 1258 o fidalgo Pedro Ferreira defendia por honra Vilar, em Eiriz, com seis casais, onde viviam herdadores. Nestas mesmas inquirições documenta-se a quintã de Ferreira, também em Eiriz, com seis casais pertencentes ao mosteiro de Santo Tirso e a fidalgos, que aí tinham a honra que tinha sido de D. Gonçalo de Souza, concluindo os inquiridores que (grafia actual) "a honra da quintã velha de Ferreira devem-na guardar como é conteúdo e julgado na inquirição que fez Rui Pais e Gonçalo Moreira".

Verifica-se assim que quer S. João de Eiriz quer Stª Cruz de Cacães (paróquia distinta, depois integrada em Eiriz) eram largamente ocupadas pela honra de Ferreira, já em 1258 muito desmembrada por partilhas e doações aos mosteiros de Santo Tirso e S. Pedro de Ferreira. Sendo de referir que estas duas paróquias (Eiriz e Cacães) parecem ter sido fundadas na sequência do despovoamento da povoação castreja de Penamaior, no antigo julgado de Refojos de Riba de Ave, entre Santo Tirso e a terra de Ferreira.

Aquele D. Gonçalo de Souza que fundara a honra e quintã de Ferreira, já velha em 1258, que o texto da inquirição deixa entender que teria morrido muito antes desta data, não me parece, por isso, que possa ser o mordomo-mor D. Gonçalo Mendes de Souza, que faleceu a 25.4.1243, escassos 15 anos antes da inquirição. Pelo que tinha de ser seu avô homónimo, nascido nos finais do século XI, que casou três vezes e ainda teve bastardos. E, face às evidências, não se pode excluir a possibilidade de o "miles" Pedro Ferreira, também documentado como Pedro Gonçalves Ferreira e Pedro Gonçalves dito Ferreira, nascido no início do século XIII, ser dele descendente.

De resto, a descendência deste Pedro Ferreira manteve-se centrada em Eiriz, pois seu neto Martim Ferreira é dito cavaleiro de Vila Verde em 1364, numa contenda com o mosteiro de Cête, sendo certo que aí possuía uma quintã e honra, como se documenta nas Inquirições de 1355, e que ele diz que já herdara de seu pai. Ora, Vila Verde, hoje lugar da freguesia de Eiriz, pertencia à "quintã velha" de Ferreira, dizendo-se nas Inquirições de 1258 que era de fidalgos e pertencera ao conde D. Mendo de Souza.

Sendo assim, seria de suspeitar que Pedro Ferreira fosse descendente do próprio conde D. Mendo Gonçalves de Souza. Mas como? Gaio, não sei com que bases, mas pela data devem ser justamente as Inquirições desse ano, diz que em 1258 vivia em S. João de Eiriz um Lourenço Gonçalves Ferreira. Pela onomástica e cronologia, este Lourenço só podia ser irmão de Pedro Gonçalves Ferreira, o que indicia que o nome já terá sido pelo menos usado pelo pai de ambos, que pelo patronímico dos filhos se chamou necessariamente Gonçalo Ferreira e que, como veremos, devia ser Gonçalo Pires Ferreira. Com efeito, um Pedro Ferreira e sua mulher Maria Vasques em Setembro de 1222 dão foral a Paço de Ferreira, não ao actual Paços de Ferreira (Stª Eulália de Paços, que nas inquirições de 1308 não tinha nenhuma honra) mas sim a um lugar de Paço na honra de Ferreira (Eiriz ou Cacães). Pela cronologia, este Pedro não pode ser o referido Pedro Gonçalves Ferreira, ainda vivo em 1290, com uma sua eventual 1ª mulher. Podia ser um tio seu, portanto irmão do referido virtual Gonçalo Ferreira, mas julgo que seria o avô paterno. Tendo cerca de 11 anos de idade em 1222, Pedro Gonçalves Ferreira podia perfeitamente ter os avós vivos nesse ano, nascido o avô entre 1150 e 1160, pelo que teria 62 a 72 anos de idade em 1222. Esta hipótese, além da onomástica (o mesmo nome do avô e neto), tem por si a ideia de que o casal que deu foral a Paço de Ferreira faz mais figura de patriarcas do que de jovens.

Aceitando esta dedução, podemos apontar o início do chamadouro Ferreira nesta linhagem para a segunda metade do século XII. O que torna, pela proximidade, algo difícil o entroncamento no conde D. Mendo, falecido depois de 1192, de quem não há notícia de nenhum filho ou neto Pedro. Na verdade, só vejo uma hipótese de ligação ao conde D. Mendo, que é a de Maria Vasques, mulher do Pedro Ferreira mais antigo, ser uma desconhecida filha natural de Vasco Mendes de Souza e, portanto, neta do dito conde. Este Vasco Mendes, que foi governador (tenents) de Bragança e Panóias e faleceu solteiro a 10.3.1242, teve pelo menos um filho natural, Rui Vasques de Panóias, como refere o conde D. Pedro. Poderia aquela Maria Vasques, nascida entre 1170 e 1176, ser irmã inteira ou meia-irmã deste Rui Vasques? Tendo em conta a inegável sequência patrimonial entre os Souza e estes Ferreira, demasiada para ter resultado de uma ocasional compra ou escambo, o estatuto fidalgo deste Ferreira e o facto de terem usado o chamadouro da honra que fora de D. Gonçalo Mendes de Souza, conjugado com a impossibilidade de outras alternativas de ligação, a maior probabilidade de esta ligação não ser por varonia e a viabilidade cronológica, estou em crer que esta minha proposta é perfeitamente aceitável.    

O que explicaria, nomeadamente, porque Martim Ferreira tinha em 1355 a honra de Vila Verde que pertencera ao conde D. Mendo Gonçalves. Porque, na verdade, o primeiro Pedro Ferreira, cujo nascimento apontámos para meados do século XII, podia talvez ser o Pedro Gonçalves que Almeida Fernandes (Homenagem de Lalim ao Conde Dom Pedro, 1990) diz ter sido filho do primeiro Gonçalo Mendes de Souza e de quem não se conhece descendência. Este Pedro Gonçalves, cujo nome e patronímico lembra imediatamente o de Pedro Gonçalves Ferreira, seria portanto meio-irmão do conde D. Mendo. O velho conde D. Gonçalo Mendes de Souza, nascido nos finais do séc. XI, ainda podia ter um filho natural nascido em meados do século XII. Mas esta hipótese tem algum problema cronológico e não explicaria tão bem a posse nos Ferreira de um honra que fora de D. Mendo.

Assim, com as cautelas necessárias, é possível propor que o Pedro Gonçalves Ferreira do século XIII fosse filho de um Gonçalo Pires Ferreira e neto paterno de Pedro Ferreira, o virtual 1º do nome nesta linhagem, e de sua mulher Maria Vasques (de Souza), co-herdeira da honra de Ferreira, irmã inteira ou meia-irmã de Rui Vasques de Panóias.

Segue um esquema genealógico da família, com aquilo que consegui apurar e o que me parece certo ou possível, tudo devidamente assinalado. De salientar que estes Ferreira podem ser apresentados como o paradigma de uma velha linhagem de Entre-Douro-e-Minho que, pelo menos na sua linha principal e até finais do século XV, se manteve centrada e moradora na sua região de origem, concretamente os actuais concelhos de Paços de Ferreira, Paredes, Penafiel, Lousada, Santo Tirso, Póvoa de Varzim, Vila do Conde e Maia, o que, por outro lado, porventura terá obstado a um maior engrandecimento.

 

 

Esquema genealógico

 

1.           Pedro Gonçalves Ferreira, "miles" (cavaleiro fidalgo), certamente descendente dos Souza, como ficou dito. Nasceu cerca de 1211 e faleceu depois de 15.5.1290, sendo ainda referido nas inquirições de 1288. Documentado nas Inquirições de 1258 como Pedro Ferreira, "miles", onde se diz que defendia por honra o lugar de Vilar, em Eiriz, com seis casais, onde viviam herdadores. Devia também ser senhor da quintã de Vila Verde, igualmente em Eiriz, que seu neto possuía e que nas mesmas inquirições se diz que era de fidalgos e pertencera ao conde D. Mendo de Souza. Todos estes lugares (Paço, Vilar e Vila Verde) pertenciam à grande honra e quintã de Ferreira, que no séc. XII fora de D. Gonçalo Mendes de Souza. Documenta-se também como Pedro Gonçalves Ferreira, morador em Aguiar de Sousa, quando a 15.5.1290, com autorização de sua mulher e seus filhos legítimos e genro, obteve a legitimação real para seu filho Martim Pires "Miracim" [1] . Ficamos assim a saber que ainda vivia em 1290 e que sua mulher, também ainda viva, se chamava Sancha, e que tinha então vivos os filhos legítimos Estêvão, Joana (casada com João Pires), Sancha e Tereza. É ainda o Pedro Gonçalves de Ferreira que em Agosto de 1241 testemunha em Guimarães uma doação feita à Sé do Porto por Estêvão Vasques [2] . Oliveira e Barros, citado por Gaio, diz que um Pedro Ferreira fora fidalgo ilustre no tempo do D. Afonso III e que morava na quintã de Vila Verde junto ao Rio de Ferreira, na freguesia de S. João de Eiriz, nos limites do julgado de Refojos de Riba de Ave, e possuíra parte da quintã de Rebollo, tudo honrado como consta das Inquirições que mandou fazer o dito rei no ano de 1258, e que alcançou também parte do reinado de D. Dinis, possuindo a honra da quintã de Gondezende, na freguesia de Medelo, no concelho da Maia, e tendo comprado umas casas em Penamaior, no dito julgado de Refojos, como consta das Inquirições que este rei mandou fazer por Aparício Gonçalves. Com efeito, Pedro Ferreira é referido nas Inquirições de 1290, onde se diz que no tempo de D. Afonso III (falecido em 1279) fez uma casa em herdamento que ganhou de herdadores em Gondesende (freguesia de S. João de Mindelo, julgado da Maia), onde fez honra que honrava toda a vila e, quando teve Mindelo em préstimo de D. Mem (provavelmente D. Mem Garcia de Souza, nesta hipótese primo-direito de seu pai) fez aí uma grande arroteia no reguengo régio e agora (1290), que perdeu este préstimo, tem a arroteia como sua, mandando o rei que só a casa e o herdamento inicial permanecessem honrados [3] . E as mesmas inquirições referem que Pedro Ferreira, também no tempo de D. Afonso III, comprou, com Martim Frazão (a freguesia de Frazão fica justamente em Refojos), uns herdamentos devassos na freguesia de S. Salvador de Penamaior, no julgado de Refojos de Riba de Ave, e aí fez honra, que as inquirições reconhecem e deixam assim ficar. Deve ainda ser o Pedro Ferreira, cavaleiro, que nas Inquirições de 1308 se diz que tivera dois casais em Vilarinho de Jusão, no julgado de Aguiar de Sousa, que eram agora (1308) de um mercador do Porto [4] . Pedro Ferreira casou com uma Sancha, como se documenta, nascida cerca de 1215, de quem julgo vir o casal em Sanguinhedo e o casal em Quintão, ambos em Lustosa, que aparecem na posse de seus filhos. Ora, em Sanguinhedo documenta-se nas Inquirições de 1258 que aí possuíam um casal Paio (Paes) Bugalho e seus irmãos, e quatro casais e meio os filhos de Gomes Colmeeiro, sendo os únicos fidalgos que aí tinham bens, a par com os mosteiros de S. Pedro de Ferreira, de Vilarinho, da Costa e a matriz de Lustosa, todos por doação de fidalgos. Esta Sancha parece assim ou uma irmã de Paio Paes Bugalho ou uma filha de Gomes Colmeeiro.

1.1.    Estêvão Pires Ferreira, que segue no nº 2.

1.2.    Joana Pires, documentada em 1290 como filha de Pedro Gonçalves Ferreira, estando casada com João Pires, que também dá o seu acordo, como ficou referido. Montarroio dá um João Pires como filho de Pedro Ferreira e diz que teve um casal em Sanguinhedo que deixou ao sobrinho Martim Ferreira. E, de facto, este Martim documenta-se com um casal em Sanguinhedo. Sanguinhedo é hoje um lugar da freguesia de Lustosa, no concelho de Lousada. Como ficou dito, este casal em Sanguinhedo, bem como o casal de Quintães que sua irmã tinha também em Lustosa, deveria vir da mulher de Pedro Ferreira. O problema é que não aparece nenhum João Pires entre os filhos de Pedro Gonçalves Ferreira que dão o seu acordo à legitimação do meio-irmão. Mas aparece um João Pires como seu genro, tal como ficou dito casado com esta Joana Pires. Por outro lado, documenta-se um João Pires, escudeiro, filho de Pedro Ferreira, quando 1.12.1293 confirmou um escambo que Pedro Martins, cavaleiro de Lijó, e sua mulher fizeram com o mosteiro de Pedroso [5] . Estou em crer que não era filho mas genro, sendo a expressão filho utilizada, como muitas vezes acontece, com esse sentido. Dado que herdou o sobrinho Martim, este casal deve ter falecido sem geração.

1.3.    Sancha Pires Ferreira, que Montarroio diz que casou (portanto depois de 1290), sem geração, com Domingos Esteves, a quem deixou o casal de Quintães, nos limites de Sanguinhedo, e que por sua morte se vendeu parte para sufrágios pela sua alma e o resto Martim Ferreira doou ao mosteiro de S. Pedro de Ferreira. Este casal de Quintães deve assim corresponder hoje ao lugar de Quintão na freguesia de Lustosa.

1.4.    Tereza Pires, documentada em 1290 como filha de Pedro Gonçalves Pereira, sem indicação de marido, pelo que se entende solteira ou viúva nessa data.

1.5.    (L) Martim Pires “Miranci”, morador em Aguiar de Sousa, legitimado por carta real de 15.5.1290, a pedido de seu pai e com o acordo da mulher deste e de seus filhos legítimos, como ficou dito. As genealogias, que não referem a sua ilegitimidade, apontam-no sem mais notícia, mas julgo que seria o pai dos seguintes primos documentados de Martim Ferreira:

1.5.1.   ?João Ferreira, que no testamento de Martim Ferreira, referido adiante, é dito seu primo e, na falta do irmão e sobrinhos do instituidor, nomeado na sucessão da capela de Cête. Não parece ter casado nem tido geração, porque a seguir a ele é nomeado seu irmão Gonçalo e os filhos dele.

1.5.2.   ?Gonçalo Ferreira, que no testamento de Martim Ferreira, referido adiante, é dito seu primo e nomeado na sucessão da capela de Cête, após seu irmão João e antes de seus filhos, que seguem. Não sei com quem casou.

1.5.2.1.     Gil Gonçalves Ferreira, nascido cerca de 1312, nomeado para a sucessão da capela de Cête no testamento de Martim Ferreira. Um Gil Ferreira documenta-se com proprietário de uma vinha em Guimarães na delimitação de um prazo feito por D. Afonso IV a 10.7.1331 a Martim Nogueira, tendeiro.

1.5.2.1.1.    ?Vasco Gil Ferreira, possível filho de Gil Gonçalves. A 23.6.1384 D. João I deu a Vasco Gil de Ferreira as terras de Santo Tirso e Meinedo (Penafiel) e seu termo, com todos os seus direitos, rendas e frutos. Documenta-se casado (na legitimação da filha), mas desconheço o nome da mulher.

1.5.2.1.1.1. ?Diogo Gil Ferreira, possível filho (legítimo) de Vasco Gil, uma vez que é demasiado tardio para ser seu irmão. Em 1435 era vassalo de D. Duarte, ouvidor da sua corte e logo tenente do corregedor. Foi depois juiz dos feitos e dos órfãos da corte, corregedor de Lisboa e desembargador da Casa do Cível de Lisboa. A 2.4.1441 D. Afonso V nomeia Pedro Lobato para o cargo de juiz dos feitos régios na corte em Lisboa, em substituição de Diogo Gil Ferreira, que fora nomeado corregedor em Lisboa. A 21.3.1444 o mesmo rei nomeia Diogo Gil Ferreira, juiz que foi dos órfãos da corte, para o cargo de desembargador da Casa do Cível da cidade de Lisboa.

1.5.2.1.1.1.1.  ?Génova Ferreira, nascida cerca de 1430, que recebeu uma doação de Isabel Vasques Ferreira, aqui dada como sua possível tia, mas não se dizendo na confirmação real dessa doação que parentesco tinham. Foi a 2ª mulher, julgo que sem geração, de Aires Pinto, nascido cerca de 1403, cavaleiro do 1º duque de Bragança e senhor do morgadio do Crasto, em Real (Castelo de Paiva), onde também viveu, tendo em 1455 recebido do povo o padroado da matriz local. Parece ser o que a 15.8.1454 teve carta de privilégio de fidalgo para o Entre-Douro-e-Minho e para a Beira, sendo então dito morador na cidade do Porto. E o que, com Gomes Pinto, provavelmente seu irmão, teve forte querela com terceiros, de que resultaram três cartas de perdão para três indivíduos moradores no termo de Felgueiras entre 1441 e 1451. A 27.10.1472 D.Afonso V confirma a doação a Aires Pinto, cavaleiro do duque de Guimarães, e a Génova Ferreira, sua mulher, de uma quinta em Vila Cova, situada na freguesia de S. Pedro Fins no julgado de Aguiar de Sousa, no termo da cidade do Porto, outra quinta situada em S. João da Portela, no dito julgado, e um casal na Torre, na dita freguesia, que pertenciam a Isabel Vasques Ferreira, mulher viúva, que os doou por não ter herdeiros, por instrumento público de doação de 24.8.1472.

1.5.2.1.1.1.2.  ?Isabel Ferreira, moça da câmara da rainha D. Isabel, que casou com Rui Mendes, cavaleiro e escrivão da fazenda do infante D. Fernando, que a 29.7.1462 teve de D. Afonso V mercê de 60.000 reais de prata por conta do seu dote de casamento. 

1.5.2.1.1.2. ?Isabel Vasques Ferreira, nascida cerca de 1400, viúva sem geração em 1472, que podia ser filha de Vasco Gil Ferreira. Por ser viúva e não ter herdeiros, doou por instrumento público de 24.8.1472, confirmado a 27.10.1472 por D.Afonso V, a Aires Pinto, cavaleiro do duque de Guimarães, e a Génova Ferreira, sua mulher, uma quinta em Vila Cova, situada na freguesia de S. Pedro Fins, no julgado de Aguiar de Sousa, no termo da cidade do Porto, outra quinta situada em S. João da Portela, no dito julgado, e um casal na Torre, na dita freguesia, como ficou dito acima.

1.5.2.1.1.3. (L) Leonor Martins Ferreira, legitimada por carta real de 13.7.1441, como filha de Vasco Gil Ferreira, homem casado, e de Maria Anes, mulher solteira. Não se entende aqui o uso excêntrico do patronímico Martins.

1.5.2.2.     Nuno Gonçalves Ferreira, nomeado em último para a sucessão da capela de Cête no Escudo de armas dos Faria (infografia de Manuel Abranches de Soveral)testamento de Martim Ferreira. Terá nascido cerca 1313 e julgo que é este o célebre alcaide-mor de Faria Nuno Gonçalves, que depois adoptou o nome e armas (imagem - infografia do autor) de Faria. Com efeito, quando a 26.6.1357 teve de D.Pedro I o castelo de Faria vem como Nuno Gonçalves de Ferreira. Mas quando a 14.12.1363 recebeu do mesmo rei o préstimo de Faria, pela "contia de seus maravedis", já vem referido como Nuno Gonçalves de Faria. A sua história é narrada por Fernão Lopes e foi imortalizada por Alexandre Herculano (Lendas e Narrativas). Terá sido, portanto, o 1º desta linhagem (que depois usaria o escudo de armas que se conhece e invoca o fundador) a usar o nome Faria. Se bem que este nome já antes existisse, o que significa a probabilidade de coexistirem pessoas do mesmo nome mas de famílias diferentes. Com efeito, um Garcia Martins de Faria já tinha falecido a 22.11.1362, quando se documenta o seu testamenteiro Pedro Fernandes, de Portalegre (Mosteiro de Stª Cruz de Coimbra, 2ª incorporação, caixa 56, m. 51, doc. com cota antiga Alm. 33, nº 12, m. 4). O casamento e a descendência de Nuno Gonçalves são desenvolvidos adiante, em caixa intitulada Ensaio sobre a origem dos Faria.
  

 

2.           Estêvão Pires Ferreira, que em 1290 se documenta como filho legítimo de Pedro Gonçalves Ferreira, como ficou dito. Nasceu cerca de 1240 e sobre ele as genealogias não dizem nada além do nome. Há contudo a possibilidade de identificar este Estêvão Pires Ferreira com o Estêvão Pires documentado com bens em S. Martinho de Recezinhos (Penafiel) nas inquirições da 2ª metade do século XIII, com uma alcunha que é hoje uma das maiores obscenidades. Isto, porque esse Estêvão Pires se documenta com sua irmã Sancha Pires (e Estêvão Pires Ferreira tinha uma irmã Sancha Pires) e porque um filho de Estêvão Pires Ferreira fez em 1344 doação de um casal em S. Martinho de Recezinhos ao mosteiro de Tarouquela. Estêvão Pires Ferreira casou com Margarida Esteves, por cuja alma seu neto Estêvão Ferreira, no seu testamento de 1393, manda rezar missas, chamando-lhe apenas Margarida Esteves, sua avó, a única dos avós contemplada. Montarroio diz que era Margarida Esteves Borges, irmã de Martim Esteves, João Esteves e Mendo Esteves Borges, todos filhos de Estêvão Anes Borges e netos de João Rodrigues Borges. [8] E, de facto, Martim Ferreira (filho desta Maria Esteves) declara que tinha a quintã da Porta, que lhe deixara Martim Esteves Borges. Julgo, contudo, que se trata da Margarida Esteves que se documenta irmã de Pedro Esteves "do Casal" e ambos filhos de Estêvão Pires "do Casal", senhor do Casal de Cavaleiros e de bens de S. Tomé de Negrelos (hoje uma freguesia do concelho de Santo Tirso). Com efeito, Martim Ferreira, filho desta Margarida Esteves, vinculou casais em S. Tomé de Negrelos, apesar de dizer que os comprara, e teve pelo menos parte da honra do Casal de Cavaleiros, na freguesia de Outeiro Maior (então no julgado de Faria, hoje no concelho de Vila do Conde). E o neto desta Margarida Esteves documenta-se como Estêvão Ferreira, escudeiro do Casal de Cavaleiros, e institui uma capela no mosteiro de S. Simão da Junqueira (Vila do Conde). Ora, aquele Estêvão Pires "do Casal" documenta-se nas Inquirições de 1258 com muitos bens em S. Tomé de Negrelos, tendo aí quatros casais nos lugares de Fonte, Vila Nova, Paço e Covas, sendo que os descendentes de Estêvão Ferreira tinham pelo menos as quintas do Paço e de Covas, justamente em S. Tomé de Negrelos. Acresce que aquele Pedro Esteves "do Casal", que ainda vivia em 1331, foi sepultado em S. Simão da Junqueira. E que Teresa Fernandes, sua viúva, em 1339, no Casal de Cavaleiros, fez certa declaração sobre o testamento do marido. Por outro lado, sabemos que Estêvão Ferreira era sobrinho de Rui Gomes e Constança Gomes, por cujas almas deixou missas no seu testamento, referindo-os como seus tios. Trata-se, pois, de Rui Gomes, escudeiro do Casal, que fez testamento no Casal de Cavaleiros a 15.5.1341, deixando um legado ao mosteiro de S. Simão da Junqueira e indicando como herdeiros Constança Gomes, sua irmã, e Estêvão Ferreira, seu sobrinho, apesar de ter uma filha, Tereza, a quem deixou 50 libras. Assim, aquela Margarida Esteves "do Casal" era mãe deste Rui Gomes, que nasceu cerca de 1277. Mas, como Rui Gomes não era nem podia ser filho de Estêvão Pires Ferreira, isso significa que Margarida Esteves "do Casal" casou duas vezes, a 1ª vez com um Gomes (Borges?), de quem teve pelo menos Rui Gomes e Constança Gomes, e a 2ª vez com o Estêvão Pires Ferreira em epígrafe. Margarida Esteves era assim filha de Estêvão Pires "do Casal", senhor do Casal de Cavaleiros e de bens de S. Tomé de Negrelos, e neta paterna de Pedro Afonso "do Casal", falecido antes de 1288, igualmente senhor do Casal de Cavaleiros, pois Estêvão Pires "do Casal" refere que os ditos casais já lhe vinham de seu pai. Pedro Afonso "do Casal" porventura casou com uma Cunha, família dominante local, por quem terá tido Casal de Cavaleiros, pois, segundo a tradição, a honra da quintã do Casal (de Cavaleiros) vinha dos Cunha e teria sido fundada por D. Fafila Guterres, o que se confirma, pois as Inquirições de 1258 dizem: "Parrochia ista est honor militum de veteri, de genere Domni Fafie Goterri". O que significava que a mulher de Pedro Afonso "do Casal" devia ser filha ou sobrinha [6] de Lourenço Fernandes da Cunha, sendo que julgo que foi filha, mais concretamente Maria Lourenço da Cunha [7], irmã inteira de Vicente Lourenço da Cunha, falecido novo a 6.2.1223, ambos filhos naturais do dito Lourenço Fernandes da Cunha, documentado entre 1171 e 1225, cujos filhos legítimos do seu casamento eram em 1258 os grandes proprietários em S. Tomé de Negrelos. O toponímico "do Casal" poderia ter sido adoptado por este Pedro Afonso por ser senhor da honra do Casal (de Cavaleiros), mesmo que esta tivesse sido herança ou dote de sua mulher. Outros casos há em que isso mesmo aconteceu, sendo o mais conhecido o de D. Sancho Nunes de Celanova, depois "de Barbosa". Contudo, este parece ser o Pedro Afonso do Casal referido pelo conde D. Pedro, sem lhe indicar mulher nem descendência, que o dá como filho de Afonso Rodrigues do Casal e neto de Rui Garcia do Casal, o primeiro desta linhagem que apresenta. Sendo que nas inquirições de D. Dinis de 1288 o fidalgo Martim (Afonso) do Casal trazia como honra a freguesia de S. João de Caldas (de Vizela), no julgado de Guimarães, dizendo as testemunhas "que a deu Rey don Sancho o Velho a seu linhagem". A isto acresce o facto de as ditas inquirições de 1288, sobre a freguesia de S. Martinho de Gatim (depois Outeiro Maior), dizerem apenas que "os logares que chamam Gatim e o Penedo he provado que os virom trager por honrras des que se acordam as testemunhas e d'ouvida de longo tenpo pero que dam ende a al Rey fossadeira". Acrescentando apenas que um Fernão Moniz "comprou hi uma herdade e tolhe ende a fossadeira a el Rey". Sendo que já as Inquirições de 1258 diziam que "Fernandus Moniz comparavit quintam partem ipsius hereditatis, modo de novo, et tollit Domino Regi suum directum". Gotim, mais tarde Gatim, certamente é o lugar depois dito Gacim e hoje Gacins. Portanto, aparentemente, em 1288 a honra do Casal ainda não era conhecida por este nome. Sendo assim, esta honra, fundada por D. Fafila Guterres, passou a Pedro Afonso do Casal por casamento e só após ter passado à posse desta linhagem "do Casal" tomou o seu nome, acrescida mais tarde de Cavaleiros, ou para se distinguir ou para sublinhar a origem. Deste Pedro Afonso do Casal deve ser ainda filho o Martim Peres, cavaleiro do Casal, que fez testamento a 5.1.1289 (era de 1327), no qual se manda sepultar em S. Simão de Junqueira (Tombo do Mosteiro de S. Simão da Junqueira). Deste testamento retira-se que Martim Peres tinha um "paço" no Casal, instituiu naquele mosteiro a capela de Stª Mª, onde se manda sepultar, era então viúva de uma D. Sancha e pai de Garcia Martins, que ficou seu testamenteiro, e de Sancha Martins, aparentemente legítimos, portanto filhos da antedita D. Sancha. Teve ainda um João Martins, havido numa Maria Peres, e Vasco Martins, Gonçalo Martins e uma filha (não nomeada), havidos numa Maria da Veiga. Finalmente, é de assinalar que Martim Lourenço da Cunha, filho do antedito Lourenço Fernandes da Cunha, fundou na vizinha freguesia de Stº André de Parada a honra de Cunha-a-Nova e também se mandou sepultar em S. Simão da Junqueira. A dois filhos dele, aliás, se refere o antedito Martim Peres do Casal, que no seu testamento roga a Lourenço Martins e Gonçalo Martins, cavaleiros de Cunha, que se alguém quiser embargar esta minha manda, que sejam eles aí por mim assim como eu deles fio e que não deixem aí fazer força a nenhum. Na verdade, estes Lourenço Martins da Cunha, também dito de Fajoses, e seu irmão Gonçalo Martins da Cunha, dito Camelo, são filhos de Martim Lourenço da Cunha, sendo este irmão mais novo de Gomes Lourenço da Cunha e de Vasco Lourenço da Cunha, e meio-irmão dos anteditos Vicente Lourenço da Cunha e Maria Lourenço da Cunha, todos filhos de Lourenço Fernandes da Cunha. Portanto, se Martim Peres do Casal era, como parece, filho de Pedro Afonso do Casal e sua mulher Maria Lourenço da Cunha, aqueles Lourenço Martins da Cunha e Gonçalo Martins da Cunha, que ele invoca no seu testamento, eram seus primos-direitos. Sendo também natural que Martim Peres do Casal fosse bem mais velho do que esses seus primos-direitos, que então (1289) ainda seriam novos, e por isso são referidos como Lourenço Martins e Gonçalo Martins, cavaleiros de Cunha, certamente Cunha-a-Nova que o pai deles fundara.

2.1.    Sancha Esteves, que nasceu cerca de 1292 e terá falecido antes 1347, pois seu irmão Martim deixa no seu testamento, desse ano, missas por sua alma, se bem que também as deixe para si e para sua mulher, ainda viva.

2.2.    Martim Ferreira, que nasceu cerca de 1293 e faleceu depois 1364. Documentado nas Inquirições de 1355 como senhor das honras de Vila Verde, em Eiriz, e do Casal de Cavaleiros, na freguesia de Outeiro Maior, hoje no concelho de Vila do Conde. Em 1332 (parece que há uma segunda instituição ou acrescentamento em 1356) instituiu uma capela no mosteiro de Cête, a que vinculou a quintã de Vila Verde e um casal em Sanguinhedo que foram de seu pai e todas as mais fazendas que tinha no dito lugar, e a metade das que comprara em Negrelos. Em 1344 instituiu o morgadio da sua quintã do Casal de Cavaleiros. Documenta-se como cavaleiro de Vila Verde quando, com sua mulher Ouroana Martins, tiveram em 1364 uma questão com o mosteiro de Cête. Martim Ferreira fez segundo testamento em 1347 (Cartório de Cête), onde deixou ao mosteiro umas casas por sua alma, de sua mulher e de sua irmã (dele) Sancha Esteves, e por troca com o direito que o dito mosteiro tinha na sua quintã da Porta, que lhe deixara Martim Esteves Borges, e foi esse direito a razão da questão com o mosteiro. No seu segundo testamento, Martim Ferreira deixou a quintã de Vila Verde e o casal de Sanguinhedo, que tinham sido de seu pai, e a metade dos casais de S. Tomé de Negrelos, que comprara, tudo obrigado à sua capela em Cête, a sua mulher Ouroana Martins, em sua vida, e por sua morte passava tudo a Estêvão Ferreira, nomeando ambos testamenteiros. Num testamento anterior, parece que feito a 1.11.1332, Martim Ferreira, seria ainda solteiro, nomeia na administração da capela de Cête em 1º lugar seu irmão Pedro Ferreira, dizendo que na falta de seu irmão e seus sobrinhos sucedesse seu primo João Ferreira e a este Gonçalo Ferreira seu irmão, e depois sucederia Gil Gonçalves e depois Nuno Gonçalves, e por morte destes o parente mais chegado da linhagem dele instituidor, com obrigação de missa quotidiana na igreja de S. João de Eiriz enquanto nela seu corpo estivesse depositado, e depois no mosteiro de Cête onde mandou edificar uma capela, a que vinculou a quintã de Vila Verde e um casal em Sanguinhedo que foram de seu pai e todas as mais fazendas que tinha no dito lugar, e a metade das que comprara em Negrelos, ficando por seus testamenteiros seus sobrinhos Estêvão Ferreira e Pedro Ferreira. Segundo a "Corografia Portuguesa" (Tomo 1º, f. 94), este Martim Ferreira teve a alcunha de "Narizes", por ter recebido uma cutilada no nariz num confronto com um exército castelhano alojado em Veiga de Favas, junto a Guimarães, a quem deu batalha, que fez recolher o inimigo apressadamente para Chaves. Casou, portanto, com Ouroana Martins, sem geração ou com filhos que morreram pequenos.

2.3.    Pedro Ferreira, que segue no nº 3.

2.4.    ?Vasco Esteves de Ferreira, alcaide-mor de Marialva (12.7.1357) e vassalo de D. Pedro I.

2.5.    (L) Gonçalo Esteves, cavaleiro, legitimado por carta real de 8.7.1318, como filho de Estêvão Pires de Ferreira e de Maria Alva [9] .

 

 

3.           Pedro Ferreira, cavaleiro, que nasceu cerca de 1294 e faleceu depois de 1344 e antes de 1347. No primeiro testamento de seu irmão Martim, parece que de 1.11.1332, é nomeado em primeiro lugar para suceder na capela de Cête, com seus filhos Estêvão e Pedro. Tendo em conta o que já se disse de seu pai e o que adiante se diz de sua mulher, terá vivido ou em S. Tomé de Negrelos (Santo Tirso), cujos bens terá herdado, ou na honra de Fajozes (Vila do Conde), que teve por sua mulher, já que os restantes bens conhecidos ficaram para seu irmão mais velho. Mas também teve bens em S. Martinho de Recezinhos, pois com sua mulher D. Inez fez em 16.1.1344 doação ao mosteiro de Tarouquela de um casal que aí tinha, sendo testemunha o filho Gonçalo Pires, como se diz adiante, e Martim Anes de Real, passando na mesma data, com sua mulher D. Inez Rodrigues, sendo referido como cavaleiro, procuração para que fosse entregue ao dito mosteiro a quintã e outros bens que ele tinha em S. Martinho de Recezinhos. Pedro Ferreira casou com D. Inez Rodrigues (de Fajozes), nascida cerca de 1298 e falecida depois ou cerca de 5.7.1355, sendo sepultada em capela instituída nessa data por seu filho Estêvão, e obviamente já falecida em 1393, quando no testamento do dito filho este lhe manda rezar missas pela alma. Tendo em conta a onomástica, a cronologia e o facto de o filho Estêvão ter a quintã e honra de Fajozes (Vila do Conde), onde, como se disse, a 5.7.1355 institui morgadio com capela no mosteiro de S. Simão da Junqueira, proponho que esta D. Inez Rodrigues não possa deixar de ser filha do Rui Gonçalves de Fajozes que tinha a dita honra nas Inquirições de 1258 e aí vivia com sua filha D.Elvira Rodrigues, que pode ser uma irmã ou troca de Inez por Elvira. E este Rui Gonçalves era certamente filho de Gonçalo Pires de Fajozes, senhor da dita honra. Nas Inquirições de 1288 explica-se que a freguesia de Fajozes era toda honrada "de longo tempo" pela quintã e honra paçã de Fajozes, que (grafia actual) "a honrou o rei Dom Sancho o Velho a Pedro Gonçalves Talhacarne".

3.1.    Gonçalo Pires Ferreira, que nasceu cerca de 1309 e faleceu depois de 16.1.1344, quando testemunha a doação de seus pais, e antes de 1347, pois não é referido no testamento de seu tio Martim Ferreira e se entende que era o mais velho, pelo que certamente faleceu solteiro sem geração.

3.2.    Estêvão Ferreira, que segue no nº 4.

3.3.    Pedro Ferreira, nomeado, com seu irmão Estêvão, testamenteiro no primeiro testamento de seu tio Martim Ferreira, mas já não referido no segundo, pelo que terá falecido entre 1332 e 1347. Deve ser este o Pedro Ferreira que casou com Senhorinha Anes de Cassende e foram pais de:

3.3.1.   Vasco Pires de Ferreira, escudeiro e vassalo do rei, que a 9.5.1361 renunciou aos direitos de natural do mosteiro de S. Salvador de Moreira [10] .

 

 

4.           Estêvão Ferreira, que nasceu cerca de 1310 e faleceu depois de 3.1.1393, data do seu testamento na sua quintã do Casal de Cavaleiros, e antes de 6.8.1394. A 5.7.1355 instituiu o morgadio de Fajozes (Vila do Conde), com sua capela de Stª Mª Madalena no mosteiro de S. Simão da Junqueira, onde foi sepultado, tal como sua mãe (Crónica de S. Cruz, Cap. 11, f. 322). Sucedeu a seu tio Martim Ferreira nos morgadios de Cête e do Casal de Cavaleiros, documentando-se como escudeiro do Casal de Cavaleiros, onde deve ter vivido e falecido velho. Estêvão Ferreira, na instituição do morgadio de Fajozes, manda que digam 12 missas mensais, uma pela sua alma, de sua mãe e de Rui Gomes, seu tio, Constança Gomes, sua tia, e Margarida Esteves, sua avó, Patrício Pais e Estêvão Anes, priores de S. Simão da Junqueira, Estêvão Martins, Álvaro Gonçalves e seu irmão Nuno Gonçalves, Mor Martins e Mécia Vasques, suas mulheres, e Rui Gonçalves, abade de Cedofeita. Nomeia testamenteiros seus filhos Rui Ferreira e João Ferreira, e o prior de S. Simão da Junqueira. Nomeia o dito Rui Ferreira nas fazendas da Maia e Varzim, com obrigação de dar 100 libras anuais para as obrigações do morgadio. Por falta de Rui Ferreira nomeia Martim Ferreira, também seu filho e arcediago do Couto, e depois seu outro filho Álvaro Ferreira, e em falta deste outro filho Gomes Ferreira. Por morte de todos, fica ao parente mais chegado. Casou a 1ª vez com Mor Martins Fariseu, filha herdeira de Martim Anes Fariseu, que levou em dote o morgado que este tinha e fora instituído nas quintas de Espladem (o paço que em 1307 Lourenço Anes Redondo tinha em Esposende?), Terroso (Póvoa de Varzim) e Recezinhos (S. Martinho?) por D. Mor Lourenço de Arões [11] , por testamento de 1347, onde se diz que o dito Martim Anes Fariseu era seu criado e o nomeia como administrador. D. Mor Lourenço casou a 1ª vez com Lourenço Anes Redondo, meirinho-mor do reino, que a 14.6.1318 entregou a sua quintã de Terroso como penhor da sua palavra num acordo de paz com Vasco Gonçalves Pereira, promovido pelo rei. Mor Lourenço casou com Lourenço Anes Redondo antes de 1307, sem geração, e voltou a casar antes de 16.8.1329 com Martim Lourenço da Cunha, de quem foi 1ª mulher, também sem geração. Nas Inquirições de 1343 diz-se que havia 25 anos que Dona Mor sonegava bens e herdades em diferentes lugares da freguesia de Terroso. Estêvão Ferreira casou a 2ª vez com Mécia Vasques (b), como o próprio diz no seu testamento, de quem terá tido pelo menos um filho.

4.1.    Rui Ferreira, nomeado por seu pai como o 1º sucessor, nasceu cerca de 1333 e faleceu depois de 3.1.1393, solteiro ou pelo menos sem geração legítima. Será o Rui Ferreira, abade de S. Salvador (de Minhotães), que de Catarina Esteves teve um filho, também Rui Ferreira, legitimado por carta real de 7.4.1421. Sendo que este legitimado parece ser o Rui Ferreira, vassalo da Casa Real, morador na terra de Cambra, que a 26.8.1445 teve do rei, a pedido de D. Fernando de Menezes, do Conselho, privilégio de aposentação pela idade de 70 anos, o que significa que teria nascido cerca de 1365, portanto dentro de uma cronologia perfeitamente aceitável.

4.2.    João Ferreira, nomeado por seu pai como o 2º sucessor, nasceu cerca de 1334 e faleceu depois de 3.1.1393, solteiro ou pelo menos sem geração legítima, pois sucedeu seu irmão Gomes.

4.2.1.   ?(N) Senhorinha Anes Ferreira, nascida cerca de 1355, que Gaio dá anacronicamente como sobrinha ou sobrinha-neta do bispo de Coimbra D. Álvaro Ferreira, referido adiante. Pela cronologia e patronímico, contudo, parece que seria filha deste João Ferreira. Casou cerca de 1370 com Lourenço Anes Amado, que Alão diz ter sido irmão mais novo de João Gonçalves Amado, alcaide-mor de Penedono, que entregou este castelo à rainha D. Beatriz e morreu na batalha de Trancoso contra o mestre de Avis, se bem que pelo patronímico Lourenço Anes mais parece ser filho do que irmão de João Gonçalves, tanto mais que este era filho, segundo Alão, de Gonçalo Mendes Amado. Gaio, aliás, dá simultaneamente o mesmo Lourenço Anes como irmão e filho de João Gonçalves, explicando que "um ttº de Amados que me veio de Coimbra" dá Lourenço Anes como filho de João Gonçalves e sua mulher Elvira Martins de Alvellos, sobrinha de D. Giraldo Domingues, bispo do Porto e de Évora, que instituiu o morgado de Medelo (Lamego) a 28.4.1355.

4.2.1.1.     Pedro Lourenço Ferreira, que nasceu cerca de 1370 e faleceu depois de 12.11.1449 e antes 20.1.1450. Alão não o refere e Gaio dá-o como filho do João Lourenço que leva por irmão, mas que a cronologia obriga que fossem irmãos, se é que este João existiu, conforme se diz adiante. Terá sido senhor de Povolide, tal como se diz na carta a seu filho, mas não há documento desta doação. Como já avisa Braamcamp, o senhorio de Povolide foi de Estêvão Dias de Avelar (10.12.1385), que o vendeu a Gonçalo Vasques Coutinho, com confirmação real de 13.2.1393. Pedro Lourenço foi alcaide de Castelo Bom (1394), de Trancoso (1396), da Guarda (1397) e de Bragança, cargo que ocupava a 27.9.1404 quando D. João I o dispensou de pagar o foro (24 libras anuais) da aldeia de Paradela, no termo de Mogadouro, que trazia aforada ao rei, mercê que lhe foi depois confirmada a 7.10.1434 e 17.6.1441 (referindo-se aqui que a mercê se mantinha sem embargo da doação feita da terra de Mogadouro a Álvaro Pires de Távora). Foi alcaide-mor de Penamacor antes de 1.8.1441, quando D. Afonso V nomeou D. Pedro de Castro, do seu Conselho, para o cargo de alcaide-mor do castelo da vila de Penamacor, com todas as rendas e direitos, em substituição de Pedro Lourenço de Ferreira, cavaleiro da sua Casa. Foi depois alcaide-mor de Pinhel (27.6.1441) e coudel de Pinhel e seu termo por carta do dia seguinte, tendo antes mercê das rendas e direitos da vila de Pinhel (28.3.1449). Teve o serviço real e novo dos judeus da cidade da Guarda (16.1.1434 e confirmação de 23.6.1441) e carta de privilégio para seus criados e apaniguados na correição da Beira (15.11.1433, confirmada a 22.6.1441). Com sua mulher Beatriz de Mello teve a 7.1.1434 (confirmada a 19.6.1441) carta idêntica, isentando os seus amos e amas de pagar qualquer encargo concelhio, bem como do direito de pousada. A 23.9.1444 o mesmo rei privilegiou Beatriz de Mello, filha de Martinho Afonso de Mello e mulher de Pedro Lourenço de Ferreira, concedendo-lhe licença para retirar dos bens do seu marido, aquando da sua morte, as 2.000 coroas de ouro de dote de casamento a que tinha direito, ou das terras, bens e rendas da coroa que o seu marido trazia, contanto que somente fosse de 10.000 reais por cada 1.000 coroas, segundo instrumento público de 24.5.1444. A 20.1.1450 D. Afonso V confirmou a nomeação de Pedro Lourenço de Ferreira, alcaide-mor de Pinhel, para o cargo de coudel de Povolide, Castro Verde, Sá, Aldeia Nova, Martim Eanes, Alarde, Chãos, Azurara, Castelo Mendo, Pinhel e Trancoso. Mas faleceu nos quatro anos seguintes, pois a 10.12.1454 o rei doou a Rui de Souza, fidalgo da sua Casa e vedor da Casa da rainha D. Isabel, a renda do serviço real novo dos judeus de Pinhel e todos os outros direitos reais da dita vila e seu termo, como tinha até aí Pedro Lourenço de Ferreira, alcaide-mor de Pinhel. E logo a 13.12.1454 nomeou o mesmo Rui de Souza alcaide-mor de Pinhel, em substituição de Pedro Lourenço Ferreira, que morrera. E a 3.1.1455 quitou oaos filhos de Pedro Lourenço Ferreira o porto e menagem do castelo de Pinhel. A 16.5.1455 D. Afonso V perdoou a justiça régia a Gonçalo Meirinho, e a outros dezoito homens, todos lavradores e moradores na vila de Pinhel ou no seu termo, acusados de terem acompanhado a vários lugares os filhos de Pedro Lourenço de Ferreira, alcaide-mor do castelo da dita vila. Finalmente, a 27.8.1463 o rei confirmou as doações feitas por seus irmãos a João de Mello, fidalgo da sua Casa, de todos os bens móveis e de raiz, dos quais eram herdeiros por morte de seu pai, (Pedro) Lourenço Ferreira. Pedro Lourenço Ferreira casou, como se documenta, com Beatriz de Mello, filha de Martim Afonso de Mello, 1º senhor de juro e herdade de Barbacena (1.10.1398), 3º morgado da Torre de Évora (30.8.1398), 1º senhor do couto de Val da Palma (9.5.1411), guarda-mor de D. João II (1398), embaixador em Castela, alcaide-mor de Évora (15.1.1390), Olivença, Campo Maior (1388), Castelo de Vide e Sever, etc., nascido cerca 1348 e falecido antes de 1432. Como este Martim Afonso de Mello já tem do seu 2º casamento com D. Briolanja de Souza uma filha D.Beatriz de Mello, que foi condessa de Marialva pelo casamento, é natural que a Beatriz de Mello que casou com Pedro Lourenço Ferreira fosse bastarda, como desconfia Gaio e que o facto de não se documentar com Dona bem indicia. Pedro Lourenço Ferreira e sua mulher tiveram vários filhos, que fizeram várias tropelias na Guarda e Pinhel, como se vê pela carta de perdão acima referida, tal como já seu pai tinha trazido aterrorizados os moradores de Penamacor [12] . O mais velho foi o João de Mello, acima referido, que na carta do senhorio de Povolide passada a seu irmão se diz que teve esta terra mas faleceu sem geração, sucedendo-lhe o irmão Nuno de Mello, que por causa das tropelias que fez foi degredado para fora da Beira. A 4.8.1468 D. Afonso V privilegiou Nuno de Mello, fidalgo da sua Casa, substituindo-lhe a pena de dois anos de degredo para fora da comarca da Beira, pelo pagamento de 2.000 reais de prata, e concede-lhe licença para que possa voltar às suas terras. A este Nuno de Mello já antes (24.7.1464) o rei tinha dado os senhorios de Povolide e Castro Verde, e a aldeia de Paradela, como tinha seu irmão, que morrera, e seu pai. Em 1462 João de Mello de Ferreira ainda estava vivo, pois com seu irmão Nuno de Mello consta como cavaleiro fidalgo da Casa de D. Afonso V, com 1.250 reais de moradia (ACS/Provas). Destes parece também irmã a Isabel de Mello que casou com Diogo Pereira [13] , fidalgo da Casa do infante D. Fernando, a quem D. Afonso V confirmou a 26.9.1450 os quartos, quintos, oitavos e direitos na vila de Tavira, e seu termo, da alfândega régia, e do relego, assim como havia Fernão Martins do Carvalhal, fidalgo da Casa do infante D. João, seu pai. Diogo de Figueiredo e sua mulher tiveram vários filhos, entre eles um Álvaro Ferreira, escudeiro do príncipe D. João, que a 27.4.1480 teve mercê real do cargo de recebedor da sisa do pescado e madeira da cidade de Lisboa, em substituição de seu pai Diogo de Figueiredo, que morrera.

4.2.1.2.     Rodrigo Amado, padre lóio, segundo Gaio.

4.2.1.3.     Miguel Amado, que Alão diz que foi morto em Trancoso por um touro.

4.2.1.4.    João Lourenço Ferreira, nascido cerca de 1380, que Alão diz ter sido alcaide-mor de Penedono e ter casado com Margarida Anes, filha de João Afonso, de Paços, o Velho de Pinhel. Ao contrário do que acontece com o irmão, sobre ele não encontrei rasto documental. Mas é possível que tenha vivido em Pinhel e dele descendam os Ferreira de Pinhel e os de Viseu. João Lourenço Ferreira, alcaide-mor de Penedono, é referido na carta de armas (17.6.1545, para Amado, Baracho, Ferreira e Santarém) de Pedro Anes Amado de Santarém Baracho, e seus irmãos, como seu trisavô e pai de Gonçalo Pires Amado Ferreira, o que não se aceita nem pela cronologicamente nem pela onomástica. Mas João Lourenço podia ser avô de Gonçalo Pires, faltando à carta de armas um Pedro Anes intermédio. Gonçalo Pires casou com Beatriz Anes de Lemos (vide o meu Ensaio sobre a origem dos Lemos Portugueses) e foram pais do doutor Pedro Gonçalves Amado Ferreira (nome com que consta na dita carta de armas, nascido cerca de 1485 e falecido em 1547, que casou a 1ª vez com Maria Anes de Almeida, de Soloris, e instituiu a capela de S. José, na matriz de Freixinho, freguesia do concelho de Sernancelhe, onde jaz e em cuja inscrição aparece apenas como doutor Pedro Gonçalves: "DOCTOR PETRVS GVNSAL.º EX ANTIQVA AMATOR.º FAMILIA HVI SACELI FVNDATOR HIC TVM.IAC.OB.1547". Nesta capela foram depois colocadas as armas dos Almeida por seu descendente José de Almeida, familiar do Stº Ofº (7.12.1701), seu administrador e reformador. Para além dos filhos que as genealogias dão a este doutor Pedro Gonçalves Amado Ferreira, julgo que teve um Vasco Pires Ferreira de Lemos, que viveu em Stª Comba Dão e casou no Tojal (Sátão) com uma filha de Pedro Vaz, escudeiro, escrivão da Câmara e dos órfãos de Satão. A 13.2.1496 D. Manuel I notificou os juizes, concelho e homens bons do concelho de Satão da mercê a Pedro Vaz, escudeiro, morador no mosteiro de Vila Nova, terra de Penalva, dos cargos de escrivão da Câmara e dos órfãos de Satão, como o era João de Albuquerque, que renunciara, conforme público instrumento de João Freire, tabelião em Montemor-o-Novo, a 5.2.1496 (CMI, 32, 104v; e 26, 31v). Daquele Vasco Pires Ferreira de Lemos e sua mulher foram filhos Heitor Vaz de Lemos, c.g. nos Ferreira de Lemos, morgados do Tojal, e Pedro Vaz Ferreira de Lemos, c.g. nos Lemos Galvão ou Galvão de Lemos, também ligados ao Tojal.

4.3.    Martim Ferreira, que era arcediago do Couto a 3.1.1393, como diz seu pai. A 6.8.1394 Martim Ferreira, arcediago do Couto, juntamente com alguns dos seus irmãos, referindo-se como filho que fui de Estêvão Ferreira e de Mor Martins, sua mulher, confirmaram ao mosteiro de S. Simão da Junqueira as doações que lhe tinham feito seu tios Rui Gomes e Tereza Gomes e renunciam no que pertece às suas partes qualquer embargo. Este documento, encabeçado por este Martim, engloba os irmãos Álvaro e Aires e as irmãs Aldonça, Catarina e Guiomar. Mas quer a sua redacção quer o facto de lá não constar o sucessor Gomes, aponta para que se trata de uma posição tomada apenas por parte dos irmãos. Mesmo Rui e João, que teoricamente podiam já ter falecido, não parece provável que, estando vivos em 1393, ambos já tivessem morrido em 1394.

4.4.    Álvaro Ferreira, nascido cerca de 1336, foi nomeado por seu pai como o 4º sucessor. Na referida confirmação de 1394 consta como abade de Stª Mª de Bagunte, no julgado da Feira.

4.5.    Gomes Ferreira, que segue no nº 5.

4.6.    Aldonça Ferreira, nascida cerca de 1340, que casou João Afonso, escrivão. Na referida confirmação de 1394 é este João Afonso, escrivão, que participa, como procurador de sua mulher..

4.7.    Catarina Ferreira, freira no convento de Srª Clara de Vila do Conde. Na referida confirmação de 1394 é representada por Gonçalo Martins, procurador da abadessa.

4.8.    Guiomar Ferreira, freira no convento de Srª Clara de Vila do Conde. Na referida confirmação de 1394 é representada por Gonçalo Martins, procurador da abadessa.

4.9.    Aires Ferreira, nascido cerca de 1376, que é referido como menor no dito documento de 1394, sendo nele representado por seu tutor Álvaro Gonçalves. Parece assim evidente que este Aires era filho do 2º casamento de Estêvão Ferreira com Mécia Vasques.

 

 

 

5.           Gomes Ferreira, nascido cerca de 1338, que por morte de seus irmãos mais velhos, sem geração legítima, acabou por suceder nos morgadios do Casal de Cavaleiros, de Cête e de Fajozes, em que fora nomeado por seu pai em último lugar. As genealogias dizem que casou com Maria da Cunha, sobre a qual não dizem nada nem indicam a sua filiação. Pela cronologia associada, este casamento ter-se-á realizado cerca de 1360. Suspeito que esta Maria da Cunha fosse dos de Pombeiro da Beira e provavelmente irmã da Leonor Anes da Cunha que foi sogra de seu filho Martim, como se diz adiante.

5.1.    Martim Ferreira, que segue no nº 6.

5.2.    Afonso Gomes Ferreira, que as genealogias dizem ter sido alcaide-mor de S. Romão, sem lhe indicar mulher ou filhos. Contudo, pela cronologia e onomástica, podia ter sido pai dos seguintes filhos, legítimos ou mais provavelmente naturais.

5.2.1.   ?Diogo Afonso (de) Ferreira, morador em Braga, que a 29.1.1446 teve de D. Afonso V carta de privilegio isentando-o do pagamento de impostos ao concelho, bem como do direito de pousada. Deve ser o Diogo Afonso de Ferreira que foi tabelião do cível e crime do Porto, cargo de que foi destituído porque não cumprira devidamente as suas funções, sendo a 10.2.1466 substituído por João Vasques, morador na cidade do Porto.

5.2.2.   ?Rodrigo Afonso (de) Ferreira, procurador geral do reino, que a 30.8.1469 foi nomeado para o cargo de procurador do mosteiro de Santa Maria de Guadalupe, na comarca de Entre-Tejo-e-Odiana, encarregue de supervisionar os procuradores e mamposteiros deste mosteiro que pediam as esmolas, contanto seja acompanhado por uma carta régia instituída para o efeito, e isto, na sequência de alguns escândalos e inconveniências que decorriam no reino, por parte de algumas pessoas que se faziam passar por procuradores deste mosteiro, pedindo esmolas, sem este recolher qualquer benefício.

5.3.    Aires Ferreira, de quem Gaio diz que descendem os Ferreira da ilha da Madeira. Deve, portanto, como o patronímico também indica, ter sido pai de:

5.3.1.   Gonçalo Aires Ferreira, n. cerca de 1395, fidalgo da Casa do infante D. Henrique e um dos companheiros de João Gonçalves Zarco. Escreveu uma obra intitulada "Descobrimento da Ilha da Madeira", que não chegou a ser publicada, sendo nomeadamente referida na "História Insulana", de António Cordeiro, e em "Saudades da Terra", de Gaspar Frutuoso. Este diz que Gonçalo Aires Ferreira foi o primeiro homem a quem nasceram filhos na Madeira, a quem deu os nomes de Adão e Eva (Gonçalves Ferreira).

5.4.    D. Gomes Ferreira, cónego de Santo Agostinho.

5.5.    Leonor Ferreira, nascida cerca de 1380, que ainda estava viva a 15.12.1450 quando D. Afonso V lhe faz mercê de uma tença anual de 3.000 reais de prata pelo preço de 25 coroas de ouro, à razão de 120 reais por cada coroa, pelo foro de um quinta. Casou com Rui Vaz Leitão, referido no meu estudo "Leitão. Linha ascendente dos senhores do paço da Torre de Figueiredo das Donas", que foi legitimado por carta real de 28.9.1393, cavaleiro e "criado" de D. João I. Terá nascido lá para 1375/80. É certamente o Rui Vaz Leitão dito "criado" de D. João I quando a 6.1.1434 teve mercê real de quatro moios de trigo anuais no almoxarifado de Santarém. Destes foi filho Martim Ferreira Leitão, cavaleiro, nascido cerca de 1410, pois ainda esteve em Tanger, com dez escudeiros e gente de pé, e em Alcácer Ceguer, como refere a carta de armas de seu filho. Com geração que seguiu o nome Leitão, como digo no referido estudo.

 

 

6.           Martim Ferreira, que nasceu cerca 1361 e sucedeu nos morgadios do Casal de Cavaleiros, de Cête e de Fajozes, e foi senhor de juro e herdade de Parada. Por duas cartas de 20.8.1384, D. João I deu a Martim Ferreira, escudeiro, para si e seus sucessores, o senhorio de juro e herdade da terra de Parada, no julgado de Aguiar de Sousa, e todos os bens móveis e de raiz que tinha em Guimarães Gonçalo Romeu, que entregou a dita vila e castelo ao rei de Castela. Esta terra de Parada é certamente o lugar de Parada, que foi da paróquia de Gosende e hoje é da freguesia de S. Pedro de Raimonda, concelho de Paços de Ferreira, que em 1852 ainda pertencia ao concelho de Aguiar de Sousa. Existe no Museu Nacional Soares dos Reis uma inscrição aberta num lintel de granito da desaparecida casa medieval da quintã do Casal de Cavaleiros, onde se lê era de 1432 mandou fazer Martim Ferreira esta obra, tendo gravada uma cruz e um escudo com as armas dos Ferreira, conforme o desenho abaixo [14] .  Esta inscrição tem sido atribuída ao Martim Ferreira referido adiante, que nasceu cerca de 1442 e era neto deste, o que é um absurdo cronológico. Na verdade, quer a era referida seja de César, portanto 1394, ou já de Cristo, só o Martim Ferreira em epígrafe pode ser o seu autor. Apesar de a letra parecer mais do século XV, dado que a datação, por não referir ano de Cristo, deve ainda ser da era de César, Martim Ferreira teria cerca de 23 anos de idade quando a mandou gravar. Martim Ferreira documenta-se como padroeiro da matriz de Terroso. Casou cerca de 1388 com Violante da Cunha, possivelmente sua prima-direita, filha de Fernando Afonso Correa e sua mulher Leonor Anes da Cunha, neta dos senhores de Pombeiro. Violante da Cunha parece ser a filha referida mas não nomeada (se fosse esta, seria recém-nascida) de Fernando Afonso Correa e sua mulher Leonor Anes na lista dos padroeiros do mosteiro de Grijó de 1365, entre o infanções, constando a dita Leonor, por quem vinha o padroado, como filha de João (Rodrigues) da Cunha [15] .

6.1.    D. Álvaro Ferreira, que nasceu cerca de 1389 e pela cronologia parece ter sido o primogénito. Foi bispo de Coimbra (1432), já eleito 1431. Esteve com seus irmãos na tomada de Ceuta (1415), como se diz na Crónica de D. João I, ainda não estaria ordenado. A 15.6.1445 D. Afonso V doa a Afonso Pereira, criado de D. Álvaro Ferreira, bispo de Coimbra e procurador do mosteiro de Santa Clara, as terras e estis compradas com o seu dinheiro e que tinham sido pertença de Constança Martins e Marta Afonso, freiras professas desse mosteiro. A 1.7.1445 D. Afonso V doa para sempre a João Gonçalves, cavaleiro do infante D. Pedro, as casas que D. Álvaro Ferreira, bispo de Coimbra, comprou na rua Escura da cidade do Porto, sem autorização régia. As genealogias dizem que seus filhos foram havidos em sua prima Luiza do Carvalhal, com quem especulam que teria casado antes de se ordenar, mas este eventual matrimónio é fantasia, pois D. Álvaro é claramente o mais velho e quem sucedeu foi seu irmão mais novo, pelo que os filhos de D. Álvaro não podiam ser legítimos.

6.1.1.   ?(N) Diogo Álvares Ferreira, nascido cerca de 1411, que a 4.11.1432 testemunha o instrumento público, feito em Coimbra, em que D. Maria de Azevedo doa a sua filha D. Catarina de Meira, em casamento com Gomes Ferreira, o senhorio de Jales. Deve ser o Diogo Ferreira, prior de S. Pedro de Castelãos, no bispado de Coimbra, que a 23.9.1452, com licença do seu maior, tirou ordens de epístola em Braga [16] . E o Diogo Ferreira, bacharel em degredos e ouvidor do bispo de Coimbra, que a 2.7.1469 teve de D. Afonso V carta de privilégio, por servir o rei com os seus homens e armas, para os seus amos, mordomos, apaniguados, lavradores e caseiros, para a comarca e correição de Estremadura, isentando-os do direito de pousada. Já antes, a 20.6.1469, D. Afonso V privilegiou as freiras e convento do mosteiro de Semide, concedendo-lhes licença para comprar, por qualquer título, umas casas de adega na cidade de Coimbra, que pertenceram a Diogo Ferreira, bacharel, e a Beatriz Anes, freira deste mosteiro.

6.1.1.1.     ?Catarina Ferreira, nascida cerca de 1435, que Alão não filia mas que Gaio dá como filha de Martim Ferreira e irmã de Aires Ferreira e Leonor Gonçalves Ferreira, o que é um absurdo cronológico. Dada a ligação ao Porto, não sendo filha de Martim Ferreira, devia ser sua sobrinha, portanto filha deste Diogo. Casou, como se documenta, com Martim Vasques da Maia, a que Gaio chama Vasco Gonçalves da Maia e diz filho de Fernando Álvares da Maia e sua mulher Guiomar de Sá, e sobrinho paterno de Álvaro Gonçalves da Maia, todos largamente referidos adiante. Mas, como lá se esplica, dada a onomástica e cronologia, este Martim Vasques da Maia era certamente irmão de Fernando Álvares da Maia e filho do vedor Álvaro Gonçalves da Maia e sua mulher Joana de Teive. Segundo a Crónica de S. Domingos, de Frei Luiz de Sousa (parte 2, cap. 17), esta Catarina Ferreira teve "amizade ilícita" com Gil Vasques de Altero, comendador de Almada na Ordem de Santiago e alcaide-mor desta vila, que instituiu uma capela no mosteiro de S. Domingos de Benfica, onde tinha missa quotidiana na igreja velha. Trata-se do Gil Vasques de Altero que a 21.11.1462 era do Conselho de D. Afonso V quando este rei nomeia João Camelo, escudeiro de Gil Vasques de Altero, do seu Conselho, para os cargos de escrivão da câmara de Abrantes e dos feitos das sisas. A 29.8.1472, o mesmo rei perdoa a justiça régia a Lopo Dias, escudeiro do conde de Penela, acusado de bater e ferir Álvaro Gonçalves, escudeiro de Gil Vasques de Altero e alcaide pequeno na vila de Almada e aí morador, na sequência do perdão geral outorgado aos homiziados que serviram na armada e conquista da vila de Arzila e da cidade de Tânger, e mediante o perdão das partes. A 1.4.1475 o mesmo rei perdoa a justiça régia a Álvaro Gonçalves, criado de Gil Vasques de Altero, morador na vila de Almada, acusado de ter queimado nove ou dez colmeias de Catarina Pires, mediante o perdão das partes, tendo pago 300 reais para a Piedade. E a 17.9.1476 D. Afonso V privilegia o mosteiro de S. Domingos de Benfica, autorizando-o a usufruir para seu mantimento de uma quinta e suas rendas que lhe fora doada por Gil Vasques de Altero, comendador de Almada.

6.1.1.1.1.    ?Beatriz Vasques, que Gaio dá como filha do casal, mas que podia ser filha natural de Gil Vasques de Altero. Segundo o mesmo autor, casou com Lopo Machado (de Góis), senhor da quinta de S. Clemente de Sande, que viveu em Guimarães e algum tempo em Barcelos, com geração. Mas se este Lopo Machado tem a ascendência que Gaio lhe dá, nasceu na 2ª metade do séc. XIV, portanto cerca de 100 anos antes da época em apreço.

6.1.1.1.2.    Fernão Ferreira da Maia, abade do mosteiro de S. Martinho de Sande, que tirou ordens menores em Braga em 1477, pelo que não nasceu antes de 1460 e provavelmente nasceu depois. Teve, pelo menos, um filho natural, António Ferreira da Maia, que foi comendador de Stª Mª de Alvarenga e sua anexa de Cernadelo na Ordem de Cristo, que a 11.8.1568 arrendou por 71.000 reais a André Freire, como informam os editores da "Pedatura Lusitana".

6.1.2.   (N) Martim Ferreira, que Alão diz ter sido vedor do infante regente D. Pedro. No tombo do morgadio de Jerusalém, instituído por seu filho a 27.10.1491, este determina que os sucessores no morgadio não podem "se casarem nem misturarem com os meus parentes Ferreiras do Casal de Cavaleiros, por assim mo deixar meu pai que Deus tem mui encarregado pellos agravos que elles lhe fizeram em o fazerem andar desterrado muito tempo e tomar e destruir lhe toda a sua fazenda". No mesmo tombo, entre as propriedades vinculadas, está o Casal das Póvoas, em S. Pedro de Fajozes, que o filho diz ter pertencido a seu pai. Este Martim Ferreira parece ser o que viveu em Atouguia e depois em Lisboa, pois deve ser o homónimo, escudeiro da Casa Real, que a 24.10.1443, sendo almoxarife, foi nomeado para o cargo de recebedor das rendas de Atouguia, que pertenceram ao infante D. Fernando, sem embargo do referido cargo ser exercido por Fernando Afonso, por alvará do infante D. João. Antes fora coudel de Atouguia, pois a 5.5.1441 D.Afonso V nomeia por 5 anos Gil Vasques Delgado, escudeiro do infante D. Pedro, para o cargo de coudel na Atouguia, em substituição de Martim Ferreira. A 6.7.1643, este rei nomeia Martim Ferreira, escudeiro da sua Casa, morador na cidade de Lisboa, para o cargo de almoxarife do reguengo de Alfez, termo de Lisboa, sem qualquer mantimento, em substituição de Fernão Gonçalves de Faria, escudeiro que foi do infante D. Henrique, que se retirara devido à idade e problemas de visão, com o direito de usufruir do seu mantimento. E a 26.7.1443 o mesmo rei doou para sempre a Martim Ferreira, escudeiro da sua Casa, todos os bens móveis e de raiz que Diogo, doutor das ilhas, havia na vila de Óbidos, por este ter partido para Castela, contanto que não tenha mulher no reino, porque se tiver apenas receberá a metade dos ditos bens. Segundo Alão, casou a 1ª vez com Iria de Sampaio (a), filha de Vasco Pires de Sampaio, senhor de Vila Flor, etc., já referido acima, o que é um anacronismo, pelo que já ficou dito. Aliás, Alão, quando trata os Sampaio, já não dá a Vasco Pires nenhuma filha Iria. Ainda segundo Alão, este Martim Ferreira casou 2ª vez com Inez Álvares de Azevedo, de quem teve os filhos João e Ana. Não sei se Martim Ferreira casou ou não com uma Iria de Sampaio, mas é certo que casou com Catarina Vasques (b), e que esta é a mãe pelo menos de João Martins Ferreira, pois existe uma carta de quitação de 20.3.1454 em que Beatriz Vasques se declara quite com sua irmã Catarina Vasques, mãe de João Martins Ferreira, relativamente aos bens recebidos pelos pais de ambas. Isto, embora o próprio João Martins Ferreira, na instituição do morgadio de Jerusalém em 1491, refira os bens de alma de sua tia Catarina Vaz, que só podia se tia-avó materna. Neste mesmo documento também refere seu tio Fernão Lourenço, como se diz adiante, que certamente era tio materno.

6.1.2.1.     (b) João Martins Ferreira, que em 1491 se documenta como moço fidalgo da Casa do infante D. João e em 1511 como moço fidalgo da Casa do infante D. Fernando. Foi cidadão, vereador (1503) e fidalgo inscrito nos livros do Porto, falecendo depois de 1511. A 11.9.1472 D. Afonso V, apesar de ter o nomeado para o cargo de contador na cidade do Porto, e uma vez que João Brandão fora já provido pelo rei no dito ofício, privilegiou João Ferreira, filho de Martim Ferreira, mantendo-lhe o mantimento do ofício para que o tinha nomeado e dando-lhe o cargo de tesoureiro na dita cidade. A 27.10.1491 João Martins Ferreira instituiu, por escritura lavrada no tabelião público do Porto Pedro Fernandes, o riquíssimo morgadio dos Ferreira, com sua capela de Jerusalém no mosteiro de S. Domingos, no Porto, a que vinculou as suas "Casas Torres em que vivo na cidade na Rua dos Mercadores abaixo da boca da Rua Nova" (mais tarde chamada casa do Patim), rendas de 270.000 reais, mais dezenas de propriedades distribuídas pelo Porto, Gaia, Maia (Vermoim, Fajozes, Guilhabreu, Vilar de Porcos, Águas Santas, Alfena, etc.), Vila do Conde, Aguiar (Figueiró, Duas Igrejas, Aguiar, etc.), Penafiel (Canelas, etc.), Barcelos e Refoios (Penamaior), que no seu conjunto tinham um rendimento anual então avaliado em 200.000 reais. O morgadio, portanto, tinha a elevadíssima soma de 470.000 reais de renda nos finais do séc. XV. Em 1491, quando instituiu o morgadio, ainda não tinha filhos, nomeando com sucessores em 1º lugar Baltazar Ferreira, seu criado, em 2º a irmã deste, Clara Ferreira (ambos devem ser seus filhos bastardos), em 3º Gaspar Salvadores Ferreira, em 4º seu tio (dele instituidor) Fernão Lourenço, e em 5º sua irmã Ana Martins Ferreira. Obrigava os administradores a usar o nome Ferreira e a morar no Porto e a capela obrigava a duas missas cantadas por semana e nas festas. Deixou obrigação de bens de alma para seu pai e irmã (que não nomeia), bem como a sua tia Catarina Vaz. Determina ainda que os sucessores no morgadio não podem "se casarem nem misturarem com os meus parentes Ferreiras do Casal de Cavaleiros, por assim mo deixar meu pai que Deus tem mui encarregado pellos agravos que elles lhe fizeram em o fazerem andar desterrado muito tempo e tomar e destruir lhe toda a sua fazenda". A 4.1.1511 João Martins Ferreira fez novo instrumento público em que nomeia sucessor no morgadio seu filho Pantaleão Ferreira, e mandou fazer o tombo de todas as propriedades vinculadas, o que teve confirmação real a 2.4.1511. João Martins Ferreira casou a 1ª vez com Inez de Azevedo, como ele próprio diz na instituição do morgadio, então já falecida. Casou a 2ª vez, antes de 27.10.1491 (data em que ainda não tinha filhos) com Violante Correa, filha do bailio de Leça e cavaleiro da Ordem de Malta Frei Paio Correa. Com geração, sendo seu filho sucessor Pantaleão Ferreira, fidalgo da Casa Real, 2º morgado dos Ferreira nesta cidade, com a sua capela de Jerusalém no mosteiro de S. Domingos, confirmado como tal, a pedido de seu pai, por carta de D. Manuel I de 26.10.1510, e reconfirmado a 2.4.1511. No documento de 1510 aparece como "Pantelião Francisquo, nosso moço da câmara, por ser lídimo e filho mais velho", mas já aparece como Pantalião Ferreira quando a 16.2.1512 recebeu 1.218 reais do seu foro de moço da câmara da Casa Real, com moradia de 406 reais por mês e três quartos de cevada por dia. Pantaleão Ferreira casou cerca de 1520 com Ana da Mesquita. Esta Ana da Mesquita, dita filha de Fernão da Mesquita, teve a 6.5.1520 provisão de D. Manuel I para receber 52.500 reais, dos 105.000 reais que este rei lhe deu pelo seu casamento (CC, II, 89, 69). Era filha de Fernão da Mesquita e sua mulher Beatriz Mendes de Carvalho, referidos no meu Ensaio sobre a origem dos Mesquita, ambos vivos a 27.6.1538, data em que Pantaleão Ferreira, fidalgo da Casa Real, e Ana da Mesquita, sua mulher, moradores no Porto, venderam a Gonçalo Pires, sapateiro, umas casas onde este vivia, na rua do Souto, da parte da fraga dos Pelames, em escritura no tabelião do Porto Braz Ferreira. Deste Pantalião e sua mulher foi filho sucessor outro João Martins Ferreira, nascido cerca de 1521, juiz da alfândega de Goa e depois capitão-mor de Lafões, onde viveu no seu prazo da quinta de Calvos. Este segundo João Martins Ferreira era certamente o homónimo que teve a capitania de S. Tomé (Chancelaria de D. Sebastião, D. Henrique e D. António, 36, 141v), foi capitão-mor da armada da Índia (ib, 36, 141v e 46, 16v) e teve uma tença de 16.000 reais (ib, 2, 165). É referido como João Martins Ferreira, cavaleiro fidalgo da minha Casa, numa mercê de D. João III de 12.2.1548, na qual este rei, "em respeito aos serviços que me tem feito" e por o servir bem no ofício de juiz da alfândega de Goa, lhe renovou o cargo por mais três anos. Segundo Faria de Andrade, este segundo João Martins Ferreira foi pajem do imperador Carlos V. Com geração.

6.1.2.2.     Ana Martins Ferreira, referida por seu irmão na instituição do morgadio de Jerusalém em 1491, como ficou dito.

6.1.3.   (N) Gonçalo Ferreira, nascido cerca de 1414, que Alão diz que casou e foi pai de um Aires Ferreira. Deve ser o Gonçalo Ferreira, criado do duque de Bragança, que a 12.3.1454 D. Afonso V nomeou para o cargo de escrivão das sisas do pescado de Vila do Conde. E o Gonçalo (de) Ferreira que, a pedido de João de Mello, fidalgo da Casa Real de Castela, teve a 19.11.1435 privilégio real para andar de besta muar de sela e ferro por todo o reino. E ainda, talvez, o Gonçalo Ferreira cuja criada Catarina Gonçalves, medideira do trigo da cidade de Lisboa, acusou Constança Gil, medideira que foi do trigo da dita cidade, de ser amante de Afonso Gonçalves, morador em Ponte de Lima, amo de Aires Gomes da Silva, que a 15.5.1444 teve perdão real do degredo da cidade de Lisboa a que fora condenada.

6.1.3.1.     Diogo Ferreira, segundo Gaio, que terá nascido cerca de 1437. Deve ser o Diogo Álvares Ferreira (nome do proposto tio, acima) que a 4.11.1463 D. Afonso V nomeou para o cargo de tabelião do cível e crime da vila de Abrantes e seu termo, em substituição de Afonso Coelho, que renunciara por instrumento público de 22.2.1463. Talvez tenha casado com uma filha deste Afonso Coelho.

6.1.3.1.1.    Aires Ferreira, nascido cerca de 1460, que Alão dá como filho do Gonçalo seu avô e Gaio diz filho de Diogo e neto de Gonçalo, o que pela cronologia deve estar certo. Com efeito, ambos dizem que este Aires casou com Isabel Velez (de Castello-Branco), sendo pai de várias filhas e de um filho Diogo Ferreira, que foi vedor ou escrivão da fazenda do cardeal D. Henrique. Mas o cardeal D. Henrique nasceu em 1512 e este Diogo não terá nascido depois de 1490, pois é certamente o Diogo Ferreira, escrivão da Casa Real, que a 9.5.1517 foi nomeado escrivão da receita e despesa dos direitos das imposições e aposentadorias das cidades de Évora e de Santarém, com o mantimento anual de 7.000 reais. E o Diogo Ferreira que a 2.12.1529 teve provisão do vedor da Casa da Rainha para receber 812 reais da sua moradia de moço da câmara. Se foi escrivão da fazenda do cardeal terá sido no final da sua vida e antes deste ter sido rei. Gaio informa que este Diogo jaz, com letreiro, no convento de S. Francisco de Évora.   

6.1.3.2.     ?Fernão Ferreira, que pela ligação a Abrantes podia ser irmão de Diogo Álvares Ferreira. Foi escudeiro da Casa Real, parece ter vido em Abrantes e casou com Maria de Queiroz. Com efeito, a 10.10.1449 D. Afonso V doa a Fernão Ferreira, escudeiro da sua Casa, todos os bens de Pedro de Abrantes, escudeiro do conde de Abrantes, e Diogo Nunes, pasteleiro do infante D. Pedro, os quais os perderam por terem participado na batalha de Alfarrobeira contra o rei. A 5.10.1453 D. Afonso V nomeia Fernão Ferreira, escudeiro da sua Casa, para o cargo de recebedor dos resíduos da cidade de Lisboa e seu termo, em substituição de Mestre Estela da Sé, que morrera. A 25.10.1463 o mesmo rei confirma um aforamento a Fernão Ferreira, escudeiro da sua Casa, de uma azenha na vila de Abrantes, no rio Tejo, arca do canal grande, pelo foro anual de 30 alqueires de trigo e duas boas galinhas pelo dia de Santa Maria de Agosto. E a 28.11.1463 doa a Fernão Ferreira, escudeiro da sua Casa, e a sua mulher Maria de Queiroz, enquanto sua mercê for, 30 alqueires de trigo e um par de galinhas, valor do foro anual de uma azenha no Tejo, junto com os canais da vila de Abrantes.

6.2.    D. Frei Gonçalo Ferreira, que esteve com seus irmãos na tomada de Ceuta (1415), ainda não estaria ordenado. Foi Dom abade de Alcobaça. A 23.3.1446 D. Afonso V autoriza a eleição de Frei Gonçalo Ferreira, monge professo da Ordem de Cister e clérigo do mosteiro de Alcobaça, para abade daquele mosteiro, em substituição de D. Frei Estêvão de Aguiar, que morrera.

6.3.    João Ferreira, que esteve com seus irmãos na tomada de Ceuta (1415). Segundo a Crónica de Dom João I, ficou por capitão de uma nau que deixaram para guardar o Estreito. Deve ser o João (de) Ferreira, comendador de Ródão, morador em Castelo Branco, cuja filha Maria é legitimada por carta real de 1450. Tanto mais que Gaio dá a este João Ferreira um filho, Álvaro Anes Ferreira, e uma filha, justamente Maria. De resto, parece mais velho do que seus irmãos Gomes e Aires, pelo que não pode ter casado, tanto mais que seria comendador professo no tempo em que estes não podiam casar, e por isso não sucedeu nos morgadios.

6.3.1.   (N) Álvaro Anes Ferreira, que Gaio diz ter passado ao Norte de África em 1446, ao serviço do infante D. Henrique e ter sido pai de um João Ferreira, que viveu em Lamego. Trata-se, portanto, do Álvaro Ferreira, escudeiro da casa do infante D. Henrique, que a 20.12.1455 foi nomeado pelo rei, a pedido do infante, para o cargo de almoxarife da cidade de Ceuta, em substituição do seu sogro Bartolomeu Anes, ficando com o mantimento do cargo como tinha o seu sogro. E certamente também do Álvaro Ferreira que, com sua mulher, foi ferido por Rui Casco, escudeiro, a quem o rei a 24.1.1453 perdoa a justiça régia e os últimos 7 meses de degredo na cidade de Évora. Casou, portanto, com uma filha de Bartolomeu Anes, almoxarife de Ceuta.

6.3.2.   ?(N) João Anes Ferreira, cuja cronologia e onomástica indiciam como filho de João Ferreira. A 8.8.1441 D. Afonso V confirma nomeação de João Anes Ferreira para o cargo de procurador do número na vila de Santarém, para que tinha sido nomeado por D. Duarte a 3.8.1434

6.3.3.   ?(N) Gonçalo Anes Ferreira, cuja cronologia e onomástica indiciam como filho de João Ferreira. A 5.12.1446 D. Afonso V perdoa a sentença dada a Gonçalo Gonçalves, morador em Estremoz no julgado de Lafões, culpado na morte da filha de Gonçalo Anes Ferreira, preso na cidade de Lisboa.

6.3.4.   (N) Maria Ferreira, nascida cerca de 1437 e legitimada por carta real de 30.7.1450, havida em Beatriz Gonçalves, mulher solteira. Segundo as genealogias casou com Diogo Gonçalves de Azevedo, filho de Gonçalo Velho e sua mulher Joana de Azevedo. Tudo indica que é a Maria Ferreira que (sem indicação do marido) é dita filha de João Ferreira, "que foi desta linhagem", quando aparece como mãe do Gaspar Ferreira, natural da Foz do Lima e morador em Évora, que a 3.6.1530 teve carta de armas para Ferreira, com uma brica de azul com um anel de prata por diferença. Este Gaspar Ferreira parece ser o homónimo, escudeiro d'el rei, que a 5.11.1504 foi nomeado escrivão dos mantimentos de Guiné, com 5.000 reais de mantimento anual. Assim como parece filho deste Gaspar (as genealogias dão-lhe um filho João Ferreira), o João Ferreira, cavaleiro da Casa Real e escrivão da câmara real, que a 20.2.1509 foi nomeado escrivão da feitoria e da Casa da Guiné.

6.4.    ?Leonor Gonçalves Ferreira, nascida cerca de 1392, que Alão dá sucessivamente como filha de Martim Ferreira e de seu filho Aires Ferreira, no que é rigorosamente seguido por Gaio… Alão, de resto, quando dá Leonor Gonçalves como filha de Martim Ferreira expressa as suas dúvidas, dizendo que "outros fazem sua sobrinha". De Aires é certo que não podia cronologicamente ser filha. De qualquer forma, o patronímico Gonçalves não tem justificação em qualquer destas filiações, e o mesmo acontece com os irmãos e a irmã conhecidos de Martim Ferreira. De forma que fica aqui com dúvida. Leonor Gonçalves casou com Lopo Afonso de Teive, senhor de Santiago (Melres) e juiz do crime e cível do regimento da vereação e guarda de Braga, Évora e Monção, nascido cerca de 1385 e falecido depois de 1445. A 23.11.1436 D. Duarte confirmou a Lopo de Teive, seu criado, "primeiro filho lidimo e herdeiro" de Álvaro Dias de Teive, o senhorio dos casais de Santiago de Cima e de Baixo, no julgado de Melres. Este senhorio tinha sido doado por D. João I, por carta 2.5.1385, a Pedro Rodrigues Bocado, alcaide do Porto, com o privilégio de o poder deixar a quem quisesse, tendo ele, por testamento feito no Porto em 1387, deixado os ditos casais ao dito Álvaro Dias de Teive. A 15.2.1445 D. Afonso V nomeou por um ano Lopo Afonso de Teive, escudeiro do infante D.Henrique, para o cargo de juiz do crime e cível do regimento da vereação e guarda da vila de Monção e seu termo. A 20.2.1445 D. Afonso V nomeou Afonso Gomes, cavaleiro do regente, para o cargo de juiz do cível e crime e da vereação e guarda de Évora, em substituição de Lopo Afonso de Teive, escudeiro do infante D. Henrique, que fora servir como juiz para Monção. E a 23.2.1445 o mesmo rei nomeou João Afonso do Boiro, escudeiro do regente D. Pedro, para o cargo de juiz do cível e crime de Braga, em substituição de Lopo Afonso do Teive, escudeiro do infante D. Henrique, que estava registado no livro. Este Álvaro Dias de Teive é o mais antigo desta linhagem que documento. Alão diz que se chamou Álvaro Afonso de Santiago "por nascer em Santiago da Galiza". Mas seria conhecido por "de Santiago" por ser senhor deste lugar, como ficou dito. Mas, como Alão refere e se confirma, a 21.3.1415 D. João I legitimou Diogo de Teive e Gonçalo de Teive, filhos de Álvaro Afonso de Santiago e Maria Vasques, mulher solteira. Não parece haver dúvidas de que este Álvaro Afonso de Santiago é o antedito Álvaro Dias de Teive, senhor de Santiago, e que houve erro nas cartas de legitimação, até porque, já depois desta data, se continua a documentar Álvaro como o patronímico Dias. Com efeito, a 8.9.1439 D. Afonso V confirmou o privilégio a Gonçalo Eanes, almocreve, criado de Álvaro Dias de Teive, morador na cidade do Porto, isentando-o de ser posto por besteiro do conto, sendo neste documento referida uma carta de D. Duarte de 15.12.1433 (que não encontro na respectiva chancelaria). Nesta data já Álvaro Dias já tinha falecido há três anos. O patronímico Afonso (usado por sua alegada mãe Florença Afonso de Lançós), não terá, portanto, sido usado por Álvaro Dias, se bem que seu filho Lopo Afonso já o tenha usado, o que poderá ter originado a confusão. Mais estranho ainda é o patronímico Dias deste Álvaro, tendo em conta a ascendência que as genealogias propõem (filho da dita Florença de de um Richarte de Teive). Melhor se entenderia, de facto, o patronímico Afonso. Não fosse o quinhentista Damião de Góis a dizê-lo e eu teria muitas dúvidas nessa ascendência. Ainda assim, este patronímico Dias, que indicia um pai ou pelo menos um avô Diogo, é suficiente para colocar reservas à ascendência que Góis dá a Álvaro Dias de Teive.

6.4.1.   Joana de Teive, que nasceu cerca 1408 e casou cerca de 1421 com Álvaro Gonçalves da Maia, sobre quem as genealogias fazem as maiores confusões e que Alão espelha. Segundo elas, Álvaro Gonçalves da Maia era filho do vedor Martim da Maia e neto de Martim Martins de Baguim, o Alvelo. Tendo em conta o cargo e a cronologia, Álvaro Gonçalves da Maia podia ser filho de Martim da Maia, como veremos. Mas Martim da Maia, que ainda era vedor da fazenda em 1397, não podia ser filho de Martim Martins de Baguim, o Alvelo, que já se documenta adulto em 1258! A Martim da Maia arrendou D. Fernando I umas casas no Porto (1, 152) e aforou uma casas na Rua Nova em Lisboa (1, 177v). Em 1384 Martim da Maia já era vedor da fazenda de D. João I, cargo que ocupou pelo menos até 1397. Mas fora o cargo e a cronologia, não se aceita que um filho de Martim da Maia se pudesse chamar Álvaro Gonçalves sem uma explicação ponderosa. Há portanto que procurar essa explicação para a versão genealógica, sem a qual não é possível aceitá-la. Explicação essa que provavelmente está numa carta de D. Duarte de 1435 que transcreve outra carta real de 4.4.1394, de D. João I, assinada no Porto por Álvaro Gonçalves, vedor da fazenda real. Assim como noutra carta real de 23.12.1434 que refere uma carta real de 15.4.1395 assinada por Álvaro Gonçalves da Maia (estando o nome Maia riscado), e Martim da Maia, vedores da fazenda real. Sendo que um Álvaro Gonçalves, vassalo e vedor da fazenda, assina uma carta real em Santarém a 22.5.1397 e outra em Lisboa a 17.6.1399. Portanto, Martim da Maia e um Álvaro Gonçalves eram vedores da fazenda em simultâneo. E sabemos que este Álvaro Gonçalves já era vedor da fazenda de D. Fernando I, pois isso mesmo diz D. João I quando a 1.4.1384 o fez do seu Conselho (1, 21v). Assim, não restam dúvidas de que Álvaro Gonçalves era mais velho e sénior do que Martim da Maia, sendo uma razão evidente e mais do que suficiente para que Martim da Maia tivesse um filho chamado Álvaro Gonçalves da Maia o facto de ter casado com uma filha do vedor Álvaro Gonçalves. O que justificaria ainda o seu próprio cargo de vedor em simultâneo com o sogro. Álvaro Gonçalves da Maia, assim filho do vedor Martim da Maia e neto materno do vedor Álvaro Gonçalves, nasceu cerca de 1381/4, devendo seus pais ter casado entre 1380 e 1383. A 16.1.1411 Álvaro Gonçalves da Maia já se documenta como escrivão da câmara de D. João I, de quem foi criado. A 7.4.1421, sendo referido como criado de D. João I, teve deste mercê da ilha que está no rio Douro, ao fundo de Nª Sª da Encarnação, onde está uma ermida que se chama de S. Pedro. Neste mesmo ano teve mercê da terra e lugar da Ponte de Almeara e seus casais de Castrovães, tudo na Trofa (Águeda), por compra ao cavaleiro Afonso Martins de Oliveira, com autorização de D. João I de 19.5.1421, confirmada por D. Duarte a 31.12.1434, documento este onde Álvaro Gonçalves da Maia é referido como cavaleiro e provedor "da nossa fazenda". A 22.12.1434 era provedor da fazenda real no Porto e contador do rei, e já a 10.1.1433 recebeu nesta qualidade instruções do rei. A 8.11.1436 o rei confirmou-lhe um emprazamento de umas casas no Porto, que foram de seu pai. Num capitulo dado em cortes, D. Duarte determinou que os contadores não conheçam as apelações das sisas, mas apenas os seus vedores da fazenda, entre os quais Álvaro Gonçalves da Maia, que devia receber as apelações dos almoxarifes de Entre-Douro-e-Minho, Trás-os-Montes, Viseu, Lamego, Coimbra e Aveiro. A 21.3.1439 D. Afonso V confirmou privilégio a Diogo Gonçalves da Estapa, escrivão das sisas no julgado da Maia, concedendo-lhe autorização para ser substituído durante três meses no ano, contanto que Álvaro Gonçalves da Maia, provedor da Fazenda real na cidade do Porto, examine o trabalho feito pelo substituto (inserta carta de 22.12.1434). A 18.4.1450 D. Afonso V confirmou a nomeação de Gonçalo Anes, almocreve, morador em Aveiro, criado de Álvaro Gonçalves da Maia, para o cargo de porteiro dos besteiros do cavalo da dita vila, em substituição de Lopo Afonso, que morrera. Na carta de armas de um seu bisneto, Álvaro Gonçalves da Maia vem referido como vedor da fazenda do Porto. Dizem as genealogias que seu filho Fernando Álvares da Maia lhe sucedeu na terra e lugar da Ponte de Almeara e seus casais de Castrovães (dizem erradamente como senhor da Trofa), mas não há confirmação real dessa sucessão, pelo que muito provavelmente Álvaro Gonçalves da Maia morreu em Alfarrobeira pelo infante D. Pedro, sendo certo que o antedito seu filho aí esteve pelo dito infante. E assim se compreende que em 1450, como ficou dito acima, ainda na chancelaria se refira um criado de Álvaro Gonçalves da Maia. Portanto, a terra e lugar da Ponte de Almeara e casais de Castrovães voltaram para a coroa, sendo incluídos no senhorio da Trofa, então criado e doado a 13.11.1449 a Gomes Martins de Lemos, justamente após Alfarrobeira. Outro equívoco das genealogias, plasmadas em Alão, é pensarem que existiram dois Álvaros Gonçalves da Maia, avô e neto, ambos vedores da fazenda do Porto, tendo o neto justamente morrido em Alfarrobeira. Como vimos, só existiu e só pode ter existido um vedor Álvaro Gonçalves da Maia. Sendo que Alão desconhece a mulher do Álvaro Gonçalves da Maia que dá por avô, justamente porque este casou com a mulher que ele dá ao neto… Com efeito, Álvaro Gonçalves da Maia, o único, casou cerca de 1421 com esta Joana de Teive. Deste casamento nasceram vários filhos, sendo certamente o mais velho Fernando Álvares da Maia, que em 1453 era juiz na cidade do Porto, onde faleceu depois de 1476. Fernando Álvares da Maia participou na batalha de Alfarrobeira (1449) pelo infante D. Pedro, pelo que foi preso, tendo carta de liberdade a 20.11.1453, sendo neste documento referido apenas como morador na cidade do Porto. A 27.7.1476 D. Afonso V perdoou a justiça régia a Fernando Álvares da Maia, juiz na cidade do Porto, pela querela que tivera com João Anes, Álvaro Lourenço, e João Álvares, moradores no burgo de Azurara, termo da cidade do Porto, após instrumento público de perdão das partes de 30 de Novembro de 1475. Dizem as genealogias que foi senhor da Trofa, mas quem teve a Ponte de Almeara, na Trofa, foi seu pai, como vimos. A 15.11.1468 Fernando Álvares da Maia era "minguado de bens temporais", não se podendo "manter e suportar sua honra", razões que seu sogro Gonçalo de Sá, tendo ainda em conta "os serviços que em tempo da sua enfermidade de saúde recebeu", para lhe dar todas as quintãs, casais, azenhas, enxidos, etc., que tinha no seu senhorio de Aguiar de Sousa (e não o senhorio, como algumas genealogias dizem), doação que foi confirmada por carta real de 19.5.1469. Fernando Álvares da Maia casou com Guiomar de Sá, falecida depois de1483, filha bastarda do antedito Gonçalo de Sá, havida em Isabel Esteves. Guiomar de Sá foi legitimada por carta real de 1442. A 10.11.1483 efectivou o legado de missas em S. Francisco que seu pai tinha instituído em testamento. Depois de viúva, Guiomar de Sá casou 2ª vez com André Barbosa. Gonçalo de Sá foi coudel dos vassalos reais do Porto, vereador do Senado da Câmara desta cidade e senhor de juro e herdade de Aguiar de Sousa (28.1.1433). Fez testamento no Porto a 30.6.1469. Casou com Isabel de Magalhães e com Inez Vaz, sem geração de ambos os matrimónios. Outro filho de Álvaro Gonçalves da Maia e Joana de Teive foi Diogo Vasques de Teive, falecido em 1464, que jaz no mosteiro de S. Bento de Pombeiro, de quem foi bisneto, entre outros, D.Gaspar de Teive y Guzmán, 1º marquês de la Fuente, 1º conde de Benazuza, senhor de Lerena, em Castela.Alão fala também, entre outros, num Gil Vasques da Maia, que morreu solteiro. Mais uma vez, não é possível ignorar este patronímico Vasques e a sua importância. Como não vem pela mãe, Joana de Teive, nem pela avó paterna, como vimos, só pode vir do avô paterno, Martim da Maia, sendo uma importante pista para determinar a sua filiação. Ou seja: é quase certo que Martim (Vasques) da Maia era filho de Vasco e provável irmão de um Gil Vasques e de um Pedro Vasques. O que nos leva a outro, Martim Vasques da Maia, que se documenta casado com Catarina Ferreira, que ficou referida acima, a qual as genealogias dizem ter casado com um tal Vasco Gonçalves da Maia, alegado filho ou neto de Álvaro Gonçalves da Maia. Documentalmente, sabemos que esta Catarina Ferreira, nascida cerca de 1435, casou com um Martim Vasques da Maia. Ora, tendo Álvaro Gonçalves da Maia casado cerca de 1421, este Martim era certamente seu filho. Portanto, mais um filho a usar o patronímico Vasques, neste caso como o avô teria usado na juventude, antes de usar apenas Martim da Maia.

6.4.2.   Diogo de Teive, nascido cerca de 1410, senhor e descobridor da ilha das Flores (1474), escudeiro do infante D. Henrique, que com este fez a 5.12.1452 um contrato para a fundação do primeiro engenho de açúcar da Madeira (Arquivo da Câmara do Funchal, Tomo 1, f. 132). Casou com Maria Gonçalves de Vargas, com geração.

6.5.    Gomes Ferreira, nascido cerca de 1395 e falecido antes de 26.11.1449, que parece que esteve com seus irmãos na tomada de Ceuta (1415). Por seus irmãos mais velhos seguirem a vida religiosa, sucedeu nos morgadios do Casal de Cavaleiros, de Cête e de Fajozes, tendo contudo falecido sem geração. A 10.12.1433 D. Duarte confirmou a Gomes Ferreira, "criado do conde d ourem meu sobrinho", a doação do senhorio de Jales, com dispensa da lei mental, pois que o dito Gomes Ferreira "casa com a dicta catelina de Meira, filha da dicta dona Maria". De facto, a 14.10.1420 D. João I confirma o dote feito a D. Maria Coelho, por seus pais Lopo Dias de Azevedo e sua mulher Joana Gomes da Silva, de 3.000 dobras de ouros, ficando o senhorio de Jales por garantia. E esta D. Maria Coelho, então já referida como D. Maria de Azevedo, por instrumento público de 4.11.1432, feito em Coimbra, doa a sua filha D. Catarina de Meira, em casamento com Gomes Ferreira, o dito senhorio de Jales. Nesta doação testemunha, entre outros, Diogo Álvares Ferreira. Como Gomes Ferreira e sua mulher D. Catarina de Meira falecerem sem geração, sucedeu no senhorio de Jales e Alfarela (Vila Pouca de Aguiar), seu cunhado Gomes Martins de Lemos, 1º senhor da Trofa, por carta passada a 26.11.1449, em atenção a sua mulher, irmã da dita D. Catarina de Meira. Com efeito, Gomes Martins de Lemos, como refiro no meu trabalho A Casa da Trofa, recebeu do infante-regente D. Pedro, por carta de 12.6.1444, um dote de 2.500 dobras de ouro (confirmado por D. Afonso V a 30.10.1449), para casar com D. Maria de Azevedo, donzela da infanta D. Isabel (mulher de D. Pedro), falecida em 1453, que está sepultada com seu marido no panteão da Trofa, em túmulo com a seguinte inscrição "Aqui jaz dona Maria dAzevedo filha que foi dAlvaro de Meira e molher que foi de Guomes Martiz de Lemos e faleceo na era de 1453". O túmulo ostenta uma lisonja partida de Lemos e campo liso, que parece corresponder às armas antigas dos Coelho, tanto mais que não tem ascendência Menezes. D. Maria de Azevedo, que terá nascido cerca de 1417 e portanto faleceu com mais ou menos 36 anos de idade, era filha de Álvaro de Meira e de sua mulher D. Maria de Azevedo (que também aparece como D. Maria Coelho), já viúva do 3º senhor de Mortágua Gonçalo Anes de Souza, falecido antes de 30.8.1416, de quem foi 2ª mulher, sem geração.

6.6.    (…) Ferreira, nascida cerca de 1397, que segundo Gaio casou com D. João Manuel e foi mãe de Gomes Ferreira, sendo este pai de Afonso Gomes Ferreira. Não se pode tratar do filho bastardo do bispo da Guarda D. João, que genealogias tardias inventaram que era filho do rei D. Duarte mas que Braamcamp já desmontou semelhante absurdo, e ainda mais se poderia dizer se valesse a pena. Este D. João Manuel foi, com seu irmão D. Nuno, legitimado por carta real de 15.11.1475, como filho do dito bispo e de Justa Rodrigues, mulher solteira, a pedido dos pais, que o tinham reconhecido por instrumento público de 18.10.1475. Mas este D. João Manuel, além de ser tardio, não casou com nenhuma Ferreira, mas sim com D. Isabel de Menezes. Resta assim a possibilidade de se tratar de João Manuel, cavaleiro, castelhano, morador na vila de Estremoz, a quem D. Afonso V dá a 27.1.1463 carta de privilégio para todos os seus caseiros, mordomos, apaniguados e lavradores da correição de Entre-Tejo-e-Guadiana.

6.6.1.   Gomes Ferreira, que deve ser o Gomes de Ferreira, escudeiro da Casa Real, a quem a 25.1.1450 D. Afonso V nomeou para o cargo de escudeiro das valas do Mondego, em substituição de Rui Gomes, que estava velho e cansado. A 29.1.1454 este rei nomeou por cinco anos João Lopes, escudeiro e vassalo, morador no Chão de Lopes, para o cargo de coudel de Vila de Rei, em substituição de Gomes Ferreira, que terminara o seu tempo de serviço. E a 16.11.1481 D. João II nomeia João Gomes, escudeiro de João da Silva, morador em Montemor-o-Velho, para o cargo de monteiro-mor desta vila, em substituição de Gomes Ferreira, seu sogro, que morrera. Finalmente, este deve ainda ser Gomes Ferreira, moço do monte da Casa Real, que a 20.5.1445 teve do rei, para sempre, a doação de duas partes dos bens móveis e de raiz deixados por morte de Maria Pesca, moradora na Ospensadeira, termo de Alenquer, por não ter deixado testamento nem herdeiros, enquanto a outra parte era repartida entre os frades de S. Francisco de Alenquer e os pobres da mesma localidade. Deste Gomes Ferreira, segundo Gaio, foi filho um Afonso Gomes Ferreira e, pelos vistos, a mulher de João Gomes, que sucedeu ao sogro como monteiro-mor de Montemor-o-Velho.

6.7.    Aires Ferreira, que segue no nº 7.

 

 

7.           Aires Ferreira, nascido cerca de 1399 e falecido antes de 29.2.1463, data do inventário de seus bens. Por morrer seu irmão Gomes Ferreira, sem filhos, sucedeu nos morgadios em 1449, tinha cerca de 50 anos de idade. Além dos morgadios do Casal de Cavaleiros, de Cête e de Fajozes, terá herdado, segundo Gaio, os coutos de Frazão e Marvila de Corvos, a quinta da Curveira e o padroado da igreja de S. Paio da Portela (deve ser S. João da Portela, que S. Paio não conheço). Gaio diz que foi alcaide-mor de Trancoso (se é verdade, deve ser Terroso, onde nomeadamente Aires Ferreira tinha o padroado da matriz) e vedor das obras reais de Entre-Douro-e-Minho, o que se confirma, pois a 6.10.1463 D. Afonso V nomeia o Dr. Pedro Pires, do seu Conselho, a pedido do infante D. Henrique, para o cargo de vedor das obras régias da comarca de Entre-Douro-e-Minho, em substituição de Aires Ferreira, que morrera. Em princípio, Aires Ferreira, e antes dele seu irmão Gomes, terá sucedido no senhorio de juro e herdade de Parada que D. João I deu a seu pai, mas não encontrei documentação sobre isso. Alão diz que "dizem" que foi porteiro de D. Afonso V, mas não se documenta como tal, antes pelo contrário, pois o que se documenta é que Aires Ferreira foi fidalgo da Casa de Bragança. Com efeito, a 29.9.1441 D. Afonso V nomeia Paio Fernandes, criado de Aires Ferreira, fidalgo da casa do conde de Barcelos, para o cargo de escrivão das sisas da Póvoa de Varzim. A 29.1.1444 o mesmo rei confirma privilégio a Aires Ferreira, escudeiro do duque de Bragança, como o tinha seu pai Martim Ferreira, isentando todos os seus lavradores e mordomos que estiverem nas suas quintas e casais, bem como todos os outros que com ele vivem continuadamente e servem de capas e saias, de pagarem qualquer imposto régio e concelhio, de qualquer encargo e servidões do concelho, bem como lhes concede privilégio de apaniguados. Finalmente, a 22.11.1449 o mesmo rei nomeia novamente Pai Fernandes, criado de Aires Ferreira, fidalgo da casa do duque de Bragança, para o cargo de escrivão das sisas da Póvoa de Varzim. E é justamente por esta altura que seu irmão Gomes morreu sem geração, tendo Aires herdado os ditos morgadios. Casou a 1ª vez com Genebra Pereira (a), que Alão diz filha de Vasco Pires de Sampaio, senhor de Vila Flor, etc., já referido acima. Pela cronologia associada, este casamento ter-se-ia realizado cerca de 1439, tendo em conta a cronologia dos filhos, o que impede absolutamente que Genebra Pereira possa ser filha de Vasco Pires da Sampaio, cuja cronologia já acima ficou estabelecida. Por outro lado, Alão diz que Vasco Pires casou com uma Leonor Pereira, o que é clara fantasia. Na verdade, terá casado com Domingas Paes, como diz a Corografia Portuguesa, com base em documentos da Casa de Vila Flor. Genebra Pereira devia assim ser neta e não filha de Vasco Pires, ou seja, filha de Fernão Vaz de Sampaio e sua mulher Senhoreza Pereira. A 26.5.1434 D. Duarte confirmou a Fernão Vaz de Sampaio cinco cartas de D. João I. A primeira de 7.5.1384 em que doa a seu pai Vasco Pires de Sampaio todas as rendas e direitos das vilas de Anciães, Vilarinho, Castanheira, Vila Flor, Torre de Moncorvo e Mos, que são "lugares castelados" e com todos os seus termos. A segunda de 22.2.1385 em que doa ao dito Vasco Pires metade da aldeia de Quintela de Lampazes. A terceira de 28.7.1385 em que confirma ao dito Fernão Vaz todos os foros, rendas, direitos, pertenças e portagens da vila de Moncorvo e seu termo, que seu pai Vasco Pires lhe cedera. A quarta de 10.5.1386 em que confirma ao dito Fernão Vaz todos os foros, rendas, direitos, pertenças e portagens da vila de Mos e seu termo, que seu pai Vasco Pires lhe cedera. A quinta de 1.3.1413 em que confirma ao dito Fernão Vaz todos os foros, rendas, direitos, pertenças e portagens das vilas de Vila Flor e Vilas Boas e seu termo, e de metade da aldeia da Quintela de Lampases, que seu pai Vasco Pires lhe cedera "por quanto era filho mor do dito Vasco periz, sem dar dellas partilhas a seus Jrmaãos". A 24.3.1437 o mesmo rei confirmou a Fernão Vasques de Sampaio, seu vassalo, uma carta de 25.2.1416 de D. João I para o mesmo, seu vassalo, em que lhe doava para sempre 48 alqueires de pão que tinha na honra de S. Sibrão e 36 alqueires que tinha na honra de Ladares, ambas na terra de Vila Real. A 11.1.1444 D. Afonso V confirmou doação a Fernão Vasques de Sampaio de Vila Flor e seu termo, com a sua jurisdição, da mesma forma que a tinha seu pai Vasco Pires, tendo inserto uma carta de D. João I de 19.4.1410. A 11.3.1444 D. Afonso V doou para sempre a Fernão Vasques de Sampaio, escudeiro do regente, a terra e julgado do Chacim, a terra de Val de Sancha e Quintela de Lampaças, bem como os bens móveis e de raiz que eram de João Nunes de Aguilar e de Pedro Nunes, que os perderam por terem ido para Castela, tendo inserta carta de D. Fernando de 18.7.1381. A 10.11.1449 o mesmo rei confirmou a doação a Vasco Fernandes de Sampaio, fidalgo da sua Casa, das rendas, foros, portagens e pertenças de Torre de Moncorvo, Mós, Vila Flor, Vilas Boas e metade de Quintela de Lampaços, tendo inserto o documento de doação de 26.2.1434. A 20.11.1450 confirmou privilégio a Vasco Fernandes de Sampaio, fidalgo da sua Casa, isentando-o do direito de pousada nas suas quintãs, coutos e honras, situadas em Panóias, termo de Vila Real, e em Além dos Montes, assim como já tinha Fernão Vasques de Sampaio, seu pai, por carta de D. João I de 27.2.1400. E a 15.2.1452 doou a Vasco Fernandes de Sampaio, fidalgo da sua Casa, as terças das igrejas de Mós e Urros, como tinha seu pai, Fernão Vasques de Sampaio. Aires Ferreira casou a 2ª vez com Isabel Fogaça (b), que Alão diz filha de João Fogaça, vedor do duque de Bragança. Mas depois, no título dos Fogaça, já não refere esta 2ª mulher de Aires Ferreira nem aquele João Fogaça vedor. Gaio, e outros, hesitam entre Isabel e Joana Fogaça para nome desta 2ª mulher de Aires Ferreira, que pelo referido inventário dos seus bens sabemos que se chamou Isabel Fogaça, fazendo-a filha de outro João Fogaça e já viúva de D. Tristão Coutinho. Ora, o 2ª casamento de Aires Ferreira, com filhos, por muito tardio que possa ter sido, não pode ter acontecido depois de 1458, teria ele cerca de 59 anos de idade, e provavelmente realizou-se mais cedo, lá para 1450. Em qualquer dos casos, a D. Isabel Fogaça que casou com D. Tristão Coutinho não é viável, pois em 1463 ainda era solteira. De facto, a 12.7.1463 D. Afonso V confirmou o perfilhamento que Rui Mendes de Vasconcelos fizera (por instrumento público de 22.12.1462) de sua neta (materna) Dona Isabel, donzela da Casa do infante D. Fernando, filha de João Fogaça, comendador da vila de Sesimbra, com todos os direitos de herança. Temos, portanto, que a 2ª mulher de Aires Ferreira tem de ser filha do outro João Fogaça, vedor do duque de Bragança, certamente o João Fogaça, cavaleiro da Casa do conde de Barcelos, a quem D. Afonso V doou  a 4.10.1439 uma tença no valor de todas as rendas e direitos da vila de Odemira, excepto a jurisdição crime e cível, pois este será o que Alão diz que foi vedor do duque de Bragança (ou conde de Barcelos), que se distingue perfeitamente de outros dois homónimos e contemporâneos, mas mais tardios, um o comendador de Sesimbra, dito sempre fidalgo da Casa Real, falecido em 1462 e casado com D. Maria de Vasconcellos, e o outro, fidalgo do Conselho de D. Afonso V e comendador de Canha e Cabrela, falecido em 1476, que casou com D. Maria de Eça e depois com Maria de Paiva, tendo esta, sendo sua viúva, recebido a 20.8.1476 uma tença real de 10.000 reais.

7.1.    (a) Violante Pereira, nascida cerca de 1440, referida no inventário de bens de seu pai, que foi a 1ª mulher de João Pestana, tesoureiro-mor do reino, o qual depois casou, sem geração, com Margarida Pacheco, filha de Gonçalo Pacheco, tesoureiro da Casa de Ceuta. Trata-se de João Pestana, fidalgo da Casa Real e tesoureiro-mor, que a 13.10.1468 teve do rei uma tença anual de 2.000 reais para seu mantimento. A 29.4.1472 D. Afonso V, na sequência do pedido feito pelos moradores da infanta D.Catarina, sua irmã, relativamente ao pagamento das suas tenças, pelas quais tiveram uma carta de padrão, mandou que fossem pagos da sisa do trigo da cidade de Lisboa e mandou a João Pestana, fidalgo da sua Casa, tesoureiro-mor e recebedor da sisa do pão, que pague a partir desta data anualmente a cada um dos moradores o que lhes era devido. A 22.3.1480 o mesmo rei aforou a João Pestana, do seu Conselho e tesoureiro-mor, e aos seus herdeiros, os paços e assento de Moledo (deve ser Modelos, em Paços de Ferreira, prazo que sua mulher teria herdado) com os seus pomares e coisas que a eles pertencem, com todos os privilégios, liberdades e franquezas, que tinham sido dados pelo monarca, pagando de foro anual um capão. Finalmente, a 33.3.1480 o rei doou em sesmaria a João Pestana, do seu Conselho e tesoureiro-mor, um casal com as mesmas condições que tivera André Afonso, morador na [Rousida], que o perdera por não o lavrar nem adubar. Com geração.

7.2.    (a) Martim Ferreira, fidalgo da Casa do infante D. Fernando, duque de Viseu, que nasceu em 1441, pois tinha 22 anos no inventário de bens de seu pai, e já tinha falecido a 8.5.1498. Recebeu com seu irmão Gomes ordens menores em Braga [17] a 18.12.1456, onde se documentam como filhos de Aires Ferreira e sua mulher Genebra Pereira, moradores nessa diocese. Nas respectivas matrículas aparecem juntos, mas Gomes primeiro e Martim depois, o que indicaria que este era mais novo. Contudo, pela sucessão dos morgadios e o processo que correu por causa disso, como adiante se dirá, verifica-se que, dos varões, o mais velho foi Martim, depois Álvaro (de quem não constam ordens menores) e só depois Gomes. O que, inversamente, vem tirar credibilidade à sequência dos registos das ordens menores como indício da sequência de idades. Com efeito, Martim Ferreira sucedeu nos morgadios do Casal de Cavaleiros, de Cête e de Fajozes. Parece ser este o Martim Ferreira, escudeiro do conde de Marialva, que a 10.12.1464, teria 22 anos de idade, teve de D. Afonso V perdão da justiça régia pela ferida que causara a Nicolau, castelhano, na sequência do perdão geral outorgado aos homiziados que serviram na armada real em Ceuta. E ainda o Martim Ferreira, fidalgo da Casa do duque de Viseu, que a 28.10.1475 teve carta de privilégio de fidalgo para a comarca de Entre-Douro-e-Minho. Martim Ferreira casou com Leonor Pinheiro, filha do doutor Pedro Esteves, do Conselho de D. Afonso V, e de sua mulher Isabel Pinheiro, já viúva a 24.12.1469 (vide as minhas "Reflexões sobre a origem dos Pinheiro, de Barcelos"). A 8.5.1498 D. Manuel I deu aos herdeiros de Martim Ferreira uma carta de confirmação de uma tença, conforme uma sua carta inserta, dada enquanto duque, contendo outra de D. Fernando seu pai, na qual se atribui a Martim Ferreira, fidalgo de minha Casa, de seu casamento mil e quinhentas coroas pagas pela ordenança d'el rei meu Senhor de cento e vinte reais por coroa pelas quais me praz e é minha mercê ele haver de mim em cada um ano de tença desde Janeiro que a Deus prazendo virá da era de 470 em diante quinze mil reais brancos sem descontar da dita cópia das coroas até lhe serem pagas todas mil e quinhentas. Esta carta foi feita em Tomar a 12.4.1469, e confirmada por D. Manuel, duque, por carta dada em Santarém a 29.4.1486 e feita confirmação a seus herdeiros em Évora a 2.5.1497. Estevão Ferreira, como procurador bastante de Genebra Pereira, Isabel Pereira, Guiomar Ferreira e Inês Ferreira, seus irmãos, pediu o trespasse de 500 coroas em Catarina, sua irmã, em padrão apartado (CMI, 29, 128 e 128v). Foi seu filho sucessor este Estêvão Ferreira, nascido cerca de 1463 e falecido depois de 4.1.1511, que casou com D. Beatriz de Eça, filha de D. João de Eça, alcaide-mor de Vila Viçosa, e de sua mulher D. Maria de Mello. Esta D. Beatriz de Eça dizem as genealogias que depois de vúva Estêvão Ferreira casou em 2ªs núpcias com Fernão de Souza de Magalhães, senhor de Francemil e da quinta de Penteeiros (Ponte de Lima). Mas a cronologia mostra claramente que foi o inverso, ou seja, que D. Beatriz de Eça era já viúva de Fernão de Souza quando casou com Estêvão Ferreira. Fernão de Souza de Magalhães, filho 2º dos senhores da Barca (referido no meu "Ensaio sobre a origem dos Magalhães"), nasceu cerca de 1442 e faleceu cerca de 1489, foi fidalgo da Casa Real, alcaide-mor de Ervededo (12.13.1477) e capitão e fronteiro de Salvaterra do Minho (21.12.1483). Casou a 1ª vez cerca de 1479 com sua parente Isabel Barbosa, senhora da dita quinta de Penteeiros, tento deste matrimónio um filho, o sucessor João de Souza de Magalhães, nascido cerca de 1480, pelo que Isabel Barbosa provavelmente terá falecido do seu parto. Fernão de Souza de Magalhães terá assim voltado a casar pouco depois com D. Beatriz de Eça, de quem teve pelo menos uma filha. Esta D. Beatriz, nascida cerca de 1465, só pode portanto ter casado com Estêvão Ferreira depois de viúva, cerca de 1490. O que aliás concorda com a cronologia dos filhos que teve de Estêvão Ferreira. sendo nomeadamente de salientar que sua filha mais nova só casou (e tarde) em 1540. Acresce que se documenta que Estêvão Ferreira e D. Beatriz deixaram filhos menores, o que melhor se entende nesta circunstância de ambos terem casado tardiamente. Do seu casamento, Estêvão Ferreira teve um filho e várias filhas. O filho chamou-se Martim Ferreira, que nasceu cerca de 1492, sucedeu nos seus morgadios e num padrão de juro de seu pai (1521), mas faleceu solteiro, sem geração, tendo-lhe sucedido a irmã, D. Joana de Eça, que casou com António Pereira, de Ponte de Lima, com geração, sendo pais nomeadamente do sucessor, Estêvão Ferreira de Eça. Os direitos sucessórios desta D. Joana foram contudo contestados por dois primos-direitos de seu pai, Aires Ferreira e D. Diogo de Sottomayor, filhos respectivamente de Álvaro e Gomes Ferreira, tendo uma sentença da Suplicação de 1534 confirmado à dita D. Joana os morgadios de Casal de Cavaleiros e de Cête, obrigados a seguir pelo parente mais chegado e que não excluíam fêmea, e a Aires Ferreira o morgadio de Fajozes, que obrigava a varonia mais chegada. De Martim Ferreira e de D. Joana de Eça foram ainda irmãs D. Catarina Ferreira e D. Maria Ferreira, esta casada em 1540 com João Marinho. Com efeito, João Marinho, fidalgo da vila de Bayona, na Galiza, e D. Maria Ferreira, fidalga, filha que ficou de Estêvão Ferreira, fidalgo, moradora em Vila do Conde, a 19.12.1540 fizeram escritura de dote e arras no tabelião António Ribeiro (treslado de 19.8.1788 do tabelião João Mendes Ribeiro). Nela, António Pereira, fidalgo da Casa Real, estando na sua quinta de Cavaleiros, entregou o dote a sua cunhada D. Maria Ferreira, que teve da legítima paterna 500 cruzados, dando-lhe metade o cunhado e guardando o resto para entregar mais tarde. D. Joana de Eça, sua mulher, deu o consentimento. D. Catarina Ferreira, irmã desta e de D. Maria, obrigou-se a fazer dentro de um ano as partilhas entre todas, recebendo então a noiva a restante legítima. O esposado, João Marinho, deu à futura mulher 150 cruzados de arras. Foram testemunhas Francisco Ferreira, escudeiro fidalgo, morador em Vila do Conde (possivelmente o filho de Gomes Ferreira), João Lopes, lavrador, morador na aldeia de Touguinha, Sebastião Ferreira, lavrador da aldeia de Pena, Fernão Varela, da vila da Guarda, e Aires de Sá, morador em Bayona e nela regedor do reino da Galiza (Tombo do Morgado dos Carvalhos, 9-3-146, Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, Guimarães). O Martim Ferreira em epígrafe teve ainda várias filhas, entre elas D. Guiomar Ferreira, que primeiro foi freira em Stª Clara de Vila do Conde e depois fundadora e abadessa perpétua do convento de Val de Pereiras. Val de Pereiras foi primeiro um convento de frades menores, mas cerca de 1515 foi ocupado pelas monjas clarissas. Outra filha de Martim Ferreira foi Genebra Pereira, que foi tutora dos filhos de seu irmão Estêvão e instituiu o morgadio de Terroso, que uniu à quintã da Várzea, em S. Cristóvão de Rio Mau, e que Alão diz que andou de amores com Pedro Gomes Pinheiro.

7.3.    (a) Álvaro Ferreira, nascido cerca de 1443 e falecido em 1501, que Gaio diz ter sido comendador de S. Pedro do Sul, acrescentando (e isto devia de facto saber) que jazia na capela que sua família tinha na matriz de Barcelos e venderam à Confraria do Rosário com reserva da sua sepultura, com um letreiro que diz "Aqui jaz Álvaro Ferreira que faleceu em Abril de 1501". Gaio testemunha tê-lo visto, "já as letras alguma coisa gastas", e que junto a esta sepultura estava a de sua 2ª segunda mulher Beatriz Pereira. Álvaro Ferreira foi algum tempo senhor da quintã do Casal de Cavaleiros, que lhe tirou por demanda seu sobrinho, diz ainda Gaio. Na "Corografia Portuguesa" (Tomo 1, p. 304) diz-se que foi senhor do paço de S. Emilião de Mariz (Barcelos) este Álvaro Ferreira, filho de Aires Ferreira e sua 1ª mulher Genebra Pereira. As genealogias concordam que casou duas vezes, mas já não concordam com a sequência. Gaio diz que casou 1º com a filha de Martim Fernandes de Freitas e depois com Beatriz Pereira, e Alão diz que casou 1º com esta Beatriz Pereira e depois com Maria de Freitas (a que Gaio chama Maria Pereira), filha de Martim Fernandes de Freitas, anadel-mor de besteiros. A este Martim Fernandes de Freitas, seu escudeiro, já D. João I doou a 5.3.1384 o senhorio de juro e herdade de Lordelo, que parte com o termo do Porto e com o julgado de Bouças, que trazia Rodrigo de Alher do rei D. Fernando, bem como a terra de Benviver, entre o Tâmega e o Douro, que trazia Fernan Gomez de Utreira, castelhano, que tinha ido para Castela. E e a 23.5.1386 doou Caldas de Vizela, e o préstimo de Restelo, com todas as rendas, honras e senhorio. Este Martim Fernandes de Freitas casou com Mécia Vaz de Sampaio, a quem em 1400 D. João I confirmou, e ao marido, os bens que tinham sido de João Rodrigues Portocarreiro, que o pai dela lhes tinha cedido em dote. Era filha de Vasco Pires de Sampaio. A 2.5.1384 o mestre de Avis doa a Vasco Pires de Sampaio todas as vilas, lugares e terras que João Rodrigues Portocarreiro tinha do rei D. Fernando. A 6.5.1384 o mesmo mestre doa a Vasco Pires de Sampaio todos os bens móveis e de raiz, para sempre, que Abrafã rico judeu tinha em Vila Flor e seu termo, porquanto fora em "deserviço" para Castela. A 7.5.1384 doou a Vasco Pires de Sampaio de juro e herdade para sempre, para si e seus sucessores, todos os foros, direitos e portagens que tinha nas vilas de Anciães, Vilarinho da Castanheira, Vila Flor, Torre de Moncorvo e Mos, que "som lugares castellados", com todos os seus termos, e ainda Vilas Boas e seu termo, "que he terra chaã", com o privilégio de poder vender, dar, doar ou escambar. A 22.2.1385 D. João I doou a Vasco Pires de Sampaio metade da aldeia de Quintela de Lampazes. A 13.1.1397 o mesmo rei outorgou a Vasco Pires de Sampaio o cargo das coudelarias de Anciães, Vila Flor, Torre de Moncorvo, Lamas, Mós, Vilarinho da Castanheira, Vilas Boas e de outros lugares, bem como o autoriza a nomear aí os coudeis. E a 19.4.1410 doou a Vasco Pires de Sampaio a aldeia de Sampaio com sua jurisdição, e tendo como termos as aldeias de Cardonha e Valarenhos. Acresce que a 10.4.1450 D. Afonso V confirmou a Vasco Fernandes de Sampaio, fidalgo da sua Casa, uma carta de D. João I de 13.1.1397, na qual outorga a seu avô, Vasco Pires de Sampaio, o cargo das coudelarias de Anciães, Vila Flor, Torre de Moncorvo, Lanças, Mós, Vilarinho da Castanheira, Vila Boas e de outros lugares, bem como o autoriza a nomear aí os coudeis. De tudo isto se concluiu que Maria de Freitas não podia cronologicamente ser filha de Martim Fernandes de Freitas, pelo que provavelmente era neta, filha de sua filha Catarina de Freitas casada com Fernão Coelho, 2º senhor de juro e herdade de Felgueiras e de Vieira (10.12.1433). A 31.1.1466 o mesmo rei confirmou a doação da quintã e lugar do Outeiro, na freguesia de S. Salvador de Moura, da terra de Felgueiras, de acordo com as escrituras de doação vitalícia feita a Catarina de Freitas, mulher de Fernão Coelho, seu vassalo e escudeiro do julgado de Felgueiras. Refere um instrumento público público de doação de 2.12.1440 e confirmação de 4.6.1443. E a 10.7.1464 doou a Martim Coelho e Pedro Coelho, a pedido de Catarina de Freitas, viúva de Fernão o Velho, morador em Felgueiras, os bens que herdaram de seu pai e que o rei lhes retirara quando combateram na batalha de Alfarrobeira do lado do infante D. Pedro. Quanto a Beatriz Pereira, é dita filha de Fernão Rodrigues Pereira, escrivão dos órfãos de Évora, que por sua vez era filho natural de Manuel Pereira Marecos, amo do infante D. Fernando. Trata-se, portanto, do Fernão Rodrigues, escudeiro da Casa de D. Afonso V e escrivão dos órfãos na cidade de Évora, que a 15.1.1456 teve deste rei licença para fazer sinal público nas escrituras de seu ofício. Bem assim como o Fernão Rodrigues, colaço do infante D. Fernando, a quem D. Afonso V a 15.4.1439 confirmou a doação, pelo casamento com Mécia Juzarte, criada de D. João I, de uma tença anual de 75.000 libras até perfazer 1.500 coroas, como prometera D. Duarte a 4.12.1433. E o Fernão Rodrigues, cavaleiro, colaço do infante D. Fernando, que a 16.12.1458 teve do rei a jurisdição de Vila Nova da Erra pelos bons serviços que lhe prestara na comarca da vila de Alcácer. E ainda o Fernão Rodrigues, cavaleiro da Casa Real e colaço do infante D. Fernando, que a 20.10.1466 teve do mesmo rei uma tença anual de 6.000 reais de prata. E já D. Duarte dera a 4.8.1436 carta de privilégio ao moradores de Erra a requerimento de Fernão Rodrigues, colaço do infante D. Fernando seu irmão. O certo, contudo, é que Beatriz Pereira ou foi a única ou a 2ª mulher de Álvaro Ferreira, pois ainda vivia em 1514, sendo sua viúva, como se diz adiante. De 20.4.1514 existe um traslado da carta por que Beatriz Pereira, viúva de Álvaro Ferreira, foi tutora de seus filhos menores, o qual se deu para a conta do almoxarife Lopo Pereira. De Álvaro Ferreira e desta sua mulher Beatriz Pereira foi filho sucessor Aires Ferreira, que teve demanda com sua prima D. Joana Ferreira de Eça sobre os morgadios da família, tendo uma sentença da Casa da Suplicação de 1518 dado à dita D. Joana os morgadios de Casal de Cavaleiros e de Cête, obrigados a seguir pelo parente mais chegado e que não excluíam fêmea, e a Aires Ferreira o morgadio de Fajozes, que obrigava a varonia, conforme acima já se disse, e de que tomou posse a 10.6.1529. A 15.9.1509 tinha aforada à comenda de Mendo Marques da Ordem de Cristo uma casa na rua da Sapataria a filha, não nomeada, de Álvaro Ferreira. Este Álvaro Ferreiro, referido como cavaleiro da Ordem de Cristo, teve pelo menos dois filhos naturais, ambos legitimados por carta real de 10.2.1497: Duarte Ferreira, havido em Guiomar de Góis, e Estêvão Ferreira, havido em Catarina Mendes, ambas mulheres solteiras.

7.4.    (a) Gomes Ferreira, nascido cerca de 1444 e fal. depois de 1507 e antes de 1513, que recebeu com seu irmão Martim ordens menores em Braga [18] a 18.12.1456, onde se documentam como filhos de Aires Ferreira e sua mulher Genebra Pereira, moradores nessa diocese. Gomes Ferreira foi porteiro-mor de D. João II (antes de 27.9.1487), moço fidalgo (1462) e cavaleiro fidalgo (1474) da Casa de D. Afonso V. Teve carta de privilégio de fidalgo de D. Afonso V (11.10.1475) , D. João II (7.8.1590) e D. Manuel I (30.3.1497). A 16.5.1498 teve mercê da jurisdição cível e crime da quintã e honra de Frazão, que fora de Rui Vaz Pereira, e a 5.7.1499 confirmação do senhorio do couto de Belver, da quintã de Ferreira, de lugares do Vimieiro, da casa junto de Sampaio e da quinta de Moire, em terra de Gestaçô, com todas as rendas e direitos. Foi ainda senhor de juro e herdade de Couto (1507) e senhor da casa do Arco, em Guimarães. Teve de D. Manuel I carta da coutada das perdizes da cidade do Porto e seu termo (15.11.1498) e 20.000 reais de tença em satisfação do ofício de porteiro-mor que fora de D. João II (28.3.1598). Vivia com sua mulher D. Mayor de Sottomayor em S. Pedro de Ferreira (Paços de Ferreira) quando seus filhos receberam ordens menores. Por cartas de 27.9.1487 e 27.10.1490, Gomes Ferreira, sendo referido como fidalgo da Casa de D. João II e seu porteiro-mor, com sua mulher D. Mayor de Sottomayor, receberam deste rei, em vida de ambos, em satisfação dos serviços que ele prestara no reino, em África e na guerra de Castela, as rendas de várias povoações dos almoxarifados de Barcelos e Guimarães, que tinham sido confiscadas ao duque de Bragança, nomeadamente o couto de Belmir. Mais tarde, D. Manuel I quis restitui-las à Casa de Bragança, pelo que logo Gomes Ferreira e sua mulher Dona Mayor delas renunciaram, tendo sido compensados com uma tença anual de 100.000 reais a receber no almoxarifado de Vila do Conde (10.3.1501), onde então devia viver. Esta tença foi confirmada a sua viúva D. Maior a 12.5.1513, que a vendeu a D. Martinho de Castello-Branco, conde de vila Nova de Portimão, a 7.12.1513. Gomes Ferreira casou em 1486 com D. Mayor de Sottomayor, nascida em 1466, filha de D. Pedro Álvares de Sottomayor, o célebre Pedro "Madruga", 12º senhor de Sottomayor, conde de Caminha (4.3.1476) e visconde de Tui (referido como tal em carta real de 5.6.1476), etc., e de sua mulher (casados em 1465) a portuguesa D. Tereza de Távora, falecida em 1496, filha de Álvaro Pires de Távora, senhor de Távora e Mogadouro e dos direitos reais de Caminha e Vila Nova de Cerveira, etc., e de sua mulher D. Leonor da Cunha. D. Mayor de Sottomayor está perfeitamente documentada como filha do conde D. Pedro Álvares de Sottomayor, que a refere no seu testamento. Nasceu em 1466 e teve um 1º curto casamento com Diogo de Reinozo, de quem teve pelo menos Fernão Anes de Sottomayor, fidalgo da Casa de D. Manuel I (já o era a 1.9.1514), que casou com D. Maria Dias de Aguiar (com geração nos Reinozo de Sottomayor), que Alão e Gaio dão erradamente como filho de Gomes Ferreira. Ao que parece, Gomes Ferreira e sua mulher tiveram apenas três filhos homens: Francisco Ferreira e António de Sottomayor, que receberam ordens menores em Braga a 22.3.1505, e Diogo de Sottomayor, que só as recebeu a 8.9.1525, ib, mas que foi o sucessor e que, como D. Diogo, concorreu aos morgadios dos Ferreira, contra seus primos Aires Ferreira e D. Joana de Eça, perdendo por sentença da Casa da Suplicação de 1534, conforme já ficou dito. Gomes Ferreira e sua mulher tiveram ainda duas filhas, sendo uma delas D. Joana de Távora, que teve mercê das saboarias de Portalegre em 1526 e casou com Martinho Vaz de Gouveia, fidalgo da Casa Real e do Conselho de D. Manuel I (1518), que a 16.7.1512 deu quitação a sua sogra Dona Mayor de 50.000 reais que esta lhe devia do dote de casamento. E a 10.4.1511 Diogo de Almeida, capelão do rei, teve uma tença anual de 8.000 reais, até perfazer o pagamento de 1.000 coroas que lhe foram trespassados por Martim Vaz de Gouveia, fidalgo da Casa Real, em escambo de certos casais na Beira. As 1.000 coroas foram dadas a Martim Vaz, por sua sogra, Dona Maior, pelo casamento de sua filha. Esta houvera-as de seu marido, Gomes Ferreira, a quem tinham sido trespassadas por falecimento de seu irmão Martim Ferreira, que que as recebera em casamento, segundo se sabe por um público instrumento feito no Porto a 14.3.1501, por Fernão Garcês, tabelião nessa cidade. O antedito Francisco Ferreira parece ser o Francisco Ferreira, morador em Vila do Conde, que a 27.2.1536 teve carta de armas para Ferreira, com uma brica de prata com um F de preto por diferença, "por descender dessa nobre linhagem", e o Francisco Ferreira, escudeiro fidalgo, morador em Vila do Conde, que testemunhou em 1540. Contudo, o facto de ter uma brica nas armas (nesta época ainda indica quebra de varonia) e o facto de ter sucedido o irmão que tirou ordens menores tão mais tarde, põem em dúvida esta identificação.

7.5.    (a) Lopo Vaz Ferreira, referido no inventário de bens de seu pai. Alão diz que faleceu na Índia, sem geração. Gaio diz o mesmo, mas quando fala de um Lopo Ferreira que vivia em Bragança em 1490, para onde fora de Guimarães, diz que devia ser filho deste Aires Ferreira e de sua 2ª mulher, acrescentando que havia "muitas memórias dele no Arquivo da Câmara de Bragança, em que se intitula Escudeiro Fidalgo; edificou na Praça do Colégio dos Jesuítas da mesma cidade as casas que ainda hoje possui seu descendente por varonia João Ferreira Sarmento Pimentel de Louzada". Mas, pelo referido inventário, o Lopo Ferreira, de Bragança, ou é o Lopo Vaz, portanto filho do 1º casamento, ou é bastardo, ou é filho de outro Ferreira, Aires ou não. Alão também refere este Lopo Ferreira, de Bragança, mas não o entronca, dizendo apenas que "dizem era dos Ferreiras da Casa de Cavaleiros". O certo é que a 12.5.1469 D. Afonso V confirmou a nomeação de Fernando Álvares, criado de Lopo Ferreira, para o cargo de tabelião do cível e crime do julgado de S. Martinho de Mouros e seu termo. E que a 6.3.1475 o mesmo rei privilegiou Lopo Ferreira, cavaleiro da Ordem de Cristo e comendador de Mendo Marques nesta ordem, concedendo-lhe licença para arrendar as suas comendas por três anos, com autorização do duque de Viseu. Casou com Violante de Sá, com geração.

7.6.    (a) Duarte Ferreira, referido no inventário de bens de seu pai, que Alão diz ter casado com Melícia Dias de Moura, filha de um Álvaro Gonçalves de Moura, e que tiveram um filho chamado Álvaro Ferreira. Deve ser o Duarte Ferreira, fidalgo da Casa Real, que a 5.6.1513 teve provisão para se pagar 80.000 reais do primeiro terço de seu casamento.

7.7.    (a) Guiomar, referida no inventário de bens de seu pai. Alão não a refere e Gaio hesita sobre se casou ou ficou solteira. Deve ter ficado solteira.

7.8.    (a) Genebra, referida no inventário de bens de seu pai. Alão não a refere e Gaio diz que ficou solteira.

7.9.    (a) Leonor, referida no inventário de bens de seu pai. Alão e Gaio confundem-na com sua proposta tia Leonor Gonçalves, referida acima. Deve ter ficado solteira.

7.10.  (b) Pedro Ferreira Fogaça, referido no inventário de bens de seu pai. Em 1506 documenta-se como fidalgo da Casa Real, comendador de Puços e Maçãs, capitão de Quiloa e da fortaleza de S. Tiago. Já tinha falecido a 16.3.1514 quando Beatriz Pereira, como procuradora de seu filho, Aires Ferreira, fez uma escritura de substabelecimento de procuração e de trespasse a Francisco Fernandes para cobrar 23.545 reais que do dito seu filho se lhe deviam na Casa da Índia, como herdeiro de seu tio, Pedro Ferreira Fogaça, por de tanta quantia lhe ser devedor.

7.11.  (b) Luiz Ferreira, referido no inventário de bens de seu pai. Deve ter sido capitão na Índia e aí fal. antes de seu irmão Pedro, como diz Gaio, enquanto Alão refere um António Ferreira Fogaça capitão na Índia como irmão do dito Pedro. Por outro lado, se vivesse em 1514 mais naturalmente seria ele o herdeiro do dito seu irmão Pedro. Contudo, não sendo um nome vulgar na época, temos de considerar que se trate do Luiz Ferreira que foi escrivão e chanceler da comarca da Estremadura, bem como recebedor, contador e inquiridor, promotor e distribuidor dessa correição, que a 13.10.1517, provavelmente por sua morte, foi substituído nestes cargos por Gaspar Velho, cavaleiro da Casa Real.

7.12.  (b) João Ferreira, referido no inventário de bens de seu pai. Alão não o refere e Gaio chama-o João Ferreira, o de Bragança, e remete-o para um § onde depois não segue. A 1.3.1477 tirou ordens menores em Braga um "Joham Ferreira fº de Ayrez Ferrº e de Isabella anes sua molher da fregresía de Sam mjlliao desta diocesse". As ordens menores tiravam-se então, por regra, entre os 8 e os 11 anos de idade, pelo que este João teria nascido entre 1466 e 1469. Ora, o Aires Ferreira, morgado de Cavaleiros, faleceu antes de 29.2.1463. Mas é sobretudo significativo o facto de o registo dar como vivo em 1477 o pai, Aires Ferreira, pois caso contrário diria Isabel Anes sua viúva ou "mulher que foi". Além de que não se pode identificar Isabel Anes com Isabel Fogaça. Temos, assim, que este João Ferreira que tirou ordem menores era filho de outro Aires Ferreira, certamente parente do morgado de Cavaleiros mas para já desconhecido, se bem que possa ser irmão do Diogo Ferreira referido acima no nº 6.1.3.1.   

 

Ensaio sobre a origem dos Faria

Escudo de armas dos Faria (infografia de Manuel Abranches de Soveral)

Escudo de armas dos Faria (infografia do autor)

1.    Nuno Gonçalves Ferreira, que depois se chamou Nuno Gonçalves da Faria e foi o 1º deste nome nesta linhagem, como ficou dito acima. Nasceu cerca de 1313 e fal. cerca de 1370. Foi nomeado em último para a sucessão da capela de Cête no testamento de Martim Ferreira. Quando a 26.6.1357 teve de D. Pedro I o castelo de Faria vem como Nuno Gonçalves de Ferreira. Mas quando a 14.12.1363 recebeu do mesmo rei o préstimo de Faria, pela "contia de seus maravedis", já vem referido como Nuno Gonçalves de Faria, embora quando D. Fernando lhe confirmou a alcaidaria a 21.3.1636 apareça apenas como Nuno Gonçalves. Quando da segunda guerra de D. Fernando com Castela, a fronteira norte de Portugal foi invadida. As forças castelhanas avançaram por Viseu rumo a Santarém e Lisboa, enquanto uma segunda coluna, vindo da Galiza, penetrou pelo Minho. Saíram-lhe ao encontro forças portuguesas oriundas do Porto e de Barcelos, entre as quais se incluía um destacamento sob o comando de Nuno Gonçalves de Faria, alcaide-mor do castelo de Faria. Travando-se o encontro perto de Barcelos, perderam as forças portuguesas, sendo capturado o alcaide. Com receio de que a sua liberdade fosse utilizada como moeda de troca pela posse do castelo de Faria, que seu filho, Gonçalo Nunes de Faria, ficara a defender, concebeu um estratagema: convenceu o comandante de Castela a levá-lo diante dos muros do castelo, a pretexto de convencer o filho à rendição, e utilizou a oportunidade assim obtida para exortar o jovem à resistência, sob pena de maldição. Morto pelos castelhanos diante do filho, pelo acto corajoso, o castelo resistiu invicto ao assalto. O episódio foi narrado por Fernão Lopes e imortalizado por Alexandre Herculano (Lendas e Narrativas). É certamente o Nuno Gonçalves a quem D. Fernando doou a 29.5.1369 a terra de Milhães, no almoxarifado de Ponte de Lima, hoje S. Romão de Milhazes, freguesia que então estava anexa ao castelo de Faria. Segundo Manuel de Faria e Souza (MFS), nas suas notas ao conde D. Pedro, casou com D. Tereza de Meira. Este casamento, pela cronologia que se segue, ter-se-á realizado cerca de 1337, pelo que esta Tereza não pode ser uma das duas filhas referidas mas não nomeadas, por serem menores e seguramente solteiras, quando Gonçalo Paes de Meira aparece, entre os infanções, na lista dos naturais de Grijó (1366), por padroado "da parte de Vasconcellos", com seus três filhos e duas filhas. Estas duas filhas terão sido Tereza Gonçalves de Meira, casada com Fernando Gonçalves de Souza, alcaide-mor de Portel, Olivença e Serpa, senhor de Vila Boim e Castro Daire, e Mécia Rodrigues de Vasconcellos, casada com Álvaro Vaz Cardoso, alcaide-mor de Trancoso, senhor da honra de Cardoso e senhor de Moreira de Rei e Ervilhão. Assim, se de facto Nuno Gonçalves casou com uma Tereza de Meira, pois é difícil imaginar qual teria sido a fonte de MFS, se é que alguma houve, então só podia ser irmã deste Gonçalo Paes, portanto filha de D. Paio de Meira, meirinho-mor de Entre-Douro-e-Minho e das terras da infanta D. Branca, alcaide-mor de Coimbra, senhor de juro e herdade de Entre-Homem-e-Cávado e de Jales e Alfarela, etc., e de sua mulher Leonor Rodrigues de Vasconcellos. Deste D. Paio de Meira, nascido cerca de 1265 e fal. entre 1332 e 1339, ficou um selo com as suas armas (uma cruz florenciada e vazia) num documento de 25.4.1331, no qual D. Paio, em nome de D. Pedro Fernandes de Castro, tomou posse da alcaidaria-mor do castelo de Coimbra. As armas adoptadas pelos Faria comemoram claramente o feito de Nuno Gonçalves no castelo de Faria, que deu origem à nova linhagem.

1.1.  Gonçalo Nunes de Faria, n. cerca de 1338, o filho que defendeu o castelo de Faria, como ficou dito. Foi escudeiro e vassalo do mestre de Avis, que ainda defensor do reino lhe prometeu, por intermédio de seu procurador Rui Pereira, a terra de Fão, que também prometeu a Gonçalo Vasques Barroso, determinando a 10.8 1385 que se apurasse a quem fora prometida primeiro, sendo confirmada a Gonçalo Nunes de Faria a 21.11.1388. Entretanto, a 2.5.1385 já lhe tinha doado Zurara e Pindelo, para si e seus descendentes. Mas Gonçalo Nunes de Faria fez-se clérigo pouco depois, uma vez que a 29.5.1387 o rei lhe legitimou os filhos Pedro, Fernão e Nuno Gonçalves de Faria, havidos em diferentes mulheres solteiras, não nomeadas, sendo então já abade de Santa Ovaia de Rio Covo (Barcelos). A 28.1.1388 foi-lhe legitimada a filha Violante Nunes, havida em Aldonça Vasques, sendo ele então apenas referido como Gonçalo Nunes de Faria.

1.1.1. (L) Pedro Gonçalves de Faria, n. cerca de 1379, e legitimado com seus irmãos em 1386 como Pedro Gonçalves. É o único dos filhos de Gonçalo Nunes a que MFS dá descendência, dizendo que foi pai ou avô de Álvaro de Faria, comendador do Seixo e do Casal. Tendo em conta da cronologia, devia ser pai. E devia ser igualmente pai do Frei Sebastião de Faria que segue.

1.1.1.1.  ?Frei Sebastião de Faria, cavaleiro da Ordem de S. João (Malta), n. cerca de 1402, que não documentei mas é referido nas genealogias como pai de:

1.1.1.1.1. (N) Cecília de Faria, n. cerca de 1425, que casou cerca de 1440 com Aires Pinto, senhor da torre da Lagariça, então na Terra de Aregos, hoje na freguesia de S. Cipriano, Resende, c.g. referida no meu estudo os Pinto, Moura Coutinho e Carvalho, de Santa Marinha de Zêzere (Baião).

1.1.1.2.  Álvaro de Faria, n. cerca de 1405, comendador do Seixo e do Casal (Seia). A 20.7.1450 D. Afonso V nomeou Gomes Garcia, escudeiro de Álvaro de Faria, cavaleiro da sua Casa, comendador de Casal, para o cargo de coudel de Casal e Seixo e seus termos. A 23.1.1453 nomeou por cinco anos João Fernandes, escudeiro de Álvaro de Faria, comendador do Casal, para o cargo de coudel do dito lugar e do Seixo, em substituição de Gomes Garcia, escudeiro de Gomes Freire, morador na Bobadela, que renunciara. A 29.8.1476 privilegiou Álvaro de Faria, cavaleiro da sua Casa e comendador, isentando-o do pagamento do foro de uns casais. A 29.8.1475 legitimou Catarina de Faria e Beatriz de Faria, filhas de Álvaro de Faria, comendador, e de Isabel Vasques, mulher solteira, a pedido de seu pai. A 23.4.1481 perdoou a justiça régia a João Pires, escudeiro, criado do comendador Álvaro de Faria, e a sua mulher Beatriz da Costa, acusados de roubar uma casa de Catarina Peleja, em Viseu, mãe da dita Beatriz, mediante o perdão das partes, tendo pago 1.000 reais para a Piedade. E a 26.4.1481 perdoou a justiça régia a Farto Gonçalves, lavrador, morador na Várzea de Cima, termo do Casal, comenda de Álvaro de Faria, pela querela que dele dera Afonso Anes, jurado, morador no dito lugar, mediante o perdão das partes, tendo pago 1.000 reais para a Piedade.

1.1.1.2.1. (N) Pedro de Faria, n. cerca de 1435, mas que não se documenta nem foi legitimado, talvez por ter fal. antes de 29.8.1475, data em que suas alegadas irmãs foram legitimadas. Mas mais provavelmente não foi legitimado por ser clérigo, sendo o Pedro de Faria que a 17.31491 teve de D. João II mercê da igreja S. Tiago de Sarzedas. MFS dá ao comendador Álvaro de Faria um filho Pedro de Faria e uma filha Beatriz de Faria casada com D. João de Eça. Mas confunde este Pedro de Faria com outro, posterior, também filho de um Álvaro de Faria, que seria neto deste Pedro, conforme segue.

1.1.1.2.1.1. ?(N) João Pires (de Faria), n. cerca de 1456, não referido por MFS, mas que parece filho bastardo do Pedro que leva como pai. Como ficou dito, documenta-se como criado e escudeiro do comendador Álvaro de Faria (nesta hipótese seu avô) quando a 23.4.1481 teve carta real de perdão por, com sua mulher Catarina da Costa, estarem acusados de roubar uma casa em Viseu de Catarina Peleja, mãe dela e sogra dele. Sendo que esta Catarina Peleja podia ser irmã de Nuno Peleja, escudeiro do conde de Odemira, que teve carta de perdão real a 31.10.1455 por uma querela que teve com uma Catarina Dias, e a quem D. Duarte a 23.8.1435 aforou um chão em Almargem, termo de Faro, e ambos filhos de Gonçalo Peleja, meirinho do reino do Algarve (25.6.1439). João Pires (de Faria) casou portanto com Catarina da Costa.

1.1.1.2.1.1.1. Henrique Peleja (de Faria), cavaleiro, morador em Oliveira do Conde, que a 17.7.1500 teve mercê do cargo de escrivão das sisas dos julgados de Oliveira do Conde e Currelos e depois foi escrivão da câmara e almotaçaria. Terá nascido em Travancinha do Casal, onde tinha casa, e porventura casado em Oliveira do Conde com mulher que se desconhece.

1.1.1.2.1.1.1.1. João Peleja de Faria, cavaleiro, natural de Travancinha do Casal (Seia). Casou com Isabel do Rego, natural de Canas de Senhorim, onde viveram e tinham muitas propriedades.

1.1.1.2.1.1.1.1.1. Antónia Peleja de Faria, n. cerca de 1536 em Canas de Senhorim, onde foi herdada. C. cerca de 1555 c. Pedro Soares de Albergaria, 1º capitão-mor de Oliveira do Conde, aí n. cerca de 1511 e fal. antes de 1573, 2º senhor da quinta de Oliveira do Conde, fidalgo da Casa Real, comendador de Senhorim na Ordem de Cristo, que jaz na matriz de Oliveira do Conde em túmulo com suas armas (Soares de Albergaria em pleno), sendo ele e sua mulher referidos nas IG dos netos como "pessoas honradas e de boa qualidade". C.g. que desenvolvo no meu livro "Ascendências Visienses".

1.1.1.2.1.1.1.1.2. Beatriz de Faria, casada com António da Cunha de Eça, que refiro em "Ascendências Visienses", s.g.

1.1.1.2.1.1.1.2.   Rui Peleja de Faria, morador em Travancinha do Casal (Seia), onde fal. a 5.9.1561. Casou com Maria Álvares, fal. a 21.10.1554, ib.

1.1.1.2.1.1.1.2.1. Ana Peleja de Faria, fal. em Travancinha do Casal a 13.12.1554. Foi a 2ª mulher (casados em 1550) de Tristão Tavares (de Carvalho), cavaleiro fidalgo da Casa Real, comendador de Ervedal da Beira na Ordem de Cristo, etc., que trato nas "Ascendências Visienses" e cuja descendência com sua primeira mulher Leonor Pinheiro aí desenvolvo.

1.1.1.2.1.2 (N) Álvaro de Faria, n. cerca de 1460, que MFS diz que foi capitão-mor de Malaca. É certamente o Álvaro de Faria que foi capitão-mor de Arzila (28.8.1486) e teve de D. João II carta de privilégio de fidalgo (14.5.1487). A 7.2.1498 Álvaro de Faria, fidalgo da Casa Real, teve instrumento de aforamento de umas casas em Lisboa, junto do hospital dos Meninos, à porta de São Vicente, freguesia de Santa Justa. A 10.5.1512 D. Manuel I mandou dar a Álvaro de Faria, fidalgo da sua Casa, 50 cruzados de mercê.

1.1.1.2.1.2.1. Pedro de Faria, capitão-mor de Malaca (20.7.1528), capitão da fortaleza de Santiago da cidade de Quiloa, etc. Há muita correspondência sua para o rei, entre 1507 e 1545. MFS diz que casou, embora não lhe indique a mulher, confundindo-o, como se disse, com o avô homónimo. O certo é que teve uma filha natural, D.Luiza de Faria, que casou com D. Manuel de Menezes, capitão-mor de Baçaim.

1.1.1.2.2  (L) Catarina de Faria, legitimada a 29.8.1475 com sua irmã, filhas de Isabel Vasques. MFS não a refere.

1.1.1.2.3  (L) Beatriz de Faria, que casou com D. João de Eça, segundo MFS. A 11.3.1511 o duque de Bragança, D. Jaime, sobrinho do rei, teve assentamento de 608.320 reais, pela apresentação de uma carta feita em Vila Franca a 13.8.1496, por Álvaro da Maia, segundo a qual desde 1.1.1496 tinha um padrão de 750.000 reais, tal como tinha o seu pai, por quatro padrões. Dos quais lhe são descontados 201.680 reais, tendo ficado 141.680 reais para D. João de Eça e 60.000 reais para João de Faria. Por falecimento de ambos, segundo se sabe por uma carta feita em Punhete a 28.6.1508, por Afonso Figueira, o duque de Bragança pedia que lhe façam mercê dos 60.000 reais que pertenciam a João de Faria.

1.1.1.2.4 ?(N) João de Faria, não legitimado, referido atrás, a propósito de sua proposta irmã Beatriz de Faria, que tinha uma tença de 60.000 reais do duque de Bragança, n. cerca de 1440 e que fal. depois de 10.5.1509. Não é referido pelas genealogias, mas foi certamente este que foi alcaide-mor de Portel (cargo que as ditas genealogias atribuem erradamente a Lourenço de Faria, referido adiante). Bem assim como o João de Faria que foi vedor das lanças de Seia e Gouveia a 28.8.1486 (de recordar que seu proposto pai era comendador do Seixo e Casal, em Seia) e que teve de D. João II padroado de 15.000 reais de tença (5.10.1483 e 12.10.1487). A 20.4.1496 João de Faria, fidalgo da Casa d'el rei e alcaide-mor de Portel, teve mercê de uma tença de 20.000 reais. A 12.5.1497 teve outra tença de 15.000 reais e a 23 de Novembro do mesmo ano, continuando alcaide-mor, teve nova tença de 20.000 reais, em satisfação do prejuízo com a sisa da judiaria da vila, que deixa de receber em virtude do decreto real para que no reino não houvesse judeus. Vendeu depois aquela tença a Diogo Fernandes, reposteiro d'el rei, que a 9.9.1500 teve confirmação real da tença de 20.000 reais de prata, de um padrão que João de Faria, alcaide-mor de Portel, lhe vendera, e a de 15.000 ao barão de Alvito, que a 6.5.1502 teve também confirmação real da tença anual de 15.000 reais comprada a João de Faria, fidalgo da Casa d'el rei e alcaide-mor da vila de Portel. Vendeu também a tença de 20.000 reais pelo serviço dos judeus, pois a 7.2.1511 João da Silveira, fidalgo e trinchante do rei, teve confirmação real da tença de 20.000 reais, em sua vida, que nele trespassou João de Faria, que foi alcaide-mor de Portel, que os tinha em satisfação da judiaria dessa vila. Continuava alcaide-mor de Portel quando a 15.2.1505 teve carta de privilégio para todos os seus caseiros, amos e mordomos, porquanto está prestes a servir na guerra com suas bestas e armas. Casou com Isabel Pereira, filha Nuno Pereira, fidalgo da Casa do duque de Bragança (1464), alcaide-mor da Vidigueira e Vila Nova de Frades (30.9.1483), senhor dos direitos reais da Vidigueira e dos direitos reais de Vila Nova de Frades (16.9.1483), e de sua mulher Guiomar da Silva. A 25.2.1505 João de Faria, fidalgo da Casa d'el rei e alcaide-mor da vila de Portel, teve confirmação do privilégio pelo qual lhe foi coutada uma herdade que se chama das Valadas, no termo da vila de Serpa, com as confrontações declaradas, que lhe fora dada em casamento pelo sogro, Nuno Pereira, fidalgo da Casa d'el rei e morador nesta vila, a quem fora concedido esse privilégio para uma terra e assentamento de herdades, que se chamam da Figueira, de que faz parte a herdade citada. Mas deste casamento não ficou geração, pois por morte de Nuno Pereira fizeram-se partilhas por escritura de 10.5.1509, já D. Isabel Pereira tinha falecido, e nelas João de Faria declara não ter filhos dela e não querer nada da herança, estando satisfeito com o que já tinha. Portanto, ao contrário do que se podia supor da carta do duque D. Jaime referida acima, João de Faria não tinha falecido em 1508. Mas se não teve filhos do casamento, julgo que foi pai (natural) do doutor João de Faria, que MFS não entronca.

1.1.1.2.4.1.  ?(N) João de Faria, n. cerca de 1462, que MFS não entronca. Foi do cavaleiro do Conselho (21.2.1521), doutor, do Desembargo do rei e desembargador dos agravos da Casa da Suplicação, embaixador de D. Manuel I a Roma (1514) e de D. João III ao imperador Carlos V, chanceler do infante D. Afonso (1516), chanceler-mor do reino em 1527, tendo tido a 1.6.1515 a Ordem de Cristo com 10.000 reais de tença e a comenda do mosteiro de Travanca nesta ordem. A 13.11.1516 o doutor João de Faria, do Desembargo do rei, teve mercê do ofício de chanceler do infante D. Afonso. A 21.8.1515 foi D. Manuel I deu ao mosteiro de Travanca, pela intervenção do doutor João de Faria, comendador dele, uma quinta chamada Costa, que ficava em terra de Santa Cruz de Riba Tâmega, que comprara D. João de Castro, abade desse mosteiro, já falecido. A 15.5.1520 foi confirmado ao doutor João de Faria, do desembargo e desembargador dos agravos da Casa da Suplicação, chanceler do Infante Cardeal, o aforamento de uma horta na cidade de Lisboa, à porta de Stª Antão, e de uma courela com oliveiras que estão em S. Sebastião da Pedreira. MFS diz que casou com uma senhora Coelho. Alão diz que se trata de Joana Coelho, filha do navegador Nicolau Coelho. Mas, como veremos adiante, o marido desta Joana Coelho deve ser João Álvares de Faria.

1.1.1.2.4.1.1. Catarina de Faria, que MFS diz casada com Francisco de Mello, mas depois diz que deve ter antes casado com Manuel de Souza Homem, senhor da quinta de Valmelhorado, prazo do mosteiro de Pombeiro. Também o Padre Marcelino Pereira, da Congregação do Oratório de Braga, diz que Catarina de Faria, mulher de Manuel de Souza Homem, era filha João de Faria, comendador de Travanca. De facto, a quinta de Valmelhorado era um prazo do mosteiro de Pombeiro, que a 30.4.1535 o abade comendatário D. António de Mello renovou a Henrique Homem de Sousa, como filho primogénito de Manuel de Souza Homem. Poderia esta Catarina de Faria ter casado primeiro com Manuel de Souza Homem e depois com Francisco de Mello? Francisco Ferraz de Souza, neto materno daquele Henrique, casou em Lousada a 21.2.1556, pelo que não terá nascido depois de 1535. Sua mãe Filipa Ferraz de Souza pode ter nascido cerca de 1520, e o pai desta, o dito Henrique, cerca de 1499, o que significa que esta Catarina de Faria, para ser a mulher de Manuel de Souza Homem, não podia ter nascido depois de 1485, o que se coaduna com a hipótese de ser a filha primogénita do doutor João de Faria. Como vimos, o prazo da quinta de Valmelhorado foi renovado a 30.4.1535, mas isso não significa que Manuel de Souza Homem tenha falecido nesta data, até porque o prazo teria sido feito pelo abade comendatário Afonso de Faria à irmã ou ao casal, em 1ª vida, pelo que 1535 deve ser a data da morte dela. Assim, Catarina de Faria podia bem ter nascido cerca de 1485, e ter casado a 1ª vez cerca de 1498 com Manuel de Souza Homem, que, como refiro no meu livro "Ascendências Visienses", seria um dos filhos mais novos da morgada de Bordonhos D. Isabel de Souza (Homem) e seu marido Fradique Lopes de Alvim, alcaide-mor de Chaves. E ter casado 2ª vez cerca de 1515 com Francisco de Mello, de quem foi a 1ª mulher. Este Francisco de Mello era um dos filhos mais novos de Estêvão Soares de Mello, 7º senhor de Mello (9.9.1483, confirmado a 3.4.1499), etc. A 25.10.1513 Francisco de Melo fez procurador seu irmão Jorge de Melo para lhe cobrar todas as moradias e tenças que lhe eram devidas. Do seu casamento com Catarina de Faria teve Francisco de Melo um filho e uma filha, sendo ele Estêvão Soares de Mello, sucessor. De Catarina de Faria e seu 1º marido Manuel de Souza Homem diz MFS que foi também filho Estácio de Faria, seu avô materno. MFS, segundo diz o próprio, nasceu em Março de 1590 e era o filho mais velho, o que significa que sua mãe, mesmo casando tarde, não nasceu antes de 1565. Ora, como vimos, um bisneto de Catarina de Faria e Manuel de Souza Homem casou a 21.2.1556. Para ser filho de Catarina de Faria e Manuel de Souza Homem, Estácio de Faria não podia ter nascido muito depois de 1505. Segundo o próprio neto, Estácio de Faria não casou mas teve filhos de duas mulheres, primeiro numa de Lisboa, e depois noutra de Pombeiro, chamada Francisca Ribeiro, sendo sua mãe filha desta última. Portanto, a mãe de MFS, Luiza de Faria (casada com Amador Peres de Eiró), terá nascido já o pai tinha mais de 60 anos de idade. O desconhecimento directo que MFS parece ter sobre a filiação da bisavó Catarina de Faria resulta assim não só da ilegitimidade da mãe como também do facto de seguramente não ter sequer chegado a conhecer o avô Estácio, falecido antes do seu nascimento.

1.1.1.2.4.1.2  João de Faria, comendador do mosteiro de Travanca na Ordem de Cristo, s.g. MFS não lhe sabia o nome, mas julgo que era João, como o pai, mais concretamente o João de Faria, criado que foi do prior do Crato, já falecido, que a 7.1.1512 teve confirmação de cavaleiro, pela apresentação de um alvará de Nuno Fernandes de Ataíde, do Conselho, capitão e governador de Safim, por merecimento na entrada que fez em Almedina.

1.1.1.2.4.1.3   Afonso de Faria, abade comendatário do mosteiro de Pombeiro, s.g.

1.1.1.2.4.1.4  Luiz de Faria, comendador de Carrazedo na Ordem de Cristo, casado com D. Guiomar de Miranda, c.g.

1.1.1.2.4.1.5  Paulo de Faria, comendador de Azamor, s.g. Talvez o doutor Paulo de Faria, ouvidor de Braga, que a 23.1.1534 escreveu a D. João III sobre o procedimento de algumas pessoas daquela cidade.   

1.1.2 (L) Fernão Gonçalves de Faria, escudeiro do Infante D. Henrique, que foi almoxarife do reguengo de Algés (18.5.1455), e ainda vivia velho e doente a 6.7.1463. Com efeito, n. cerca de 1383 e foi legitimado com seus irmãos em 1386 como Fernão Gonçalves. A 26.3.1440 D. Afonso V perdoou a justiça régia a Gil Gonçalves, criado de Fernão de Faria, acusado de ter praticado malefícios, na sequência do perdão geral outorgado para reduzir o despovoamento de alguns lugares do reino. A 18.5.1455 nomeou Fernão Gonçalves de Faria, escudeiro do Infante D. Henrique, para o cargo de almoxarife do reguengo de Algés, termo da cidade de Lisboa, concedendo-lhe 600 reais para mantimento do seu ofício. A 6.7.1463 nomeou Martim Ferreira, escudeiro da sua Casa, morador na cidade de Lisboa, para o cargo de almoxarife do reguengo de Algés, termo de Lisboa, sem qualquer mantimento, em substituição de Fernão Gonçalves de Faria, escudeiro que foi do Infante D. Henrique, que se retirara devido à idade e problemas de visão, com o direito de usufruir do referido mantimento.

1.1.3.  (L) Nuno (Gonçalves) de Faria, n. cerca de 1385, foi legitimado com seus irmãos em 1386 como Nuno Gonçalves. Mas é certamente o Nuno de Faria, criado de D. João I, que se documenta juiz na Guarda e Braga, fal. em 1441. A 10.1.1440 D. Afonso V confirmou a nomeação de Nuno de Faria, criado de D. João I, no cargo de juiz dos órfãos e judeus e das sisas régias da cidade da Guarda e julgados de Lanhoso, Regalados, Vila Chã, Bouro, Prado e de Entre-Homem-e-Cávado, com o mantimento de 15.000 libras (insertas carta de D. Duarte de 7.12.1433, 4.3.1434, e 18.3.1436, e de D. João I  de 13.11.1437). A 4.9.1441 o mesmo rei confirmou a nomeação de Rodrigo Eanes, feita pelos juízes, vereadores, procuradores do concelho e homens-bons da cidade de Braga, a pedido do arcebispo D. Fernando, no cargo de juiz dos órfãos da dita cidade e nos julgados de Lanhoso, Regalados, Prado, Entre-Homem-e-Cávado, Beiro e Vila Chã, em substituição de Nuno de Faria. A 12.4.1441 nomeou Vicente Pires, escudeiro do arcebispo de Braga, para o cargo de juiz das sisas régias, dos judeus e resíduos da cidade de Braga, termos e julgados, em substituição de Nuno de Faria, criado de D. João I, que morrera. E a 22.4.1441 nomeou Lopo Correa, escudeiro, para juiz dos órfãos na vila do Prado e seu termo, a pedido dos juízes, vereadores, procurador e homens bons dessa vila, em substituição de Nuno de Faria, vassalo do rei, que morrera. As genealogias não lhe referem estes cargos, nem mulher ou filhos, mas julgo ser o progenitor dos Faria de Braga e Barcelos. Talvez casado com Tereza de Meira, como se diz a propósito de seu proposto filho Gonçalo.

1.1.3.1. ?Gonçalo de Faria, n. cerca de 1420, que parece filho de Nuno de Faria. A 3.4.1474 D.Afonso V doou a Gonçalo de Faria, juiz das sisas de Vila Verde, uma tença anual no valor de 1.200 reais de prata. Em 1484 D. João II nomeou Gonçalo de Faria almoxarife dos direitos reais (29.6.1484) e dos panos (Abril de 1486) de Barcelos. MFS chama-lhe erradamente (deliberadamente?) Gonçalo Afonso de Faria, e di-lo filho de Vasco Afonso de Faria, referido adiante, onde veremos que se documenta morador em Messejana de Campo de Ourique, portanto bem longe de Barcelos, onde MFS diz que Vasco Afonso de Faria viveu e casou com Tereza de Meira. Como quem se documenta nesta região é Nuno de Faria, provavelmente este Nuno é que casou com Tereza de Meira, se é que esta Tereza tem algum fundamento.

1.1.3.1.1.  ?Pedro de Faria, n. cerca de 1450, que as genealogias não referem mas que julgo filho de Gonçalo de Faria. A 15.4.1496 Pedro de Faria, escudeiro, morador na vila de Barcelos, teve confirmação como procurador e poborador [sic] dos reguengos dessa vila, com mantimento anual de 16 alqueires de trigo, 26 alqueires de milho, 22 alqueires de centeio e 20 almudes de vinho. Terá casado com uma (Tereza) Afonso.

1.1.3.1.1.1 ?Tereza Afonso, que segundo MFS casou com o doutor Fernando Rodrigues da Cana, c.g. nos Faria de Barcelos, que talvez seja o Fernando Rodrigues que foi procurador (2.10.1483) e escrivão das obras (3.10.1483) de Barcelos. Destes foi filho Pedro de Faria, morador em Barcelos, cujo neto Pedro de Faria, também natural de Barcelos, teve a 10.2.1624 carta de armas para Faria. Aquele Pedro de Faria é certamente o homónimo, recebedor da vila de Barcelos, que a 28.5.1522 e 20.1.1524 teve do duque procuração bastante para receber 225.000 reais que estavam registados no almoxarifado de Ponte de Lima.   

1.1.3.1.1.2. ?Fernão Gonçalves de Faria, n. cerca de 1487 em Barcelos, que foi ouvidor do rei em Mesão Frio e depois de viúvo abade de Cerva. MFS não o refere. Gaio refere-o como Fernão de Faria, abade, irmão de Tereza Afonso. Casou cerca 1519 com Isabel Borges de Souza, que refiro no meu livro "Ascendências Visienses", c.g.

1.1.3.2. ?Heitor Nunes de Faria, não referido nas genealogias, abade da igreja de Santa Maria de Galegos do arcebispado de Braga. A 1.8.1471 D. Afonso V legitimou Isabel Nunes de Faria, filha de Heitor Nunes de Faria, abade da igreja de Santa Maria de Galegos do arcebispado de Braga, e de Maria Álvares, mulher solteira, a pedido de seu pai (instrumento público de 30.1.1470). Portanto, teve de Maria Álvares.

1.1.3.2.1.  (L) Isabel Nunes de Faria, não referida nas genealogias, legitimada por carta real de 1.8.1471.

1.1.4. (L) Violante Nunes (de Faria), n. cerca de 1386 e legitimada por carta real de 28.1.1388, havida em Aldonça Vasques.

 

1.2. Álvaro Gonçalves de Faria, n. cerca 1339, filho de Nuno Gonçalves. Esteve com seu filho em Aljubarrota, segundo Fernão Lopes. MFS refere, desentroncado, um Álvaro Garcia de Faria que esteve em Aljubarrota, onde foi armado cavaleiro, mas deve ser má leitura da abreviatura de Garcia por Gonçalves. Ao contrário do que acontece com seus alegados irmãos, não se documenta este Álvaro Gonçalves de Faria nem mereceu qualquer mercê real. Salvo se é o Álvaro Gonçalves (sem Faria), escudeiro, a quem D. João I deu a 6.2.1385 os bens móveis e de raiz de Gonçalo Anes da Fonseca, que andava em deserviço, ou o Álvaro Gonçalves (sem Faria), cavaleiro, vassalo e alcaide-mor de Elvas, a quem o mesmo rei a 23.12.1392 deu as rendas do mordomado e judiaria desta vila enquanto fosse alcaide e a 3.2.1394 confirmou o couto da herdade do Azinhal, entre Elvas e Arronches, que fora de Pedro Anes Sotil (pelo que este Álvaro Gonçalves terá casado como uma sua filha). MFS diz que este Álvaro Gonçalves de Faria casou com uma D. Maria de Souza, coisa para muito se duvidar. D. Maria essa que não filia, o mesmo fazendo Afonso de Torres e Alão, mas que as genealogias posteriores trataram de filiar no pobre mestre D. Frei Lopo Dias de Souza, que tem as costas largas, o que não tem qualquer fundamento. O mais provável é que todos os filhos de Álvaro Gonçalves sejam de Senhorinha Fernandes, que aparece como sua mulher e mãe de Diogo Álvares, escudeiro, morador em S. Romão de Milhazes, como se vê num documento do arquivo da Real Colegiada de Barcelos publicado por José de Azevedo e Menezes ("Ninharias", 1912): em 1424 o abade de dita igreja apresentou o testamento da antedita Senhorinha Fernandes, no qual deixara bens à sua igreja, onde vem referida como "molher q ffora daluoro gonçaluez de ffaria e madre do dicto diego aluarez". O que, aliás, indica que Álvaro Gonçalves terá herdado os bens de Milhazes, que pelo menos em parte terão passado a este seu filho. De resto, os filhos de Álvaro Gonçalves que se documentam têm um estatuto demasiado baixo para serem filhos de uma Souza, e muito menos netos de D. Frei Lopo Dias.

1.2.1.  João Álvares de Faria, n. cerca de 1370, que esteve com seu pai em Aljubarrota (1385), segundo Fernão Lopes. Nas chancelarias de D. João I e D. Duarte não aparece. Mas a 16.11.1449 D. Afonso V perdoou as penas a João Rodrigues Pereira, fidalgo da sua Casa, e João Álvares de Faria, seu escudeiro, acusados da morte de Rui Nogueira, atendendo a já terem cumprido quatro anos de degredo em Ceuta. Trata-se certamente do mesmo João Álvares de Faria, apesar de então ter já cerca de 79 anos de idade. Com efeito, aquele João Rodrigues Pereira era sobrinho do condestável D. Nuno Álvares e era pouco mais velho do que João Álvares de Faria, pois nasceu cerca de 1368, tendo seu pai sido morto em Aljubarrota, onde se bateu pelo lado de Castela. É assim possível que João Álvares de Faria se tenha mantido seu escudeiro toda a vida, sendo que não se documenta noutras circunstâncias. Acresce que estes Faria, sobretudo os filhos de Álvaro Gonçalves que se documentam, tinham um estatuto muito baixo. Segundo MFS casou com a filha de um cidadão de Lisboa.

1.2.1.1. Álvaro de Faria, n. cerca de 1405 e fal. depois de 1466, cavaleiro da Casa Real e estribeiro-mor. Deve ser este (e não seu primo o comendador Álvaro de Faria, referido acima, também cavaleiro da Casa Real na mesma altura) o Álvaro de Faria que em 1462 era cavaleiro fidalgo da Casa de D. Afonso V com 1.350 reais de moradia (ACS/P). A 19.11.1466 D. Afonso V nomeou, por três anos, Álvaro de Faria, cavaleiro da sua Casa, estribeiro-mor, para o cargo de coudel da vila de Alenquer e seu termo, em substituição de João Borges, que terminara o seu tempo de serviço. E na mesma data nomeou por três anos Afonso Lopes, morador nos lugares de Seia e do Casal, criado de Álvaro de Faria, cavaleiro da sua Casa, estribeiro-mor, para o cargo de escrivão da coudelaria nos ditos lugares e seus termos, em substituição de Gonçalo de Paiva, que morrera. MFS diz que casou com D. Isabel da Silva, que não filia, o que parece verídico. Com efeito, a subida de estatuto deste ramo parece dever-se justamente a este casamento, bem assim como o cargo de estribeiro-mor. Mas quem era esta Isabel da Silva? Não tenho grandes dúvidas de que era filha de Fernão da Silva, justamente estribeiro-mor. Com efeito, a 7.7.1462 D. Afonso V legitimou e habilitou Afonso da Silva, Jorge da Silva, Diogo da Silva e Isabel da Silva, filhos de Fernão da Silva, cavaleiro da sua Casa, estribeiro-mor, e de Eiria Álvares, concedendo-lhes todas as honras, privilégios, liberdades, dignidades, podendo exercer ofícios públicos e privados, herdarem todos os bens que pertenceram a seus pais, entre outros, bem como lhes concedeu privilégio de nobreza, a pedido de seu pai (é referido o instrumento público de legitimação de 29.6.1462). Esta Isabel, que tal como os irmãos já era casada quando foi legitimada, embora isso infelizmente não seja referido na carta, deve portanto ser a mulher de Álvaro de Faria, que justamente na sequência desta legitimação terá sido estribeiro-mor. Mas este Fernão da Silva não é quem as genealogias tardias dizem, que o fazem casado com Eria Álvares de Azevedo e filho de Gonçalo Gomes da Silva, senhor de Vagos. Na verdade, a 19.3.1462 D. Afonso V perdoou a justiça régia a Mem Rodrigues, cavaleiro da sua Casa, a Fernão Gomes, seu sobrinho, e a Vicente Eanes, homem do dito Mem Rodrigues, por querelas que deles deram Fernão da Silva, Eiria Álvares, servidora do dito Fernão da Silva, e João Afonso, todos moradores na vila de Elvas, mediante o perdão das partes. Portanto, Eiria Álvares não só não era Azevedo como era servidora (criada na acepção moderna) de Fernão da Silva, que vivia em Elvas. Mas, pesquisando mais verificamos que a 17.3.1472 o mesmo rei perdoou a justiça régia a Álvaro Lourenço, morador na vila de Elvas, acusado de ter ferido Violante Álvares, mulher solteira, de ter ferido Inez, sobrinha de Eiria Álvares, mulher de Fernão da Silva, de jogar aos dados e outros jogos, de renegar  Deus e Santa Maria, de não ter cumprido os degredos a que fora condenado, pela fuga da prisão, mediante o perdão das partes e na sequência do perdão geral outorgado aos que foram na conquista da vila de Arzila e da cidade de Tânger. Ou seja, entre 7.7.1462 e 17.3.1472 Fernão da Silva e Eiria Álvares casaram, já velhos. Sendo provável que o tivessem feito mesmo em 1472, pois a 30.6.1473 D. Afonso V confirma a doação a Fernão da Silva, cavaleiro da sua Casa régia, morador na vila de Elvas, de 12.000 reais de prata, em satisfação dos seus serviços e do seu casamento (inserta carta de 9.7.1449 sobre seus serviços). Verificando-se que Fernão da Silva já vivia em Elvas pelo menos desde 25.11.1451, data em que o mesmo rei privilegia o rabi Çad e Hordonha, sua mulher, judeus, moradores na vila de Elvas, a pedido de Fernão da Silva, cavaleiro da sua Casa, autorizando-os a viver fora da judiaria junto com os cristãos. E que foi vedor dos vassalos de Elvas, pois a 1.5.1456 o rei nomeou Álvaro de Abreu, cavaleiro da Casa do infante D. Henrique, morador na vila de Elvas, para o cargo de vedor dos vassalos de Elvas, em substituição de Fernão da Silva, cavaleiro, morador na dita vila, que o perdeu por erros no ofício. Mas de quem era filho Fernão da Silva? De Gonçalo Gomes da Silva, como dizem as genealogias tardias, não podia ser, pois este Gonçalo casou cerca de 1360 e Fernão da Silva não nasceu antes de 1400. Aliás, o LLXVI só dá a Gonçalo Gomes dois filhos homens: João e Diogo Gomes da Silva. Mas a resposta também se documenta: a 23.9.1475 D. Afonso V doou a  Rui de Mello, fidalgo da Casa do príncipe D. João, a tença de 12.000 reais que pertencia a Fernão da Silva, cavaleiro da sua Casa, morador na vila de Elvas, que era seu tio e que pediu ao monarca que lhe desse a dita tença. Ora, esta Rui de Mello é o futuro conde de Olivença (21.7.1476), casado em 1457 com D. Isabel de Menezes, filha de Aires Gomes da Silva e neta do referido João Gomes da Silva (filho de Gonçalo Gomes da Silva). Fernão da Silva era portanto tio por afinidade de Rui de Mello, ou seja, meio-irmão Aires Gomes da Silva, portanto filho bastardo de João Gomes da Silva e de Catarina Fernandes. O LLXVI apenas indica como bastardos de João Gomes da Silva a Diogo da Silva (legitimado a 8.2.1439, que acabou por suceder como senhor de Vagos), Pedro da Silva (que também se documenta) e Lopo da Silva. Mas falta Fernão da Silva. De referir, ainda, que aquela D. Isabel de Menezes era irmã de João da Silva, camareiro-mor de D.João II, a cujo pedido Antão de Faria, alegado neto mas proposto filho desta Isabel da Silva, foi feito camareiro e guarda-roupa do dito príncipe, como se diz adiante. Ainda sobre Álvaro de Faria, verifica-se que a 5.6.1466 D. Afonso V nomeou Pedro Feio, cavaleiro da sua Casa, estribeiro-mor em substituição de seu tio. Ora, como a 19.11.1466 Álvaro de Faria já se documenta com o cargo, parece ser ele este tio, substituído por qualquer impedimento. E a 20.12.1470 o mesmo rei doou a Pedro Feio, cavaleiro da sua Casa, estribeiro-mor, uma tença de 3.600 reais de prata, o que significa que continuava no cargo. Por outro lado, como veremos adiante, a 23.2.1468 foi nomeado Garcia de Faria, escudeiro da Casa Real, filho de para o cargo de estribeiro-mor, portanto sucedendo a seu pai. É certo que existiam vários estribeiros-mores, do rei, do príncipe D. João, da rainha, e dos infantes. Mas neste caso eram estribeiros-mores do rei, pelo que na mesma época ocuparam o cargo pelo menos duas pessoas. Como Pedro Feio podia ser sobrinho de Álvaro de Faria não descobri, se bem que, a sê-lo, só podia ser casado com uma filha de um dos irmãos de Isabel da Silva, uma vez que o cargo vinha por este lado.

1.2.1.1.1.  Lourenço de Faria, n. cerca de 1440 e fal. cerca de 1511, fidalgo da Casa Real que acompanhou o príncipe herdeiro D. João à batalha de Toro (1474), como alferes dos estandartes, e foi senhor casais de Belide e Figueira, no termo de Montemor-o-Velho (15.6.1478). MFS diz que foi alferes-mor do príncipe D. João, e depois seu monteiro-mor e alcaide-mor de Portel e senhor de Evoramonte. Mas nada disto se documenta, bem pelo contrário. Alcaide-mor de Portel foi João de Faria, referido acima. Senhor de Evoramonte foi seu irmão Antão. E ele foi apenas monteiro do príncipe e depois seu alferes do estandarte (porta-estandarte), com quem foi a Toro. A 22.3.1468 D. Afonso V nomeou Lourenço de Faria, escudeiro da sua Casa, para o cargo de monteiro do príncipe D. João, assim como foram os outros monteiros. E a 10.12.1472 nomeou Lourenço de Faria, monteiro do príncipe, para o cargo de administrador da capela do Vimieiro, em substituição de Gonçalo Gomes, oleiro, morador em Évora, que não possuía o dito título. Após a batalha de Toro, o príncipe herdeiro D. João concedeu a Lourenço de Faria os casais que adiante se referem, no termo de Montemor-o-Velho, salientando: "Considerando nós os muitos extremados serviços que temos recebido de Lourenço de Faria, fidalgo da nossa Casa, assim nas partes de África como na frontaria destes ditos reinos, havendo guerra entre eles e os de Castela, e em espacial o extremado e assinalado serviço, digno de perpetua lembrança, que nos fez na batalha que el rei meu senhor e nós houvemos com el rei D. Fernando de Secilia entre Samora e Toro, em a qual, sendo ele alferes de nosso estandarte, se houve tão viril e cavaleirosamente que, onde geralmente nas semelhantes coisas, os que tais carregos levam soem de ser requeridos e espertados, que se cheguem e ponham aos estandartes e bandeiras nos lugares de perigo, ele, como cavaleiro de coração e esforço, nos mais perigosos tempos e de maior necessidade, requeria que o acompanhassem e rompia pelos inimigos, e tudo isto em nossa presença, continuando assim até que a Nosso Senhor prouve de os inimigos nos deixarem o campo, onde com gloriosa vitoria nele ficamos vencedores". A 22.6.1497 Lourenço de Faria, fidalgo da Casa Real, foi confirmado no cargo de alferes do estandarte, e na mesma data foi-lhe dada carta de confirmação de uma tença que tinha de 10.000 reais, a qual não estava escrita nos livros da fazenda. A 19 do mês anterior Lourenço de Faria, fidalgo da Casa Real, teve carta de confirmação da doação, "para ele e para um seu filho legítimo que ele nomear ao tempo de seu falecimento, dos casais de Belide e Figueira, com o casal do Carvalhal e o Cercal e com a azenha e as Avitoreiras, tudo no termo da vila de Montemor-o-Velho, com todos os seus reguengos, rendas, foros, portagens e direitos, usos e costumes que com eles sempre andaram, e não tendo filho legítimo, que nomeie qualquer filha legítima, a qual casará com pessoa nossa ou de que nós ou meu filho e herdeiros sejamos contentes", conforme carta inserta de D. João II, dada em Montemor-o-Novo a 15.6.1478. A 29.7.1501 Lourenço de Faria, fidalgo da Casa Real, teve confirmação do aforamento de umas casas na freguesia da Sé, com a obrigação de pagar 4 reais de prata. A 23.8.1502 Lourenço de Faria, fidalgo da Casa Real, teve a administração da capela que ele tem na Azinhaga para o filho que ele nomear, com a obrigação de cumprir com todos os encargos da instituição dela. Fal. cerca de 1511, ano em que seu filho Simão recebeu tença de 10.000 reais, por falecimento de seu pai. MFS, Afonso de Torres e Alão desconhecem o nome da mulher e não encontrei documento que a referisse.        

1.2.1.1.1.1   D. Catarina de Faria, freira em S. Bento

1.2.1.1.1.2. D. Guiomar de Faria casada com António da Silva, filho de Diogo da Silva.

1.2.1.1.1.3. D. Álvaro de Faria, n. cerca de 1478, que MFS diz que foi bispo de Lamego.

1.2.1.1.1.4. Simão de Faria, n. cerca de 1479, que MFS diz que foi monteiro-mor de D.João II, o que não se documenta, nem de resto teria idade para tanto. D.João III fez-lhe em 1529 confirmação dos casais de Belida e Figueira, na vila de Montemor-o-Velho, que tinham sido de seu pai, bem assim como lhe deu uma tença de 10.000 reais e uma carta para poder andar de mula. Mas tinha outra tença igual, pois a 21.8.1511 Simão de Faria, fidalgo da Casa Real, teve uma tença anual de 10.000 reais, que vagou por falecimento de seu pai, Lourenço de Faria. Desde 1513, sendo então referido apenas como Simão de Faria, filho de Lourenço de Faria, que teve sucessivas provisões para receber esta tença. Na provisão de 18.7.1515 já vem referido como fidalgo da Casa Real. Afonso de Torres diz que teve foro de fidalgo da Casa Real com 1.600 reais de moradia em 1518, mas deve ser, portanto, acrescento de moradia, pois já tinha foro pelo menos desde 1511. Ainda em 1514 passou recibo (que assinou) de 40.000 reais que recebeu da sisa do pescado. Continuou a ter provisão para receber a sua tença de 10.000 reais nos anos subsequentes, tença que passa a 20.000 reais em 1526, sendo paga na alfândega de Buarcos e no almoxarifado de Coimbra. Casou a 1ª vez com D. Filipa de Souza e a 2ª vez com D. Filipa de Figueiredo, irmã de Rui de Figueiredo, fidalgo da Casa Real, que instituiu o morgadio da Lobagueira e comprou a quintã da torre da Ota, que instituiu em morgadio. C.g.

1.2.1.1.1.5. Duarte de Faria, que MFS diz que casou mas não indica a mulher. Afonso de Torres diz que teve foro de cavaleiro fidalgo da Casa Real em 1518. A 3.8.1538 D. João III mandou pagar a Duarte de Faria, cavaleiro fidalgo de sua Casa, 2.000 reais que se lhe deviam. E deve ser o homónimo que D. João III nomeou escrivão da feitoria de Ormuz. 

1.2.1.1.1.6.  (N) Francisco de Faria, bastardo, que serviu D. Jorge, mestre da Ordem de Santiago. A 18.5.1513 Afonso Rodrigues, criado de Francisco de Faria, viu confirmado o alvará do conde do Redondo pelo qual, e por ele o merecer, este o armou cavaleiro em Arzila. E a 11 de Agosto do mesmo ano Lopo Martins, morador em Vila Viçosa, viu confirmado o alvará do mesmo duque que o armou cavaleiro em Azamor, tendo para o efeito delegado poderes em Francisco de Faria.

1.2.1.1.2 Garcia de Faria, n. cerca de 1441, nomeado por MFS, que nada adianta sobre ele, embora o dê, bem assim como a seu irmão Antão, como filhos de Lourenço. Mas a cronologia só permite que fossem irmãos, portanto filhos de Álvaro. A 23.2.1468 D.Afonso V nomeou Garcia de Faria, escudeiro da sua Casa, para os cargos de estribeiro-mor e encarregado de receber todas as azémolas do príncipe D. João, na sequência da renuncia feita a seu favor por Rui Velho, cavaleiro da Ordem de Cristo.

1.2.1.1.3. Antão de Faria, do Conselho de D. Manuel I, camareiro-mor, cevadeiro-mor e armador-mor, alcaide-mor de Palmela, senhor e alcaide-mor de Evoramonte (20.3.1490), n. cerca de 1442 e fal. depois de 1503. A 3.6.1469 D. Afonso V nomeou Antão da Faria, a pedido de João da Silva, camareiro-mor do príncipe D. João, para os cargos de camareiro e guarda-roupa do dito príncipe, com todas as honras, privilégios, liberdades, foros, tributos, graças e mercês. A 29.12.1475 o mesmo rei privilegiou Antão de Faria, camareiro do príncipe D. João, cevadeiro-mor e armador-mor, isentando-o de servir por mar ou terra, em tempo de paz ou guerra, de quaisquer impostos e encargos concelhios onde morar, de ir com presos e dinheiros, de ser citado, acusado e demandado, de ser posto por besteiro do conto, da vintena do mar, bem como isenta os seus caseiros, amos, mordomos e apaniguados de serem tutores e curadores, do direito de pousada, entre outros. E a 21.1.1480 confirmou o escambo a Antão de Faria, camareiro do príncipe, de umas casas situadas à porta de Santa Cruz, por uma estrebaria de azémolas situada na cidade de Lisboa. Numa carta sem data, D. Afonso V nomeou Antão de Faria, camareiro-mor, armador-mor, para  o cargo de alcaide-mor do castelo e vila de Palmela, com suas rendas, direitos e foros, bem como com todas as honras, privilégios e liberdades que tinha o seu antecessor, Nuno da Cunha, que morrera. D. João II deu-lhe carta de quitação (25.7.1482), mercê para vestiaria de lã e seda (13.11.1482), um chão nos Olivais (5.5.1486), outros bens (9.1.1486) e carta de privilégio (2.5.1486). A 16.5.1497 é confirmado a Antão de Faria o privilégio dado por D. João II a 20.10.1486, que concede várias isenções aos rendeiros de suas rendas, entre elas o não pagarem peitas, pedidos, talhas, fintas, não prestarem serviços ao concelho e não servirem na guerra, excepto com o rei ou com o príncipe. E a 27.4.1496 Antão de Faria, do Conselho, camareiro, cevadeiro-mor e armador-mor, teve confirmação do privilégio pelo qual é escusado, entre outras isenções, do pagamento de fintas, talhas, aduas, e outros encargos que pelos moradores dos lugares onde ele estiver forem lançados assim para o rei, como para a guerra ou para as necessidades dos concelhos (insertas cartas de 29.12.1475 e de 27.4.1486). A 24.5.1497 Antão de Faria, do Conselho, teve 119.000 reais de tença em satisfação dos serviços de camareiro e cevadeiro-mor de D.João II. A 8.2.1498 Antão de Faria, do Conselho, camareiro-mor que foi de D.João II, teve carta de quitação pelo que recebeu.  A 20.3.1498  Antão de Faria, cavaleiro do Conselho e camareiro-mor de D. João II, teve padrão de 170.000 reais de tença em satisfação das rendas e direitos da vila de Evoramonte. A 30.6.1502 Antão de Faria teve quitação dos 972.000 reais que recebeu de D. João II, pelos quais deu conta do que despendeu, a saber: 912.000 reais para casar órfãs e tirar cativos, e 60.000 reais para se dizerem 3.000 missas por alma do rei. A 11.3.1503 Antão de Faria, do Conselho do rei, teve de D. Manuel I provisão para receber a 12.000 reais de graça por tença. A 7.8.1503 Antão de Faria passou recibo em que consta ter recebido de Lopo Fernandes 6.000 reais. Segundo MFS casou com Leonor Gonçalves de Oliveira.    

1.2.1.1.3.1.  Francisco de Faria, que sucedeu como senhor e alcaide-mor de Évoramonte. A 20.3.1515 Francisco de Faria, fidalgo, teve confirmação da doação das rendas e direitos da vila de Evoramonte e sua alcadaria, dos direitos e da sisa judenga das vilas de Santiago do Cacém, Sines e seus termos, de Mértola e de todas as vilas e lugares de Campo de Ourique, por morte de seu pai (inserto o alvará de 20.3.1490 da doação de D. João II a Antão de Faria, do Conselho e camareiro). Casou com D. Joana de Castro, que ele matou, c.g.

1.2.1.1.3.2. Simão de Faria, comendatário do mosteiro de Cete, protonotário apostólico, abade de Stª Marinha de Nespereira e de Santa Maria de Valada, esteve em Roma e deixou filhos. A 26.2.1502 Simão de Faria, filho de Antão de Faria, do Conselho, teve confirmação da apresentação como prior da igreja de Santa Maria de Valada. A 1.2.1545 o bispo de Lamego escreveu D. João III sobre a vida escandalosa de Simão de Faria, acusando-o de tentar matar o bispo do Porto.

1.2.1.1.3.3.  Álvaro de Faria, morto em Safim com seu cunhado. Deve ser o Álvaro de Faria, criado de D. António, sobrinho do rei, escrivão da puridade, que a 12.8.1512 teve confirmação de um alvará de cavaleiro passado por D.Vasco, governador de Arzila, por ter estado com ele na tomada desta vila, com os privilégios habituais inerentes ao título.

1.2.1.1.3.4. D. Joana de Faria, n. cerca de 1475, que a 12.1.1517 teve mercê das rendas e direitos da Ameixoeira e de uma tença de 100.000 reais, em remuneração dos serviços de seu marido Nuno Fernandes de Ataíde, que foi capitão na cidade de Safim e faleceu na guerra dos mouros. A 2.6.1513 D. Manuel I confirmou o contrato de casamento entre D. Afonso, filho do conde D.Sancho de Noronha e da condessa D. Francisca, com D. Maria de Ataíde, filha dos ditos Nuno Fernandes de Ataíde e sua mulher D. Joana de Faria.

1.2.1.2. Afonso Anes de Faria, segundo MFS. Na carta de armas de seu bisneto, que não o filia, diz-se que foi que foi fidalgo muito honrado e do verdadeiro tronco desta geração. N. cerca de 1406, terá sido juiz das sisas e sesmeiro de Sagres e fal. em 1471, pois deve ser o Afonso de Faria por cuja morte foi a 16.12.1471 substituído por Martim Gonçalves, morador na vila de Sagres, no cargo de juiz das sisas régias e sesmeiro nessa vila. MFS, que não lhe indica mulher, mas pelo prenome e patronímico do filho devia ser filha de um Fernão Dias.

1.2.1.2.1. Fernão Dias de Faria, n. cerca de 1430, que MFS dá como filho de Afonso Anes de Faria e é como tal referido na carta de armas de seu neto.

1.2.1.2.1.1. Álvaro Fernandes de Faria, n. cerca de 1453, referido na carta de armas do filho. MFS diz que serviu D. João II, o que a cronologia permite, embora não conste na respectiva chancelaria. Segundo MFS, casou com Catarina Frade, o que em parte se confirma no nome do filho. 

1.2.1.2.2.1.1. António Frade de Faria, n. cerca de 1478 e fal. depois de 2.4.1539, data em que teve carta de armas para Faria, onde vem referido como fidalgo da Casa Real, filho de Álvaro Fernandes de Faria, neto de Fernão Dias de Faria e bisneto de Afonso Anes de Faria, que foi fidalgo muito honrado e do verdadeiro tronco desta geração. Por esta carta D. João III reconhece-lhe o seguinte brasão de seus antecessores: escudo de campo vermelho e uma torre de prata com as portas e frestas de preto, entre cinco flores de lis de prata, três em chefe e duas em faxa, e por diferença um crescente de ouro, elmo de prata aberto guarnecido de ouro, paquife de prata e vermelho, e por timbre a mesma torre com uma das flores de lis em cima; com todas as honras e privilégios de fidalgo por descender da geração e linhagem dos Faria (CJIII, 27, 53v). MFS diz que foi camareiro do infante D. Duarte (filho de D. Manuel I). Podia ser o António Frade que D. João III nomeou escrivão das sisas de Pampilhosa, tabelião de Salvaterra de Magos e juiz das sisas de Cedavim. Em alternativa, este António Frade seria irmão de sua mãe. Segundo MFS casou com Leonor de Faria, sua provável prima, filha de António Rangel e sua mulher Justa de Faria. C.g. nos Faria Severim.

1.2.1.2.2. Vasco Afonso de Faria, segundo MFS. A 9.7.1450 D. Afonso V privilegiou Vasco Afonso de Faria, morador na vila da Messejana, mudando-lhe o degredo de três anos na cidade de Ceuta por seis anos no couto de Monsaraz, e concedeu-lhe carta de segurança por dois meses, contanto que durante esse tempo não entre no local onde Moussem Barrocas, judeu, morador na vila da Messejana, fora morto. E a 19.4.1454 D. Afonso V perdoou dois anos de degredo a Vasco Afonso de Faria, morador em Messejana de Campo de Ourique, dos seis a que fora condenado para o couto de Monsaraz, tendo pago 1.000 reais para a Piedade.

1.2.1.2.2.1. ?Vasco de Faria, escudeiro da Casa Real, não referido nas genealogias, seu possível filho. Foi juiz das sisas (5.5.1484), contador e inquiridor (10.5.1484) e almoxarife da alfândega (20.5.1484) de Atouguia da Baleia. A 25.4.1496 Vasco de Faria, escudeiro da Casa Real, foi confirmado por D.Manuel I no ofício de almoxarife da alfândega real da Atouguia da Baleia. E a 3.7.1500 teve mercê do oficio de contador dos feitos e custos e inquiridor da vila da Atouguia da Baleia. A 29.5.1502 Vasco de Faria, morador na vila de Atouguia, foi nomeado tabelião daí, enquanto Rui de Orta, a quem foi feita a mercê do ofício, não ocupar o lugar. Por denúncia de Vasco Faria, o anterior tabelião perdera o ofício por erros cometidos. Mas Vasco de Faria morreu pouco depois, sucedendo-lhe justamente o dito Rui de Orta… Com efeito, a 11.5.1504 foram notificados os juízes, concelho e homens bons da mercê de contador dos feitos e custas e inquiridor das inquirições judiciais de Atouguia da Baleia a Rui de Orta, escudeiro, morador nessa vila, como fora Vasco Faria, que falecera. E a 15 e 18 seguintes o mesmo Rui de Orta teve mercê do cargo de almoxarife da alfândega de Peniche e dos Paços da Serra, como fora Vasco de Faria, que falecera.

1.2.1.2.3. Pedro Álvares de Faria, que terá n. cerca de 1430 e deve ser o homónimo que em Março de 1486 teve carta de perdão de D. João II. MFS não lhe indica mulher, dizendo que lhe chamaram o Pencelo por viver no lugar deste nome, no termo de Guimarães, onde tinha uma quinta. Alão diz o mesmo e também não sabe o nome da mulher, que no entanto devia ser a senhora da dita quinta. Gaio diz que esta quinta se chamou da Aveleira e, com a habitual falta de sentido da cronologia, citando uma escritura de 1528 que Francisco Carneiro Sottomayor vira, diz que a mulher foi Catarina Álvares de Almada, filha de Pedro Álvares de Almada, que instituiu o morgado da Azenha, em Guimarães, e teve carta de armas novas a 4.5.1501. Este Pedro Álvares de Almada, cavaleiro fidalgo da Casa de D. João II, com carta de privilégio de 1.3.1490, era recebedor da alfândega do Porto em 1499, pois a 18.3.1502 recebeu quitação do que recebeu e despendeu durante esse ano nesse cargo, a saber, 3.243.569 reais e meio e 1.309.569 reais e meio. E ainda vivia em 1521, ano em que pagou o foro devido à Colegiada de Guimarães pela quinta de Margaride. Desde logo se vê, portanto, que este casamento é anacrónico e impossível, podendo porventura pertencer a um filho ou neto homónimo de Pedro Álvares de Faria.

1.2.1.2.3.1. João Álvares de Faria, n. cerca de 1453, que viveu na dita quinta da Aveleira, em S. João Baptista de Pencelo, que parece foi juiz dos órfãos de Guimarães. Nem MFS nem Alão indicam o nome da mulher. Mas Gaio diz que casou com Joana Coelho, filha do navegador Nicolau Coelho, que comandou uma nau da armada de Pedro Álvares Cabral que descobriu o Brasil e teve carta de armas novas a 20.5.1503. Desta feita Gaio pode estar certo, tendo em conta o nome do filho. MFS diz que João de Faria. que ficou acima, casou com uma senhora Coelho. Alão diz que esse João de Faria casou com esta Joana Coelho. Mas é mais provável que o marido tenha de facto sido este João Álvares. Se é que este usou o patronímico Álvares. Isto, apesar de Nicolau Coelho parecer demasiado tardio para ser avo de Nicolau de Faria, embora não se saiba na verdade quando nasceu este navegador que foi nobilitado e, como diz a carta de armas, tirado do conto plebeu. Para ser mãe de Nicolau de Faria, Joana Coelho não pode ter nascido depois de 1461, pelo que Nicolau Coelho não pode ter nascido depois de 1440, o que quer dizer que foi na armada do Brasil com pelo menos 60 anos de idade. Por outro lado, a confirmar-se este casamento, isso seguramente implicaria que Nicolau Coelho era de Guimarães ou, pelo menos, aí casou. Resta a hipótese de Joana Coelho não ser filha mas sim irmã de Nicolau Coelho, sendo então ambos de Guimarães.

1.2.1.2.3.1.1.   Nicolau de Faria, n. cerca de 1475, cavaleiro da Casa Real e da Ordem de Cristo, integrou a embaixada de Tristão da Cunha ao Papa Leão X. Já era estribeiro do rei em 1500 e desde 1520 foi contador da comarca da Guarda, tendo no interim tido o ofício de escrivão da sisa da marçaria de Lisboa. A 30.12.1500 o barão de Alvito ordenou ao almoxarife dos fornos da Porta da Cruz lhe desse a Nicolau de Faria, estribeiro do rei, dos farelos que ali houvesse, 428 alqueires em cada mês para os cavalos do dito senhor. Continuava no cargo quando a 15.4.1512 certificou em documento todas as coisas velhas pertencentes à estrebaria. A 7.2.1516 o barão de Alvito, vedor da fazenda, mandou o recebedor da chancelaria dar ao estribeiro Nicolau de Faria uma loba e pelote do pano que para isso tem. A 3.9.1514 escreveu a D. Manuel informando-o da conclusão das pazes entre França e Inglaterra. A 25.10.1518 Jorge de Freitas, filho de Duarte de Leão, foi nomeado escrivão da sisa da marçaria da dita Casa [não diz qual] de Lisboa quando tiver idade, assim como o fora Nicolau de Faria que renunciou nas mãos do rei. O instrumento de renúncia foi feito e assinado por João Bocarro, tabelião de Lisboa a 9.8.1518. Como não era de idade para servir o dito ofício deu-se licença para que seu pai servisse por ele. Nicolau de Faria havia vendido o cargo, com licença régia, a Gil Fernandes, escrivão das fianças, o que não se concretizou, pelo que se mandou trespassar em Jorge de Freitas, este pagou 30.000 reais de ordenado. A 11.1.1520 o barão de Alvito, vedor da fazenda, mandou Nicolau de Faria, cavaleiro da Casa Real e contador da comarca da Guarda, entregar a Antão Antunes, moço da estrebaria, o resto dos 20 mil réis que se deram para comprar fruta para o rei. A 22.7.1524 teve provisão para receber 12.000 reais de tença com o hábito de Cristo. A 3.1.1527 escreveu a D. João III informando-o que não podia mandar o rol das rendas dos lançamentos de sua comarca por não estarem ainda arrendadas nem se saber ainda o que rende o ano de que se lhe mandou pedir a conta, o que se fará logo que estiver arrendado. Nem MFS nem Alão lhe indicam o nome da mulher. C.g. 

1.2.1.2.3.1.2.  João Álvares de Faria, que MSF não refere e Alão dá, mas nada adianta.

1.2.1.2.3.1.3.  Nuno de Faria, referido por MSF, que nada adianta, e que Alão não contempla.

1.2.1.2.3.1.4.  Gonçalo de Faria, referido por MFS e Alão, que nada adiantam.

1.2.1.2.3.1.5. Briolanja de Faria, n. cerca de 1480, que MFS diz casada com Pedro Álvares do Vale e Alão com Pedro Vaz Golias. Referem-se possivelmente ao mesmo Pedro, já que Pedro Ribeiro Golias ou Pedro Vaz Golias, de Guimarães, que parece foi armado cavaleiro em Ceuta em 1505, era irmão de Catarina e Margarina Anes do Vale, todos filhos de João Afonso (Ribeiro), Golias de alcunha, juiz das sisas de Guimarães até 1490, onde foi senhor da casa de Torrados, e de sua 2ª mulher Isabel Vasques do Vale. C.g. (seu filho sucessor João Ribeiro de Faria casou em Guimarães com escritura de dote de 6.11.1531, segundo Gaio).

1.2.1.2.3.1.6. Beatriz de Faria, referida por MSF, que a diz casada com Francisco Novaes, de Guimarães. Destes faz filha a Catarina de Faria casada com Manuel de Souza Homem, já referidos, dizendo depois que o mais provável é que esta Catarina seja filha de João de Faria, comendador de Travanca, como segue. Como ficou dito, esta Catarina não podia ter nascido depois de 1485, pelo que, de facto, não podia ser filha desta Beatriz, mesmo que fosse a primogénita de João Álvares de Faria.

1.2.1.3. ?João de Faria, não referido nas genealogias, n. cerca de 1401. Já era coudel de Évora em 1434. A 3.1.1435 D. Duarte deu-lhe carta de privilégio para os seus caseiros, mordomos, apaniguados e lavradores. A 17.2.1439 D. Afonso V renomeou por cinco anos João de Faria para o cargo de coudel da cidade de Évora e seu termo, apesar do concelho e homens bons da dita cidade pedirem para ser retirado de coudel. A 4.1.1443 nomeou por cinco anos Fernão Cotrim, fidalgo do infante D. Pedro, para o cargo de coudel da cidade de Évora e seu termo, assim como o foi João de Faria. A 3.3.1450 nomeou por cinco anos João de Faria, escudeiro, seu vassalo, para o cargo de coudel da cidade de Évora, em substituição de Martim de Almeida, que terminara o seu tempo de serviço. A 29.5.1454 nomeou por cinco anos João Rodrigues Madado, escudeiro da sua Casa, para o cargo de coudel da cidade de Évora, em substituição de João de Faria, que terminara o seu tempo de serviço. A 9.10.1463 privilegiou Gonçalo Pires de Pigueiro, acontiado em cavalo, morador no termo da cidade de Évora, a pedido de João de Faria, escudeiro da sua Casa e seu criado, concedendo-lhe aposentação sem ter atingido a idade de 60 anos.

1.2.2.  Diogo Álvares (de Faria), escudeiro, n. cerca de 1378 e morador em S. Romão de Milhazes em 1424, como ficou dito. Pela onomástica e cronologia deve ser o pai dos que seguem.

1.2.2.1. ?Gomes Dias de Faria, não referido nas genealogias, seu possível filho, n. cerca de 1415. A 25.11.1472 D. Afonso V nomeou Gomes Dias de Faria, escudeiro, morador na vila de Arzila, para o cargo de escrivão do almoxarifado do armazém régio na dita vila, com a tença relativa ao ofício, em substituição de João Fernandes, escudeiro da sua Casa, que foi nomeado almoxarife do dito armazém. Teria então cerca 57 anos, mas estes cargos em praças de além-mar eram então dados a pessoas já com alguma idade, em fim de carreira militar.

1.2.3. ?Afonso Álvares de Faria, que MFS não entronca, mas que pela cronologia e onomástica só podia ser filho de Álvaro Gonçalves de Faria. Era alcaide-mor de Vimioso quando a 23.1.1415 D.João I lhe confirmou os ferragiais (pastagens) e as rendas dos tabeliães do Vimieiro.

1.2.4. ?Fernando Álvares de Faria, não referido pelas genealogias, mas que pela cronologia e onomástica só podia ser filho de Álvaro Gonçalves de Faria. N. cerca de 1375 e fal. depois de 1437. Era recebedor da alfândega de Lisboa em Abril de 1434, como se documenta, mas foi demitido e preso depois desta data, sendo-lhe confiscado os bens, por roubos que cometeu no desempenho do cargo. A 19.6.1437, contudo, D. Duarte, querendo "obrar de mjsericordia e piedade", mandou-o soltar, devolvendo-lhe, a ele, sua mulher e filhos, a quinta da Atalaia com suas pertenças, o casal da Curujeira, a quinta de Sarilhos Pequenos, que lhe fora dada em dote de casamento com Leonor de Gurizo, sua mulher, e oito casais e cinco herdades de pão no termo de Torres Vedras. Explica o rei que sendo "Fernad Alvarez de faria recebedor da nossa alfandega de lixboa ele e os scpiuaães da dcta alfandega n desujrom em o dcto officio tomando auendo pa ssy como no deuyam panos outras cousas das que a dcta alfadega rendia pola qual razam o dcto fernad Alvarez foy preso priuado el os dctos scpiuaães dos officios tomados seus bees pa nos assy mouees como de raiz". Entre estes bens de raiz estava a quinta da Capela, no termo de Arruda, e um casal no termo de Merceana, que o rei doou a 28.8.1437 a D. Beatriz Coutinho. Casou, portanto, com Leonor de Gurizo, n. cerca de 1392, que levou por dote a quinta de Sarilhos Pequenos, no Ribatejo, e que parece irmã do Fernão de Gurizo, escudeiro do Infante D. Pedro, que foi coudel de Torres Vedras, como se refere adiante, e que a 10.1.1442 foi nomeado coudel de Lisboa. Ambos porventura filhos de Martinho Afonso de Gurizo, já falecido a 30.5.1450 quando sua viúva Catarina Anes, moradora em Alcochete, teve carta de privilégio para quatro homens que trabalhem nas suas terras.

1.2.4.1. ?Garcia Álvares de Faria, não referido nas genealogias, criado de D. Duarte, n. cerca de 1410 e fal. antes de 16.11.1456. A 28.4.1450 D. Afonso V doou a Garcia Álvares de Faria, criado de D. Duarte, uma tença de 2.000 reais de prata. E a 16.11.1456 doou a Catarina Vasques de [Gramulhe], mulher de Garcia Álvares de Faria, uma tença anual no valor de 4.800 reais, tal como tinha seu marido. Casou, portanto, com Catarina Vasques de [Gramulhe].

1.2.4.1.1.  ?Garcia de Faria, não referido nas genealogias, seu possível filho, n. cerca de 1434 e fal. em 1481, escudeiro e vassalo da Casa Real, que D. Afonso V a 4.2.1459 nomeou juiz das sisas e dos órfãos de Vila Verde dos Francos. A 10.5.1459 o mesmo rei nomeou por cinco anos Garcia de Faria, morador em Vila Verde, para o cargo de coudel da dita vila, em substituição de Nuno Rodrigues, que terminara o seu tempo de serviço. A 12.7.1468 privilegiou Diogo Dias, vassalo régio, morador em Vila Verde, a pedido de Garcia de Faria, escudeiro da sua Casa, seu genro, concedendo-lhe aposentação sem ter atingido a idade de 70 anos. E a 20.3.1481 nomeou Rui de Aguiar, vassalo régio, morador em Vila Verde, para o cargo de juiz das sisas régias do dito lugar, em substituição de Garcia de Faria, que morrera. Garcia de Faria casou, portanto, com uma filha do dito Diogo Dias.

1.2.4.1.2. ?João de Faria, morador em Alcochete, freguesia de Santa Maria da Sabonha, Ribatejo, que a 24.10.1471 teve perdão da justiça régia pela querela com João de Lagos, ali morador, que o acusara de agressão física, na sequência do perdão geral outorgado aos homiziados que serviram na armada e tomada da vila de Arzila e cidade de Tânger, e mediante o perdão das partes.

1.2.4.1.3.  ?Fernando Álvares de Faria, n. cerca de 1438, contador de Alenquer e de Sintra. A 10.9.1502 a rainha D. Leonor foi autorizada a comprar as jugadas, rendas do pão e do vinho, foros e outros direitos das vilas de Óbidos, Aldeia Galega e Aldeia Gavinha e seus termos, para de tudo fazer doação ao hospital das Caldas, pelo valor de 5.833.100 reais. Dos bens comprados foi elaborada uma primeira relação por Henrique da Silva, contador da comarca de Leiria e de Óbidos, e por Fernando Álvares de Faria, contador da comarca de Alenquer e de Sintra.

1.2.4.1.4. ?Diogo Álvares de Faria, que podia ser filho ou neto de Garcia Álvares ou de seu irmão Fernando Álvares, tal como, aliás, seus propostos irmãos. A hipótese, além da onomástica, sustenta-se no facto de viver na Atalaia, sendo que seu proposto avô tinha a quinta da Atalaia. A 7.3.1515 Diogo Álvares de Faria, morador na Atalaia, foi nomeado requeredor das sisas da vila de Atalaia e de Asseiceira, com mantimento anual de 1.200 reais.

1.2.4.2. ?Fernando Álvares de Faria, não referido nas genealogias, n. cerca de 1413, criado de D. Afonso V, que a 6.12.1441 foi por ele nomeado, por cinco anos, coudel na vila de Torres Vedras, em substituição Fernão de Gurizo.

1.2.4.3  ?Frei João de Faria, não referido nas genealogias, guardião do mosteiro de S. Francisco de Santarém. A 19.4.1451 D. Afonso V doou por esmola a Frei João de Faria, guardião do mosteiro de S. Francisco de Santarém, enquanto sua mercê for, uma tença de 10 varas de panos de Gales, a partir de 1 de Janeiro de 1451. E a 11.12.1465 doou, por esmola, a Frei João de Faria, enquanto sua mercê for, anualmente para seu vestuário, 10 varas de pano de Gales.

 

1.3. ?Lourenço Gonçalves (de Faria), n. cerca 1340, filho de Nuno Gonçalves e pai de Gomes Lourenço, cuja virtual existência resulta da cronologia e onomástica documentada do pai e do atribuído filho Gomes Lourenço. Deste Lourenço Gonçalves, que também podia ser Nunes, parecem vir os Faria do Algarve.

1.3.1. ?Estêvão Lourenço de Faria, não referido pelas genealogias, n. cerca de 1361, virtual pai de Lopo Esteves de Faria.

1.3.1.1. ?Lopo Esteves de Faria, não referido nas genealogias, n. cerca de 1382, a quem a 6.11.1426 D. João I doou casa e herdades em Faro e seu termo.

1.3.1.1.1. ?Rui Lopes de Faria, não referido nas genealogias, morador em Loulé, n. cerca de 1405 e aparentemente já fal. a 27.6.1458, data em que D. Afonso V doou a Rui Lourenço, cavaleiro da sua Casa, morador em Loulé um chão que havia pertencido a Rui Lopes de Faria, morador na dita vila.

1.3.1.1.1.1. ?Lopo de Faria, não referido nas genealogias, possível filho ou neto de Rui Lopes. Foi tabelião (12.8.1489) e escrivão das sisas (13.8.1489) de Lagos.

1.3.2.  ?Gomes Lourenço de Faria, que MFS não entronca, n. cerca de 1362, escudeiro de D. João I, que a 7.5.1384 lhe deu para sempre os bens móveis e de raiz que Gil Rodrigues e Gomes Pires tinham em Évora, que perderam por estarem em deserviço.

1.3.2.1. ?Rui Lourenço de Faria, não referido nas genealogias, n. cerca de 1390 e fal. em 1455, foi cavaleiro e vedor das obras da igreja de S. Clemente da vila de Loulé e vedor dos vassalos de Albufeira, cargos em que sucedeu o filho. A 25.6.1439 D. Afonso V confirmou a nomeação, para sempre, de Gomes Esteves, morador na vila de Loulé, amo do cavaleiro Rui Lourenço de Faria, no cargo de escrivão da Câmara da dita vila e seu termo (inserta carta de D. Duarte de 9.12.1433).

1.3.2.1.1. Mem Rodrigues de Faria, cavaleiro da Casa Real, morador na vila de Loulé, não referido nas genealogias. A 5.2.1455 D. Afonso V nomeou Mem Rodrigues de Faria, cavaleiro da sua Casa, morador na vila de Loulé, para o cargo de vedor das obras da igreja de S. Clemente da vila de Loulé e vedor dos vassalos de Albufeira, em substituição de seu pai, Rui Lourenço, que morrera.

1.3.3.  ?Vasco Lourenço de Faria, virtual pai de João Vasques de Faria, que julgo irmão de Gomes Lourenço de Faria tendo em conta a ligação de seu proposto filho ao Algarve.

1.3.3.1. ?João Vasques de Faria, não referido nas genealogias, n. cerca de 1393 e fal. depois de 11.6.1456, escrivão da chancelaria da comarca e correição do Algarve. A 8.5.1439 D.Afonso V confirmou a nomeação de João Vasques de Faria, seu vassalo, no cargo de escrivão da chancelaria na comarca e correição do reino do Algarve e nos cargos de inqueridor do número, contador dos feitos e custas e distribuidor nessa correição (inserto carta de D. Duarte de 9.12.(1439, mas deve ser erro do escrivão, pois assim a confirmação é anterior à nomeação).

1.3.3.1.1. Gil Anes de Faria, não referido nas genealogias, n. cerca de 1418, escudeiro do infante D. Fernando, que sucedeu a seu pai. A 11.6.1456 D. Afonso V nomeou Gil Anes de Faria, escudeiro do infante D. Fernando, morador na vila de Lagos, para o cargo de escrivão da Chancelaria na correição do reino do Algarve, em substituição de seu pai, João Vasques de Faria, que renunciara (instrumento de renúncia de 25.2.1455).

1.3.3.1.1.1. ?Álvaro Gil de Faria, não referido nas genealogias, escudeiro da Casa Real, inquiridor perante os juízes do crime de Lisboa, n. cerca de 1440. A 4.10.1466 D. Afonso V nomeou Álvaro Gil de Faria, escudeiro da sua Casa, morador na cidade de Lisboa, para o cargo de inquiridor perante os juízes do crime da dita cidade, em substituição de Moussara, criado da rainha, que morrera. A 28.7.1468 nomeou  Álvaro Gil de Faria, escudeiro da sua Casa, para o cargo de escrivão das sisas régias, pescado, madeira e imposição do sal na cidade de Lisboa, em substituição de João Rodrigues, que fora destituído do cargo por cometer erros no ofício. E a 6.10.1471 privilegiou Álvaro Gil de Faria, escudeiro da sua Casa, concedendo-lhe licença para trazer armas de noite e de dia para sua defesa em todo o reino e senhorio.

1.3.3.1.1.2. ?Fernando Vasques de Faria, não referido nas genealogias, alcaide-mor de Alvaiázere (9.10.1484), possível pai do Diogo Fernandes de Faria que MFS não entronca, dizendo que serviu na Índia com Afonso de Albuquerque, c.g., e que é certamente o Diogo Fernandes de Faria, adail de Goa, que a 6.2.1519 foi nomeado corrector dos cavalos da dita cidade.

1.3.3.1.1.3. ?João de Faria, não referido nas genealogias, capitão e fronteiro-mor de Fronteira (6.10.1483), que teve mercê da renda da sisa da judiaria de Portel (17.10.1487).

1.3.3.1.2. ?João de Faria, não referido nas genealogias, escudeiro do conde de Vila Real, n. cerca de 1419. A 5.3.1451 D. Afonso V perdoou a justiça régia a João de Faria, escudeiro do conde de Vila Real, por ter raptado a mulher de Álvaro Anes, de ter roubado ouro e prata, bem como pela fuga da prisão. A 31.8.1451 perdoou a Martim Vicente, meirinho na correição de Vila Real, a culpa que teve na fuga de João de Faria, escudeiro do conde de Vila Real, tendo pago 500 reais prata para a Arca da Piedade.

1.3.3.2. ?Gil de Faria, não referido nas genealogias, escudeiro da Casa Real e contador da cidade de Ceuta, n. cerca de 1395. A 1.7.1452 D. Afonso V nomeou Gil de Faria, seu escudeiro, para o cargo de contador da cidade de Ceuta, em substituição de João de Évora, que morrera.

1.3.4. ?Aires Lourenço de Faria, não referido nas genealogias, mas que pela cronologia e onomástica era filho do virtual Lourenço Gonçalves de Faria. Era morador em Portel quando em 1431  foram legitimados por carta real dois filhos que teve em Catarina Lourenço, mulher solteira.

1.3.4.1. (L) Rodrigo Aires de Faria, legitimado por carta real de 11.3.1431. Foi escudeiro da Casa Real e coudel (3.3.1486), tabelião (10.11.1491) e escrivão do almoxarifado (10.11.1491) e da câmara e órfãos (10.11.1491) de Rabaçal. A 16.5.1496 D. Manuel I confirmou Rodrigo Aires de Faria, escudeiro da sua Casa, escrivão das sisas da vila do Rabaçal, tal como o ele até aqui foi por carta de D. João II, com direito a 55 reais e um preto por milheiro de tudo o que a dita sisa render até chegar à quantia de 1.000 reais o milheiro. Talvez seja este o Rodrigo de Faria que MFS, sem o entroncar, diz que foi letrado, casado com Juliana de Figueiredo e pai do Pedro de Figueiredo de Faria que passou a Índia com Vasco da Gama (1497) e lá morreu.

1.3.4.2.  (L) Guiomar de Faria, legitimada por carta real de 16.3.1431 

 

1.4.  ?Martim Gonçalves de Faria, filho de Nuno Gonçalves, que MFS diz que esteve em Aljubarrota, e aí ter sido armado cavaleiro por D. João I, mas não entronca, nem se documenta.

 

 

NOTA: Tal como aconteceu com outros nomes portugueses, logo no início do séc. XVI começam a aparecer cristãos-novos a adoptar o nome Faria. É o caso, por exemplo, de Lopo de Faria, cristão novo, mercador, que por o ser e tratar de mercadoria a 29.1.1505 perdeu o ofício de requeredor das sisas de Chaves, em que estava empossado, sendo então nele nomeado João de Chaves, escudeiro, criado de João Teixeira de Macedo, aí morador. E a 15.6.1506 Paulo Pereira teve mercê de uma casa térrea e de uma vinha pequena que fora dos cristãos novos Pedro Vaz, Manuel da Silva e Tristão de Faria, moradores na Alagoa, termo de Silves. De um destes talvez fosse irmã a Guiomar de Faria que casou com o doutor Mestre Gil, físico e cirurgião-mor, também certamente cristão-novo, falecido antes de 19.7.1511, pois nesta data Guiomar de Faria, mulher que foi de Mestre Gil, teve mercê da renda da saboaria da vila de Palmela, tal como a tinha Mestre Gil. A 20.4.1496 a Mestre Gil, cirurgião-mor, foi outorgado o padrão anual de 4.000 reais, em satisfação do relego da vila de Beja. E a 15.3.1498 D. Manuel I fez mercê a Mestre Gil, nosso cirurgião mor, que pediu que fossem retirados dos 13.663 reais que recebia, 10 mil reais para sua filha, Inez de Faria, moça de câmara da rainha. A 15.7.1515 a dita Inez de Faria, mulher de João de Sá, cavaleiro da Casa Real, teve mercê de um padrão de 10.000 reais de tença, que se tiraram de um padrão de seu pai, Mestre Gil, cirurgião-mor, que nela os trespassou com licença régia, por ter perdido o anterior padrão. Sendo que já a 28.7.1511 João de Sá, cavaleiro da Casa Real, tivera uma tença de 5.163 reais, que vagou por falecimento de Mestre Gil, seu sogro. Deste Mestre Gil era também filho Francisco de Faria, cavaleiro da Casa Real. Com efeito, a 17.7.1511 Francisco de Faria, cavaleiro da Casa Real, teve uma tença anual de 23 moios de pão meado, como tinha seu pai, Mestre Gil, falecido. E devia ainda ser seu filho o doutor Diogo de Faria, médico de D. Manuel I, que aparece como cirurgião-mor do reino logo após a morte de Mestre Gil, a quem terá sucedido no cargo. Sobretudo neste período dos finais do séc. XV e primeira metade do XVI a diferença de estatuto entre a pequena/média nobreza e os altos estratos judeus ou cristãos-novos era tão ténue, que em muitos casos não é fácil fazer uma destrinça, sobretudo quando escasseia a documentação. Aquele Francisco de Faria casou com Leonor de Montarroiro, filha de Mem Cerveira, alferes-mor de Santarém, como refere Braamcamp.

 

 

2005


Notas


[1] ANTT, Ch. de D. Dinis, L1, f.271v. Informação que me foi dada pessoalmente pelo Prof. Doutor José Augusto de Sotto Mayor Pizarro, a quem agradeço.
[2] CCSP, p. 56. Informação que me foi dada pessoalmente pelo Prof. Doutor José Augusto de Sotto Mayor Pizarro, a quem agradeço.
[3] ANTT, Inq. de D. Dinis, Gav. VIII-3-2 (Perg. 4). Informação que me foi dada pessoalmente pelo Prof. Doutor José Augusto de Sotto Mayor Pizarro, a quem agradeço.
[4] ANTT, Inq. de D. Dinis, Tº 7, f.47. Informação que me foi dada pessoalmente pelo Prof. Doutor José Augusto de Sotto Mayor Pizarro, a quem agradeço.
[5] AUC, Fundo Gabriel Pereira, Gav. 7, m. único de Pergaminhos Portugueses do séc. XIII, nº XIII. Informação que me foi pessoalmente dada pelo Prof. Doutor José Augusto de Sotto Mayor Pizarro, a quem agradeço.
[6] Embora dado nas genealogias como filho único, Lourenço Fernandes da Cunha era irmão de Martim Fernandes e Nuno Fernandes, que nas Inquirições de 1258 tinham a quintã de Barro, justamente em S. Tomé de Negrelos.
[7] Esta Maria Lourenço e seu irmão Vicente são em 1222 ditos pelo próprio pai seus filhos naturais. Ver "Linhagens Medievais Portuguesas", Porto 1999, de José Augusto de Sotto Mayor Pizarro. Se entendermos que esta referência a Maria Lourenço, sem indicação de marido, significa que era jovem e solteira em 1222, e tendo em conta que não se lhe conhece marido, podia bem ter casado com Pedro Afonso do Casal, que terá nascido cerca de 1200 e já tinha falecido em 1285.
[8] "Ascendências Visienses. Ensaio genealógico sobre a nobreza de Viseu. Séculos XIV a XVII", Porto 2004, do autor deste trabalho. Como refiro nesta obra João Rodrigues Borges, senhor da terra de Alva, nasceu em Santarém cerca de 1160 e já tinha falecido em 1211, e foi casado com Catarina Lopes, que foi sepultada no recém-fundado (1211) mosteiro de S. Domingos de Santarém, num carneiro à entrada da porta com o seguinte letreiro "Esta sepultura é da mui virtuosa Caterina Lopes mulher que foi de João Rodrigues Borges que foi senhor da terra de Alva. Faleceu em Maio de 1220". Este João Rodrigues era filho de Rodrigo Anes, cavaleiro da Torre de Moncorvo que, segundo a opinião da generalidade dos genealogistas, serviu o rei de França Filipe II (1180-1223), onde se celebrizou como “chevalier de Bourges”, ao derrotar as tropas infiéis a este soberano, defender a cidade de Bourges e causar mais de sete mil mortos ao inimigo. Por este acto heróico, os Borges terão depois acrescentado ao seu escudo a bordadura semeada de flores de lis. A descrição que Braamcamp Freire faz dessas armas em "Armaria Portuguesa" é: “BORGES” - De vermelho, leão de oiro; bordadura cosida de azul, semeada de flores de lis de oiro. T. (timbre): leão de oiro, armado e linguado de azul. E. (elmo) de prata, aberto, guarnecido de oiro. P. (paquifes) e V. (virol) de vermelho e oiro).
[9] ANTT, Chancelaria de D. Dinis, 3, 119v.
[10] ANTT, Mosteiro de S. Salvador de Moreira, Col. Especial, c. 16, cx. 92, mº 12, nº 5. Informação que pessoalmente me foi dada pelo Prof. Doutor José Augusto de Sotto Mayor Pizarro, a quem agradeço.
[11] Ver "Linhagens Medievais Portuguesas. Genealogias e Estratégias (1279-1325)", Porto 1999, de José Augusto de Sotto Mayor Pizarro.
[12] H. Baquero Moreno, "Abusos e violências na região da Beira Interior durante o reinado de D. Afonso V", in Revista de História das Ideias, Faculdade de Letras, Coimbra, 1984, vol. 6, p. 183. 
[13] "Ascendências Visienses. Ensaio genealógico sobre a nobreza de Viseu. Séculos XIV a XVII", Porto 2004, do autor deste trabalho.
[14] "Três inscrições medievais", de Pedro Vitorino, in Revista de Estudos Históricos.
[15] "Os Patronos do Mosteiro de Grijó", Ponte de Lima 1995, de J.A. de Sotto Mayor Pizarro.
[16] "Matrículas dos ordinandos da Mitra de Braga", Ponte de Lima 2002.
[17] "Matrículas dos ordinandos da Mitra de Braga", Ponte de Lima 2002.
[18] "Matrículas dos ordinandos da Mitra de Braga", Ponte de Lima 2002.
 
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