Manuel Abranches de Soveral

 

 

 

Casa da Trofa

origens

armas

1º senhor

2º senhor

3º senhor

4º senhor

5º senhor

6º senhor

7º senhor

8º senhor

9º senhor

10º senhor

descendência

sangue real

representação

análise

bibliografia

 

Ensaio sobre a origem

dos Lemos portugueses

Séculos XIV e XV

Não é fácil de reconstituir a genealogia da origem dos Lemos em Portugal, desde logo porque não aparecem na documentação medieval como deviam se tivessem o estatuto que as genealogias lhe atribuem. O mais antigo que na ascendência da Casa da Trofa se documenta com este nome é Giral ou Geraldo Martins de Lemos, escudeiro, alvazil do cível de Lisboa (1383-4), referido por Fernão Lopes como um dos cidadãos e escudeiros de Lisboa que apoiaram o mestre de Avis, que nasceu cerca de 1325 e faleceu antes de 1396. Em vários documentos do Arquivo da Casa de Abrantes, nomeadamente em dois de 14.5.1376 e 6.7.1377 de permuta de terras em Calhariz com o convento de Chelas, vem como escudeiro e morador em Lisboa, bem assim como na doação da quintã de Calhariz que sua viúva fez ao filho a 4.12.1396. Casou na rica burguesia lisboeta e seu filho Gomes Martins de Lemos foi criado por D. João I, teve o alto cargo de aio do infante herdeiro D. Afonso (que morreu antes de seu pai e era irmão mais velho de D. Duarte), recebeu mercês logo em 1384, teria 14 anos, teve o senhorio de juro e herdade de Oliveira do Conde em 1386 e chegou a fidalgo de Conselho de D. João I, casando em 1396 na velha fidalguia senhorial com Mécia Vasques de Góis, neta sucessora e herdeira do alcaide-mor de Lisboa Estêvão Vasques de Góis, 10º senhor de Góis, com geração ilustríssima nos condes de Sortelha e marqueses de Abrantes e na Casa da Trofa. E foi da conjugação deste dois factores, o engrandecimento pessoal de Gomes Martins de Lemos e o seu casamento com a herdeira Góis, que esta linha de Lemos alcança no século XV o inegável estatuto de alta nobreza.

Mas, a par desta linha, outros de Lemos se começam a documentar durante o séc. XV na pequena nobreza, portanto mais próximos do estatuto de Giral Martins de Lemos, que as genealogias posteriores a todo o custo procuraram entroncar na Casa da Trofa, baseados apenas no nome, coisa pouco significativa, e sem perceber a questão essencial da incompatibilidade de estatutos. A isto acresce, já na passagem do séc. XV para o XVI, o aparecimento de indivíduos com o nome Lemos que são certamente cristãos-novos que o adoptaram com a conversão forçada de 1497, ou livre conversão anterior, como são os casos, por exemplo, de Diogo de Lemos, mercador com loja de mercadoria pública, que foi ouvidor na ilha de Angra, por nomeação do respectivo donatário, tendo D. João III a 6.12.1527 mandado que o corregedor da ilha Terceira o informe sobre essa nomeação. Ou da Guiomar de Lemos, mulher de Lopo Fernandes, moradores em Estremoz, que a 11.10.1513 teve de D. Manuel I licença para usar da ciência e arte da cirurgia em todo o reino e senhorios, depois de o doutor Diogo de Faria, físico e cirurgião-mor do reino, ter examinado a sua capacidade. Ou o bacharel Francisco de Lemos que a 11.10.1520 teve mercê do ofício de físico. Ou ainda do Gil Fernandes, filho de Fernão Pires de Lemos, que teve carta de perdão (sem data legível) por em 1500, quando levava um tição de uma casa para outra, lhe ter quebrado uma brasa sem ele dar por isso, que ateara fogo às casas de Álvaro Anes, na freguesia de Stª Marinha, julgado do mosteiro de Arouca, e que por isso andara fugido, mas obtivera perdão do lesado por instrumento público de 14.3.1500, tendo pago 1.000 reais para a Piedade.

A inexistência de documentação segura, ou pelo menos a dificuldade em a encontrar, deixam-nos miseravelmente nas mãos das genealogias tardias para qualquer tentativa de reconstituição da genealogia dos Lemos portugueses dos séculos XIV e XV. O ponto de partida, como veremos adiante, tem de ser o referido escudeiro Giral Martins de Lemos, que pelo cômputo da cronologia própria e envolvente terá nascido cerca de 1325. O seu estatuto de pequena nobreza não significa que não possa descender de uma linhagem da alta nobreza, como se documenta em muitos outros casos idênticos nesta época. E assim não podemos, só por isso, recusar a informação de Frei Filipe de Gândara, em "Hechos heroicos de los hijos de Galicia", Madrid, 1662, segundo a qual os Lemos portugueses, os da nobreza, bem entendido, descendiam dos Lemos da Galiza, uma notável linhagem que remonta a Vasco Lopez de Lemos, que viveu no reinado de D. Alfonso I (739-757), ao serviço de quem reconquistou a terra de Lemos (Lugo), de que tomou o nome, tendo construído o antiquíssimo castelo de Massid, em Ferreira de Pantón (Lugo), de que foi o 1º senhor. Mas também estes Lemos galegos não beneficiaram ainda de um estudo moderno, sendo até por vezes confundidos com os posteriores condes de Lemos, descendentes de D. Pedro Fernandes de Castro, o da Guerra, o 1º senhor de Lemos nesta linhagem. Aliás, o que ainda hoje corre na Galiza é que os Lemos, os antigos, usavam um escudo de armas com treze arruelas, que são justamente as armas que D. Fernán Ruiz de Castro, conde de Lemos e Trastamara, ordenou para si e sua descendência, em vez das antigas armas dos Castro (seis arruelas), que os outros ramos continuaram a usar. Daquele Vasco Lopes foi filho ou neto Lope López de Lemos, senhor e povoador de Vale de Lemos, que fez o castelo de Sober (Lugo), terra de que foi o 1º senhor. Deste foi filho Fernán López de Lemos, falecido em 793, que a lenda diz que libertou doze donzelas do tributo mouro, e neto Diego López de Lemos, que esteve com D. Alfonso II, o Casto, na batalha de Santa Cristina contra Mahammed. Deste Diego foi filho Alonso López de Lemos, que esteve com D. Ramiro I na batalha de Clavijo (844) contra o usurpador conde Nepociano, e a quem este rei confirmou os senhorios de seus antepassados. Desde Afonso López de Lemos descende outro Afonso López de Lemos, também senhor de Sober e Ferreira de Pantón, a quem D. Garcia, rei da Galiza (1065-1071), confirmou a posse de todos os seus domínios, e que casou com D. Maria Froiaz, irmã de D. Pedro Froiaz, conde de Trava (1098), que deu a si mesmo deu o título de conde da Galiza, aio e mordomo-mor de D. Alfonso VII e um dos mais poderosos do seu tempo. Deste Afonso López de Lemos e D. Maria Froiaz foi filho Lope López de Lemos e neto outro Alfonso López de Lemos, um dos fundadores da Ordem de Santiago, em 1161, a quem D. Alfonso VII (1126-1157) confirmou a posse de todos os seus domínios e deu mais privilégios. Deste foi filho Diego López de Lemos, nascido cerca de 1145, que esteve na batalha de Navas de Tolosa (1212), e D. Fronila López de Lemos, fundadora em 1175 do convento de Bernardas de S. Salvador de Ferreira de Pantón, onde estão sepultados vários membros desta linhagem. Dizem as genealogias que também foi seu filho D. Sancho Fernandez de Lemos, 3º mestre da Ordem de Santiago (1186 a 1193), mas este nunca se documenta como Lemos, mas apenas como D. Sancho Fernandez. Por outro lado, não se aceita que, nesta época, um filho de Afonso Lopes pudesse usar o patronímico Fernandez. Julgo que em algum documento o mestre de Santiago virá como irmão de Diego López de Lemos, mas aí irmão estará por cunhado e ele era, de facto, irmão da mulher deste Diego López de Lemos, D. Urraca Fernandez, que era filha antigos condes de Monterroso, que levou em dote os benefícios de S. Vicente de Graíces e de S. Cristóbal de Souto e se documenta numa escritura de 1188, em que D. Diego doou a sua irmã D. Ildara López umas terras situadas junto à vila de Chave (Lugo). De Diego López de Lemos foi filho Lope López de Lemos, que viveu nos reinados de D. Alfonso IX (1171-1230) e D. Fernando III o Santo (1201-52), de quem foi filho Rodrigo López de Lemos, que morreu sem geração, e Lope López de Lemos, chamado "o Cabaleiro", que sucedeu ao irmão como senhor de Sober e Ferreira de Pantón e casou com D. Urraca Mendez de Sanabria, filha de Mem Rodriguez de Sanabria, e teve três filhos, a saber: Alonso López de Lemos, Sancho de Lemos, administrador perpéctuo do mosteiro de S. Vicente de Pombeiro, em Ferreira de Pantón, e outro Lope López de Lemos, que passou a Portugal, como consta de um documento de 1350 (1312). Acrescentam que o dito irmão mais velho e sucessor, Alonso López de Lemos, nascido cerca de 1240, era senhor de Sober em 1306 (1268) e casou a 1ª vez, sem geração, com D. Mayor Rodrigues, que fez testamento em 1323 (1285), filha de Rodrigo Gómez (de Molina), miles de Neda. E que casou a 2ª vez com D. Tereza Rodriguez de Balboa ou de Figueiroa, irmã ou meia-irmã de D. Vasco Rodríguez de Coronado, mestre da Ordem de Santiago (1327-1338), de quem teve Vasco López de Lemos, que sucedeu como mestre da Ordem de Santiago (1338) ao irmão de sua madrasta. Do 2º e tardio casamento foi filho sucessor Rodrigo López de Lemos, nascido cerca de 1300, pai de Diego López de Lemos, nascido cerca de 1335, a quem D. Enrique II confirmou em 1379 os senhorios e privilégios outorgados a seus antepassados por D. Ramiro I, por D. Garcia e por D. Alfonso VII, que alcançou ainda o reinado de D. Juan II, iniciado em 1406, e que foi tronco dos condes de Amarante (Lugo), como direi adiante.

O conde D. Pedro (1280-1354) refere um D. Afonso Pires de Lemos casado com D. Mor Anes, filha de João Pires de Nóvoa e sua mulher D. Beatriz Gonçalves. João Baptista Lavanha (ca 1555-1625), nas suas notas ao conde D. Pedro, presume que este D. Afonso seria o pai do Lopo Afonso de Lemos referido no Livro Antigo como casado com D. Tereza Álvares, filha de Álvaro Nunes de Candarei. O referido Gândara diz que os Lemos portugueses descendem do dito Lopo Afonso de Lemos, mas di-lo filho segundo ou terceiro de Afonso Lopes de Lemos e sua mulher D. Beatriz Afonso de Menezes, e irmão de Diogo Afonso de Lemos e do já referido D. Sancho Fernandez, 3º mestre da Ordem de Santiago, o que é impossível, pelo menos relativamente a este, já não só pelo patronímico, mas desde logo pela cronologia, confundindo-o portanto com o antedito Sancho de Lemos, administrador perpéctuo do mosteiro de S. Vicente de Pombeiro. De Lopo Afonso de Lemos e de sua mulher D. Tereza Álvares de Candarei diz o mesmo Gândara que foi filho mais novo Lopo Lopes de Lemos, que Gaio também diz que passou a Portugal no tempo do rei D. Dinis, como se infere de uma escritura que há na Casa de Lemos da venda da herança que a este lhe pertencia feita no ano de 1350 (1312).

A Corografia Portuguesa (1706), do Padre António Carvalho da Costa, chama D. Afonso Lopes de Lemos ao D. Afonso Pires de Lemos referido pelo conde D. Pedro. E di-lo casado com D. Maior de Naboa y Menezes, da Casa de Maceda, que só pode ser uma versão setecentista da D. Mor Anes, filha de João Pires de Nóvoa ou Nóboa, referida pelo conde D. Pedro como mulher do antedito D. Afonso Pires. Prossegue a Corografia dando também a este D. Afonso, como Gândara, que aliás cita, os referidos três filhos: Diogo Lopes, o mestre D. Sancho Fernandes e Lopo Afonso, que como vimos não se aceita, pelo menos no que respeita ao mestre, que é confusão. E, seguindo ainda Gândara, o Padre Carvalho da Costa diz que deste Lopo Afonso foi filho Afonso Lopes de Lemos, sendo este pai de Rui de Lemos, que viveu no reinado de D. Afonso IV, rei "que lhe fez merce de varias terras pelos seus serviços", e este pai de Vasco Martins de Lemos, que teve o castelo de Beja "como se pode ver na Chancellaria do mesmo Rey D. Fernando", sendo este Vasco Martins pai do nosso Giral Martins de Lemos. Mas, para além da cronologia obtusa, esta onomástica não é aceitável. Com efeito, um Vasco Martins filho de um Rui, neto de um Lopo Afonso e bisneto de um Afonso Lopes não é coisa crível.

Para além da irregularidade patronímica, não se pode aceitar, como quer a Corografia, que este Lopo Lopes possa ser 4º avô de Giral Martins, nascido cerca de 1325. Acresce que, ao contrário do que diz o Padre Carvalho, na Chancelaria de D. Fernando não consta nenhum Vasco Martins de Lemos, e muito menos como alcaide-mor de Elvas, mercê que na verdade foi dada a Vasco Martins de Mello (CFI, 1, 116), nem na Chancelaria de D. Afonso IV consta nenhum Rui de Lemos, embora a Monarquia Lusitana (parte 5, livro. 16, cap. 24, f. 43) refira uma escritura do cartório da Sé de Lisboa em que consta um Rui de Lemos. Na verdade, este é certamente o Rui/Rodrigo de Lemos que em 1285 se documenta alcaide de Lisboa e em 1291 alvazil da mesma cidade, cargo que nessa época se julgava que não era ocupado por fidalgos, mas afinal era. E D. Flamínio de Sousa anota um Rui de Lemos que, com sua mulher, teve a 20.8.1327 mercê da lezíria de Alfouval, por D. Dinis, que fora de seu filho (dele rei) Fernão Sanches. De facto, D. Dinis (3, 7v) doou a seu filho bastardo Fernão Sanches a dita lezíria do Alfouval, mas não consta nenhuma doação a Rui de Lemos. De resto, naquela data, 1327, D. Dinis já tinha morrido há dois anos e Rui de Lemos, como veremos, há 23 anos. Por outro lado, Fernão Sanches só morreu (sem geração) em 1329. Portanto, aquela data não foi convertida da Era de César e é 1289, tendo Fernão Sanches recebido o dita lezíria após a morte de Rui de Lemos, em 1304. Retirando-se daqui, de substantivo, a existência em Lisboa, nos finais do séc XIII e princípio do XIV, de um Rui de Lemos, nascido cerca de 1268, com estatuto suficiente e cronologia aceitável para poder ser filho de Lopo Lopes de Lemos.

Como veio a documentar Mário Farelo, na sua tese de doutoramento (2008) sobre a Oligarquia camarária de Lisboa (1325-1433), este Rui ou Rodrigo de Lemos, falecido em 1304, foi de facto cavaleiro e influente oligarca lisboeta nos finais do século XIII, ocupou frequentemente os alvaziados da cidade (alvazil em 1285-6, 1291-2, 1294-5 e, alvazil dos ovençais em 1303-4), sendo ainda procurador do concelho em 1292, no âmbito de um pleito com o município de Santarém. Além de alcaide-mor de Lisboa em 1285, como ficou dito. Encontrava-se ligado à Sé de Lisboa, onde sua viúva Tereza Peres instituiu a capela de Stª Marta, por testamento de 5.2.1304, e onde era celebrado anualmente um aniversário por sua alma e de sua mulher, a 16 de Marco (Most. de S. Dinis de Odivelas, 19, 6-8). Tinha ainda o prazo da quintã da Lançada, feito pela Colegiada de Stª Marinha do Outeiro de Lisboa. E, sobretudo, documenta-se que este Rui de Lemos teve um sobrinho, sucessor no dito prazo, chamado Geraldo Martins (O. de Santiago, Conv. de Palmela, 1, 13; e 272, 78 e 78v).

À proposta ligação dos Lemos portugueses aos galegos, falta ainda a identidade heráldica, sem a qual se torna ainda mais difícil aceitar uma relação tão debilmente estabelecida. A tradicional bibliografia espanhola, nomeadamente a "Monarquia española" (1736), de Juan Felix Francisco de Rivarola y Pineda, descreve o escudo as armas dos condes de Amarante (Lugo), chefes dos Lemos galegos, como sendo um escudo com treze aruelas. Embora a "Monarquia española" considere que o 1º conde de Amarante foi Afonso de Lemos, o título de conde de Amarante (Archivo Ducal de Medinaceli, Sección Amarante, Legajo Antiguo 5, nº 12) foi concedido a 31.8.1648 por D. Felipe IV a Juan de Lemos, senhor de Amarante, Sober e Ferreira de Pantón, pelos serviços prestados por seu pai, o dito Alonso de Lemos. Este Alonso de Lemos, que morreu com seu outro filho Diego na campanha da Catalunha, era filho de Diego de Lemos, que lutou contra Drake no ataque que este fez à Corunha em 1589, sendo este filho de António de Lemos e neto de outro Diego de Lemos, que foi tenente-general de Cavalaria, e que casou com sua prima D. Jerónima de Nóboa y Lemos, filha de D. Juan de Nóboa y Lemos, senhor de Layosa, Maceda e Castelo de Peña, e neta de Alonso López de Lemos, senhor de Layosa, e sua mulher D. Elvira de Nóboa, senhora de Maceda. Este Alonso López de Lemos era tio paterno do antedito Diego de Lemos, casado com sua neta, sendo este Diego filho sucessor de Lope Sánchez de Ulloa, senhor de Sober e Ferreira de Pantón, que não usou o nome Lemos, apesar de ser o chefe desta linhagem, o que faz suspeitar de que o irmão mais velho seria o Lope de Lemos, que também aparece como Lope de Sober, que era abade de San Vitorino em 1482. Lope Sánchez de Ulloa e seu irmão Alonso López de Lemos eram filhos de Diego de Lemos, senhor de Sober e Ferreira de Pantón, nascido cerca de 1435 e falecido em 1492, a quem, segundo a dita "Monarquia española", em 1470 D. Enrique III deu acostamento e soldo por o servir com 15 lanças, e de sua mulher D. Mayor de Ulloa, com quem casou em 1462, com escritura dotal de seu irmão Sancho de Ulloa, o futuro 1º conde de Monterrey (24.12.1513). Quer Diogo de Lemos quer ainda seu pai Alfonso López de Lemos andaram envovidos na famosa Gran Guerra Irmandiña (1466-9). A 13.10.1470 assinaram um acordo em Mucientes D. Pedro Álvarez Ozorio, conde de Lemos, D. Juan de Suñiga, visconde de Monterrey, Sancho de Ulloa, Pedro Álvarez de Sottomayor, Lope Sánchez de Ulloa y Moscoso, Diego de Andrade, Suero Gomez de Sottomayor e Diego de Lemos, contra o arcebispo de Santiago, a marquesa de Astorga e a hermandad que estes tinham levantado. O visconde de Monterrey era sogro de Sancho de Ulloa, futuro conde de Monterrey. E Lope Sánchez de Ulloa y Moscoso era seu pai e sogro de Diego de Lemos. Este Diego de Lemos era filho do 2º casamento (com D. Berenguela López de Riba de Neira) de Alfonso Lopes de Lemos (a "Monarquia española" chama-o erradamente Alfonso Perez de Lemos), que em 1440 teve soldo e acostamento pelo serviço de três lanças e casou a 1ª vez com D. Elvira Lopez de Marzo, de que teve um filho chamado Diogo Alfonso de Lemos, que morreu solteiro. Este Alfonso Lopez, nascido cerca de 1390, era filho de Lopo Alfonso de Lemos, nascido cerca de 1360, senhor de Sober, Ferreira de Pantón, e de sua mulher D. Leonor Garcia de Valcarce, senhora de Corullón, Doncos e Constantín (que depois casou com Pedro Fernandez de Bolaño), e neto do Diego López de Lemos, senhor de Sober e Ferreira de Pantón, que ficou já referido, nascido cerca de 1335 e falecido depois de 1406, a quem D. Enrique II confirmou em 1379 os senhorios e privilégios outorgados a seus antepassados. A obra de José Santiago Crespo Pozo (Blasones y Linajes de Galicia, 1965) vem lançar alguma luz documental sobre estas gerações, mostrando, para além do que ficou dito, que aquele Diogo de Lemos de facto casou com D. Mayor de Ulloa, filha de Lope Sánchez de Ulloa, senhor de Villamayor de Ulloa, e de sua mulher D. Inez de Castro (que antes fora casada com D. Pedro González Bazán, visconde de Valduerna). Esta D. Inez de Castro era filha de D. Alfonso de Castro, que viveu no seu palácio das Cortiñas de San Romão (hoje Praza Mayor) da cidade de Lugo e foi 2º senhor de Castroverde e Luaces (Lugo), por testamento (1425) de seu tio D. Fradique de Castro, conde de Trastamara, Lemos e Sarria, 1º duque Arjona (1423), 1º senhor de Castroverde e Luaces (25.2.1418), etc. Este D. Alfonso era filho de D. Alfonso Perez de Castro e sua mulher D. Maria de Guzmán, e neto de D. Isabel de Castro, condessa de Trastamara, Lemos e Sarria (1376), etc., e de seu marido o conde D. Pedro Enriquez, neto bastardo de D. Alfonso XI de Castela. A filiação desta condessa D. Isabel anda nas genealogias muito confundida, mas não restam dúvidas de que era filha de D. Fernán Ruiz de Castro, conde de Trastamara, de Lemos e de Sárria, senhor de Castro Xerez, etc., mordomo-mor e alferes-mor de Castela, etc., que alterou o escudo de armas dos Castro (seis arruelas de azul em campo de prata), passando a treze arruelas em campo de ouro, escudo que passou a ser usado por sua descendência. D. Isabel não só herdou os condados de Trastamara, Lemos e Sarria, como também se titula como condessa de Cedeira e Castro-Caldelas. E os documentos não deixam dúvidas: A 30.9.1398 D. Enrique III confirmou a D. Isabel de Castro a sucessão nos mayorazgos que fueron de su padre el conde Don Fernan. E confirmou a D. Fradique de Castro a sucessão nos ditos mayorazgos de su madre Doña Isabel de Castro, que fueron de su abuelo el conde Don Fernan.

Não me restam assim muitas dúvidas de que o prestígido dos condes de Trastamara e Lemos e do escudo de armas das treze arruelas, ordenado pelo conde D. Fernán Ruiz de Castro, se transmitiu não só à Casa de Lemos mas a muita da sua descendência, entre a qual (e por vários lados) se encontravam os condes de Amarante. De facto, não há notícia de armas Lemos anteriores ao antedito Lope Sánchez de Ulloa, que não usou o nome Lemos e deve ter usado como armas as treze arruelas, de sua avó materna, D. Inez de Castro, que afinal era filha do representante da Casa de Lemos, que não herdou o condado porque o duque D. Fradique de Castro, que não deixou filhos, foi acusado de traição e morto, sendo extinta a Casa, sendo depois o condado de Lemos dado a D. Pedro Álvares Ozorio, casado com a irmã mais nova do duque, D. Beatriz de Castro. Como ficou dito, provavelmente aquele Sancho de Ulloa não era o irmão mais velho (o primogénito seria o abade Lope de Lemos). O certo é que sucedeu na chefia da linhagem dos Lemos e não usou este nome, mas sim o nome do seu avô materno, não sendo portanto de estranhar que tivesse usado as prestigiadas armas da Casa de Lemos, de sua avó materna D. Inez de Castro. Tanto mais que, por coincidência, esta Casa tinha a mesma denominação da sua linhagem e referia-se ao mesmo território. E se assim foi, nada mais natural do que os seus descendentes terem mantido a mesma ilustre heráldica. Porque, por outro lado, é demasiada a coincidência de a Casa de Lemos ter a mesma heráldica da linhagem Lemos. Portanto, é possível que a antiga heráldica dos Lemos galegos fossem as seis (ou cinco) cadernas que usaram os Lemos portugueses.

Tendo em conta tudo o que ficou dito, é de aceitar como possível, embora a carecer de prova mais substancial, que um filho 3º de Lope López de Lemos, chamado "o Cabaleiro", senhor de Sober e Ferreira de Pantón, e de sua mulher D. Urraca Mendez de Sanabria, chamado como o pai Lope López de Lemos (Lopo Lopes de Lemos), nascido cerca de 1245, tenha vindo para Portugal no reinado de D. Dinis. E, descontadas as confusões, parece também aceitável que aqui tenha de facto casado com a portuguesa D. Tereza Álvares de Candarei, filha de Álvaro Nunes de Candarei e sua mulher D. Elvira Gil. Ora, estes Candarei são um ramo dos Ribadouro e tronco da linhagem dos Machado. Mem Moniz de Ribadouro, rico-homem de D. Afonso Henriques, seu guarda-mor (1147) e o herói da conquista de Santarém, foi o 1º a usar este nome por ser senhor desta honra. Em 1147 D. Afonso Henriques tomou Santarém em assalto de surpresa, com 250 homens divididos por duas secções, comandadas por D. Afonso e por seu irmão D. Pedro Afonso. D. Mem Moniz, auxiliado por cinco companheiros, entre eles o seu jovem filho, foi quem arrombou a golpes de machado a porta de Atamarma, por onde logo entrou D. Afonso Henriques, ao mesmo tempo que escalava as muralhas o grupo chefiado por D. Pedro Afonso. Poucos foram os mouros que conseguiram a fuga [1]. D. Mem Moniz fez povoar por seu filho D. Roberto Mendes de Candarei o lugar de Alões, ao qual, com sua mulher, deu foral, assim como também o deram ao lugar de Aveloso, que povoaram na freguesia de Tendais, ao lugar de Vilas Boas no ano de 1122 e à vila de Graleira no ano de 1144. Teve por honra as vilas de Vilar Mediano, de Ramires, e de Vale de Pagas, e possuía o casal de Vila Boa, também honrado. O outro seu filho, Pedro Mendes, casou com Elvira Martins de Riba-de-Vizela e foram pais de Martim Pires Machado, que em 1211 testemunhou a doação que D. Afonso II fez aos frades da Ordem de S. Bento, e que tomou este nome em memória do feito de seu tio e avô. De Roberto Mendes e Pedro Mendes foi ainda irmão Nuno Mendes de Candarei, nascido cerca 1140, pai ou avô daquele Álvaro Nunes de Candarei.

A ser assim, aquele Lopo Lopes de Lemos, nascido cerca de 1234, a aceitar a data de 1312 como o ano em que vendeu a sua herança na Galiza, fê-lo portanto já velho, com cerca de 78 anos, e necessariamente com o objectivo de facilitar a partilha de seus bens pelos filhos. Mas a verdade é que não encontrei rasto documental deste Lopo Lopes de Lemos, o presuntivo primeiro desta linhagem que veio viver para Portugal. No presente estado da investigação sobre estes Lemos portugueses, o mais que podemos aceitar é, portanto, esta tradição, que a cronologia dos dados documentados permite, e dizer que Lopo Lopes de Lemos veio para Lisboa, onde teve pelo menos dois filhos, nascidos cerca de 1257/58, sendo um deles o Rodrigo/Rui de Lemos que foi alcaide-mor de Lisboa (1285) e oligarca nesta cidade, senhor do prazo da quinta da Lançada, etc., que casou e não deixou geração, sucedendo-lhe o sobrinho Geraldo/Giral Martins, como já ficou dito.

Este Geraldo/Giral Martins, nascido cerca de 1285 e falecido em 1363, cavaleiro, procurador de Lisboa (1318), alvazil dos ovençais (1362-3), etc., teve um irmão chamado Gomes Martins, que por sua morte sucedeu no prazo da quinta da Lançada. Este Gomes Martins casou com Maria Rodrigues, sem geração, e por morte dele sucederam no prazo a 13.8.1367 a viúva e seu segundo marido Afonso Martins, cavaleiro de Alcácer (Colegiada de Stª Marinha do Outeiro de Lisboa, 3, 89).

Deste Giral Martins foi filho outro Geraldo/Giral Martins de Lemos, com quem se começa esta reconstituição genealógica, cujo filho, Gomes Martins de Lemos, que teve o prenome e do antedito tio, casou com a neta herdeira do alcaide de Lisboa Estêvão Vasques de Góis. Temos assim que o sobrinho-bisneto de um alcaide-mor de Lisboa casou com a neta de outro alcaide-mor de Lisboa.

Mário Farelo, na citada tese de doutoramento, dá esta mesma sequêcia, ou seja, Rui de Lemos, seu sobrinho Geraldo Martins e o filho deste Geraldo Martins de Lemos, sem concluir nada sobre como Geraldo Martins era sobrinho de Rui de Lemos, mas deixando implícito que seria seu sobrinho paterno. Como já deixei dito, está fora de causa a informação genealógica de que Geraldo Martins (neste caso o pai) era filho de um Vasco Martins de Lemos, alcaide-mor de Elvas, Vasco este que não terá sequer existido, pois não se documenta e o Vasco Martins que foi alcaide-mor de Elvas era Mello. Na verdade, verificam-se aqui alguns indícios que não são para desprezar. Desde logo, uma evidente diminuição de estatuto entre Rui de Lemos e seu sobrinho Geraldo Martins. Por outro lado, ainda que no séc. XIV seja relativamente comum o uso apenas do prenome e patronímico, sem o nome da linhagem, não deixa de ser estranho o regresso do sobrinho ao uso do patronímico, sem o nome da linhagem, quando o tio já tinha abandonado o patronímico. Finalmente, para Geraldo Martins ser sobrinho paterno de Rui de Lemos, isso necessariamente implicava a existência de um Martim de Lemos que, como o irmão, teria sido certamente um oligarca lisboeta e, como ele, documentável. Tudo isto, afinal, indicia muito mais que Geraldo Martins foi sobrinho materno e não paterno de Rui de Lemos, e por isso não usou o nome Lemos, pois o nome de família da mãe raramente era usado pelos filhos nessa época, nome que só foi recuperado pelo segundo Geraldo Martins, certamente tendo em conta que o pai acabou por ser herdeiro de Rui de Lemos. Esta solução tem ainda a vantagem de explicar melhor a razão porque as genealogias são tão confusas, omissas e fantasiosas no que toca à ascendência de Geraldo Martins de Lemos. E, como veremos, a verdadeira filiação de Geraldo Martins (pai) explica algumas dessas confusões.

Esta ideia de que Geraldo Martins seria sobrinho materno de Rui de Lemos obriga à existencia na oligarquia lisboeta de um pai adequado. E foi na citada obra de Mário Farelo que encontrei uma hipótese plausível, ou seja, um Geraldo Martins, escudeiro, filho de Martim Vasques de Loures e neto de Vasco Martins de Loures, gente que já tinha sido tratada por Luis Filipe Oliveira. Este Geraldo Martins documenta-se como irmão de duas donas do mosteiro de Santos, Beatriz Martins (1382-1411) e Maria Martins (1363-1411), e sucedeu com esta última numa quintã que seu pai tinha em Pinheiro de Loures. Era escudeiro e na década de 1370 documenta-se a viver no Bombarral, termo de Óbidos, sendo casado com Inez Esteves. Seu pai, Martim Vasques de Loures, que se documenta como escudeiro de Loures, cavaleiro (passou a cavaleiro entre 1338 e 1342), cavaleiro de Loures, vassalo do rei e morador e vizinho de Lisboa, foi alvazil dos ovençais e judeus (1340-44) e casou com uma Estaça Gil. Era irmão de Rui Vasques de Loures, também escudeiro, vassalo do rei, morador na Ribeira de Loures e vizinho de Lisboa, alvazil dos ovençais e dos judeus (1326-7) e alvazil dos órfãos (1330), casado com Maria Domingues, ambos com geração, e filhos de Vasco Martins de Loures, falecido antes de 1316, senhor da antedita quintã em Pinheiro de Loures, o qual foi, nomeadamente, administrador dos bens da Colegiada de Stª Maria da Alcáçova de Lisboa. É claro que o Geraldo Martins acima referido é demasiado tardido para poder ser identificado com o sobrinho de Rui de Lemos, que terá nascido cerca de 1290. Mas é bem possível, nomeadamente dado o prenome, que fossem tio e sobrinho, ou seja, que o Geraldo Martins sobrinho de Rui de Lemos seja afinal filho de Vasco Martins de Loures e não do mítico Vasco Martins de Lemos que referem as genealogias! Partindo do princípio de que este nome, Vasco Martins, não foi pura e simplesmente inventado, é bem possível supor que essas genealogias se baseiam em algum documento ou registo que referia Giral Martins, filho de Vasco Martins de Loures, havendo por um lado má leitura de Lemos por Loures, influenciada pela família tratada, e por outro a congregação dos dois Geraldos Martins em apenas um. As genealogias mais antigas começam a família em Giral Martins de Lemos. Assim daz também Alão, referindo que descenderia de Lopo Lopes de Lemos, mas "de cuja descendência não fazem menção os Nobiliários deste Reino, até Giral Martins de Lemos". Outros, como Gaio, compilando várias informações, referem Rui de Lemos e sua mulher Tereza Peres, o que está correcto e revela conhecimento dos documentos. Dizem depois que Vasco Martins de Lemos, alcaide-mor de Elvas, foi filho deste Rui de Lemos e sua mulher, o que está duplamente errado, pois Rui de Lemos não teve geração e o Vasco Martins que foi alcaide-mor de Elvas era Mello e não Lemos. Dizem depois que Giral Martins foi filho deste Vasco Martins e portanto neto de Rui de Lemos. Na verdade, Giral Martins de Lemos foi sobrinho-neto e não neto de Rui de Lemos. E houve dois Giraldos Martins, pai e filho, confundidos nas genealogias num só. Mas Giral Martins, o pai, pode ter sido filho de um Vasco Martins, só que de Loures e não de Lemos. Um erro de leitura, como aquele que confundiu Vasco Martins de Mello com Vasco Martins de Lemos? Finalmente, resta dizer que se Vasco Martins de Loures teve dois filhos que fizeram o patronímico correcto (Martim Vasques e Rui Vasques), isso não impede que pudesse ter tido um filho que repetiu o seu patronímico. Esta irregularidade era já relativamente comum nos finais do séc XIII. E também não se pode estranhar que até hoje não tenha sido ainda possível documentar a filiação deste Giral Martins em Vasco Martins de Loures, pois o mesmo acontece com Martim Vasques de Loures, que só se concluiu ser filho de Vasco Martins por um conjunto de evidências, mas não por uma prova directa. Por outro lado, se Giral Martins foi sobrinho materno de Rui de Lemos, seu pai (portanto cunhado deste Rui de Lemos) pertenceria certamente à oligarquia lisboeta, muito embora não pudesse ser de uma linhagem de grande nobreza, pois isso não só não teria passado despercebido como seria recordado pela descendência. Nesta conjuntura, um filho de Vasco Martins de Loures encaixa na perfeição. Contudo, não me parece que Giral/GeraldoMartins, o sobrinho de Rui de Lemos, fosse irmão inteiro de Martim Vasques de Loures e de Rui Vasques de Loures. Não só pela cronologia mas sobretudo pela sucessão no prazo da quinta da Lançada. Portanto, Vasco Martins de Loures terá casado duas vezes, a 1ª com mulher que se desconhece, de quem teve Martim Vasques e Rui Vasques, e a 2ª vez com uma irmã do alcaide Rui de Lemos, de quem teve Giral/Geraldo Martins e Gomes Martins.

Acresce, nesta preposição, que se de facto o Lopo Lopes de Lemos vendeu em 1312 a sua herança na Galiza, já velho, com cerca de 78 anos, como ficou dito, fê-lo após a precoce morte de seus filhos, tendo apenas vivos os anteditos netos maternos Giral/Geraldo Martins e Gomes Martins, que então teriam 25 a 27 anos de idade e eram já órfãos de ambos os pais, o que de certa forma contribui para explicar não só essa venda como a futura adopção do nome Lemos (e certamente as respectivas armas) por Giral/Geraldo Martins, o Moço, como sucessor e talvez único descendente de seu bisavô Lopo Lopes de Lemos, ainda que com uma quebra de varonia.

Temos assim, em síntese, que Giral/Geraldo Martins de Lemos, a que podemos chamar o Moço, era filho de outro Giral/Geraldo Martins (de Lemos), portanto o Velho, sendo este filho de Vasco Martins de Loures e sua 2ª mulher Lemos, porventura Tereza como a mãe, irmã de Rui/Rodrigo de Lemos, ambos filhos do galego Lopo Lopes de Lemos.

Como quer que seja, neste ensaio apenas vou tentar reconstituir a descendência de Giral Martins de Lemos, o Moço, e apenas até ao séc. XV, tendo em conta os Lemos que se documentam com um estatuto compatível com esta origem e o que de mais ou menos aceitável dizem as genealogias tardias. Correndo portanto o risco de unificar o que pode não ser unificável, mas ganhando com isto alguma análise crítica que pode permitir novas pistas de identificação e um quadro para absorver as informações avulsas que entretanto possam surgir.   

 

 

Reconstituição genealógica   

 

     1.      Giral Martins de Lemos, ou Geraldo Martins de Lemos, escudeiro, alvazil do cível de Lisboa (1383-4), foi o 1º morgado do Calhariz, com capela na igreja de Stª Justa de Lisboa, por cabeça de sua mulher. É referido por Fernão Lopes como um dos cidadãos e escudeiros de Lisboa que apoiaram o mestre de Avis, com quem esteve no cerco de Lisboa (1384) e nas Cortes de 1385 que o elegeram rei. Nasceu cerca de 1325 e faleceu no final de 1386, e seguramente antes de 27.12.1396. Num pergaminho de 6.7.1377, de permuta de terras em Calhariz com o convento de Chelas, publicado pelo marquês de Abrantes, vem como escudeiro e morador em Lisboa. Trata-se do escambo que fizeram os religiosos do mosteiro de Chelas com Giral Martins de Lemos, escudeiro, e sua mulher Beringueira Anes, moradores em Lisboa, de uns foros e outros direitos que tinham no lugar do Calhariz de Benfica, por um lagar de azeite e outro de vinho, com todas as suas casas que aqueles possuíam na Porta Nova de Stª Justa (ACA, 2ª parte, doc. 633). Havendo de 14.5.1376 outro escambo que fizeram os religiosos do mosteiro de Chelas com Giral Martins de Lemose, escudeiro, e sua mulher Beringueira Anes, moradores em Lisboa, de umas herdades que tinham em Lisboa, no lugar do Calhariz de Benfica, por casas que aqueles possuíam no Poço do Borratém em Lisboa (ACA, 2ª parte, doc. 632). E a 29.9.1374 os mesmos Giral Martins de Lemos e sua mulher fizeram a Antão Afonso o aforamento de uma courela de vinha a que chamam a Seara no lugar da Póvoa (do Ribatejo), e de uma almoinha no dito lugar (ACA, 2ª parte, doc. 631-A). Em testamento de 1386 nomeou seu filho como administrador da capela e morgado de Calhariz, com obrigação de missa quotidiana na igreja de Stª Justa, instituídos em 1351 por testamento de seus sogros João Esteves e sua mulher Constança Afonso, moradores em Santa Justa. Como ficou dito, não sucedeu na quinta da Lançada, prazo da Colegiada de Stª Marinha do Outeiro de Lisboa, mas quando a 13.8.1367 sua tia (por afinidade) teve o dito prazo, ele teve da colegiada o prazo de uma adega (CSMOL, 3, 89). Documenta-se como filho de outro Giral Martins, cavaleiro, procurador de Lisboa (1318), alvazil dos ovençais (1362-3), que era sobrinho de Rui de Lemos, alcaide-mor de Lisboa (1285) e oligarca nesta cidade, senhor do prazo da quinta da Lançada, que deixou a este seu sobrinho, como ficou explanado na introdução. Giral Martins de Lemos casou com Berengeira Anes, referida na Crónica de D. João I [2] , que se documenta sua viúva a 7.1.1390 e ainda vivia a 13.6.1413, filha herdeira dos referidos João Esteves, dito "filho de Rica Solteira", cidadão e vizinho de Lisboa, e de sua mulher Constança Anes, ricos proprietários em Lisboa, nomeadamente no Calhariz de Benfica, que fizeram testamento a 29.12.1351 (do qual ficou administrador Mestre João das Leis), no qual instituiram o morgadio de Calhariz com sua capela e albergaria na igreja de Stª Justa de Lisboa (ACA, 2ª parte, doc. 633). A 4.12.1396, nas suas casas de morada, Berengueira Anes, "molher que foe de giral martjnz de lemos scudeiro morador na cidade de Lisboa", nomeou herdeiro das suas casas em Lisboa e da quintã de Calhariz seu único filho varão "gomez martjnz de lemos senhor de goões", para que "seia memorea de seu linhagem". As casas de Lisboa, onde ela morava, com o seu pomar, adegas, cavalariças e casas anexas em que vivia João Afonso, ficavam no Rossio e confinavam com "o mosteiro do conde e com gonçallo viegas e com casas dos gafos e com Rua pubrica". A quintã de Calhariz ficava a par de Benfica, termo de Lisboa, e confinava com herdades que já pertenciam a seu filho, com a herdade dos Gafos, "que ora trage Joham afomso contador das custtas", com caminhos públicos e com Vicente Martins e outros. Diz Berengueira Anes nesta escritura, feita pelo tabelião de Lisboa João Marecos, que Gomes Martins é o seu único filho varão e que estes bens em que o nomeia constituem a sua terça, pelo que determina que o resto dos seus bens são para as filhas, que não nomeia nem numera. E acrescenta que as ditas casas e quinta que deixa a seu filho "uallem mais que qujnhentos florjns d ouro", pelo que, se se apurar que corresponde a mais do que a terça, seu filho terá de pagar tornas às irmãs. A 27 do mesmo mês e ano D. João I confirmou a Gomes Martins de Lemos, seu criado, esta doação e sucessão "em maneyra de moorgado". A 7.1.1390, já viúva, Berengeira Anes declarou que seus filhos se encontravam à sua guarda, o que, se não sigifica que fossem todos menores de idade, quer certamente dizer que eram jovens e solteiros e que pelo menos alguns seriam menores. Dado que, como vimos, em 1396 também declarou que só tinha um filho varão, se entre 1390 e 1396 não morreu nenhum, os restantes seriam as filhas que também refere. Este conjunto de informações leva a concluir que os filhos teriam em 1390 entre 20 e 16 anos, o que apontaria o seu casamento para cerca de 1369 ou um pouco antes, dando já uma margem para naturais óbitos, nomeadamente de um Giral, provável filho primogénito. Se apontarmos o casamento para 1365, Giral Martins de Lemos teria cerca de 50 anos, pois não deve ter nascido depois de 1325, tendo em conta que seu pai já foi herdeiro do tio Rui de Lemos em 1304 e não teria nascido depois de 1285, tendo-o portanto com cerca de 40 anos. Aliás, como veremos adiante, Giral Martins de Lemos terá deixado um filho natural, havido antes do casamento, e daí talvez o cuidado de Berengeira Anes em declarar que só tinha um filho varão, Gomes Martins de Lemos.

1.1.    Gomes Martins de Lemos, "o Velho", único filho varão de Giral Martins de Lemos, como se documenta, nasceu cerca de 1370 e faleceu em meados de 1430. Fidalgo do Conselho de D. João I, aio do infante herdeiro D. Afonso, foi senhor de Góis (era-o em 1396) por sua mulher. Foi ainda senhor de juro e herdade da terra e julgado de Oliveira do Conde (15.1.1386), com todas as suas jurisdições mero e misto império, salvo a correição e alçada, e senhor das quintãs de Lousã e Oliveira de Currelos (12.4.1398), com todas as suas casas, vinhas, herdades, pomares e direitos, senhorio e quintãs que tinham sido de João Fernandes Pacheco, que perdeu todos os seus bens por traição. Foi o 2º morgado do Calhariz, com capela na igreja de Stª Justa. A 16.12.1386 D. João I confirmou a Gomes Martins de Lemos os bens do Calhariz de Benfica, em forma de morgado (ACA, 2ª parte, doc. 36). Como ficou dito, a 27.12.1396 herdou de sua mãe as casas do Rossio, em Lisboa, onde ela vivia, e a quintã do Calhariz, que confinava com as herdades do morgadio em Calhariz, em que ele já sucedera. Teve ainda mercê de bens em Sintra (8 e 13.7.1384) e em Santarém (17.8.1385) e da colheita de Góis (13.6.1399), para sempre, que rendia anualmente 67,5 libras da moeda antiga. Gomes Martins de Lemos esteve nas Cortes de Coimbra, foi aio do infante herdeiro D. Afonso (irmão mais velho de D. Duarte, que morreu novo), cargo em que se começa a documentar em Abril de 1398, e fidalgo do Conselho de D. João I, a quem acompanhou a Ceuta (1415), comandando uma das sete grandes galeras, porventura a nau de S. Cristóvão que o rei lhe doou a 7.3.1416. Gomes Martins faleceu em meados de 1430, realizando-se a partilha dos seus bens a 5.3.1435 na vila de Góis, no notário Álvaro Nunes, instrumento confirmado por D. Duarte a 23.3.1435. Existe uma sentença régia de 10.2.1408, favorável ao Cabido de Viseu, contra João Afonso e Afonso Álvares, escudeiros de Gomes Martins de Lemos, por estes querem usurpar um moio de pão por ano de casais em Beijós, Cabanas, Laceiras e Oliveira do Conde, que eram do Cabido. E na Chancelaria aparecem várias cartas de mercê real para criados e escudeiros deste Gomes Martins de Lemos. Já a 8 e 13.7.1384 D. João I doou a Gomes Martins de Lemos "pera sempre", para si e seus descendentes, todos os bens móveis e de raiz que Gonçalo Gil Tripeira tinha em Sintra e outros lugares, que os perdeu por estar em deserviço. A 17.8.1385 o mesmo rei doou a Gomes Martins de Lemos, seu vassalo, para si e seus sucessores, todos os bens móveis e de raiz que em Santarém ou em qualquer parte tinha Garcia Rodrigues Taborda, alcaide do castelo de Leiria, que os perdeu por estar em deserviço. A 10.4.1402 o Papa Bonifácio confirmou a Gomes Martins de Lemos, senhor de Góis, o padroado da igreja de S. Pedro de Oliveira de Currelos. A 23.6.1404 foi feita uma composição em juízo entre Gomes Martins de Lemos, senhor de Góis, de uma parte, e Leonor Rodrigues, da outra, sobre o lugar de Pedra Alçada e de bens em Monsaraz, ficando cada um com metade. Por morte de Leonor Rodrigues a sua parte passaria para o senhor de Góis (ACA, 2ª parte, doc. 642). A 15.6.1407 Gomes Martins de Lemos, senhor de Góis, aforou a Afonso Martins, tabelião, e sua mulher Madalena Gonçalves, a sua quinta de Mouriço, em Ponte de Lima (ACA, 2ª parte, doc. 307). A 8.3.1412 Gomes Martins de Lemos, senhor de Góis, tomou posse de uma quintã na Aldeia Galega do Ribatejo. A 11.10.1424 o vigário-geral diocese de Viseu proferiu sentença sobre a quintã de Currelos a favor de Gomes Martins de Lemos (ACA, 2ª parte, doc. 32). Gomes Martins de Lemos casou cerca de 4.12.1396 (data em que já se documenta senhor de Góis) com Mécia Vasques de Góis, 1ª morgada de Góis por testamento de seu avô de 28.4.1389, e que por morte de seu marido foi confirmada senhora de Góis e seu termo (23.12.1433), senhora das quintãs de Oliveira de Currelos e da Lousã, da herdade da Barrada, no termo de Moura, que fora de sua avó Constança Afonso, e de Pedra Alçada com sua jurisdição (20.12.1433), etc., fal. depois de 1436, ano em que fez doação de todas as rendas da sua coutada de Pedra Alçada a Nuno Martins da Silveira (futuro sogro de sua neta), por "tudo o devido que tinham para com ele". Já vem referida como Mécia Vasques, senhora de Góis, quando a 6.6.1430 aforou a Fernão Rodrigues a sua quintã de Mouriço, em Ponte de Lima (ACA, 2ª parte, doc. 306), a 9.9.1432 obrigou os foreiros dos seus casais de Grandais, de Trevadela de Rea e de Sabadão, igualmente em Ponte de Lima, a pagarem os foros que deviam como tinha sido determinado por sentença (ACA, 2ª parte, doc. 309) e a 22.7.1434 aforou a Vasco Martins a sua herdade de Cardais, também em Ponte de Lima (ACA, 2ª parte, doc. 308). No senhorio de Pedra Alçada Mécia Vasques de Góis sucedeu a seu tio-bisavô Álvaro Vasques de Góis, também dito de Pedra Alçada, alcaide-mor de Serpa, etc., que a 18.6.1361 e 29.3.1367 teve de D. Fernando I confirmação das coutadas das suas quintãs de Pedra Alçada e Sacarabotão e a 18.3.1378 mercê da jurisdição e termo de Pedra Alçada, e que só deixou filhos bastardos. Mécia Vasques de Góis era neta paterna e sucessora (testamento de 28.4.1389) de Estêvão Vasques de Góis, 9º senhor de Góis (23.5.1365), alcaide-mor de Lisboa (23.11.1388), etc., e sua mulher Constança Afonso, que já viúva de Estêvão Vasques de Góis teve a 9.11.1396 confirmação de D. João I da coutada da sua herdade a quem chamam a Barrada, no termo de Moura, junto a Rio Torto, "que foe sempre coutada em tempo de seu auoo e de seu padre". As genealogias não concordam no nome do pai de Mécia Vasques de Góis, o qual faleceu antes de seu pai, mas tudo indica que fosse Pedro Esteves de Góis, alcaide-mor de Alter do Chão por D. Fernando I (1, 1v), casado com Leonor Gonçalves. D. Fernando I doou a Estêvão Vasques de Góis as rendas e direitos da igreja de Mourão (1, 54v). A 21.4.1388 D. João I doou-lhe a colheita de Góis e a 23.11.1388, dizendo-o seu vassalo, deu-lhe a alcaidaria-mor de Lisboa, como tinha Antão Vasques, cavaleiro, com todas as rendas e direitos. A 24.5.1389 o mesmo rei deu a "steuam uaasqz de goões caualleyro nosso uasallo alcaide" autorização para nomear os homens da alcaidaria que entendesse. A 26.4.1390 fez mercê a Lourenço Anes Fogaça, cavaleiro seu chanceler-mor, da alcaidaria-mor da cidade de Lisboa, com todas as suas rendas, direitos e próis, como era "steuam uaasqz de goões caualleyro". Instituiu a Colegiada de Góis a 10.4.1377, por acordo estabelecido com o prior Fernão Gil, cónego da Sé de Coimbra. Dele existe um selo de armas, inventariado pelo marquês de Abrantes. Encontrava-se num escambo de 23.8.1367 feito entre Estêvão Vasques, cavaleiro, senhor de Góis, e Estêvão Mafaldo, escudeiro, de um ferragial em Moura por chãos e pardieiros no castelo de Moura (ACA, 2ª parte, doc. 304). Estêvão Vasques de Góis e sua mulher, além do pai de Mécia Vasques de Góis, foi também pai de D. Lourenço Esteves de Góis, prior do Crato e mestre da Ordem do Hospital (1399), sendo antes freire e comendador de Santa Vera Cruz nesta ordem, que deixou filhos ilegítimos, nomeadamente D. Nuno Gonçalves de Góis, fidalgo do Conselho de D. Duarte, também prior do Crato e mestre da Ordem do Hospital (1419-40), sendo antes freire e comendador de Algoso nesta ordem. O alcaide-mor Estêvão Vasques de Góis teve ainda em Mor Afonso um filho, Vasco Farinha, legitimado por carta real de 27.8.1401, onde se diz que nasceu antes do casamento de seus pais, querendo isto apenas significar que eram solteiros à data do nascimento e casados depois, mas não um com o outro, pois a mulher de Estêvão Vasques de Góis, Constança Afonso, documenta-se sua viúva em 1396, como ficou dito. Estêvão Vasques de Góis era filho sucessor de Martim Vasques de Góis, 8º senhor de Góis (1343), e de sua mulher D. Violante de Mello. Martim Vasques de Góis foi alcaide-mor de Coimbra (13.7.1357) e sucedeu no senhorio de Góis a seu tio materno Gonçalo Vasques de Góis, ainda em vida deste, pois já a 7.4.1343 outorgou um segundo foral a Góis. E a 17.7.1343 Lopo Fernandes, senhor de Ferreira, e seu filho Diogo Lopes, renunciaram ao contrato de renda que tinham feito com Martim Vasques e sua mulher do burgo, lugar, vila e terra de Góis (ACA, 2ª parte, doc. 305).

1.1.1.     Fernão Gomes de Góis, nascido cerca 1398, fidalgo e camareiro-mor de D. João I, esteve com seu pai na tomada de Ceuta (1415), após o que aquele rei o armou cavaleiro. Foi senhor de juro e herdade de Góis (Arganil) e de Oliveira do Conde (13.11.1433), onde jaz em magnífico túmulo de pedra ançã, com a sua estátua jacente, e senhor de juro e herdade de Penalva e S. Gião (7.1.1431). Sucedeu na quintã do Calhariz, mas não no morgado e capela do Calhariz, que ficou para seu irmão Gomes, por sentença de D. Afonso V, apesar da continuada contenda judicial entre estes dois irmãos não só pela posse deste morgado mas também pela posse de Góis e outros bens, conforme adiante detalho. Casou com D. Leonor da Cunha, nascida cerca de 1400 (o pai diz em 1431 que ela "pasa de hidade de trinta annos"), que levou por dote os senhorios de Penalva e S. Gião, para o que seu pai obteve licença de D. Duarte de 26.12.1434. Muito embora nesta mercê não se refira que era filha natural, não podia deixar de sê-lo, uma vez que não consta na doação a Afonso da Cunha, onde constam todos os seus irmãos legítimos. O próprio rei, como ficou referido acima, diz nesta carta que Vasco Martins da Cunha se tinha separado da mulher e por seu mandado tornara a viver com ela. Esta Leonor deve ser filha natural, havida nesse interim. Como indício, convém referir que enquanto em 1436 sua irmã vem como D. Maria, ela nesta mercê vem sem o Dona. Casou em 1431, com dote real de 2.500 coroas de ouro de 16.4.1430. Era filha natural de Vasco Martins da Cunha, o Rabo de Asno, 9º senhor de juro e herdade de Tábua, 1º senhor de juro e herdade de Penalva (28.3.1434), senhor de juro e herdade de S. Gião e de Ázere e Sinde (28.3.1434), alcaide-mor de Lanhoso, etc. 

1.1.1.1.     D. Beatriz de Góis, sucessora nos senhorios de seu pai, apesar da contestação de seu tio Gomes Martins de Lemos, que perdeu causa em julgado. A 21.1.1497 D. Beatriz, filha maior de Fernão Gomes de Góis, fidalgo e camareiro-mor de D. Manuel I, teve deste rei confirmação de uma carta de D. Afonso V de 12.4.1437 que confirmava a Gomes Martins de Lemos os bens que perdera João Fernandes Pacheco, nomeadamente as quintãs na Lousã e Oliveira do Conde, outra de D. Duarte de 20.12.1433 que os confirmava a D. Mécia Vaz, mulher do dito Gomes Martins de Lemos, outra de D. Afonso V de 8.9.1451 que os confirmava a Fernão Gomes de Góis, seu filho maior. Mas D. Manuel I apenas lhe confirmou a quintã de Currelos, pois a da Lousã tivera e tinha Luiz de Cáceres. Já a 2.9.1496 D. Manuel I confirmara a D. Beatriz de Góis o senhorio de juro e herdade do julgado de Oliveira de Currelos. A 2.6.1472 D. Beatriz, mulher de Diogo da Silveira, senhor de Góis, fez transacção com seu criado João de Moraes, morador em Cabanas, sobre a quinta de Cabanas e os casais do Conde e do Ribeiro, por ele doados à dita senhora. D. Beatriz casou com Diogo da Silveira, escrivão da puridade, fidalgo do Conselho, coudel-mor e vedor das obras do reino e 2º senhor do padroado da vila de Terena, suas rendas e direitos reais, bem como do padroado da igreja de S. Pedro desta vila (16.9.1449, confirmada a  25.7.1454), como já tivera seu pai (8.5.1436). A 5.3.1453 D. Afonso V doou a Diogo da Silveira, fidalgo da sua Casa, por seu casamento com D. Beatriz, filha de Fernão Gomes de Góis, uma tença anual de 30.000 reais de prata até perfazer a quantia de 3.000 coroas de ouro da moeda de França. A 30.3.1454 confirmou os direitos jurisdicionais a Diogo da Silveira, fidalgo da casa régia, do lugar de Pedrógão Pequeno, terra do priorado da Ordem do Hospital, através de uma carta de prazo, feita com D. Vasco de Ataíde, prior da dita Ordem. A 28.4.1454 confirmou o contrato de casamento entre Diogo da Silveira e sua mulher D. Beatriz de Góis, feito pelos pais de sua mulher Fernão Gomes de Góis e Beatriz da Cunha, com a doação para sempre dos bens móveis e de raiz, entre os quais a coutada de Pedra Alçada, com todas as suas rendas, direitos e pertenças e com o morgado de Góis, a quintã de Calhariz, termo de Lisboa, casal de Góis, entre outros (contrato de dote de 16 de Janeiro de 1454). A 10.1.1455 o mesmo rei aforou a Diogo da Silveira, do seu Conselho, escrivão da puridade, um chão que é entre a Porta do Mar e a Porta do Paço régio da madeira, pois ele queria construir aí umas casas, pelo foro anual de uma dobra de ouro, contanto que ele nem os seus sucessores paguem os outros aforamentos e emprazamentos que o rei tem, não podem vender sem autorização régia a cavaleiro, dona, escudeiro, mouro, judeu, clérigo, nem a outra pessoa de religião ou de maior condição que ele. A 12.9.1455 privilegiou Diogo da Silveira, do seu Conselho, escrivão da puridade e vedor-mor das obras, que conseguira em 3 vidas o emprazamento da vila de Pedrógão Pequeno de D. Vasco de Ataíde, concedendo-lhe autorização para que ele possa dar a outras pessoas, terras, herdades, bens, vinhas, casas, pardieiros, que não tenham sido tratados ou trabalhados, no prazo de 1 ano depois de ter sido feito o pregão na dita vila, pelo qual se mandava que os donos dos ditos bens trabalhassem as terras. A 28.12.1455 doou a Diogo da Silveira, escrivão da puridade, vedor-mor das obras régias, casado com D. Beatriz de Góis, filha maior e legítima de Fernão Gomes de Góis e Leonor da Cunha, o lugar de Góis, com todas as rendas, direitos e padroados das igrejas e outras coisas, como teve o seu sogro, independentemente de o rei já ter doado o lugar a Gomes Martins de Lemos, a quem retirou a demanda. A 12.6.1456 doou para sempre a Diogo da Silveira, do seu Conselho e escrivão da puridade, todos os bens móveis e de raiz que pertenceram a Martim Afonso. A 29.10.1458 doou vitaliciamente a Diogo da Silveira, do seu Conselho e escrivão da puridade, pelos bons serviços que este lhe prestara na armada da vila de Alcácer, todas as terras de Segadães e Recardães, com todas as suas jurisdições e rendas. Era filho sucessor de Nuno Martins da Silveira, escrivão da puridade, fidalgo do Conselho e coudel-mor e vedor das obras do reino, e de sua mulher D. Leonor Falcão.

1.1.1.1.1.    Muno Martins da Silveira, sucessor, nascido cerca de 1454 e falecido depois de 1525, do Conselho, escrivão da puridade, vedor-mor das obras e terças e regedor do reino de D. Manuel I e D. João III. A 2 e 3 de Maio de 1521 D. Manuel I confirmou a Nuno Martins da Silveira, do seu Conselho, senhor de Góis e vedor-mor das obras do reino, uma sua carta anterior, bem como cartar de D. Afonso V, D. Duarte e D. João I, em que se confirmava o senhorio de juro e herdade de Oliveira de Currelos a Gomes Martins de Lemos, do Conselho e aio de D. Afonso, bem assim como das quintas na Lousã e Oliveira de Currelos, a seu filho Fernão Gomes de Góis, à filha deste D. Beatriz de Góis, sua herdeira, e a Nuno Martins da Silveira, porquanto era filho legítimo maior e herdeiro da dita D. Beatriz. Uma carta do dia seguinte confirma-lhe as terras de S. Gião e Penalva, que lhe vinham de sua avó Leonor da Cunha, casada com Fernão Gomes de Góis. A 22.1.1515 Nuno Martins da Silveira, do Conselho, passou procuração a Francisco Álvares para receber do almoxarife de Viseu 45.635 reais que lhe foram desembargados. A 20.4.1515 Nuno Martins da Silveira, do Conselho de D. Manuel I, teve provisão para receber 60.000 reais de tença. A 20.4.1516 teve provisão para receber no almoxarife de Viseu 15.000 reais de sua tença e a 20.4.1516 para receber 17.135 reais. A 9.6.1522  seu filho Luiz da Silveira teve mercê para, por morte de seu pai, lhe suceder  no ofício de vedor-mor das obras, terças e resíduos. D. João III confirmou Nuno Martins da Silveira neste ofício (CJIII, 51, 161v), confirmou-lhe a carta de segurança de arras, deu-lhe carta de privilégio desembargador e coutou-lhe as suas quintas de Pedra Alçada e de Carabutão e a herdade de Terena. Nuno Martins da Silveira casou, com autorização real do contracto de seu casamento de 22.7.1482, com D. Filipa da Silva, filha de Fernão Telles (de Menezes), senhor de Unhão, e de sua mulher D. Maria de Vilhena. Destes foi filho sucessor D. Luiz da Silveira, 1º conde de Sortelha, com geração nos condes de Sortelha e marqueses de Abrantes.

1.1.1.1.2.    Martim da Silveira, alcaide-mor e senhor de Terena. A 27.11.1466 D. Afonso V confirmou a doação vitalícia a Martim da Silveira, filho de Diogo da Silveira, do seu Conselho, escrivão da puridade, vedor-mor das obras régias, do padroado da vila de Terena, suas rendas e direitos reais, bem como do padroado da igreja de S. Pedro desta vila, conforme o conteúdo das doações anteriores a seu pai (insertas cartas do rei D.Duarte de 8.5.1436 e de D. Afonso V de 16.9.1449 e de 25.7.1454). Casou com D.Catarina de Azambuja, c.g.

1.1.1.1.3.    Henrique da Silveira, fidalgo do Conselho, nascido cerca de 1460 e falecido depois de 1519. A 20.5.1504 D. Manuel  I ordenou aos contadores de sua Casa que levassem em a conta a Diogo da Ponte, recebedor que foi da sisa da marçaria de Lisboa, 40.000 reais por outros tantos que pagou a Henrique da Silveira, do seu Conselho, de sua tença. De 1505 a 1519 teve várias provisões pare receber diferentes tenças. Casou com D.Isabel Pereira, filha de Garcia de Mello, alcaide-mor de Serpa, c.g.

1.1.2.   D. Afonso Gomes de Lemos, nascido cerca de 1400 e falecido depois de 25.1.1482, Dom prior da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira (Guimarães), deão da Sé de Silves e capelão do arcebispo de Braga D. Fernando da Guerra (1414-67), teve em 1440 os prazos de Pedroso e do casal de Esmoriz, em que sucedeu seu sobrinho Aires Gomes de Lemos, referido adiante. Em 1454 Afonso Gomes de Lemos já era prior de Stª Mª de Guimarães, quando obteve de D. Afonso V carta de privilégio para João Afonso, clérigo de missa. Mas em 1462 tinha 2.700 reais de moradia como cavaleiro fidalgo da Casa Real. Esteve na batalha de Toro, onde este rei lhe deu, a 8.3.1476, em consideração ao serviço que tinha feito nas partes de África e em Castela, uma tença de 20.000 reais, que deixou a seu sobrinho João Gomes de Lemos, que dela teve confirmação de D. Manuel I a 20.12.1497. A Gomes Martins de Lemos e Afonso Gomes de Lemos, vassalos d'el rei, concedeu este mesmo rei, a 30.10.1449, carta de privilégio de fidalgos para todos os seus caseiros, lavradores, mordomos e apaniguados nas comarcas de Entre-Tejo-e-Guadiana, Estremadura, Beira e Entre-Douro-e-Minho. A 25.1.1482 Afonso Gomes de Lemos, prior de Santa Maria da Oliveira de Guimarães, fez emprazamento de vários casais a seu sobrinho João Gomes de Lemos e sua mulher. Talvez tivesse tido o seguinte filho natural:

1.1.2.1.     ?(N) Afonso de Lemos, que a 3.7.1483 foi nomeado escrivão da coudelaria de Guimarães. Deve ser o Afonso de Lemos que casou com Beatriz Dias ou Dinis e foram pais de Pedro Afonso, matriculado em ordens sacras em Braga em 1480, que depois aparece como Pedro de Lemos e em 1499 era capelão do rei a abade de Sendim (Felgueiras). Deste abade deve ter sido filho Jorge de Lemos, com geração em Felgueiras, assim como o Francisco de Lemos que foi escrivão de Felgueiras (Ementas, 9, 186).

1.1.3.   Gomes Martins de Lemos, "o Moço", nascido cerca de 1405 e falecido nonagenário entre 3 e 7 de Novembro de 1497. Foi o 1º senhor de juro e herdade da Trofa (13.11.1449), de Pampilhosa (12.11.1458) e de Álvaro (16.8.1472), tudo com jurisdição cível e crime, fidalgo do Conselho (1458) e 5º senhor de juro e herdade de Jales e Alfarela (26.11.1449), como mais detalhadamente digo na sua página. Sucedeu ainda como 3º morgado do Calhariz, por sentença de D. Afonso V de 11.11.1438. Bem assim como senhor e morgado de Góis (12.4.1437), que só perderia por sentença de 7.8.1448. Como ficou dito, contendeu judiciamente com seu irmão Fernão quer pela posse deste morgado quer pela posse do senhorio e morgadui de Góis, que teve durante um tempo, bem assim como as quintãs da Lousã e Oliveira do Conde. A 28.12.1455, quando D. Afonso V confirmou o senhorio de Góis a D. Beatriz e seu marido Diogo da Silveira, refere que o faz independentemente de o já ter doado a Gomes Martins de Lemos, a quem retirou a demanda. E quando a 21.1.1497 a mesma D. Beatriz teve de D. Manuel I confirmação do dito senhorio, é referida uma carta de D. Afonso V de 12.4.1437 que confirmava a Gomes Martins de Lemos os bens que perdera João Fernandes Pacheco, nomeadamente as quintãs da Lousã e Oliveira do Conde. Ora, em 1437 já Gomes Martins de Lemos, o Velho, tinha falecido há vários anos, tendo-se realizado a partilha de seus bens em 1435, como ficou dito, pelo que só pode tratar-se deste Gomes Martins de Lemos, o Moço. Da mesma forma, só pode ser este o Gomes Martins de Lemos que a 9.1.1439 aforou a Rodrigo Anes a quarta parte da defesa de Chouco de Mouriço, em Ponte de Lima (ACA, 2ª parte, doc. 310). E o Gomes Martins de Lemos, senhor de Góis, que a 19.11.1438 emprazou a Gonçalo Domingues, de Ponte de Lima, uma leira e casas situadas no morgado de Góis (ACA, 2ª parte, doc. 316). E o Gomes Martins de Lemos, senhor de Góis, que a 23.6.1442 recebeu de Leonor Rodrigues a doação dos bens que havia em Monsaraz e Pedra Alçada (ACA, 2ª parte, doc. 322). E ainda o Gomes Martins de Lemos a pedido de quem D. Afonso V mandou fazer a 16.8.1455 traslado das escrituras que se encontravam no tombo do morgado de Calhariz, por causa da contenda havida entre Fernão Gomes de Góis, como autor, e Beatriz Teixeira, viúva de Luiz Martins, como ré, por causa de certos bens de raiz que o primeiro emprazou apesar de serem bens de morgado (ACA, 2ª parte, doc. 637). Gomes Martins de Lemos, o Moço, só perderia Góis por sentença de D. Afonso V de 7.8.1448, justamente sobre a demanda entre Fernão Gomes de Góis, de uma parte, e Gomes Martins de Lemos, seu irmão, da outra, sobre a posse do morgadio de Góis, a favor do primeiro (ACA, 2ª parte, doc. 635). Toda esta contenda se baseou no facto de seu irmão mais velho não ter filhos varões, razão pela qual Gomes Martins de Lemos se considerava legítimo sucessor não só nos bens da coroa de seu pai, o que só durante algum tempo conseguiu valer, mas também no morgadio do Calhariz, em que de facto sucedeu. É curioso verificar, no entanto, que em 1438 Gomes Martins de Lemos também não tinha filhos varões, pois ainda estava solteiro. E que foi após ter perdido o senhorido e morgado de Góis, em 1448, que D. Afonso lhe deu, em 1449, o senhorio da Trofa. Gomes Martins de Lemos casou, com aprovação real de 12.7.1444, com D. Maria de Azevedo, donzela da Casa da infanta D. Isabel, que foi senhora da honra e torre de Silva e levou por dote o senhorio de Jales e Alfarela, nascida cerca de 1417 e falecida em 1453, filha de Álvaro de Meira e sua mulher D. Maria de Azevedo, como também mais detalhadamente aí se refere.

1.1.3.1.     João Gomes de Lemos, 2º senhor da Trofa, Álvaro, Pampilhosa, Jales e Alfarela, por carta de confirmação do rei D. Manuel I de 7.11.1497, 4º morgado do Calhariz, senhor da honra e torre de Silva, etc., fidalgo das Casas de D. Afonso V e D. João II e do Conselho D. Manuel I (26.4.1511), cavaleiro da Ordem de Cristo e nesta ordem comendador de Castelejo, etc., como mais detalhadamente digo na sua página. Nasceu cerca de 1445 e faleceu depois de 14.4.1516 e antes de 20 de Julho desse ano. Teve contenda judicial com seu primo Nuno Martins da Silveira sobre a passagem da ponte de Segadães e Recardães, que perdeu por sentença de D. Manuel I de 24.11.1508 (ACA, 2ª parte, doc. 13). Casou com D. Violante de Sequeira, colaça da infanta Stª Joana, que a 22.4.1477 recebeu de D. Afonso V, pai desta infanta, 2.000 coroas de ouro para dote de casamento. D. Violante ainda vivia a 18.5.1523 quando na sua vila da Trofa, como D. Violante de Sequeira, viúva de João Gomes de Lemos, fez uma procuração em pública forma a Henrique Dias, morador em Aveiro, para que em seu nome pudesse cobrar a sua tença onde quer que ela fosse paga. D. Violante de Sequeira já era donzela da infanta a 20.7.1469 quando obtém uma mercê real para um mouro forro, sapateiro em Lisboa. Como Dona Violante, mulher de João Gomes de Lemos, teve a 16.4.1512 provisão para se pagar no almoxarifado de Aveiro a sua tença de 20.000 reais, e a 22.5.1517 mais uma tença separada de 16.000 reais.

1.1.3.1.1.    Duarte de Lemos, 3º senhor da Trofa, Álvaro, Pampilhosa, Jales e Alfarela (8.7.1514), ainda em vida de seu pai, 5º morgado do Calhariz, senhor da honra e torre de Silva, etc., fidalgo da Casa Real e do Conselho de D. Manuel I (r. de 1220) e de D. João III (22.3.1522), com 4.286 reais de moradia, cavaleiro da Ordem de Cristo e nesta ordem comendador de Castelejo, capitão-mor do mar e da costa da Etiópia e da Arábia, etc., como mais detalhadamente digo na sua página. Nasceu cerca de 1485 e faleceu a 27.6.1558, com 73 anos de idade. Casou com D. Joana de Mello, falecida a 12.10.1529. C.g. na Casa da Trofa, como se desenvolve.

1.1.3.1.2.    Fernão Gomes de Lemos, capitão-mor e governador do Sri Lanka (1522), embaixador à Pérsia (Maio de 1515), esteve na Índia com seu irmão Duarte, participou na tomada de Malaca, Adem e Ormuz, foi como capitão de Armada ao Estreito e ao Mar Roxo e foi capitão-mor de Columbo. É um dos quatro irmãos de António de Lemos que Martim Afonso de Souza diz terem morrido no serviço ao rei. A 4.1.1517 Fernão Gomes de Lemos escreveu a D. Manuel I, dizendo que Afonso de Albuquerque o nomeara como embaixador ao cheque Ismael, serviço difícil pois nem o caminho se sabia, mandando ao rei um livro da embaixada e da armada de Ormuz. Já antes, a 7.5.1515, Fernão Gomes de Lemos, embaixador ao xeque Ismael, mandara ao rei notícia do seu conhecimento e do escrivão da sua embaixada. Fernão Gomes de Lemos comprou a Álvaro Pacheco uma quinta de Alenquer, pelo que a 3.8.1529 lhe trespassa 850.000 reais que lhe devia na Casa da Índia, para pagar a quinta e respectiva sisa. Faleceu solteiro, mas deixou uma filha natural, Filipa de Lemos, a quem deixou em testamento 40.000 reais para seu casamento. Alão põe a hipótese de esta Filipa ter casado com Vasco Fernandes Homem. Noutro lugar, Alão dá a este Fernão Gomes, a que chama Fernão Martins, duas filhas naturais, uma Filipa de Lemos, a que não dá marido, e outra Guiomar de Lemos que dá casada com Pedro Homem. O certo é que em 1504 testemunham um instrumento do conde de Tentúgal Filipa de Lemos e Nuno Homem, seus criados.

1.1.3.1.3.    Francisco de Lemos, escudeiro fidalgo da Casa Real e comendador de Samora Correia na Ordem de Santiago, que em 1525 teve mais 600 reais à moradia para despesa enquanto servir em Ormuz, devendo ser o homónimo que teve de D. João III tenças de 20.000 reais e três moios de trigo. Casou com D. Catarina de Ataíde, filha de João Mascarenhas e sua mulher D. Maria Ribeiro. Tiveram dois filhos, um, Jorge de Aguiar de Lemos, que em 1530 teve foro de escudeiro fidalgo da Casa de D. João III com 2.160 reais de moradia e morreu solteiro, e outro, Aires Gomes de Lemos, capitão de Negapatão (CFII, 2, 348v; e 7, 111v), que sucedeu na comenda e em 1595 e era fidalgo cavaleiro da Casa Real com 2.700 reais de moradia. Este é certamente o Aires de Lemos a quem o doutor Francisco Coelho escreveu a 24.12.1555 acerca dos interditos e excomunhões que vinham de Roma e sobre o prazo que tem o secretário do que se tratava em Roma. Casou a 1ª vez com D. Catarina de Noronha, s.g., e a 2ª vez com D. Maria Henriques, tendo deste matrimónio dois filhos: Francisco de Lemos, que morreu na Índia, s.g., e D. Guiomar Henriques, que casou com Luiz de Mendanha, seu primo-direito, pois era sobrinho da dita D. Maria Henriques, s.g. Este Luiz de Mendanha esteve preso por ordem de D. Filipe II, por apoiar a causa do prior do Crato.

1.1.3.1.4.    Simão de Lemos, fidalgo da Casa de D. Manuel I, que serviu em Safim e faleceu solteiro, s.g. É um dos quatro irmãos de António de Lemos que Martim Afonso de Souza diz terem morrido no serviço ao rei. A 20.6.1516 Simäo de Lemos, fidalgo da Casa Real, teve uma tença de 20.000 reais, que vagou por falecimento de seu pai Joäo Gomes de Lemos. E a 25 de Agosto seguinte teve provisão para receber a sua moradia na cidade de Safim, onde estava. Cidade onde ainda estava a 2.9.1517, quando aí teve provisão para receber a sua tença de 20.000 reais, que ainda recebia em 1521. Simão de Lemos e António Vaz a 6.8.1520 tiveram procuração de João Álvares de Moura para receberem por ele, dos seus corregimentos e esponsório, 13.000 reais do pagador das moradias e tenças.

1.1.3.1.5.    Jorge de Lemos, n. cerca de 1490, capitão da nau "Graça" na armada de seu irmão Duarte, com quem serviu na Índia. Faleceu solteiro, s.g. É um dos quatro irmãos de António de Lemos que Martim Afonso de Souza diz terem morrido no serviço ao rei. Não é, nem pode ser, o Jorge de Lemos, anterior, tronco dos Lemos Pereira, ditos dos Olivais, referido adiante.

1.1.3.1.6.    D. Filipa de Lemos, que casou com Luiz Mascarenhas, comendador de Garvão na Ordem de Santiago. Tiveram dois filhos: Álvaro Mascarenhas, que fal. solt. s.g., e Filipe Mascarenhas, que sucedeu na comenda de seu pai, serviu na Índia e parece que casou com D. Ana Freire, filha de Gomes Freire, e tiveram uma filha, D. Isabel Mascarenhas, que casou com Vasco de Souza Pacheco, capitão-mor de Pernambuco.

1.1.3.1.7.    António de Lemos, que teve de D. João III mercê da capitania de Goa e dizem que foi também capitão-mor de Ceilão. Esteve no socorro de Ormuz e na tomada de Soar. Faleceu solteiro, s.g. A 1.12.1543 Martim Afonso de Souza escreveu de Goa a D. João III pedindo para António de Lemos o governo de Cochim em sua vida, referindo os muitos serviços que este fez na Índia e em África e que quatros seus irmãos tinham sido mortos no serviço a el-rei. O próprio António de Lemos já a 11.11.1540 tinha escrito uma carta a D. João III, onde se queixa de não ter sido premiado pelos serviços de 24 anos feitos na Índia e da guerra com o Turco. Estaria portanto na Índia ou África desde 1516, teria 21 anos de idade.

1.1.3.2.     Diogo Gomes de Lemos, nascido cerca de 1446, fidalgo da Casa do príncipe D. João (futuro D. João II), a quem acompanhou na batalha de Toro, tendo-se aí notabilizado por ter recuperado a bandeira real que os castelhanos tinham conseguido arrancar ao célebre "Decepado". Por este feito fez-lhe o príncipe mercê de uma tença de 18.000 reais de prata, por carta de padrão passada em Toro a 7.3.1497, seis dias após a batalha, salientando-se no documento que "Dº gomez de Lemos fidallgo da nossa cassa que com nosco era na nossa batalha, a fez primcepalmente rrecobrar encontrando e derribando huu cavaleiro dos ditos Inimigos que a dita bamdª tinha". Como fidalgo da Casa do príncipe D. João, teve a 25.5.1476 uma outra tença de 18.000 reais. Alão, que lhe dá a alcunha de "o Froxo", diz que o mataram em Abrantes, sendo solteiro, sem geração.

1.1.3.3.     Gonçalo Gomes de Lemos, que em 1484 teve foro de cavaleiro fidalgo da Casa de D. João II com 1.200 reais de moradia. As genealogias dizem que foi clérigo, mas deve ser confusão com seu irmão Aires, que as ditas genealogias não conheciam. Este Gonçalo deve ter falecido novo, solteiro, sem geração.

1.1.3.4.     D. Mécia de Lemos, dama da rainha D. Joana de Castela, que foi violada pelo cardeal de Castela D. Pedro Gonçalves de Mendoza, com geração em Espanha nos príncipes de Melito, nos duques do Infantado e de Medina-Sidonia (de quem descende nomeadamente a rainha D.Luiza de Gusmão e por ela a dinastia de Bragança), etc., que depois casou com D. Cláudio de Quinhones, sem geração.

1.1.3.5.     D. Margarida de Lemos, camareira-mor da rainha D. Joana de Castela, que casou com D.Sancho de Córdova, senhor de Casa-Palma, filho dos 2ºs condes de Cabra, com geração em Espanha nos duques de Sessa, nos marqueses de Miranda de Anta, etc.

1.1.3.6.     D. Joana de Lemos, que nasceu cerca de 1450 e a 28.2.1482 teve uma tença de 36.000 reais, sendo referida como donzela da Excelente Senhora. Casou com Pedro de Souza Ribeiro, fal. antes de 1513, do Conselho de D. Manuel I, senhor e alcaide-mor de Pombal, etc., irmão do grande arcebispo de Braga D. Diogo de Souza e filho dos 3ºs senhores de Figueiró dos Vinhos e Pedrógão. Por escritura de 29.4.1475 feita em Figueiró, na sua torre, João Rodrigues de Vasconcellos, do Conselho, e sua mulher D. Branca da Silva instituíram um morgadio em que nomearam seu filho Pedro de Souza, de que tiveram confirmação real de 10.10.1476 A 24.4.1497 Pedro de Souza Ribeiro, fidalgo da Casa Real, teve confirmação de uma tença de 15 moios de pão, a pagar na vila de Soure, válida desde Janeiro de 1497, por mercê que tivera de D. Manuel, enquanto duque. A 10.5.1497 Pedro de Souza Ribeiro, fidalgo da Casa d'el rei, teve confirmação de que a sua quintã da Guarda e a feira da Moita Santa, perto do lugar de Rabaçal, eram coutadas, honradas, privilegiadas e guardadas. Outorga devida a petição do beneficiário que para o efeito apresentou a confirmação, inserida, de D. João II ao pai João Rodrigues Ribeiro, de 13.6.1486, a qual já confirmava a outorga inicial ao avô João Rodrigues de Vasconcelos por D. Afonso V, de 8.12.1476, também inserida. A 20.2.1498 Pedro de Souza Ribeiro, fidalgo da casa d'el rei, filho de Dona Branca da Silva e João Rodrigues Ribeiro, a quem el-rei fizera mercê, em suas vidas, dos casais de Ansião, com suas rendas e novidades, que por morte de Dona Branca os houvesse Pedro de Souza Ribeiro, seu filho, também em sua vida somente. A 8.10.1501 Pedro de Souza Ribeiro, do Conselho d'el rei, alcaide-mor da vila de Pombal, teve mercê de uma tença de 12.000 reais de prata, em respeito da perda que recebeu na avaliação das rendas que lhe dera na dita vila e em desconto de suas tenças. A 24.8.1500 D. Manuel I confirmou a Manuel de Góis, cavaleiro da Ordem de Cristo e comendador de Puços, o qual deixara, com aprazimento d'el rei, a Pedro de Souza Ribeiro, do Conselho d'el rei, 15.625 reais, com o hábito, assentados na vila de Pombal, e a renda das cavalarias da mesma vila, em preço de 18.940 reais, perfazendo ao todo 34.565 reais, contanto que el rei lhos desse e assentasse na sisa das carnes de Alcácer do Sal. E el-rei dera a Pedro de Souza Ribeiro outra carta das cavalarias somente, o qual as deixou por outros 18.940 reais, que tinha de tenças graciosas. E mandou ao almoxarife de Setúbal que, de Janeiro de 1501 em diante, pelo rendimento das ditas sisas de Alcácer, desse e pagasse a Manuel de Góis os ditos 34.565 reais, aos quarteis do ano. Todavia, como em Pombal o pagamento andava de S. João em S. João, no ano de 1501, somente lhe pagariam 17.280 reais. A 29.1.1499 Diogo Pereira, morador na vila de Pombal, criado de Pedro de Souza Ribeiro, teve mercê do ofício de recebedor das sisas da dita vila de Pombal e seu termo, assim e pela guisa que foi Duarte Borges que o dito ofício tinha e renunciou, através dum público instrumento feito e assinado por Luiz Godinho, tabelião, em a vila de Abiul, aos 26 de Setembro do ano passado de 1498. Já tinha falecido a 8.3.1513, quando Filipe Rodrigues, morador em Góis, criado que fora de Pedro de Sousa Ribeiro, teve confirmação de alvará do conde Dom Vasco Coutinho, capitão e governador de Arzila, que apresentou, no qual se continha que o fizera cavaleiro.

1.1.3.6.1.    João Rodrigues Ribeiro de Vasconcellos, deão da Sé de Coimbra, capelão de D. Manuel, abade de S. Mamede de Regalados (4.10.1509), etc. A 4.10.1509 D. Manuel deu carta de apresentação da igreja de São Mamede na terra de Regalados a João Rodrigues, seu capelão, filho de Pedro de Sousa Ribeiro, em lugar e vaga de João Lopes, já finado.

1.1.3.6.2.    Simão de Souza Ribeiro, nascido cerca de 1472, sucessor, senhor e alcaide-mor de Pombal, etc., do Conselho de D. João III (CJIII, 17, 99), teve deste rei confirmação do couto e honra da sua quintã da Guarda (ib, 32, 1) e vários padrões de juro. A 16.7.1501 Simão de Souza teve provisão para receber uma tença de 10.000 reais que devia haver de certas coroas de seu casamento. Casou com D. Catarina Henriques, com geração nos condes de Castelo Melhor.

1.1.3.6.3.    D. Maria da Silva, falecida cerca de 1524. A 13.11.1523 Leonel de Abreu declarou que recebeu do almoxarife de Ponte de Lima, Lopo Pereira, 121.600 reais do casamento com sua mulher D. Maria da Silva. Foi a 1ª mulher de Leonel de Abreu, 6º senhor de Regalados, fidalgo da Casa Real, cavaleiro e comendador de Regalados na Ordem de Cristo, fal. antes de 10.5.1548. Foi também senhor de Valadares e alcaide-mor de Lapela, que vendeu cerca de 8.11.1519, quando pede traslado do seu padrão de 141.400 reais de juro, que lhe passou D. Pedro de Menezes, marquês de Vila Real e conde de Valença, pelo castelo de Lapela e direitos de Valadares. Em 1509 o barão do Alvito mandou Braz da Costa pôr no livro das moradias verba em como o rei faz empréstimo de dinheiros a Leonel de Abreu e a Gaspar Mendes, que estavam servindo em Safim, e Leonel de Abreu, fidalgo da Casa Real, recebe do feitor de Safim 14.000 reais de empréstimo sobre sua moradia. A 3.7.1521 o rei mandou o prior do convento de Tomar lançar o hábito de Cristo a Leonel de Abreu, fidalgo da sua Casa. A 26.11.1511 Pedro Gomes de Abreu, fidalgo da Casa Real, passou procuração a seu filho Leonel de Abreu para cobrar sua tença de 15.000 reais cada ano, e a 13.1.1522 Leonel de Abreu recebeu do recebedor das sisas de Entre-Homem-e-Cavado 4.500 reais da tença de Pedro Gomes de Abreu. A 2.1.1522 Leonel de Abreu, fidalgo da Casa Real, fez escritura de doação a seu irmão António Abreu de 15.000 reais de pratas que tinha de tença e mais 5.000 reais nas suas rendas, por ano, enquanto estivesse vivo. A 10.6.1545 Lopo del Vito escreveu a D. João III pedindo licença para vir à corte requerer sua justiça na causa que trazia com Leonel de Abreu, sobre a comenda de que lhe tinha feito mercê. A 10.5.1548 o visconde de Ponte de Lima escreveu ao rei pedindo a comenda de Regalados para seu filho, que vagou por morte de Leonel de Abreu. Leonel de Abreu casou 2ª vez com D. Maria de Noronha, c.g. Do 1º casamento nasceu Pedro Gomes de Abreu, que morreu solteiro em combate no norte de África.

1.1.3.6.4.    Lopo de Souza Ribeiro, fidalgo da Casa Real e alcaide-mor de Tentúgal. A 4.5.1515 Lopo de Souza Ribeiro, fidalgo da Casa Real, teve provisão para receber 7.500 reais da sua moradia de escudeiro. Casou com D. Joana Couceiro, nascida cerca de 1511, irmã de D. Maria Couceiro, casada com o doutor Cristóvão Mendes de Carvalho (e Vasconcellos), do Conselho de D. João III, chanceler-mor da Casa do Cível, desembargador do Paço, morgado de Lamarosa, etc., ambas filhas de Pedro Couceiro, cavaleiro, senhor da quintã de Lamarosa (Tentúgal), e sua mulher D. Helena de Alvim, filha esta de Jorge de Eça e sua mulher D. Helena de Alvim e neta de João Fogaça e sua mulher D. Maria de Eça. C.g. nomeadamente na Casa da Trofa.

1.1.3.7.     Aires Gomes de Lemos, nascido cerca de 1450, referido como irmão de João Gomes de Lemos quando em 1486, nas notas de Diogo Barreto, tabelião de Aveiro, teve os prazo de Pedroso e do casal de Esmoriz, sendo testemunhas Fernão Cardoso e Rui de Magalhães (certamente o pai do navegador). A 20.3.1471 D. Afonso V doou a Aires Gomes, filho de Gomes Martins de Lemos, uma tença anual para seus estudos de 7.000 reais. Não é referido pelas genealogias, que no entanto falam num Gonçalo Gomes de Lemos, clérigo, referido acima, que não se documenta. Este Aires, como indicam os estudos, é que deve ter sido clérigo, e confundido nas genealogias com o Gonçalo, que certamente faleceu solteiro no reinado de D. João II.

1.1.3.8.     D. Leonor de Lemos, que nasceu cerca de 1452 ou 53, cujo parto, neste caso, provocou a morte da mãe. Sobre D. Leonor, que ainda vivia em 1527, há muita documentação, nomeadamente uma carta D. Manuel I de 30.3.1511 em que faz mercê a D. Leonor de Lemos, viúva de Fernando Pereira, de um tença 34.519 reais, a pagar no almoxarifado de Ponte de Lima, em satisfação de Penela, Vila Chã e Larim, e suas jurisdições, que lhe pertenciam e passaram para o duque de Bragança. A 11.10.1524 D. Leonor de Lemos, moradora no concelho de Vila Chã, terra do conde de Vimioso, faz uma procuração a seu filho Henrique Pereira para cobrar do almoxarife de Ponte de Lima o que se lhe dever de sua tença. Foi a 2ª mulher de Fernão Pereira, senhor de Castro Daire, já viúvo c.g. de D. Maria Ribeiro.

1.1.3.8.1.     Henrique Pereira, alcaide-mor de Arraiolos pelo duque de Bragança e senhor da quinta de Geja. A 23.2.1504 Henrique Pereira passou recibo ao almoxarife de Ponte de Lima de como recebeu 12.000 reais de um desembargo. A 10.5.1510 Henrique Pereira, fidalgo da Casa do duque de Bragança, voltou a ter provisão para receber a mesma tença, que recebeu em Ponte de Lima pelo menos até 1529, por vezes através de procurações que passou. A 10.8.1513 Henrique Pereira, fidalgo da Casa do duque, teve provisão para receber 23 arrobas e 18 arráteis de carne de vaca salgada para mantimento de vinte e nove homens, que levava na armada, por tempo de 1 mês. Casou duas vezes, a 1ª com D. Maior Pacheco, filha de Afonso Pires Alcoforado, com geração nos condes de Castro. Casou 2ª vez com D. Briolanja de Souza, filha de Diogo de Azevedo, s.g.

1.1.3.8.2.    D. Maria de Lemos, que casou com D. António de Lima, filho de D. Álvaro de Lima, monteiro-mor de D. Manuel, c.g. extinta. A 15.7.1535 D. António de Lima teve provisão para receber 15.000 reais de tença. 

1.1.3.8.3.    D. Vicência, freira em Vale de Pereiras.

1.1.4.   Beatriz Gomes de Lemos, nascida cerca de 1412. A 12.6.1443 D. Afonso V doou para sempre a Beatriz Gomes de Lemos, mulher do Doutor João do Sem, do seu Conselheiro, e a Gonçalo Nunes, escrivão dos livros do Infante D. João, todos os bens herdados por Leonor Gonçalves, por morte de Inês Pires, e os perdera por estar no testamento como sobrinha e não como filha. A 26.9.1445 o mesmo rei passou Beatriz Gomes de Lemos, mulher do Doutor João do Sem, carta de privilégio para que seus criados possam andar de mula de sela e freio por todo o treino. Casou em 1431 com o Doutor João do Sem, do Conselho de D. Afonso V e seu chanceler-mor, falecido em 1449, senhor do morgadio dos Sem (torre da Marca), senhor de Ribeira de Soaz e da terra de Sousa, senhor da lezíria do Martim (entre Almorol e a ribeira de Cardiga) e do Cazal (10.1.1434), etc. A 31.8.1439 D. Afonso V confirmou a doação ao Dr. João do Sem, do seu Conselho e chanceler-mor, do acrescentamento dos direitos da terra de Ribeira de Soaz, no termo da vila de Guimarães, como lhe doara D. Duarte a 5.8.1437. A 6.9.1449 D. Afonso V doou a João de Sousa, fidalgo da Casa do infante D. Henrique, a terra de Sousa, da comarca de Entre-Douro-e-Minho, com todas as rendas e direitos, a qual fora de João do Sem, que morrera.

1.1.4.1.     António do Sem, sucessor, nascido cerca de 1432 e falecido depois de 1502 e antes de 1517. A 1.4.1450 D. Afonso V doou a António do Sem, filho do Doutor João do Sem, a tença anual de 6.000 reais, para seu mantimento e estudos. A 18.3.1455 o mesmo rei privilegiou António do Sem, seu moço fidalgo, a pedido da rainha de Castela, doando-lhe uma tença anual de 44.000 reais em substituição do mantimento de estado que este havia. E a 25.11.1456 privilegiou António do Sem, fidalgo da sua Casa régia, para todos os seus caseiros e lavradores. A 24.8.1468 D. Afonso V doou a António do Sem, fidalgo da sua Casa, uma tença anual de 30.000 reais, pelos muitos serviços que tem prestado ao reino. E ainda vivia a 25.51502 quando António do Sem, fidalgo da Casa Real, teve mercê de uma tença de 30.647 reais. Mas já tinha falecido a 20.5.1517 quando sua viúva D. Filipa teve 8.000 reais de graça separada. Casou com D. Filipa de Souza, filha dos 1ºs senhores de Beringel e Sagres, c.g. nos condes de Lumiares

1.1.5.   D. Mécia Gomes de Lemos, que nasceu cerca de 1415 e já viúva teve de D. Afonso V a 24.3.1463 mercê das terras e casais de Álvaro e Golfar, no almoxarifado de Aveiro, com todas as suas rendas, direitos, foros, tributos, jurisdição, entradas, saídas e montes, nos termos que tinha Nuno Vasques de Castello-Branco, fidalgo da Casa Real e monteiro-mor, que a elas renunciou com outorga e prazimento de seu filho Lopo Vasques. D. Mécia recebeu de D. Duarte, por carta de 17.8.1436, o dote de 2.000 dobras de ouro para casar com João Álvares da Cunha, 4º senhor de Pombeiro da Beira, fidalgo da Casa do infante D. Henrique, recebendo depois o casal, por cartas de D. Afonso V de 4 e 5.2.1444, a confirmação do dote, acrescido da mercê de uma tença anual de 20.000 reais de prata.

1.1.5.1.     Artur da Cunha, 5º senhor de Pombeiro da Beira, nascido cerca de 1437 e falecido antes de 1497. Casou cerca de 1465 com D. Leonor de Souza, nascida em 1445/6, filha natural de Frei D. Gonçalo de Souza, comendador-mor da Ordem de Cristo e alferes-mor do infante D.Henrique. Destes foi filho sucessor João Álvares da Cunha, nascido cerca de 1467, fidalgo da Casa Real, que a 23.8.1497 teve confirmação de D. Manuel I das terras e casais de Álvaro e Golfar, no almoxarifado de Aveiro, com todas as suas rendas, direitos, foros, tributos e jurisdições. Este João Álvares da Cunha, fidalgo da Casa Real, ainda vivia a 18.5.1517 quando teve provisão para receber 60.000 reais de tença. Mas já tinha falecido a 30.9.1522 quando sua viúva e herdeiros passaram em Pombeiro passam procuração para Rui Pires poder arrecadar todas as suas dívidas em qualquer parte e dar as respectivas quitações. A 18.7.1527 D. João III deu provisão para o almoxarife de Coimbra dar aos herdeiros de João Álvares da Cunha 16.000 e 32.000 reais de tenças. C.g. nos condes de Pombeiro

1.1.5.2.     D. Isabel de Lemos, que morreu solteira.

1.1.6.   ?(N) Fernão Gonçalves de Lemos, nascido cerca de 1440, que era escudeiro quando a 22.7.1476 D. Afonso V o nomeou vitaliciamente coudel de Ferreira e Carapito. Pelas razões que adiante aponto, proponho-o filho bastardo tardio de Gomes Martins de Lemos, o Velho, e pai dos que seguem como seus filhos. O facto de usar o patronímico Gonçalves prejudica muito esta hipótese, mas não vejo outra alternativa. Contudo, casos há de filhos bastardos inicialmente não reconhecidos que usaram o patronímico materno, podendo ser esta a explicação.

1.1.6.1.     Duarte de Lemos, nascido cerca de 1479 e fal. depois de 1532, que se identifica como irmão de um Fernão Gonçalves e tio do comendador de Samora Correia. A expressão tio/sobrinho estendia-se então aos filhos dos primos co-irmãos (primos-direitos). O comendador de Samora Correia era Francisco de Lemos, referido atrás no nº 1.1.3.1.3., filho do 2º senhor da Trofa. Portanto, se este Duarte de Lemos fosse neto de Gomes Martins de Lemos, o Velho, era primo co-irmão do 2º senhor da Trofa, e assim "tio" de seu filho o comendador de Samora Correia Francisco de Lemos. Com efeito, a 13.9.1532 Duarte de Lemos escreveu a D. João III a seguinte carta: "Senhor. Este rebate nos desmalhou a todos. EU vim tomar porto a Çamora Corea que he comenda de meu sobrinho e porque as cousas senhor da india se arn ja agora de ir lymando lembro a Vosa Merce a pitição que tem de Fernam Gonçalvez meu irmão em que pede a Sua Alteza forteleza la pella primeira vagancia se vaga ao presente e em seu poder nam he e asi senhor que a parte que tem te se lha mande per desembargo e lhe mande dar la cobre polo peso em que faz merce a outras pessoas que elle tambem como elles o tem servido e merecydo esta isto agora tam desatado que se Vosa Merce aqi não vai como vy (?) e cousa que nos ha de servir tudo he desbaratado peço lhe por merce que faça que delle espero eu servirei no que me mandar muito mais que ser isto cousa minha porque he doen[te] d'oyt'anos da India com muitas feridas e perigos por elle pasados e mais irmão. Encomendo me senhor em Vosa Merce e o papel meu garde se e sirva se dele e de mim. Oije xiij dias de Setembro de Çamora Corea. Voso servo Duarte de Lemos". Este Duarte de Lemos é por vezes confundido com o 3º senhor da Trofa, seu homónimo e contemporâneo, portanto também seu "sobrinho". Assim, por exemplo, deve ser este e não do 3º senhor da Trofa que 1505 partiu para a Índia na armada do 1º vice-rei D. Francisco de Almeida. Bem assim como o Duarte de Lemos, capitão-mor das fortalezas e armadas de Sofala, que a 15.10.1519 mandou Gomes de Figueiredo, feitor e recebedor do dinheiro da armada, dar 700 reais aos mouros que trouxeram água aos navios.

1.1.6.2.     Fernão Gonçalves de Lemos, nascido cerca de 1480 e fal. depois de 1532, para quem seu irmão Duarte de Lemos pediu ao rei uma capitania na Índia, dizendo que já lá servira oito anos, como ficou dito. É o seu nome e patronímico que conduz à proposta de filiação no homónimo Fernão Gonçalves de Lemos.

1.2.   Beatriz de Lemos, que será uma das irmãs documentadas de Gomes Martins de Lemos, pois se sabe pela referida doação da mãe que este não teve irmãos mas que teve pelo menos duas irmãs. D. João I doou a 14.2.1397 a Beatriz de Lemos, sua criada, as rendas e direitos de três moinhos em Leiria.

1.3.    Maria de Lemos, nascida cerca de 1374, que seria a outra irmã. Casou com Estêvão Lopes de Sande. A 20.2.1513 teve carta de armas para Sande um Francisco de Sande, onde se diz que era filho mais velho de Fernão Lopes de Sande, neto de Lopo Fernandes de Sande, bisneto de Estêvão Lopes de Sande e trineto de Lopo Afonso de Sande, que viveu no no tempo de D. João I. Diz Gaio que o bisavô, Estêvão Lopes de Sande, casou com "Mónica de Oliveira ou D. Maria de Lemos filha de Giraldo Martins de Lemos". Estes foram portanto os pais de Lopo Fernandes de Sande (avô do armigerado), que terá nascido cerca de 1385. Seu filho Fernão Lopes terá assim nascido cerca de 1420, sendo provavelmente o Fernão Lopes de Sande, escudeiro da Casa Real e almoxarife do almoxarifado da Guarda, a quem a 25.4.1475 D. Afonso V doou a renda desta cidade, para além dos foros, que já tinha. O filho deste, Francisco, terá nascido cerca de 1455, tendo portanto cerca de 58 anos quando teve a carta de armas. Com estas balizas cronológicas é possível aceitar que Fernão Lopes, o almoxarife, seja irmão, como diz Gaio, de Nuno Fernandes de Sande e de Luiz Lopes de Sande, sendo aquele o Nuno Fernandes de Sande, cavaleiro da Casa do conde de Faro, a quem a 6.9.1475 D. Afonso V doou, a pedido do dito conde, o castelo de Ginota, perto da vila de Olivença, bem como todas as coisas que ao dito castelo pertencem. E o Luiz é o Luiz Lopes de Sande, cavaleiro, morador na vila de Estremoz, que a 29.4.1480 D. Afonso V confirmou nomeação no cargo de couteiro das terras da vila de Estremoz e seu termo. Gaio diz que Estêvão Lopes era irmão de um Pedro Lopes de Sande, sendo este pai de uma Isabel de Sande e avô de Fernão de Lemos. Desde logo, a cronologia não permite esta genealogia. Fernão de Lemos nasceu cerca de 1418 e casou, segundo Gaio, com Júlia Martins de Vilalobos, filha de Martim Vicente de Vilalobos, certamente o homónimo que a 2.2.1453 era juiz do rei em Moura e a 4 de Maio do mesmo ano, sendo referido como cavaleiro da Casa Real, foi nomeado por D. Afonso V para o cargo de juiz da vila de Serpa e seu termo, nos feitos crimes e cíveis e no regimento da relação. Foi depois corregedor na comarca e correição de Entre-Tejo-e-Odiana, cargo em que é substituído a 13.2.1456 por ter sido nomeado corregedor da correição da Beira. Fernão de Lemos era portanto uma geração anterior ao armoriado Francisco de Sande e, como ele, devia ser neto de Maria (Giraldes ou Martins) de Lemos, cujo nome usou. Possivelmente era filho do João Lopes de Lemos, escudeiro do infante D. Pedro, que a 1.1.1441 foi nomeado escrivão do almoxarifado da rainha D. Leonor e já tinha falecido a 4.8.1468 quando foi substituído no cargo de escrivão da câmara, dos órfãos, da gafaria e da almotaçaria, contador de todos os feitos, inquiridor, distribuidor perante os tabeliães, provedor e escrivão da casa e albergaria do Santo Espírito na vila de Óbidos. Sendo este João Lopes irmão de Lopo Fernandes, ambos portanto filhos de Maria de Lemos e Estêvão Lopes de Sande, este nascido cerca de 1363, pelo que seu avô Lopo Afonso de Sande podia ter nascido por volta de 1315, o que dificilmente o qualifica como do tempo de D. João I (nascido em 1357), embora, se morreu muito velho, ainda o possa ter alcançado como rei.

1.3.1.   Lopo Fernandes de Sande, que viveu em Estremoz e nasceu cerca de 1391.

1.3.1.1.     Fernão Lopes de Sande, nascido cerca de 1415, certamente o Fernão Lopes de Sande, escudeiro da Casa Real e almoxarife do almoxarifado da Guarda, a quem a 25.4.1475 D. Afonso V doou a renda desta cidade, para além dos foros, que já tinha. Casou com filha de Martim Vicente de Villalobos, já referido. Foi pai de Francisco de Sande, o que tirou carta de armas em 1513, escudeiro da casa d'el rei, morador na vila de Estremoz, que a 16.1.1502 foi juiz dos orfãos desta vila, e provavelmente do Rui de Sande, do Conselho de D. Manuel I (24.11.1500), que a 1.1.1491 foi alcaide-mor de Castelo Real e teve 30.000 reais de tença, e a 13.8.1491 foi alcaide-mor de Torres Vedras. De Francisco de Sande foi neto Francisco de Sande Vilalobos, que em 1576 pediu também carta de armas para Sande.

1.3.1.2.     Nuno Fernandes de Sande, nascido cerca de 1417, cavaleiro da Casa do conde de Faro, a quem a 6.9.1475 D. Afonso V doou, a pedido do dito conde, o castelo de Ginota, perto da vila de Olivença, bem como todas as coisas que ao dito castelo pertenciam.

1.3.1.3.     Luiz Lopes de Sande, nascido cerca de 1420, cavaleiro, morador na vila de Estremoz, a quem a 29.4.1480 D. Afonso V confirmou a nomeação no cargo de couteiro das terras da vila de Estremoz e seu termo. Devendo ainda ser o Luiz Lopes que foi procurar de Estremoz às Cortes de 1477 (Montemor-o-Novo). Deste foi filho Manuel de Sande, que Gaio diz que foi alferes-mor da Ordem de Cristo e capitão-general de Mazagão e que fez uma justificação de nobreza na vila de Estremoz em 1526. O certo é que Manuel de Sande se documenta como feitor na cidade de S. Jorge da Mina, entre 1516 e 1520, e a 10.8.1514, sendo cavaleiro da Casa Real, foi nomeado contador das obras, terças e resíduos, e provedor dos hospitais, capelas e albergarias, confrarias e órfãos nos almoxarifados de Portalegre e Estremoz, tirando os lugares de Evoramonte, Vimieiro, Cano, Sousel, Fronteira, Avis, Alandroal e Terena.

1.3.2.   João Lopes de Lemos, nascido cerca de 1387 e falecido em 1468. É o João Lopes de Lemos, escudeiro do infante D. Pedro, que a 1.1.1441 foi nomeado escrivão do almoxarifado da rainha D.Leonor e já tinha falecido a 4.8.1468 quando foi substituído no cargo de escrivão da câmara, dos órfãos, da gafaria e da almotaçaria, contador de todos os feitos, inquiridor, distribuidor perante os tabeliães, provedor e escrivão da casa e albergaria do Santo Espírito na vila de Óbidos. Foi também alcaide do castelo de Óbidos, certamente interino por D. João de Noronha, pois a 20.2.1444 o mesmo rei perdoou a justiça régia a João Lopes de Lemos, alcaide do castelo de Óbidos, culpado da fuga de uns presos, tendo pago 3.000 reais pratas. Tendo em conta o que diz Gaio, João Lopes de Lemos terá casado com sua prima-direita Isabel de Sande, filha de Pedro Lopes de Sande, comendador da Alcáçova de Elvas e de Noudel, e de sua mulher Luiza Mascarenhas. Este Pedro Lopes de Sande parece ser o Pedro ou Pero Madruga cujo filho natural (havido em Constança Esteves) Álvaro Pires de Sande foi legitimado por carta real de 25.8.1385.

1.3.2.1.     Pedro de Lemos, nascido cerca de 1413, que julgo filho de João Lopes. Terá estado na batalha de Alfarrobeira, pelo infante D. Pedro, pois a 24.7.1449 D. Afonso V doou ao secretário Rui Galvão a parte dos moinhos no rio de Leiria que pertenciam a Pedro de Lemos, com toda a sua renda e pertenças. Estes moinhos foram-lhe doados por D. Duarte em 1433, como se vê numa carta de D. Afonso V de 10.10.1452, na qual este rei confirmou a Isabel de Lemos, donzela da Casa da infanta D. Isabel, uma carta dada por seu pai, Pedro de Lemos, pela qual lhe dá autorização para construir uma casa de moinho junto dos outros seus moinhos. O apoio deste Pedro de Lemos ao infante D. Pedro também se deduz porque a 10.12.1450 D. Afonso V doou a Garcia Gonçalves, criado de Rui Mendes Cerveira e de D. Isabel, sua mulher, todos os bens móveis e de raiz de Álvaro Gonçalves, morador em Leiria, criado de Pedro de Lemos, que os perdera por ter estado na batalha de Alfarrobeira. Casou com Joana de França, que ainda vivia a 2.6.1472, data em que D. Afonso V perdoou a justiça régia pela fuga da prisão e concedeu carta de segurança a Pedro Anes, acusado por Joana de França, mulher de Pedro de Lemos, morador em Leiria, de casar com Maria Anes, criada desta, sem licença, e de a tirar de sua casa.

1.3.2.1.1.    ?Beatriz Lopes de Lemos, que consta na carta de armas do bisneto como Beatriz Lopes de Lemos de Sequeira, sem indicação do nome do marido. Tratando-se, na verdade, de um nome demasiado composto para o séc. XV, devia na verdade ter-se chamado apenas Beatriz Lopes de Lemos e ter casado com um Sequeira. D. Flamínio de Souza diz que um Pedro de Lemos de Faria foi filhado em 1530 por seu tio D. Álvaro da Costa. A 2.10.1575 teve carta de armas para Lemos e Faria um Pedro de Lemos de Faria e Sequeira, fidalgo da Casa Real, morador em Lisboa, onde se diz que teve as armas por parte de sua mãe Catarina de Lemos de Faria, de seus avós Pedro de Lemos de Sequeira e Maria de Faria e de seus bisavós Luiz Anes de Faria e Beatriz Lopes de Lemos de Sequeira. E mais não diz sobre a sua ascendência. Portanto, não se refere o pai de Pedro de Lemos de Faria e Sequeira, sendo que Pedro de Lemos de Sequeira e Maria de Faria são os seus avós maternos. Acresce, assim, que o bisavô Luiz Anes de Faria é o pai da avó materna Maria de Faria; e Beatriz Lopes de Lemos de Sequeira é a mãe do avô materno Pedro de Lemos de Sequeira. Não sendo cronologicamente possível que este Pedro de Lemos de Faria e Sequeira que teve a carta de armas em 1575 seja o Pedro de Lemos de Faria filhado em 1530 por seu tio D. Álvaro da Costa, de que fala D. Famínio, só podemos concluir que este Pedro seja um tio, irmão de sua mãe, talvez aquele que as genealogias dizem que casou com uma filha de Nicolau de Faria, já camareiro do rei em 1500 (vide o meu Ensaio sobre a origem dos Ferreira). Mas esta referência ao parentesco com D. Álvaro da Costa vem reforçar as hipóteses de reconstituição aqui desenvolvidas. Com efeito, neste esquema, o pai do filhado Pedro de Lemos de Faria era primo (da mesma geração) de D. Álvaro da Costa, tendo em comum uns trisavós. E nessa época o conceito/tratamento de tio/sobrinho era muito alargado, estendendo-se a primos com diferença de uma ou mais gerações.    

1.3.2.1.2.    Isabel de Lemos, nascida cerca de 1435, donzela da Casa da infanta D. Isabel quando a 10.10.1452 teve a autorização acima referida. A 8.7.1451 D. Afonso V privilegiou Isabel de Lemos, filha de Pedro de Lemos, isentando-a do pagamento dos dois pedidos para o casamento da infanta D. Leonor, assim como de qualquer outros pedidos e empréstimos régios.

1.3.2.1.3.    João de Lemos, que julgo filho de Pedro de Lemos. A 15.5.1473 D. Afonso V nomeou João de Lemos, escudeiro, morador na vila de Leiria, para o cargo de procurador do número da dita vila e seu termo, em substituição de Fernão Rodrigues Dantas, tabelião geral, que o perdera por não ser comprido o que tinha ficado estipulado nos capítulos de cortes da cidade de Évora.

1.3.2.2.     Joana de Lemos, nascida cerca de 1415, que julgo filha de João Lopes de Lemos. Casou com Rui Dias Cabral, cavaleiro da Casa Real e alcaide-mor de Veiros, falecido cerca de 1499. A 15.9.1454 D. Afonso V doou a Rui Dias Cabral, cavaleiro da sua Casa, e a sua mulher Joana de Lemos, a renda do serviço novo dos judeus de Fronteira, Borba e Vila Viçosa. A 20.4.1450 o mesmo rei doou a Rui Dias Cabral, cavaleiro da sua Casa, a administração da capela de Vasco Esteves, no mosteiro de S. Francisco de Estremoz, pertencente a Diogo Nunes de Abreu, cavaleiro do infante D. Fernando, que a perdera por se ter colocado ao lado de D. Pedro e ir para Castela. E a 13.9.1454 nomeou Rui Dias Cabral, cavaleiro da sua Casa, para o cargo de alcaide-mor de Veiros, com todas as suas rendas direitos e foros, como usufruía Artur Gonçalves.

1.3.2.2.1.    Isabel de Lemos, nascida cerca de 1435 e falecida depois de 1522. Estava viúva quando a 16.7.1480 D. Afonso V concedeu carta de privilégio a Isabel de Lemos, mulher que foi de João de Barros, cavaleiro da Casa Real e uchão-mor, isentando todos os seus caseiros, lavradores, amos, mordomos e apaniguados do direito de pousada. A 18.3.1482 teve mercê de administração da capela de Vasco Esteves, como tinha seu pai, e a 22.4.1482 autorização para ser coutada herdade em Estremoz. A 24.4.1499 D. Manuel I confirmou uma carta de D. João II de 20 dias antes, na qual confirma a Isabel de Lemos, filha de Rui Dias Cabral e Joana de Lemos, por morte de seu pai, a doação que D. Afonso V fez a seus pais dos direitos e serviço novo dos judeus de Estremoz, assim como andavam em renda com os de Evoramonte, Vimieiro e Veiros, em três vidas. Ainda vivia a 19.3.1501, data em que Isabel de Lemos, filha de Rui Dias Cabral e Joana de Lemos, teve uma tença de 10.000 reais em satisfação dos direitos que perdera do serviço novo dos judeus de Estremoz, Evoramonte, Vimieiro, Sousel e Veiros. Casou com João de Barros, cavaleiro da Casa Real e uchão-mor (já o era em 1468, provavelmente em sucessão a seu pai), falecido cerca de 24.8.1476, quando o rei doou a Gomes de Figueiredo o serviço velho e novo e direitos dos judeus de Fronteira, Borba e Vila Viçosa, como os tivera João de Barros, que morrera, e seu sogro, Rui Dias.

1.3.2.2.1.1.   Guiomar de Barros, nascida cerca de 1453, que casou com Duarte de Mello, fidalgo da Casa Real e alcaide-mor de Castelo de Vide, filho de Vasco Martins de Mello, fidalgo do Conselho e alcaide-mor de Castelo de Vide e Castelo Branco. A 6.2.1498 Duarte de Mello, fidalgo da Casa e alcaide-mor de Castelo de Vide, recebeu 14.200 reais de tença em satisfação da renda da judiaria da dita vila. A 23.1.1522 Duarte de Mello, alcaide-mor de Castelo de Vide, passou recibo em que declara que recebeu do almoxarife de Portalegre, Jorge Martins, 24.200 reais de sua tença e da de sua sogra Isabel de Lemos. A 15.3.1538 D. Filipa de Abreu teve provisão para receber 100.000 reais em cumprimento de 200 que tinha seu filho Duarte de Mello na comenda de Stª Mª de Castelo de Vide. C.g.

1.3.2.3.     Fernando de Lemos, nascido cerca de 1418, que ainda era alcaide-mor de Elvas em 1483. Deve ainda ser o Fernando de Lemos que a 29.3.1487 teve 20.000 reais de tença. E o Fernão de Lemos, de Lisboa, que em 1479 teve foro da cavaleiro fidalgo da Casa Real com 622 reais de moradia. Trata-se certamente do Fernão de Lemos que Alão diz que viveu em Portel, foi criado do infante D. Henrique e era primo-direito de João Gomes de Lemos. Na verdade era primo-direito do pai deste João Gomes. Diz ainda Alão que casou com Grimaneza da Silva (a), filha de Jorge Dias da Silva, e que tiveram dois filhos, Paulo e Pedro. E é ainda o Fernão de Lemos que Alão, sem lhe dar mulher, diz que viveu em Estremoz e foi pai de Isabel de Lemos. Julgo portanto tratar-se do mesmo Fernão de Lemos, morador em Portel e depois em Estremoz e Elvas. Que terá assim casado 2ª vez com a mulher que Gaio de atribui, Júlia Martins (ou Vicente) de Villalobos (b), filha de Martim Vicente de Villalobos, certamente o homónimo que a 2.2.1453 era juiz do rei em Moura e a 4 de Maio do mesmo ano, sendo referido como cavaleiro da Casa Real, foi nomeado por D. Afonso V para o cargo de juiz da vila de Serpa e seu termo, nos feitos crimes e cíveis e no regimento da relação. Foi depois corregedor na comarca e correição de Entre-Tejo-e-Odiana, cargo em que é substituído a 13.2.1456 por ter sido nomeado corregedor da correição da Beira. Gaio diz que este Martim Vicente de Villalobos foi juiz da cidade de Évora e "instituiu o Morgado de Fonte Boa em 1449, como se vê na sua sepultura que está em S. Francisco da cidade de Évora que tem as Armas de sua família e diz nela que é do muito nobre Cavaleiro Martim Vicente Juiz que foi da dita cidade".

1.3.2.3.1.    ?(a) (Antónia) de Lemos, nascida cerca de 1439, que proponho que tenha casado com Gaspar de Boaços, senhor da torre de Bera, no termo de Coimbra, filho de Luiz Pires de Boaços, cavaleiro fidalgo da Casa Real, que foi contador e requeredor da comarca do almoxarifado da Guarda e faleceu em 1452, pois a 18 de Junho deste ano D. Afonso V nomeou Cristóvão Gonçalves Lobo, escudeiro da sua Casa, para os cargos de contador e requeredor da comarca do almoxarifado da Guarda, em substituição de Luiz Pires de Boaços, que morrera.

1.3.2.3.1.1.   Antónia de Lemos, nascida cerca de 1460, dita filha de Gaspar de Boaços, senhor do solar e torre de Bera, em terras de Coimbra, e casada com Aires de Sequeira, de Marialva, na carta de armas (17.6.1545) de seu bisneto Pedro Anes Amado de Santarém Baracho e seus irmãos Lourenço Anes Amado, João Anes Amado, Simão Amado Baracho, Álvaro Anes de Santarém e Afonso Amado Baracho, sendo todos então ainda jovens. Desta Antónia de Lemos e seu marido foi filha Beatriz Anes de Lemos, natural de Marialva, que casou com Gonçalo Pires Amado Ferreira, e deste casal julgo que descendem também os Ferreira de Lemos, morgados do Tojal (Sátão), bem assim como os Lemos Galvão ou Galvão de Lemos.

1.3.2.3.1.2.   ?Luiz Pires de Boaços, que a 22.3.1503 e 16.3.1507 passou recibo ao Paço da Madeira dos 3.000 reais de tença que tinha por ano na folha do dito paço, em Lisboa.

1.3.2.3.1.3.   Gaspar de Boaços, dito irmão de António de Lemos quando seu filho Diogo do Quintal testemunhou a confirmação feita por seu tio António de Lemos, referido de seguida.

1.3.2.3.1.4.   António de Lemos, que a 4.9.1504, com confirmação real de 9 de Novembro, referido como filho de Gaspar de Boaços e neto de Luiz Pires de Boaços, cavaleiro da Casa Real, confirmou a doação feita por Filipa Vaz, viúva de Henrique de Lemos, que foi morador em Lisboa, seu filho, de todos os seus bens, nomeadamente uma quinta em Palma, junto a Alvalade, emprazada ao mosteiro de Odivelas pelo foro anual de 1.200 reais e dois capões, e vários bens móveis, ressalvando para si, em sua vida, o respectivo usufruto. Deve ser o António de Lemos que teve foro de escudeiro fidalgo da Casa Real (Ementas, 4, 65v) e foi escrivão das valas do campo da Golegã (ib, 12, 152). Deste deve ser filho o Francisco de Lemos, moço da câmara da D. João III com 406 reais de moradia e ¾ de cevada por dia, foro onde é dito filho de António de Lemos, certamente o Francisco de Lemos que foi escrivão das valas e tapadas da Golegã (Ementas, 7, 75) e possivelmente o homónimo medidor da Tojosa em Santarém (CJII, 30, 183) e escrivão dos varejos de ver o peso em Lisboa (ib, 16, 30). De António de Lemos também deve ser filho o António Pires de Lemos que era igualmente moço da câmara da D. João III com 406 reais de moradia e ¾ de cevada por dia, e antes tinha sido moço da câmara da rainha.

1.3.2.3.2.   (a) Paulo de Lemos, n. cerca de 1440, segundo Alão, que não lhe indica mulher e o diz pai do Álvaro de Lemos que segue. Mas eu julgo que este Paulo de Lemos foi também pai do Jorge de Lemos progenitor dos Lemos ditos dos Olivais e que casou ou teve os filhos em Maior Gonçalves, dita mãe de Jorge de Lemos quando a 16.8.1514 D. Manuel I mandou que Rui Leite, recebedor do tesouro, lhe pagasse 6.000 reais, produto de um cavalo que se comprou a seu filho em Manicongo.

1.3.2.3.2.1.   Álvaro de Lemos, n. cerca de 1461, que Alão diz ter vivido em Évora, casado Beatriz Correa, c.g., o que se confirma, pois este casal ainda vivia em 1544 quando fez uma venda em Évora, sendo testemunha seu filho Onofre de Lemos. É certamente o Álvaro de Lemos, cavaleiro da Casa Real, que a 6.9.1515 teve mercê do ofício de contador das terças do bispado de Évora, portanto o Álvaro de Lemos, fidalgo da Casa Real, que a 27.2.1516 teve uma tença de 12.000 reais em satisfação do ofício que tinha de contador das terças do bispado de Évora. E o Álvaro de Lemos, fidalgo da Casa Real, que a 10.9.1513, por estar prestes a servir com armas e bestas na guerra, teve carta de privilégio para seus caseiros, amos, mordomos e lavradores de suas quintas, terras e casais.

1.3.2.3.2.2.   Jorge de Lemos, n. cerca de 1462 e fal. em 1521, que certamente foi moço fidalgo da Casa Real, foro que todos os seus filhos tiveram. Viveu no termo de Santarém e teve um morgadio em Olivais (Lisboa). A sua filiação é desconhecida dos nobiliários, mas, como ficou dito, julgo que era filho de Paulo de Lemos e Maior Gonçalves. Casou cerca de 1484 com Genebra Pereira, que era sua viúva quando a 19.8.1522 teve carta de privilégio para os lavradores da sua quinta de Lima, no termo de Santarém (CJIII, 12, 99v). Como tem um bisneto chamado Manuel Pereira de Lacerda, Genebra Pereira devia ter esta ascendência. Gaio diz que o morgadio nos Olivais foi instituído em 1394 por um Martim Lourenço da Cunha, que nesta hipótese seria antepassado de Genebra Pereira, que também seria senhora da dita quinta de Lima. Em 1521 seus filhos aparecem todos com o foro de moços fidalgos com 1.000 reais de moradia, sendo Pedro o único referido como casado.

1.3.2.3.3.2.1.    Pedro de Lemos, sucessor, moço fidalgo da Casa Real, nascido cerca de 1485 e fal. em 1521, que casou em 1503 com Beatriz de Oliveira, filha legitimada por carta real (LN, 3, 226v) de Pedro Delgado, comendador de Fonte Arcada e da Granja do Ulmeiro na Ordem de Cristo e almoxarife dos armazéns e tercenas do reino (bem documentado como tal entre 1497 e 1513), e de Beatriz Vaz do Campo. A 23.12.1503, pelo notário Fernão Vaz, nos paços da rainha D. Leonor, Diogo Delgado, cavaleiro da Ordem de Cristo, dotou sua filha Beatriz de Oliveira, de 12 anos, para casar com Pedro de Lemos, filho Jorge de Lemos, com a sua quinta nos Olivais e 300.000 reais, quinta que é foreira do morgado do dito Jorge de Lemos e paga 3.000 reais de foro. A 22.3.1521 Beatriz de Oliveira, viúva de Pedro de Lemos, que foi moço fidalgo, e tutora de seus filhos, deu quitação de 1.000 reais dos corregimentos desponsórios. Diogo Delgado teve outros filhos, nomeadamente um João, também legitimado, um Sebastião de Oliveira, dito fidalgo da Casa d'el rei e filho de Diogo Delgado quando a 22.10.1513 teve uma tença de 20.000 reais que seu pai nele trespassou com licença do rei, e Catarina de Oliveira, dita filha de Diogo Delgado, cavaleiro da Casa Real, quando a 23.3.1498 teve confirmação de um instrumento de escambo passado em Lisboa, a 9.10.1495, pelo qual lhe foi aforado um olival, terra e oliveiras na freguesia de Stª Mª de Olivais, termo de Lisboa, com a obrigação de pagar 500 reais de foro anual ao hospital de Stª Mª de Rocamador, em troca de umas suas casas que aforou ao referido hospital por 1.100 reais pagos anualmente. Pedro de Lemos e sua mulher foi filho Diogo de Lemos Pereira, escudeiro fidalgo da Casa de D. João III, que embarcou na armada da Índia de 1538, recebendo 16.800 reais de soldo e moradia por 8 meses a 1.300 reais de moradia de escudeiro fidalgo, indo acrescentado cavaleiro com 1.625 reais. C.g. nos Lemos ditos dos Olivais, alguns dos quais usaram Pereira de Lacerda.

1.3.2.3.3.2.2.    Belchior de Lemos, escudeiro fidalgo da Casa de D. João III com 1.300 reais de moradia.

1.3.2.3.3.2.3.    João Pereira, que em 1521 era moço fidalgo da Casa Real com 1.000 reais de moradia.

1.3.2.3.3.2.4.    Duarte de Lemos, que em 1521 era moço fidalgo da Casa Real com 1.000 reais de moradia, depois acrescido escudeiro fidalgo da Casa de D. João III com 1.300 reais.

1.3.2.3.3.2.5.    Fernão Pereira, que em 1521 era moço fidalgo da Casa Real com 1.000 reais de moradia.

1.3.2.3.3.2.6.    Cristóvão de Lemos, que em 1521 era moço fidalgo da Casa Real com 1.000 reais de moradia.

1.3.2.3.3.2.7.    Jerónimo Pereira, que em 1521 era moço fidalgo da Casa Real com 1.000 reais de moradia.

1.3.2.3.3.  ?(a) Fernão de Lemos, de Lisboa, n. cerca de 1442, que em 1479 consta como moço fidalgo da Casa de D. Afonso V com 622 reais de moradia.

1.3.2.3.4.   (a) Henrique de Lemos, n. cerca de 1445, que só Gaio refere e diz ter casado, c.g. extinta. Deve ser o Henrique de Lemos que a 30.8.1487 teve carta de privilégio de fidalgo.

1.3.2.3.5.   (b) Pedro de Lemos, nascido cerca 1457 e falecido depois de 1531, dado por Alão como filho de Fernão de Lemos e Grimaneza da Silva mas que, pela cronologia, devia ser filho do 2º casamento dele com Júlia Martins de Vilalobos. Consta como capelão fidalgo da Casa D. Manuel I com 1.000 reais de moradia na lista de 1518, sendo capelão do rei pelo menos desde 1498. Foi depois capelão fidalgo da Casa de D. João III (confirmado a 1.2.1526). Foi cónego e chantre (18.11.1531 - G.XIX,5,13) da Sé de Lamego, abade de S. Martinho de Ranhados e visitador do convento de Stª Cruz de Coimbra por D. Manuel (1517). A 18.11.1531 renunciou ao cargo de chantre da Sé de Lamego, onde era cónego. A 10.7.1507 já era capelão do rei quando teve quitação de todo o dinheiro que recebeu das moradias e recebimentos do 1% das rendas da Guiné e Índias e dos quartos que os comendadores da Ordem de Cristo eram obrigados por bula papal. E em 1506 recebia uma tença de 78.000 reais, que lhe dera a rainha D. Leonor. A 11.2.1504 D. Manuel I mandou o almoxarife ou recebedor das sisas dos vinhos de Lisboa entregar a Pedro de Lemos, recebedor do um por cento, 10.766 reais e meio que tanto importou na renda por que andava arrendado o dito almoxarifado. A 13.11.1504 D. Manuel I mandou os almoxarifes da Alfândega e sisa dos vinhos de Lisboa entregarem a Pedro de Lemos o dinheiro que restar dos assentamentos. A 6.2.1505 o mesmo rei mandou o almoxarife da sisa dos panos da cidade de Lisboa pagar a Pedro de Lemos, recebedor do um por cento, a quantia de 40.000 reais. De 21.7.1509 ficaram uns apontamentos que fez Pedro de Lemos sobre o governo do Hospital Real de Todos-os-Santos, de todas as suas rendas, direitos e privilégios. A 26.9.1515 D. Manuel I deu provisão para Rui Leite, seu tesoureiro, pagar a Pedro de Lemos, seu capelão, 2.376 reais de sua vestiaria. E já a 3.11.1498 D. Manuel I confirmou a Pedro de Lemos, seu capelão, a mercê da igreja de S. Francisco de Ponte de Sor, no bispado da Guarda. Pedro de Lemos teve filhos naturais, muito provavelmente em Isabel Fernandes, solteira, moradora em Lisboa, que a 30.3.1496 teve perdão real por ter sido manceba de Pedro de Lemos, clérigo de missa, por querer viver honestamente daqui em diante, tendo pago 500 reais para a arca da piedade.

1.3.2.3.5.1.   Doutor Henrique de Lemos, nascido cerca 1490, doutorado pela UC, que depois de viúvo foi cónego da Sé de Viseu (bula do Papa Paulo IV de 2.10.1555) e parece que abade de Sever do Vouga e visitador do convento de Stª Cruz de Coimbra por D. João III. Instituiu em Viseu o morgadio de Moure por testamento de 10.10.1554, em que nomeou seu filho António de Lemos e a que vinculou a casa da Prebenda, de que foi 1º senhor, com sua capela de S. Sebastião, armoriada, nos claustros da Sé de Viseu. Casou cerca de 1519 com Ana Tavares, filha de Afonso Álvares de Sever. C.g. em Viseu nos morgados de Moure. [3]

1.3.2.3.5.2.   Fernão de Lemos, segundo Alão, que o diz sem geração. Deve ser o Fernando de Lemos que foi recebedor das sisas das vilas de Ranhados e outras (Ementas, 4, 174), procurador do número de Ranhados (CJIII, 58, 171), recebedor das sisas de Meda (ib, 69, 18) e teve carta de cavaleiro (ib, 44, 21).

1.3.2.3.5.3.   Frei Diogo de Lemos, segundo Alão. A 11.5.1515 Frei Diogo de Lemos, procurador do convento de Benfica, passou recibo onde consta receber do almoxarife da Portagem de Lisboa 644 reais, que se lhe davam cada ano para mostarda. A 8.11.1553 Frei Curado escreveu a D. João III queixando-se do bacharel Diogo Vaz e do ferimento que fizera ao padre Diogo de Lemos e Frei Afonso, padres do mosteiro de S. Domingos da cidade de Évora, e lhe mandava instrumento do caso e pedia a Sua Alteza o castigasse como merecia, fazendo-lhe os protestos necessários para que não houvesse efusão de sangue nem talhamento de membros.

1.3.2.3.5.4.   ?Joana de Lemos, que julgo filha de Pedro de Lemos. Foi mãe de Miguel de Lemos, da vila de Ranhados, que em 1588 teve carta de armas para Lemos, com uma brica de prata e sobre ela uma almofada verde, dizendo-se aí apenas que era filho de Joana de Lemos 

1.3.2.3.6.   (b) Afonso de Lemos, morador em Estremoz, que se documenta-se como pai do Diogo de Lemos que a 30.4.1490 teve carta de perdão de D. João II.

1.3.2.3.7.   (b) Isabel de Lemos, nascida cerca de 1462, que casou com Jorge da Mesquita [4] , nascido cerca de 1458, filho de Álvaro Martins da Mesquita, nascido cerca de 1436, que tirou ordens menores em Braga a 23.9.1452, e de Isabel Simões, natural do Algarve.

1.3.2.3.7.1.   Fernão de Lemos, segundo Alão, nascido cerca de 1480. Deve ser o Fernando de Lemos que a 18.6.1510 teve provisão para receber a sua tença de 20.000 reais e nove dias depois nomeia Duarte Lopes seu procurador para arrecadar 20.000 reais que tem de tença no ver o peso de Lisboa. Bem assim como o Fernando de Lemos, cavaleiro da Casa Real e couteiro de Sintra, que a 6.5.1526 teve mercê real de 30 cruzados, e o Fernão de Lemos que a 9.11.1534 a Câmara da cidade de Goa disse ao rei não ter suficiência para a mercê do ofício de escrivão da matrícula dos moradores daquela cidade. E talvez ainda o que D. João III nomeou escrivão da alfândega da Baía.

1.3.2.3.7.2.   António de Lemos, segundo Alão, que se distingue bem do seu homónimo contemporâneo, da Casa da Trofa, referido acima. Deve ser o António de Lemos, guarda-mor da porta da cidade de Goa, a quem a 24.2.1511 Afonso de Albuquerque mandou dar meio fardo de açúcar para seus mantimentos e a 22.8.1515 D. Manuel I fez mercê de 3.000 reais.

1.3.2.3.7.3.   Dois filhos que morreram na Índia, segundo Alão.

1.3.2.3.7.4.   Frei Gil, franciscano, segundo Alão.

1.3.2.3.7.5.   Duas filhas freiras, segundo Alão.

1.3.2.3.8.   (b) Nuno de Lemos, que Gaio diz ter sido fidalgo da Casa Real e a nona testemunha que jurou na justificação que fez na vila de Estremoz Manuel de Sande em 1528, como ficou dito acima, onde declara que é primo co-irmão do pai do justificante, e que casou com Joana de Moura, c.g. Destes poderá ser filho o Pedro de Lemos cujo filho Fernando de Lemos, natural de Estremoz, se matriculou em Cânones na Universidade de Coimbra em 1592, tirando o bacharelato a 31.10.1598.

1.3.2.3.9.   (b) Júlio de Lemos, segundo Gaio, c.g.

1.3.2.3.10.   ?(b) Filipe de Lemos, tesoureiro da capela da rainha D. Catarina, que a 9.8.1556 lhe faz mercê de uma tença de 10.000 reais.

1.4.   (N) Lourenço Martins de Lemos, nascido cerca de 1362, que Gaio dá como irmão de Gomes Martins de Lemos, mas que tinha de ser apenas meio-irmão e bastardo de Giral Martins de Lemos, uma vez que se documenta, como ficou dito, que Gomes Martins de Lemos só teve irmãs do casamento de seu pai. Este Lourenço Martins de Lemos terá vivido na cidade do Porto. Gaio acrescenta que casou com Ana Rodrigues Taborda, irmã de João Rodrigues Taborda, alcaide-mor de Guimarães pelo 1º duque de Bragança.

1.4.1.   Diogo Lourenço de Lemos, nascido cerca de 1387, que jaz na Sé do Porto junto de seu tio João Rodrigues Taborda. Gaio diz que casou com Isabel Fernandes, que diz irmã (pelo patronímico seria filha) de Fernão Anes Cavaleiro, irmão de Gomes Anes, comendatário do mosteiro de Refoios.

1.4.1.1.     Lopo Dias de Lemos, nascido cerca de 1417 e falecido depois de 1491, referido como, fidalgo da Casa Real quando a 22.2.1462 teve carta de privilegio para todos os seus caseiros, lavradores, amos e apaniguados na comarca e correição da Estremadura. Lopo Dias de Lemos, fidalgo da Casa Real, a quem D. Afonso V doou a 12 de Maio do mesmo ano os quartos dos reguengos de Carnaxide, que eram de seu primo (dele rei) D. Pedro, a quem deveria pagar 15.000 reais de prata. Lopo Dias de Lemos que teve nova carta de privilégio de fidalgo para seus caseiros a 1.12.1491, onde se diz que esteve na tomada de Tânger (1471). Gaio diz que instituiu um vínculo de que fez cabeça uma capela nos claustros da Sé de Braga, da invocação de Stº António, e umas casas na rua de S. João, e que morreu em 1532 e jaz na dita capela, e que pôs suas armas nas ditas casas de S. João. Acrescenta que casou com Isabel Jácome ou Melícia Gomes Jácome e foi pai de:

1.4.1.1.1.    Diogo Lopes de Lemos, que teve filhos naturais de Beatriz Godins, natural de Beja, filha de António Fernandes de Andrade, que depois de viúvo chantre da Sé de Braga.

1.4.1.1.2.    Lourenço de Lemos, que não terá nascido antes de 1450. As genealogias dizem que casou com Ana ou Joana de Faria, filha de Salvador de Faria. Mas este Salvador, segundo Gaio, era filho de João de Faria e neto de João Álvares de Faria, nascido este cerca de 1453, pelo que há aqui um anacronismo.    

1.4.1.2.     Gomes Anes de Lemos, capelão do duque de Bragança, que Gaio dá como irmão do Diogo Lourenço que leva por pai, mas que certamente seria filho deste, tendo assim o nome de seu tio materno Gomes Anes, comendatário do mosteiro de Refoios, sendo doutra forma inaceitável a onomástica. Talvez seja Gomes Anes, criado do duque de Bragança, que D. Afonso V nomeou a 15.10.1455 para o cargo de tabelião do cível e crime e inquiridor do número na vila de Guimarães e seu termo, e 16.8.1463 para o cargo de escrivão das sisas régias do julgado da Candosa, couto do bispado de Coimbra.  

1.4.1.3.     Manuel Dias de Lemos, sepultado na Sé do Porto.

1.4.1.4.    ?Pedro Dias de Lemos, falecido algum tempo antes 25.2.1494, data em que o filho do 2º conde de Abranches fez um contracto onde refere que tinha sido feito com seu pai um contracto com Pedro Dias de Lemos, o último possuidor do reguengo de Carnaxide.

1.4.1.5.    Lourenço de Lemos, nascido cerca de 1427. A 1.4.1455 D. Afonso V nomeou por 5 anos Afonso Anes Baião, escudeiro, seu vassalo e cidadão do Porto, para o cargo de coudel da dita cidade seus termos e julgados, em substituição de Lourenço de Lemos, que terminara o tempo de exercício do cargo. Lourenço de Lemos teria assim sido nomeado em 1450, teria cerca 23 anos, uma idade própria para este cargo. Gaio não o refere.

1.4.2.  ?Álvaro Martins de Lemos, nascido cerca de 1388, possível filho de Lourenço Martins e virtual pai dos que seguem. Terá casado e vivido na comarca do Vouga.

1.4.2.1.     ?Diogo Álvares de Lemos, nascido cerca de 1417, escudeiro e vassalo régio, morador em Recardães, que a 6.8.1450 D. Afonso V nomeou para o cargo de escrivão das obras dos julgados e lugares do arcediago do Vouga. Deve ser o Diogo de Lemos que em 1462 consta como cavaleiro fidalgo da Casa de D. Afonso V com 1.000 reais de moradia. E o Diogo de Lemos que em 1470 era almoxarife do armazém real de Lisboa. Deve ser este o Diogo de Lemos que casou com Beatriz Lopes de Serpa e que já tinha falecido a 18.3.1519 quando seu filho Diogo de Lemos teve no juízo dos órfãos de Lisboa direito à doação real de 1.000 coroas, por partilha da dita sua mãe. A 15.5.1521 Pedro Fernandes de Serpa, irmão da dita Beatriz, confirmou que Diogo de Lemos, cavaleiro da Casa Real, teve de D. Afonso V 1.000 coroas pelo seu casamento, e que enquanto não fossem pagas tinha por alvará de 4.3.1513 uma tença separada de 8.000 reais.

1.4.2.1.1.    ?João Álvares de Lemos, nascido cerca de 1442, que em 1471 se documenta alcaide-mor da vila de Sousel. Já tinha falecido a 3.1.1497, quando sua viúva Isabel Mendes de Vasconcellos teve mercê real de uma tença de 6.000 reais, que depois passou a Fernão de Alcáçova, cavaleiro da Casa Real, que dela obteve confirmação real a 16.6.1513.

1.4.2.1.1.1.   Diogo de Lemos, nascido cerca de 1465, escudeiro, criado de Nuno Martins da Silveira (referido acima, que nesta hipótese seria seu primo), que D. Manuel I a 5.6.1521 nomeou escrivão dos órfãos de arcediago do Vouga, como era Afonso Vaz, que morreu. E o Diogo de Lemos, criado de Nuno Martins da Silveira, que já a 10.3.1518 foi nomeado recebedor das sisas de Recardães e de Águeda, terras do conde de Faro, com o mantimento de 60 reais por milheiro até perfazer 3.000 reais para cada uma das terras. E o Diogo de Lemos que a 8.2.1520 teve mercê real de uma tença vitalícia de 20.000 reais pelos serviços que prestou à rainha. Casou com Genebra Pegado, dita mulher de Diogo de Lemos quando a 7.6.1524 passou procuração a seu filho Álvaro de Lemos para cobrar de Jorge de Oliveira os 10.000 reais de tença de seu filho Amaro Pegado. Devendo esta Genebra Pegado ser filha de um Lopo de Vargas, atendendo ao nome do filho referido adiante.

1.4.2.1.1.1.1.    Álvaro de Lemos, referido acima.

1.4.2.1.1.1.2.    Diogo de Lemos, prior do Prado e Recardães, segundo Alão.

1.4.2.1.1.1.3.    Nuno de Lemos, morador na Póvoa de Recardães, segundo Alão, onde poderia ter sucedido a seu tio homónimo como tabelião.

1.4.2.1.1.1.4.    Amaro Pegado (ou Amarante Pegado), já referido acima e dito filho de Diogo de Lemos quando a 16.3.1521 teve mercê de uma tença de 10.000 reais.

1.4.2.1.1.1.5.    Mécia de Lemos, nascida cerca de 1500, que casou cerca de 1518 com João de Figueiredo, que nasceu cerca de 1490 e foi senhor da quinta de Tonda, onde viveu, c.g. [5]

1.4.2.1.1.1.6.    Lopo de Vargas de Lemos, comendador das Requestadas e capitão de Safim, segundo Alão. Deve ser o Lopo de Vargas, cavaleiro da Casa Real, que a 26.7.1528 teve provisão para receber 21.600 reais de tença. Gaio diz que foi cavaleiro da Ordem de Cristo e fez testamento, no tabelião Gaspar Gomes, a 12.8.1557. Casou com Maria Dias Landim, c.g

1.4.2.1.2.    ?(…) de Lemos, nascida cerca de 1445, que teria casado com Afonso Vaz, escrivão dos órfãos do arcediago do Vouga, falecido antes de 5.6.1521, data em que lhe sucedeu Diogo de Lemos, adiante, nesta proposta seu sobrinho. A 13.8.1506 Afonso Vaz, morador em Águeda, sucedeu como escrivão das obras dos julgados e lugares do arcediago do Vouga a Nuno de Lemos, tabelião de Póvoa, termo de Recardães, que renunciou por instrumento público de 11.8.1506. Nesta hipótese, Nuno de Lemos seria seu cunhado. Julgo que eram pais de:

1.4.2.1.2.1.   ?João Vaz de Lemos, nascido cerca de 1462, contador do contos de Lisboa a 18.12.1490. A 30.6.1514 teve mercê do ofício de escrivão da Casa da Índia com 30.000 reais de mantimento e um escravo de preço maior, como tinha Lopo Mexia, que morreu. Talvez o João de Lemos que com Lopo Mexia foram confirmados a 18.8.1503 como escrivães da receita do 1% para as obras pias. De João Vaz de Lemos foram filhos Bernardo de Lemos e Jerónimo de Lemos, escudeiros fidalgos da Casa Real em 1530, e Gaspar de Lemos, moço da câmara da Casa Real no mesmo ano.

1.4.2.1.2.2.   ?Diogo de Lemos, escudeiro, que em 1496, 1502 e 1511 se documenta como escrivão do rei.

1.4.2.1.2.3.   ?Fradique de Lemos, que em 1521 era escrivão do rei.

1.4.2.1.3.    ?Jaime Álvares de Lemos, cujo criado Álvaro Colaço teve a 18.8.1500 mercê do ofício de recebedor das sisas de Sousel.

1.4.2.1.4.    ?Nuno de Lemos, escudeiro, morador em Recardães, terra de Nuno Martins da Silveira, quando a 28.4.1496 teve mercê de tabelião das notas do arcediago do Vouga, como até então tivera Diogo Barreto, que morreu. A 18.6.1503 teve mercê do ofício de escrivão da Câmara e dos órfãos do concelho de Recardães, onde vivia. A 11.8.1506 era tabelião de Póvoa, termo de Recardães, quando renunciou ao ofício de escrivão das obras dos julgados e lugares do arcediago do Vouga.

1.4.2.1.5.    Pedro Fernandes de Serpa, que a 15.5.1521 teve confirmação de uma tença, de acordo com um alvará que apresentou, segundo o qual foi concedida a Diogo de Lemos, fidalgo da Casa Real, uma tença, de acordo com outro alvará de D. Afonso V, que lhe despachou 1.000 coroas de seu casamento, pelas quais tinha uma tença separada de 8.000 reais por mercê de 4.3.1513. Pedro Fernandes diz que lhe couberam as 1.000 coroas em partilha legítima de Beatriz Lopes de Serpa sua mãe, mulher que foi de Diogo de Lemos, segundo uma certidão de António Martins, juiz dos órfãos em Lisboa, que as partilhas mandou fazer, feito por Vicente Gonçalves, escrivão dos inventários das ditas fazendas, a 18.3.1519.

1.4.2.2.     ?Rui Martins de Lemos, nascido cerca de 1418, que proponho filho de Álvaro Martins e virtual pai dos que seguem. A filiação deste Rui Martins também encontra algum suporte no que ficou dito acima sobre Beatriz Lopes de Lemos.

1.4.2.2.1.    ?Diogo Martins de Lemos, referido num perdão real de 10.11.1471 a um criado do conde de Faro, com quem tivera querela. Este documento encontra-se muito danificado, não sendo possível uma leitura correcta.

1.4.2.2.2.    Martim Rodrigues de Lemos, nascido cerca de 1441, que Alão diz ter vivido na Beira, onde casou, e com quem começa o título dos "Costas, com Dom", sem o filiar. Este casamento, com Isabel Gonçalves da Costa, ter-se-á realizado cerca de 1468. Alão não filia esta Isabel Gonçalves da Costa, que eu proponho filha de Gomes Gonçalves da Costa, senhor de Stª Eufémia da Matança (Gouveia), e neta de Gonçalo Fernandes de Gouveia e sua mulher Maria Anes da Costa, que refiro em "Ascendências Visienses". Vide o meu Ensaio sobre a origem dos Costa medievais.

1.4.2.2.2.1.   Andreza Rodrigues da Costa, segundo Alão, que a diz casada com Sebastião Nunes Frazão. A 13.3.1501 um Sebastião Nunes, escudeiro, teve mercê do ofício de escrivão da câmara e almotaçaria, contador dos feitos, distribuidor e inquiridor da vila de Castelo Branco, assim como até então fora Diogo Nunes, aí morador, que enviara renunciar em mãos d'el-rei, por Sebastião Nunes, como seu procurador, segundo instrumento feito em Lisboa a 8.3.1501, tendo a mercê sido concedida por pedido de Álvaro da Costa, cavaleiro da Casa d'el rei e seu guarda-roupa. Pode tratar-se do mesmo, que assim obteve a mercê por intermédio do sobrinho, tanto mais que as genealogias lhe dão um tio Diogo Nunes e Alão diz que Sebastião Nunes Frazão foi um homem nobre de Castelo Branco, acrescentando que foi cavaleiro da Ordem de Cristo e que, de sua mulher Andreza Rodrigues da Costa, teve dois filhos homens: Braz da Costa, prior de Geromelo, e Simão da Costa, que casou com Catarina da Costa, filha de Gaspar da Costa, deão da Sé do Porto, dos de Alpedrinha, sendo pais de Sebastião da Costa e de Bartolomeu da Costa, ambos tesoureiros-mores da Sé de Lisboa, tendo este nascido a 24.8.1553 em Castelo Branco e falecido a 27.3.1608 em Lisboa. Segundo algumas genealogias, aquele Sebastião Nunes Frazão seria bisneto de um Rui Frazão, alcaide-mor de Alcanede. A verdade é que a 26.7.1466 D. Afonso V perdoou a justiça régia a Afonso Vasques, morador em Alqueidão do Mato, termo de Alcanede, acusado de ter pecado na lei do casamento com Catarina Martins, mulher de Rui Frazão, alcaide (não diz mor) do dito lugar, tendo pago 1.500 reais para a Piedade, mediante o perdão das partes.

1.4.2.2.2.2.   D. Isabel Rodrigues da Costa, nascida cerca de 1470 e fal. viúva depois de 6.2.1514. Alão chama-lhe erradamente Mécia. Como D. Isabel Rodrigues, viúva de Pedro da Costa, fidalgo da Casa Real, a 11.10.1513, sendo então moradora na vila de Tomar, fez procuração a seu filho Gaspar da Costa em todas as suas coisas e especialmente em um concerto que faz com seus enteados. E a 6.2.1514 Isabel Rodrigues, dona viúva, mulher que foi de Pedro da Costa, passou recibo em como recebeu de Diogo Fernandes Cabral 3.150 reais dos 5.000 que lhe são devidos. Foi portanto 2ª mulher de Pedro da Costa Cabral, fidalgo da Casa Real, senhor da quinta de Ninho de Açor, já falecido em 1513. O único que documentei que pode ser identificado com este é o Pedro da Costa, cavaleiro da Casa d'el rei, que a 24.10.1507 teve de D. Manuel I quitação do trigo, especiarias, outras mercadorias nomeadas e dinheiro no montante de 951.810 reais, que recebeu e despendeu quando foi capitão no navio S. Simão, ao Castelo Real, em Berberia, no ano de 1506.

1.4.2.2.2.2.1.    Gaspar da Costa Cabral, cavaleiro fidalgo da Casa Real e de cota de armas (21.8.1552), foi capitão-mor dos fidalgos da Casa Real. Nasceu cerca de 1490,  viveu em Pedrógão (Coimbra) e em Lisboa e sucedeu na quinta de Ninho de Açor. A 15.2.1516 Gaspar da Costa, escudeiro da Casa Real, teve provisão para receber 6.500 reais de moradia  A 21.10.1540 D. João III mandou o recebedor das sisas de S. Vicente da Beira pagar a Gaspar da Costa tudo o que D. Álvaro da Costa (seu tio) tinha vencido dos 100.000 reais de tença, para este o dar a seus herdeiros. Como Gaspar da Costa Cabral, cavaleiro fidalgo da Casa Real, teve carta de armas para Cabral, Costa (2 e 3º quartéis, o que de facto corresponde ao facto de ambos os seus pais serem Costa) e Lemos, sem aí se referirem sequer o nome dos pais, dizendo apenas que descendia dos Cabral e Costa por parte de seu pai e dos Costa e Lemos por parte de sua mãe. Segundo a "Corografia Portuguesa", Gaspar da Costa Cabral casou com uma D. Maria Manso, acrescentando Gaio que era filha de António Manso. Alão e outros dizem que Gaspar da Costa casou com Joana Dias Manso, irmã de Pedro Dias Manso casado com Catarina Rodrigues Temudo, ambos filhos de um Diogo Manso que terá vivido no reinado de D. Afonso V. Mas este casamento é anacrónico, além de desigual. Há aqui certamente confusão e o Gaspar da Costa Cabral que terá casado Joana Dias Manso era seu possível avô paterno. Deste Gaspar, além do Pedro (casado com D.Isabel Rodrigues da Costa) deve ter sido também filho o Belchior da Costa Cabral que terá casado com sua prima-direita Mécia Manso Temudo (filha do antedito Pedro Dias Manso) e foram pais de Inez da Costa, que casou com seu primo Diogo Manso Temudo, que por sua vez foram pais do Belchior Manso Temudo que a 27.2.1577 teve carta de armas para Temudo e Costa, como diz Manso de Lima, referindo que esta carta de armas estava na posse de seu tetraneto o Dr. António Vellez da Costa. Na verdade, julgo que o Gaspar da Costa Cabral em epígrafe casou com uma D. Maria de Brito, filha de um António de Brito, sendo este muito provavelmente familiar de seu cunhado Estêvão de Brito, morgado de S. Lourenço de Lisboa e Stº Estêvão de Beja. Talvez mesmo o António de Brito, seu primo-direito, que se documenta como capitão-mor de S. Jorge da Mina e de Cochim no reinado de D. João III, e que Alão diz que faleceu solteiro na Índia, filho de Álvaro Nogueira de Brito e sua mulher D. Isabel Pacheco, e neto de Mem de Brito, morgado de S. Lourenço de Lisboa e Stº Estêvão de Beja, e de sua mulher D. Grimaneza de Mello.

1.4.2.2.2.2.1.1.   D. Mécia Rodrigues da Costa (de Brito), nascida cerca de 1530 e falecida em Tábua, onde viveu casada com António Afonso da Fonseca, juiz dos órfãos de Oliveira do Hospital, Lagos da Beira, Bobadela, Penalva e Vila Pouca, n. cerca 1525 em Ázere e sucessor na quinta da Barrosa, em Tábua, onde viveu, sendo "dos principais da terra por nela servirem de ouvidores e juízes ordinários e de muito honrada progenie", como se diz na IG de um neto. António Afonso da Fonseca era filho de Afonso Gonçalves de Figueiredo e sua mulher Agostinha Lourenço da Fonseca, como refiro nas "Ascendências Visienses", onde segue a descendência, nomeadamente nos Fonseca da Costa de Brito, de Oliveira do Conde, através de seu filho primogénito António (Afonso) da Costa, capitão-mor de Tábua e aí senhor da dita quinta da Barrosa, que depois foi juiz dos órfãos de Oliveira do Conde (CFII, 6, 45v), cargo em que sucedeu seu filho Manuel da Fonseca da Costa.

1.4.2.2.2.2.1.2.   D. Maria da Costa, que a "Corografia Portuguesa" diz casada com D. Francisco de Viveiros, fidalgo castelhano que veio para Portugal. Gaio diz que casou também com Fernão de Azevedo.

1.4.2.2.2.2.1.3.   Álvaro da Costa Cabral, sucessor, que casou com D. Maria de Souza, c.g., como se vê nos paroquiais de S. Vicente da Beira. As genealogias chamam-lhe Pedro da Costa Cabral e a ela D. Maria de Souza de Refoios.

1.4.2.2.2.2.1.4.   ?António de Brito, que em 1569 foi testemunha em Oliveira do Conde no testamento de Pedro Soares de Albergaria.

1.4.2.2.2.2.1.5.   Sebastião da Costa, segundo Gaio, que o diz casado mas s.g. Deve ser o Sebastião da Costa Cabral que D. Filipe II nomeou recebedor das sisas de Celorico da Beira (CFII, 32, 92).

1.4.2.2.2.2.1.6.   Manuel da Costa, o único que refere Alão, que diz ter vivido em Pedrógão Grande e casado com Helena Adrião de Souza, filha de Adrião Dias de Souza, c.g.

1.4.2.2.2.2.2.    D. Isabel da Costa, fal. depois de 9.10.1540, data em que fez um emprazamento em Odemira. Foi a 2ª mulher de Estêvão de Brito, morgado de S. Lourenço de Lisboa e Stº Estêvão de Beja, etc., c.g. nos viscondes de Vila Nova de Cerveira.

1.4.2.2.2.2.3.    António de Lemos, moço da câmara de D. João III com 400 reais de moradia, onde se diz ser sobrinho de D. Álvaro da Costa. É o António de Lemos, moço da câmara da Casa Real, que a 29.10.1527 teve provisão do mordomo da rainha para receber a sua moradia de 676 reais, que a 29.6.1529 era já de 810 reais e a 21.3.1530 de 1.218 reais, sempre como moço da câmara da Casa Real.

1.4.2.2.2.2.4.    Álvaro da Costa, moço da câmara de D. João III com 400 reais de moradia, onde se diz ser sobrinho de D. Álvaro da Costa.

1.4.2.2.2.2.5.    Pedro de Lemos, moço da câmara de D. João III com 400 reais de moradia, e depois cavaleiro com 900 reais, onde se diz ser sobrinho de D. Álvaro da Costa. Talvez o Pedro de Lemos que D. João III nomeou tesoureiro e feitor de Cochim.

1.4.2.2.2.2.6.    ?Sebastião da Costa, fal. sol. Talvez o Sebastião da Costa que D. João III nomeou escrivão das moradias do príncipe e a quem deu carta de privilégio de fidalgo, além de várias tenças. E o Sebastião da Costa que foi cavaleiro professo da Ordem de Cristo a 14.11.1564.

1.4.2.2.2.2.7.    ?Pedro Cabral da Costa, que parece ter sido cavaleiro da Casa Real e da Ordem de Cristo e casado com Margarida de Vide, filha de António Colaço. Estes dois últimos filhos, nomeadamente este Pedro, devem ser do 1º casamento de Pedro da Costa Cabral, portanto os documentados enteados de D. Isabel Rodrigues da Costa. É talvez o Pedro Cabral, criado do doutor Rui Boto, chanceler-mor, que a 7.2.1515 D. Manuel I nomeou tabelião do público e do judicial de Seia. E seguramente o Pedro Cabral da Costa que D. João III nomeou escrivão da Câmara de Coimbra, sendo ainda, talvez, o Pedro Cabral a quem este mesmo rei deu carta de cavaleiro da sua Casa.

1.4.2.2.2.3.   Mécia Rodrigues da Costa, nascida cerca de 1472, que segundo as genealogias já estava viúva em 1517, ano em que D. Manuel I lhe fez mercê da administração da capela na Igreja de Stº André de Pinhel que tivera seu marido Pedro Cocho. O que se confirma, pois a 4.9.1504 D. Manuel I fez a Pero Cocho, escudeiro na vila de S. Vicente da Beira, cunhado de Álvaro da Costa, cavaleiro da sua Casa, mercê da administração de uma capela instituída em Pinhel por Martim Guarda, Dinis Guarda e Maria Guarda, falecidos, tal como tinha seu irmão, Diogo Rodrigues do Cocho, escudeiro da sua Casa, falecido. Mercê concedida em virtude de um alvará feito em Lisboa a 1.3.1504, por Vicente Carneiro (CMI, 22, 21). É possível que destes seja filho o António da Costa, dito sobrinho de Álvaro da Costa (embora este Álvaro da Costa não seja identificado com o armador-mor, como devia), quando a 16.4.1521 foi nomeado juiz dos direitos reais da Covilhã, como até então fora Tomaz Tavares, que morrera (CMI, 39, 51v), cargo em que foi confirmado por D. João III (CJIII, 37, 105). Sendo que este António da Costa pode ainda ser o homónimo que D. João III nomeou juiz dos órfãos de Vila Pouca e Bobadela (CJIII, 46, 62), sendo aqui de chamar a atenção para o facto de vir a ter este cargo o António Afonso da Fonseca casado com D. Mécia Rodrigues da Costa (de Brito), referida acima, filha de Gaspar da Costa Cabral, proposto primo-direito deste António da Costa.

1.4.2.2.2.4.   Álvaro da Costa, nascido cerca de 1474 e falecido antes de 21.10.1540, que teve o título de Dom (entre 1520 e 1524), foi fidalgo do Conselho (1520), criado e feitor de D. Manuel I e depois seu guarda-roupa (pelo menos desde 1507), camareiro (1512) e armador-mor (1515), comendador de S. Vicente da Beira na Ordem de Cristo (1515), etc. Faleceu antes de 21.10.1540, data em que D. João III mandou o recebedor das sisas de S. Vicente da Beira pagar a Gaspar da Costa tudo o que D. Álvaro da Costa tinha vencido dos 100.000 reais de tença, para o dar a seus herdeiros. A 26.3.1507 D.Manuel I mandou que se entregue a Álvaro da Costa, seu guarda-roupa, certos côvados de cetim e chamalote para gastos do mesmo guarda-roupa. A 22.5.1512 o mesmo rei mandou que seus contadores levem em conta e despesa a Luiz de Góis de 14.000 reais por outros tantos que lhe deve Álvaro da Costa, seu camareiro. A 19.4.1513 mandou o feitor da Casa da Índia entregue a João Francisco o que cabia a Álvaro da Costa haver de 200 cruzados que Lourenço Moreno lhe levou para a Índia. A 30.4.1515 Álvaro da Costa, fidalgo da Casa Real, guarda-roupa e camareiro de D. Manuel I, teve provisão parta receber 20.000 reais de tença com o hábito. E a 30.4.1515 provisão para receber 35.000 reais, a saber: 20.000 reais graciosos e 15.000 reais com o cargo de armador-mor. A 11.7.1520 Álvaro da Costa, do Conselho do rei, seu camareiro e guarda roupa, teve provisão para receber 11 moios de trigo de suas tenças. A 10.2.1524 D. Isabel, filha de D. Álvaro da Costa, do Conselho de D. João III, teve provisão para receber 180.000 reais para ajuda de seu casamento. E a 26 de Junho do mesmo ano D. Álvaro da Costa teve provisão para receber 4.000 reais de graça separada. A 21.11.1524 D. Álvaro da Costa passou procuração a Sebastião Gonçalves para receber do recebedor das sisas das carnes de Lisboa 50.000 reais de tença; e bem assim para o mesmo receber do almoxarife da portagem e do ramo dos vinhos 50.000 reais, que seu filho D. Duarte ali tem assentados por carta geral. A 27.4.1525 D.Gil Eanes, procurador de D. Álvaro da Costa, seu pai, declarou que recebeu do almoxarife da Portagem de Lisboa, Vasco Gomes de Baltazar, 20.000 reais, à conta do que na dita portagem tem. A 14.7.1527 D. Álvaro da Costa deu poder a Álvaro do Tojal para por ele receber do almoxarife da portagem 50.000 reais de tença. A 20.2.1530 o cardeal-infante quitou a D. Beatriz de Paiva, mulher de D.Álvaro da Costa, a pensão e foro do seu Casal da Reboleira. Já tinha fal. a 21.10.1540 , quando D. João III mandou o recebedor das sisas de S. Vicente da Beira pagar a Gaspar da Costa tudo o que D. Álvaro da Costa tinha vencido dos 100.000 reais de tença, para este o dar a seus herdeiros, conforme ficou dito acima. A 31.8.1591 Francisco Barreto de Lima Pereira fez uma memória para o rei sobre o filhamento de D. Duarte da Costa, filho natural de D. Álvaro da Costa, e o aumento dos outros. D. Álvaro da Costa casou com D. Beatriz de Paiva, ama de leite de D. João III, irmã de Bartolomeu de Paiva, fidalgo do Conselho e vedor das obras do reino, que deve já ser o Bartolomeu de Paiva que a 30.7.1492 teve de D. João II a doação de um engenho na ilha da Madeira, e é o Bartolomeu de Paiva (vide o meu Ensaio sobre a origem dos Magalhães), amo e camareiro de D. João III e do seu Conselho, que a 18.7.1533  teve a seu favor uma sentença cível sobre a administração da capela instituída por Martim Anes Rebouça e sua mulher Margarida Tereja, na igreja de Stª Mª de Almonda, termo de Santarém, na acção que lhe foi movida por Simão de Faria, fidalgo da Casa Real. C.g., nomeadamente nos condes de Soure.

 

 

 

As origens

A Casa da Trofa inicia-se no século XV, por mercê de D. Afonso V de 1449, e diz a tradição genealógica que descende por varonia dos medievais senhores de Lemos, na Galiza, como ficou dito. O 1º senhor da Trofa, Gomes Martins de Lemos "o Moço", era o irmão mais novo de Fernão Gomes de Góis, fidalgo e camareiro-mor de D. João I, com quem esteve na tomada de Ceuta (1415), após o que aquele rei o armou cavaleiro, senhor de juro e herdade de Góis (Arganil) e de Oliveira de Currelos, depois dita do Conde (13.11.1433), onde jaz em magnífico túmulo de pedra ançã, com a sua estátua jacente, senhor de juro e herdade de Penalva e S. Gião (7.1.1431), etc., com geração nos condes de Sortelha e marqueses de Abrantes. Era ainda irmão de D. Afonso Gomes de Lemos, Dom prior da colegiada de Nossa Senhora da Oliveira (Guimarães), de Beatriz Gomes de Lemos, casada em 1431 com o Doutor João do Sem, do Conselho de Dom Afonso V, senhor do morgadio dos Sem (torre da Marca), etc., com geração nos condes de Lumiares, e de D. Mécia Gomes de Lemos, casada com João Álvares da Cunha, senhor de Pombeiro da Beira, fidalgo da Casa do infante D. Henrique, c.g. nos condes de Pombeiro.

Túmulo de Duarte de Lemos, 3º senhor da Trofa, com a sua estátua orante em tamanho natural, que Virgílio Correia considera "uma das obras mais belas e viris da nossa galeria de retratos plásticos".

 

Todos estes irmãos eram filhos de Gomes Martins de Lemos, "o Velho", senhor de Góis (assim é referido em 1396) e senhor de juro e herdade de Oliveira do Conde (15.1.1386), 1º morgado do Calhariz (27.12.1396), aio do infante herdeiro D. Afonso e fidalgo do Conselho de D. João I, a quem acompanhou a Ceuta (1415), comandando uma das sete grandes galeras, porventura a nau de S. Cristóvão que o rei lhe doou a 7.3.1416, conforme tudo mais pormenorizadamente ficou dito.

Gomes Martins de Lemos foi casado com Mécia Vasques de Góis, 12ª morgada de Góis por testamento de seu avô de 28.4.1389, e que por morte de seu marido foi confirmada 12ª senhora de Góis e seu termo (23.12.1433), senhora das quintãs de Oliveira de Currelos e da Louzã, da herdade da Barrada, no termo de Moura, e de Pedra Alçada com sua jurisdição (20.12.1433), etc., filha de Estêvão de Góis, falecido em vida de seu pai, e de sua mulher Leonor Gonçalves, e neta paterna sucessora do alcaide-mor de Lisboa Estevão Vasques de Góis, 10º senhor de Góis, e de sua mulher Constança Afonso.

Este Gomes Martins de Lemos era filho sucessor e único varão de Giral Martins de Lemos, que se documenta como escudeiro morador em Lisboa e já tinha falecido em 1396. conforme mais pormenorizadamente já ficou dito.


O senhorio da Trofa

A Trofa, hoje freguesia do concelho de Águeda, no distrito de Aveiro, é vila antiquíssima, já povoada no tempo das invasões romanas. No século XV, a Trofa era um lugar da paróquia do Salvador de Covelas, no concelho ou Terra do Vouga. Dom Afonso V devolveu-lhe então a secular categoria de vila e imediatamente a deu em senhorio. Dom Manuel deu-lhe foral novo a 20.3.1517. Dez anos depois, apura-se no Cadastro da População que tinha 40 fogos e incluía, para além de Covelas, as aldeias de Crestovães e Venda. Posteriormente veio a incluir as aldeias de Cheira, Mouriscas, Palhaça e S. Sebastião.

O senhorio da Trofa incluía ainda a terra de Álvaro, a vila de Pampilhosa, a terra de Jales e vila de Alfarela.

A terra de Álvaro, que na doação se diz que pertence à comarca da Covilhã, só pode corresponder à actual freguesia de Álvaro, no termo de Oleiros. Um alvará de D. Afonso V de 26.11.1456 manda que Câmara de Álvaro reconheça Gomes Martins de Lemos, como senhor da terra de Álvaro. E, por carta passada em Coimbra a 16.8.1472, Gomes Martins de Lemos é confirmado como senhor de juro e herdade da terra de Álvaro, com suas jurisdições. Esta terra de Álvaro é, assim, distinta da terra e casal de Álvaro e de Belfear, no almoxarifado de Aveiro, que a 24.3.1463 D. Afonso V doa a sua irmã D. Mécia Gomes de Lemos, já viúva do senhor de Pombeiro da Beira, com todas as suas rendas, direitos, foros, tributos, jurisdição, entradas, saídas e montes.

A terra de Jales correspondia a uma circunscrição administrativa medieval entre as terras de Aguiar, Montenegro e Panoias, e abrangia as actuais freguesias de Alfarela de Jales, Vreia de Jales e Terminas (do concelho de Vila Pouca de Aguiar) e Carva e Vilares (do concelho de Murça). A vila de Alfarela teve foral de Dom Dinis a 21.7.1304 e foral novo de Dom Manuel a 9.8.1514. Segundo informa o Padre Cardoso, no século XVIII o 9º senhor da Trofa recebia 13.500 réis dos direitos reais de Jales e Alfarela.

Dizem as genealogias tardias que Álvaro Gonçalves da Maia foi senhor da Trofa, mas na verdade foi apenas senhor da terra e lugar da Ponte de Almeara e seus casais de Castrovães, tudo no termo da Trofa, por compra ao cavaleiro Afonso Martins de Oliveira, com autorização de D. João I de 19.5.1421, confirmada por D. Duarte a 31.12.1434, documento este onde Álvaro Gonçalves da Maia é referido como cavaleiro e provedor "da nossa fazenda". E a este, também contra o que dizem as ditas genealogias, também não sucedeu seu filho Fernando Álvares da Maia, que se documenta ter estado em Alfarrobeira contra D. Afonso V, ficando preso, batalha onde seu pai deve ter morrido. O certo é que não há confirmação da dita terra e lugar da Ponte de Almeara e seus casais de Castrovães a este Fernando Álvares da Maia, e seu pai Álvaro Gonçalves da Maia se documente até pouco antes desta batalha. Logo após Alfarrobeira, o lugar da Ponte de Almeara e seus casais de Castrovães voltaram á coroa, sendo integrados na Trofa, que o rei passou então a vila, criando o senhorio que doou a Gomes Martins de Lemos, de facto o 1º senhor da Trofa.

 

A casa e o panteão

A Casa da Trofa sofreu um violento incêndio em meados do século XIX - já os senhores da Trofa viviam ora no seu palácio da Graça, em Lisboa, ora na sua casa no Porto -, que a destruiu quase por completo, ficando uma ruína que, com o passar dos anos, desapareceu totalmente. Sabe-se, no entanto, que era uma construção do século XV que se situava em ângulo recto à direita da igreja, que felizmente se salvou do incêndio. Segundo o testemunho de Marques Gomes, in Subsídios para a História de Aveiro, 1894, "quem, há quinze annos ainda, fosse à Trofa, encontrava junto à actual egreja parochial um enorme montão de ruínas, restos do antigo solar dos seus donatários. Hoje tudo desapareceu; a não ser a capella-mór da egreja, quase que nem uma única pedra attesta alli a existência do palacio dos Lemos, pois era, segundo parece, um verdadeiro palácio a habitação d'esta família. Alguns homens já velhos da freguesia, informaram-me que o edifício tinha vastos salões, quasi todos forrados até meias paredes de bellos azulejos. D'elles ainda pude obter alguns que conservo, pertencentes ao século XV como mostra a laçaria geométrica, imitando mosaico, o estrelado e as rosetas e bem assim as cores tradicionais, verde, castanho-claro, côr de vinho e os fundos brancos".

Com este incêndio desapareceu também boa parte arquivo documental da Casa, bem como a representação iconográfica dos senhores da Trofa posteriores ao 3º, já que deste e dos anteriores nos ficaram as imagens tumulares. Felizmente, parte do arquivo da Casa da Trofa chegou à sua última representante, a 1ª marquesa de Rio Maior, tendo portanto ficado nesta ilustre Casa, que em boa hora o mandou catalogar e o vai brevemente oferecer ao Arquivo Nacional da Torre do Tombo, sendo porventura então possível colmatar algumas lacunas deste estudo. 

Podemos, no entanto, concluir que a Casa da Trofa era um edifício apalaçado do século XV, portanto mandado edificar pelo 1º senhor da Trofa. Junto, em ângulo recto com a casa, existia uma capela ou pequena igreja, anterior, pois ao 1º senhor da Trofa foi dado também o padroado da Trofa aquando do doação do senhorio, o que implica a pré-existência de uma igreja, cujo padroado, aliás, foi a 3.10.1520 confirmado por D. Manuel I  a Duarte de Lemos. E esta não poderá ser a desaparecida matriz do Salvador de Covelas, uma vez que o padroado desta era do povo e só em meados do século XVI se fez a transferência da matriz justamente de Covelas para a Trofa, por oferta do seu possuidor Duarte de Lemos, que no entanto exigiu a manutenção do padroado para si. Esta mudança tinha sido recentemente feita a 19.9.1550, quando se reuniram em Crestovães o juiz ordinário Domingos Anes e o cura da Igreja de S. Salvador da Trofa Manuel Álvares, em nome do Prior António de Cabedo (provavelmente cunhado do 4º senhor da Trofa), para que o primeiro "fizesse tombo das propriedades e coisas que pertenciam à dita Igreja do Salvador, conforme a constituição do Senhor Bispo de Coimbra, e mandasse aí vir as pessoas que traziam os passais e as propriedades, o que pagavam à Igreja do Salvador, e por seu juramento declarassem o que pagavam".

A igreja da Trofa, tal como hoje se apresenta, deve assim ter sido construída nesta época, aproveitando para capela-mor a velha capela ou pequena igreja dos senhores da Trofa, que no mínimo era anterior a 1449 e onde Duarte de Lemos tinha, em 1534, mandado erguer o panteão da família, precioso documento da arte tumular portuguesa, classificado como monumento nacional. Uma análise cuidada à forma como este panteão se integra na capela-mor, revela claramente a adaptação feita em 1534. De resto, na estrutura anterior deveriam existir os túmulos dos 1º e 2º senhores da Trofa e respectivas mulheres, que Duarte de Lemos então trasladou para as novas sepulturas que mandou fazer. Deste conjunto ressalta o túmulo do próprio Duarte de Lemos, 3º senhor da Trofa, representado em estátua orante de tamanho natural, atribuída a Nicolau Chanterene ou a Udarte, que Virgílio Correia considera "uma das obras mais belas e viris da nossa galeria de retratos plásticos".


 


[1] Duarte Galvão (1435-1517), "Crónica do muy alto e esclaredido príncipe D. Afonso Henriques primeiro Rey de Portugal, Cap. XXIV, Como ElRey D. Affonso Anriques fazendo treguoa com hos Mouros de Santarem mandou làa D. Mem Moniz ha espiar ha Villa, e do Concelho q[ue] teve com hos seus para ir sobre ela".

[2] P1,C161

[3] Vide do autor "Ascendências Visienses. Ensaio genealógico sobre a nobreza de Viseu. Séculos XIV a XVII", Porto 2004

[4] Vide do autor "Ensaio sobre a origem dos Mesquita" (www.soveral.info/mas/Mesquita.htm)

[5] Vide do autor "Ascendências Visienses. Ensaio genealógico sobre a nobreza de Viseu. Séculos XIV a XVII", Porto 2004

 

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