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 Manuel Abranches de Soveral

 

 

 

«O prémio»

Pequeno conto publicado na rubrica «Gavetas do Tempo» do jornal «O Comércio do Porto»

- Quem, eu?

- O Senhor aí, exactamente: acaba de ganhar o primeiro prémio!

O homem estremeceu. Um prémio! Ele ganhara um primeiro prémio!! Por fracções de segundo a sua imaginação inundou-se de azul, um azul muito claro e brilhante; e, não sabia bem porquê, havia barcos e ilhas e alcatifas no azul, que uma luz de oiro, solar, tingia de verde aqui e ali, nos pontos mais recatados do sonho, onde um corpo indefinido e branquíssimo de mulher contrastava e atraía.

Olhou em volta. Sobre si convergiam múltiplos pares de olhos, alguns vazios e parados, outros a excederem-se das órbitas, como que num furor para se libertarem; mas todos, definitivamente, a recordarem-lhe que aqueles não eram os seus olhos, mas os olhos dos outros.

- O vencedor! Por favor, suba aqui ao estrado...

Os músculos não lhe obedeceram à primeira. Mas com tanta força repetiu a ordem mental que foi preciso segurá-lo para que não se estatelasse nos fundos indistintos do cenário, sob o riso alarve da plateia.

- Contente?

Não soube dizer nada. Sem querer, lembrou-se da mãe, lá na terra distante; do contorno conhecido da eira e da ramada; do seu quarto escuro e pequeno de criança; de um papagaio amarelo que usava soltar à ventania. Teria chorado, se na garganta que lhe prendia as palavras houvesse espaço para o que quer que fosse.

- Pois o bilhete que o senhor comprou, e que corresponde à cadeira em que se sentava, foi sorteado! Para si, uma magnífica máquina fotográfica! Uma salva de palmas para este senhor!... Agora o segundo prémio: o senhor aí...

O homem pouco mais ouviu. Com a máquina fotográfica na mão, tornou rapidamente à cadeira sorteada do seu eterno lugar na plateia. Onde, aliás, ninguém se deu ao trabalho de reparar que o azul de há instantes já não lhe iluminava mais o olhar perdedor.

 
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