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 Manuel Abranches de Soveral

 

 

 

«Os jogadores»


Pequeno conto publicado na rubrica «Gavetas do Tempo» do jornal «O Comércio do Porto»

- Passo!

- Pago para ver!

Com os olhos parados, num gesto lento, quase contido, o segundo parceiro estendeu as suas cartas, uma a uma, sobre o verde espraiado da mesa de jogo.

- Sequência de Ás...

- Poker de noves!

No terceiro jogador, por uns segundos, perpassou o frémito da vitória; para logo se extinguir num displicente «quem dá?», enquanto a sua mão buscava, silenciosa mas ostensivamente, as fichas coloridas que as apostas tinham amontoado ao centro da mesa.

No ambiente familiar e agradavelmente saturado pelo fumo e vapor dos whiskies, as cartas, baralhadas com mestria, cantaram pela vigésima vez; para logo o baralho quase se desfazer repartido pelos três.

Rei... Dama... Ás... Dama... Valete...

Depois de um breve segundo de hesitação, imperceptível, o terceiro jogador, fingindo dar pouca importância ao facto, avisou: - Não quero nenhuma.

Os parceiros ergueram simultaneamente os olhos, que enterraram no seu facies imperturbável, como que à espera que dele escapasse um sinal, uma denúncia de bluff.

- Duas para mim.

- Três.

Substituídas as cartas pedidas, iniciou-se a segunda rodada de apostas. Num esforço de desprendimento, o terceiro jogador, o último a apostar, sugeriu, esboçando um sorriso que propositadamente compôs com um ar de falsa provocação:

- Tudo ou nada?

 
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