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 Manuel Abranches de Soveral

 

 

 

«Massificação»


Pequeno conto publicado na rubrica «Gavetas do Tempo» do jornal «O Comércio do Porto»

O cesto de laranjas doiradas que ajudara a colher e vira crescerem nas árvores, tornarem-se adultas a cada raio de sol, era agora uma massa amarela e húmida, esmagada pela trituradora dos sumos engarrafados.

- Porquê, mãe, por que as mataram?!

Nem o cão, nem o pássaro, nem a mãe souberam responder ao seu grito soluçado, perdido na garganta e no calor de Verão que fazia.

Deviam ser cinquenta, as laranjas, todas iguais e todas diferentes; cada uma colhida por um acto que apenas a ela própria dizia respeito. E à laranja.

O cão e o pássaro abalaram, indiferentes, para outras bandas do laranjal. Só a criança ficou ali, parada e com os braços pendentes ao colo, numa recusa.

Uma laranja é uma laranja; e uma massa de laranjas não é nada! Porque é que o pai as lançara assim, todas elas tão bonitas, naquele poço que as esmagava para fazer sumo?

E nos olhos da criança, de novo, foi um frenesim de lágrimas; uma dor convulsa, um desespero a que a mãe acudiu.

- Porque choras?

- Porque sim...

- Mas não deves chorar!

- Porquê?

- Porque não...

 
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