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 Manuel Abranches de Soveral

 

 

 

«TV interactiva?»


in «Comunicação Gráfica», 1990

A televisão - que só pode ser entendida como um meio de comunicação de massas que utiliza a emissão de um sinal (analógico agora e digital no futuro) - é, por definição, o paradigma da comunicação não-interactiva.

E todo o sector gráfico tradicional, do livro ao jornal, tem-se vindo a aproveitar, melhor ou pior, justamente desta grande vantagem relativa que tem sobre o audiovisual. Mas, é claro, o multimédia consegue, quer sobre a televisão quer sobre o gráfico tradicional, a absoluta primazia da interactividade. O que em boa medida fará dele o principal meio de comunicação do futuro. Até porque o multimédia não é mais do que um produto de base gráfica (na medida em que é sobretudo concebido num plano bidimensional) que, aproveitando ao máximo a interactividade que é própria desse mesmo gráfico, vai buscar ao audiovisual o que ele tem de melhor.

E a televisão, por muito que lhe custe, não pode nunca fazer esta síntese sem deixar de ser televisão e passar a ser multimédia. Enquanto tal, a televisão é e será sempre não-interactiva, mesmo quando procura sofismar o problema. Porque interactividade, em Comunicação, não é prospecção do mercado ou subjugação aos índices de audiências, essa outra pecha televisiva, que resulta justamente do facto dela não ser interactiva.

Em Comunicação profissional ou de massas, interactividade é a capacidade de o receptor controlar o tempo e a sequência da mensagem. O emissor, portanto, põe à disposição do receptor um conjunto sinalizado e modular de conteúdos, deixando-lhe a possibilidade de escolher aqueles que lhe interessam, quando lhe interessam e como lhe interessam. Já na televisão, todo este controlo é feito pelo emissor. O que, justamente, a obriga a depender das audiências médias massificadas e cria um arquireceptor passivo, avesso a escolhas e gregário no sentido de que gosta de ver aquilo que a sua comunidade vê. O que coincide com o perfil tipo da faixa C: popular, acrítico, ignorante, emotivamente impressionável e crédulo.

E daqui já se intui a resposta à pergunta subjacente: a televisão tem futuro? Na verdade, a televisão terá futuro enquanto existir o seu receptor-tipo em número economicamente viável. O que parece não estar em causa, até porque é a própria televisão que em boa medida o ajuda a formar... Pelo que é possível prever que a televisão tenderá a ser cada vez mais popular e o povo cada vez mais televisivo, num círculo-vicioso infernal de consequências sociais e políticas imprevisíveis. Até porque não terá qualquer oposição, uma vez que os receptores mais evoluídos, das faixas A e B, tenderão a substituir a televisão pelo multimédia, onde poderão escolher o que querem ver e ler, e como e quando o querem fazer.

É evidente que a produção audiovisual, nomeadamente cinematográfica, terá de ser digitalizada para estar disponível em suporte multimédia. E os programas noticiosos serão produzidos para uma espécie de banco de dados onde o receptor escolherá, a cada momento, o que lhe interessa, a la carte. Tudo isto virá revolucionar a Comunicação profissional em geral e o Jornalismo em particular, de uma forma que não cabe agora aqui explicar, mas que, grosso modo, podemos identificar como uma crescente especialização das diversidades no binómio conteúdo-receptor.

Mesmo o fenómeno das televisões regionais - que aliás não sei se poderão chegar a este Portugal centralista -, não poderá escapar a esta lógica. Tem, no entanto, a vantagem de evitar o centralismo, que é em si muito negativo para todo o processo de libertação. Resumindo e concluindo: dentro de uma década, talvez, teremos dois tipos muito diferentes de receptores dos mass media. Um, mais popular, continuará a assistir passivamente a uma televisão cada vez mais feita à sua medida. Outro, mais evoluído, estará no multimédia, ou seja, terá um televisor ligado ao seu computador pessoal, que lhe dará acesso, na Internet ou noutra rede, a um banco de dados onde pode ir buscar, quando quiser, aquilo que lhe interessa, obviamente pagando, desde as últimas notícias nacionais ou internacionais, programas sobre os assuntos que gosta, o filme X ou Y, ou mesmo determinado livro, que depois pode ou não mandar imprimir na sua lazer caseira…

Também aqui se pode dizer que cada um terá o futuro que merece. É, finalmente, a liberdade na informação; mas uma liberdade que necessariamente pressupõe e exige um tipo diferente e mais evoluído de receptor.

Será, estou em crer e querer, a primeira grande revolução social do século XXI.

 
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