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 Manuel Abranches de Soveral

 

 

 

«No tempo em que os animais falam»


Pequeno conto publicado na revista «O Tripeiro» em Agosto de 1982

- V. Ex.ª dá licença?... O Asno reviu-se no grande espelho ao fundo; experimentou a reverência, profunda; ensaiou o sorriso amarelo. Convinha estar sempre atento, não deixar enferrujar a sua arma mais eficaz, essa chave que lhe abrira portas com que nunca sonhara. Susteve depois a respiração até às lágrimas, abriu muito os olhos assim humedecidos e deixou que se lhe estampasse no focinho aquele ar que sabia fazer de incomensurável devoção, de infinita lealdade. Perfeito!... Contudo, havia ainda um não sei quê de errado... Ah! As orelhas... Num supremo esforço de pose, alquebrou-as; humilhou-se. Agora, sim! Podia entrar...

A Raposa olhou-o, impaciente. Então que há, meu pedaço de Asno! Curvando-se um pouco mais, o burro anunciou-lhe que Sua Excelência estaria ali dentro de cinco minutos, o mais tardar. Bem! Bem! - volveu a raposa - o Lobo julga-se muito esperto em vir assim, sem avisar, mas não nos caça... Num ápice recolheu alguns papéis poisados na sua vasta secretária e guardou-os num cofre escondido atrás de uns coelhos pintados a óleo. Mal Sua Excelência chegue - acrescentou para o burro especado - corres junto do seu secretário, essa cavalgadura tua parente, para saber o que há. Se for preciso, oferece-lhe um lugar na Alfândega...

Mal o Asno saiu, a Raposa sentou-se, afivelou um ar atarefado, sacou duma caneta e iniciou a assinatura dum longo maço de despachos pendentes. Passados dois minutos o Asno anunciava: Sua Excelência o Lobo...

A Raposa desdobrou-se em espantos: Vossa Senhoria já chegou?! Não o esperava tão cedo... O Lobo não disse nada, rondou-lhe a secretária, olhou demoradamente os despachos, e só depois se dignou rosnar: Muito trabalho, hem?... O temível olhar amarelo-fogo de Sua Senhoria percorreu a Raposa, de alto a baixo. Depois o Lobo pareceu descontrair-se, por pouco não sorriu, indo por fim aninhar-se no mais amplo sofá.

A irmandade está a perder o controlo de demasiadas coisas - rosnou. Ao aperceber-se de que o Lobo, afinal, nada suspeitava sobre o golpe de Estado que preparava, a Raposa sossegou, aliviada. É - disse por dizer - a corrupção dana tudo... O Lobo saltou do sofá, os pêlos da nuca eriçados, um olhar assassino que gelou a Raposa. Depois caiu em si, conteve-se, disfarçou, voltou a aninhar-se. Mas a dúvida martelava-lhe o cérebro: Será que este estupor sabe de tudo?!...

O imperceptível aguçar de orelhas não chegou para denunciar a euforia da Raposa. Com que então - pensou - temos moiro na costa... Arquitectando imediatamente a cartada que agora podia jogar, apressou-se a mudar, aparentemente, de assunto. Sim, Vossa Senhoria tem toda a razão. A Irmandade está a perder poder. Mas ao contrário do que à primeira vista possa parecer, o perigo não vem da Colegiada. Apesar de oposição ao nosso Governo, eles fazem afinal parte do sistema. Não! Vossa Senhoria há-de concordar que o verdadeiro perigo está nos «outsiders»!...

Nos «outsiders»? - espantou-se o Lobo. A Raposa sorriu. A coisa estava-lhe a sair bem. Com sorte, ainda conseguiria virar o Lobo contra os únicos que afinal o poderiam defender, opondo-se ao golpe que preparava. Sim, nos «outsiders»! Vossa Senhoria repare na Águia e no Leão, por exemplo. Dizem-se nosso apoiantes e nós permitimo-lhes um poder e um prestígio que aumentam dia a dia. Mas eles não aceitam entrar para a Irmandade! Aproveitando-se dessa monomania da independência, exercem o poder segundo a sua consciência, como eles dizem. Vossa Senhoria, afinal, não os controla, porque eles não se sujeitam aos interesse da Irmandade.

O Lobo ouvia, atento. Humildemente, como se tivesse pejo de o dizer, a Raposa deu o golpe de misericórdia em todas as possíveis resistências: Ainda outro dia a Hiena se me veio queixar. Ela, há tanto tempo na Irmandade, tinha afinal de obedecer ao Leão que, não só não é dos nossos, como se atreve a dizer aos quatro ventos que acima de Vosso Senhoria está a Lei... O Lobo estremeceu, involuntariamente. A coisa estava a tornar-se perigosa. O estupor da Raposa tinha razão. Era preciso aparar as asas à Águia e cortar as garras ao Leão. Levantou-se e saiu. Da porta, sem se virar, rosnou: Manda-lhes uma ficha de inscrição! E avisa-os que, se não assinarem, saltam fora da carroça...

 
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