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 Manuel Abranches de Soveral

 

 

 

«Quiproquó» 

Pequeno conto publicado na rubrica «Gavetas do Tempo» do jornal «O Comércio do Porto»

O dragão, já só vagamente fumarento, expirava nos fundos insalubres da sua própria toca, cansado de viver. Até as pulgas, que costumava coçar com meiga benevolência, o tinham miseravelmente abandonado.

Fazia Abril na Primavera dos seus quarenta e oito anos. Uma idade provecta para quem, como ele, detestava banhar-se na fonte da eterna juventude e sujeitar-se a operações plásticas em clínicas inglesas.

E o seu desalento sentia-se no ar. Aqui e ali, nas muralhas devastadas da cidadela vagamente segura, alguns narizes assomavam inopinadamente por entre as ameias protectoras.

O perigo parecia menor. Rapidamente, os cavaleiros olearam as enferrujadas armaduras; hastearam os escassos pendões e as fartas caldeiras; arrancaram os mansos cavalos ao doce remanso dos estábulos. E irromperam de tudo quanto fosse lado, não sem deixarem bem acautelada a eventualidade de uma retirada repentina, a toque de caixa.

Mas o dragão moribundo, conquanto não fizesse já perigar qualquer donzela honesta, era ainda demais para os afoitos cavaleiros.

Amor com amor se paga - lembrou-se então um, que tinha fama de ser mais esperto do que os outros. E a estratégia foi entabular relações privilegiadas com um outro dragão, ainda não completamente senil, que tinha toca no estrangeiro e era tido como muito amável. Com o auxílio desta segunda besta, a vitória foi um mimo e o arraial dos festejos uma coisa mirabolante, nunca vista.

Só que o dragão amável era simultaneamente ambicioso e internacionalista. Conclusão: aproveitou a velha toca do parente vencido e estabeleceu nela filial para um sobrinho, que sempre sonhara, desde pequenino, vir a ser um dia dragão privativo num reino de pacóvios...

 
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