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 Manuel Abranches de Soveral

 

 

 

«Metamorfose»


Pequeno conto publicado na rubrica «Gavetas do Tempo» do jornal «O Comércio do Porto»

No horizonte onde costumava perfilar as suas inquietações mais pertinentes, uma névoa indistinta invadira o espaço e colocara no tempo um sinal perceptível a delimitar com rigor o passado, que lhe era anterior, e o futuro, que já não sabia forjar.

Nada mais era inteligível.

O trânsito normal do seu quotidiano escoava-se agora por exclusão de partes - os sinais de proibido, sentido único ou obrigatório, o corredor bus e o stop, traçavam de uma forma exacta, inexorável, um destino predestinado que parecia amável.

A organização perdurava já sobre todas as coisas.

E as silhuetas inquietantes que outrora retalhavam como lâminas a sua existência quase imberbe, mas poderosa e livre, perdiam-se cada vez mais na lonjura da névoa, só de quando em vez recordadas num grito vital que o seu bom senso, embora tentasse, não lograra ainda amordaçar por completo.

Mas quanto mais se lhe enevoava o espaço transparente perdido algures, mais clara e radiosa lhe parecia a manhã, tão cedo e já poluída, da sua exclusão de partes.

O amarelo anticéptico e anti-séptico do plástico dava em redor uma imagem em simultâneo lavada e colorida, que tão radiosamente contrastava com toda a restante série de cores que o labor da fábrica inventava num frenesim.

E o que separa, afinal, o real do aparente, a verdade do erro? Uma impressão tão ténue, tão da intuição, que apenas a convicção da sua juventude agigantara com imperatividade e ardor.

Bastaria um pequeno esforço contemporizador, e, num ápice, o aparente se transformaria na única realidade possível. Ah!, e como o erro é fácil, cómodo, pacífico...

 
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