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 Manuel Abranches de Soveral

 

 

 

«Giroflé?» 


Pequeno conto publicado na rubrica «Gavetas do Tempo» do jornal «O Comércio do Porto»

Sob a aragem fétida do fim de um Tempo, ele, português e optimista, usava colher cravos no jardim da Celeste. Não que fosse tão distraído ao ponto de se esquecer, depois, de lhes arrancar as pétalas, uma a uma, e as triturar gostosamente sob o cardado das botas...

De resto, o movimento, qual fosse ele, seria sempre para si extemporâneo; o que ele gostava era de deixar ao vento o labor fortuito de lhe talhar a esfinge. 

Meio do passado, meio do futuro, aprendera no tempo da gesta, e confirmara no computador, que acaso o Poeta viesse dizer ao mundo que tudo vale a pena se a alma não é pequena, quereria com isso significar, muito sacanamente, que sendo pequena a alma colectiva, já nada valeria realmente a pena. 

Prevenira até os conhecidos: - Serviço é serviço, conhaque é conhaque... Olhai que traço entre nós uma linha vertical e desprezarei qualquer que a ultrapasse! Não guardava era rancor. E nem reparava no sangue que lhe escorria pelas costas, das facadas. 

Certo fim de tarde descobriu o horizonte. E perguntou-se, abismado: - Mas que faço eu aqui no meio do caminho?! E durante uma hora fugaz teve noção da missão que trazia consigo; perdendo-a depois, languida e brejeiramente, no sono das coxas mais férteis. 

Mas era bom rapaz: outro dia pregara mesmo dois estalos numa criancinha, furibundo como estava com o chefe do Estado... Contudo, depressa abandonou esta objectividade neo-realista; pegou foi numa pressão-de-ar e abalou-se mas é aos pardais. Quixotescamente, porém, atirava-lhes em voo!

Comentava-lhe um cão vadio, que arranjara para a caça: Que raio de seca! Sempre há cada fábula... Tens razão, meu velho! - retorqui-lhe o optimista, atirando a espingarda às malvas - Giroflé? O cão disse que sim; e logo partiram ambos, desembestados, o bicho a cheirar os cravos do jardim da Celeste, ele a encher a tarde de canções. 

Giroflé, flé, flá!... 

Oh ai, oh linda!...

 
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