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 Manuel Abranches de Soveral

 

 

 

 A imaginação ao poder!

Como tantos outros casais, Pedro e Inez, sempre que o tempo o permitia, não dispensavam um passeio de bicicleta pelo jardim suspenso entre a Boavista e a Prelada. Tinham ambos nascido no Porto, por coincidência no mesmo dia de 2001, e só por isso sabiam que este tinha sido o ano em que a sua cidade fora capital da Cultura.

A pista não era só para bicicletas. Larga o suficiente, com alguns bancos laterais, aqui e ali, e bordejada por frondosas árvores e arbustos, acolhia pessoas que passeavam a pé, crianças que brincavam, muitos esquiadores de patins em linha e as omnipresentes trotinetes, com motor eléctrico ou não. Há cinco anos que era um lugar obrigatório não só para os portuenses mas também para muito do turismo que visitava a cidade, ansioso por ver os já celebres jardins suspensos do Porto.

A ideia fora excelente! Sendo o Porto, simultaneamente, uma cidade praticamente sem áreas livres e com poluentes atravessamentos rodoviários, a solução tinha sido curar um problema com o pêlo do outro... O troço da VCI entre a avenida da Boavista e a quinta da Prelada fora o primeiro jardim suspenso a ser construído. Obrigou à elevação, no cruzamento, da Via Marechal Carmona e da rua Central de Francos, esta em conjunto com a linha do Metro e respectiva estação, para acesso ao jardim. Depois, avançou-se com outro jardim suspenso sobre a VCI, mas para sul da avenida da Boavista, até próximo da ponte da Arrábida, onde se espraia num extenso e belíssimo miradouro sobre o rio Douro, com extensão ao Estádio Universitário e à Via Panorâmica. E começou agora a construção do jardim suspenso das Antas, que promete ser magnífico.

Na verdade, tanto ou mais do que o vinho, são agora famosos em todo o mundo os jardins suspensos do Porto. E algumas cidades europeias com as mesmas características estão já a seguir o nosso exemplo. Até porque se trata de uma solução fácil e relativamente económica. Afinal, o que se fez no Porto? Aproveitou-se a área da VCI, essa grande via de atravessamento da cidade, para construir em cima, sempre que possível, belos jardins suspensos, com vastos passeios. Quilómetros e quilómetros de jardins, doutra forma impossíveis. Com a vantagem de minimizar a poluição sonora e visual das intermináveis bichas de carros que a toda a hora entopem essa via estrutural.

Uma simples placa em U de betão armado, suspensa em colunas, foi o que bastou. A sua largura, um pouco superior à da VCI, foi suficiente para deixar ao centro um grande passeio público, ladeado por jardins em ligeiro declive, no topo dos quais, junto às bordas, onde a terra tinha mais de um metro de profundidade, foi plantado um correr de árvores e arbustos frondosos, a maior parte de folha perene, sobretudo para manter o verde todo o ano. As espécies, é claro, foram seleccionadas para se adequarem à circunstância. E sempre que isso era possível, os jardins suspensos alargavam-se, com maior ou menor declive, para jardins ou praças contíguas à VCI, com acontecia na Prelada e entre a rua de S. João Bosco e a avenida da Boavista. Era uma coisa bonita de se ver e sobretudo agradável de usufruir. A cidade do Porto mudara por completo a sua face cinzenta. O milhafre, que o velho Rui Veloso cantava, já não parecia tão ferido na asa.

Os próprios automobilistas aplaudiram o projecto. Até porque muitos deles, sempre que podiam, não dispensavam um passeio pelos jardins suspensos, agora a pé ou de bicicleta, no trajecto que poucas horas antes tinham feito de carro, num pára-arranca desesperante. Como a ventilação da VCI se fazia pelas laterais, o trajecto automóvel sob os jardins suspensos beneficiava afinal da cobertura contra a solheira ou a chuva. De resto, são já hoje poucos os carros movidos pelos velhos motores de combustão petrolífera. E os «pesados» já muito antes da construção dos jardins suspensos que tinham sido proibidos de circular na VCI.

Pedro e Inez, depois de um passeio a pé nos jardins da Prelada, retomaram as bicicletas e pedalaram calmamente de volta à Boavista. Cruzaram-se com o Diogo, que vinha numa trotinete eléctrica último modelo, das que agora muitos usam para, de jardim em jardim, irem para os empregos. Quando o tempo o permite e têm a sorte de viverem e trabalharem nos trajectos possíveis, são na verdade cada vez mais os que recorrem a esta solução alternativa.

Desceram em S. João Bosco, onde o jardim suspenso rematava num vasto espaço verde com um parque de estacionamento subterrâneo. Enquanto o Pedro entregava no primeiro piso as bicicletas aí alugadas, Inez descia ao quarto piso para buscar o carro. Um novo modelo, movido a electricidade! Só agora o tinham conseguido comprar, com a descida para um terço dos impostos pagos por este tipo de automóvel não poluente. Recém licenciados, recém empregados e recém casados, as suas possibilidades financeiras eram escassas. Ainda assim, o dinheiro tinha de chegar para irem jantar às novas grandes discotecas da praia da Luz, construídas sobre o mar, para lá das piscinas. Afinal, faziam nesse dia 23 anos de idade, e era a primeira vez que o festejavam já casados.

Porto, 2001

 
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